Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

17 de Dezembro

III DOMINGO DO ADVENTO – Ano B

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA cf. Filip 4, 4.5
Alegrai-vos sempre no Senhor.
Exultai de alegria: o Senhor está perto.
Não se diz o Glória.

ORAÇÃO COLECTA
Deus de infinita bondade, que vedes o vosso povo
esperar fielmente o Natal do Senhor,
fazei-nos chegar às solenidades da nossa salvação
e celebrá-las com renovada alegria.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Is 61, 1-2a.10-11
«Exulto de alegria no Senhor»

Leitura do Livro de Isaías
O espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu e me enviou a anunciar a boa nova aos pobres, a curar os corações atribulados, a proclamar a redenção aos cativos e a liberdade aos prisioneiros, a promulgar o ano da graça do Senhor. Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus, que me revestiu com as vestes da salvação e me envolveu num manto de justiça, como noivo que cinge a fronte com o diadema e a noiva que se adorna com as suas jóias. Como a terra faz brotar os germes e o jardim germinar as sementes, assim o Senhor Deus fará brotar a justiça e o louvor diante de todas as nações.
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Lc 1, 46-48.49-50.53-54 (R. Is 61, 10b)
Refrão: Exulto de alegria no Senhor. Repete-se
Ou: A minha alma exulta no Senhor. Repete-se

A minha alma glorifica o Senhor
e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador,
porque pôs os olhos na humildade da sua serva:
de hoje em diante me chamarão bem-aventurada
todas as gerações. Refrão

O Todo-poderoso fez em mim maravilhas:
Santo é o seu nome.
A sua misericórdia se estende de geração em geração
sobre aqueles que O temem. Refrão

Aos famintos encheu de bens
e aos ricos despediu-os de mãos vazias.
Acolheu a Israel, seu servo,
lembrado da sua misericórdia. Refrão

LEITURA II 1 Tes 5, 16-24
«Todo o vosso ser – espírito, alma e corpo –
se conserve para a vinda do Senhor»

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo
aos Tessalonicenses
Irmãos: Vivei sempre alegres, orai sem cessar, dai graças em todas as circunstâncias, pois é esta a vontade de Deus a vosso respeito em Cristo Jesus. Não apagueis o Espírito, não desprezeis os dons proféticos; mas avaliai tudo, conservando o que for bom. Afastai-vos de toda a espécie de mal. O Deus da paz vos santifique totalmente, para que todo o vosso ser – espírito, alma e corpo – se conserve irrepreensível para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. É fiel Aquele que vos chama e cumprirá as suas promessas.
Palavra do Senhor.

ALELUIA Is 61, 1 (cf. Lc 4, 18)
Refrão: Aleluia. Repete-se
O Espírito do Senhor está sobre mim:
enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres. Refrão

EVANGELHO Jo 1, 6-8.19-28
«No meio de vós está Alguém que não conheceis»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João. Veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz. Foi este o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram, de Jerusalém, sacerdotes e levitas, para lhe perguntarem: «Quem és tu?». Ele confessou a verdade e não negou; ele confessou: «Eu não sou o Messias». Eles perguntaram-lhe: «Então, quem és tu? És Elias?». «Não sou», respondeu ele. «És o Profeta?». Ele respondeu: «Não». Disseram-lhe então: «Quem és tu? Para podermos dar uma resposta àqueles que nos enviaram, que dizes de ti mesmo?». Ele declarou: «Eu sou a voz do que clama no deserto: ‘Endireitai o caminho do Senhor’, como disse o profeta Isaías». Entre os enviados havia fariseus que lhe perguntaram: «Então, porque baptizas, se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?». João respondeu-lhes: «Eu baptizo na água, mas no meio de vós está Alguém que não conheceis: Aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias». Tudo isto se passou em Betânia, além do Jordão, onde João estava a baptizar.
Palavra da salvação.

ORAÇÃO DOS FIEIS

Irmãs e irmãos: Elevemos para Jesus as nossas súplicas pelos que esperam a sua vinda gloriosa e também por aqueles que não têm esperança, dizendo (ou: cantando):

R. Vinde, Senhor, e salvai-nos. Ou: Ouvi-nos, Senhor. Ou: Vinde, Senhor Jesus.

1. Para que o Papa N., os bispos, presbíteros e diáconos e todos aqueles que anunciam o Evangelho, tenham a fé e a coragem de João Baptista, oremos.

2. Para que os fiéis, os catecúmenos e todos os homens, busquem a luz de Deus que brilha em Cristo e redescubram a novidade do Natal, oremos.

3. Para que o Espírito do Senhor, que tudo habita, faça exultar de alegria a terra inteira e encha o mundo de obras de paz e de justiça, oremos.

4. Para que os pobres, os doentes, os idosos, e aqueles que estão sozinhos e desanimados encontrem quem os ajude e reanime, oremos.

5. Para que o Deus da paz nos santifique totalmente, nos leve a afastarmo-nos de todo o mal e a viver em contínua acção de graças, oremos.

Senhor, nosso Deus, que enviastes o vosso Filho muito amado a curar os corações atribulados, fazei-nos anunciadores do Evangelho e testemunhas da sua luz esplendorosa. Por Cristo Senhor nosso.
ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Fazei, Senhor, que a oblação deste sacrifício
se renove sempre na vossa Igreja,
de modo que a celebração do mistério por Vós instituído
realize em nós plenamente a obra da salvação.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Prefácio do Advento I

ANTÍFONA DA COMUNHÃO cf. Is 35, 4
Dizei aos desanimados: Tende coragem e não temais.
Eis o nosso Deus que vem salvar-nos.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Concedei, Senhor, pela vossa bondade,
que este divino sacramento nos livre do pecado
e nos prepare para as festas que se aproximam.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

O Salvador: dos bons alegria e desconcerto dos ruins!

A alegria suscitada pelo iminente nascimento do Redentor é para todos, sem distinção, ou só para aqueles que abrem o coração ao seu amor transformante?

 

 

I – Alegria ante a iminente vinda do Salvador

A Igreja, sendo uma instituição divina fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a Cabeça deste Corpo Mís­tico, possui a própria sabedoria d’Ele e tudo faz com conta, peso e medida. Assim, ela dispõe dois domingos do ano que, em meio à penitência, trazem a alegria: o 3º Domingo do Advento, chamado Domingo Gaudete, e o 4º Domingo da Qua­resma, denominado Domingo Lætare.

O primeiro recebe este nome da palavra inicial da Antí­fona da entrada, extraída da Epístola de São Paulo, Apóstolo, aos Filipenses: “Gaudete in Domino semper: iterum dico, gaudete. Dominus enim prope est — Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos! O Senhor está perto” (4, 4-5).

A perspectiva do término diminui o sofrimento

A experiência de todos aqueles que convivem com pessoas atingidas por qualquer sofrimento, físico ou moral, compro­va que este se torna muito mais difícil de suportar pelo fato de elas não saberem quando será o seu término. Ao se receber a garantia de que a dor cessará em determinado momento, gran­de parte do tormento desaparece. Da mesma forma, sabe-se por estudos científicos que a alegria é causa do prolongamento de nossa existência e, pelo contrário, quando nos deixamos abater pela tristeza a vida se encurta.

Algo análogo se verifica na Liturgia deste Domingo Gau­dete — a mais significativa de todo o Advento —, cujo principal objetivo é dar a cada um a vigorosa esperança de que, por fim, nosso Redentor está prestes a nascer e ajudar-nos a compreen­der com maior profundidade o Vinde, Senhor Jesus!, repetido ao longo destas quatro semanas. Hoje transpomos o marco da ascensão penitencial e somos cumulados de alegria na perspec­tiva da vinda do Esperado de todas as Nações, que quase co­memoramos antecipadamente. Em vista disso, a Igreja celebra este domingo com júbilo, flores, instrumentos musicais e para­mentos róseos, implorando na Oração do Dia: “dai chegarmos às alegrias da salvação e celebrá-las sempre com intenso júbilo na solene Liturgia”.1

A voz que clama no deserto, contemplada no Evangelho de São João, pede que aplainemos “o caminho do Senhor”, mu­demos de mentalidade e nos enchamos do seu espírito. Mas a Igreja quer que o façamos em meio à alegria, pois saímos de uma situação ruim, melhoramos e o progresso só pode ser moti­vo de regozijo. São Tomás2 explica que a alegria é fruto do amor e, portanto, quem ama tem alegria. A caridade, por sua vez, leva a pessoa a ter um grande desejo de possuir aquilo que a enleva, e nós estamos na expectativa da vinda de alguém que é o Ser por excelência, o próprio Deus Encarnado, o nosso Redentor.

Resta saber se há alguma condição para se obter esta ale­gria, inseparável da vinda d’Ele, ou se ela se destina a todos, sem quaisquer exigências. A resposta nos é dada pelo Evangelho.

II – O contraste entre a alegria dos bons e o desconcerto dos maus

São João escreveu seu Evangelho na última década do século I, tempo já marcado pela presença de gnósti­cos, ebionitas e judaizantes na Igreja nascente, que tentaram deformar a focalização verdadeira a respeito do An­tigo Testamento e até mesmo a Revelação trazida por Nosso Senhor Jesus Cristo, sobretudo pela negação de sua persona­lidade divina. Embora procurassem mostrar-se cristãos, na realidade, queriam perverter os outros com suas ideias e fazer proselitismo do mal.

O Evangelista começa com muita lógica seu relato, por um prólogo no qual afirma de maneira categórica ― como alguém que conviveu com o Filho de Deus Encarnado ― que Nosso Senhor é inteiramente Homem e inteiramente Deus, e apresen­ta uma testemunha que confirma esta doutrina, com um argu­mento de autoridade.

O súbito surgimento de um profeta eliático

6 Surgiu um homem enviado por Deus; seu nome era João.

Esta testemunha é São João Batista. Em todo Israel da­quele tempo não havia homem com maior prestígio do que ele. Dotado de uma personalidade de peso, contra a qual ninguém era capaz de se levantar, era tido em grande conta, a ponto de não poder ser posto em dúvida. Assim, sua autoridade ratifica as ousadíssimas afirmações cristológicas feitas pelo Discípulo Amado, na abertura deste Evangelho. E, por isso, o Precursor já é citado ainda antes da conclusão do prólogo, no versículo 18.

“Surgiu” é um termo semelhante ao empregado pe­la Escritura na descrição do inopinado aparecimento de Elias (cf. Eclo 48, 1), dando ideia de que não se sabia quem era João, nem de onde vinha. O profeta surge de repente, suscitado por Deus, e o faz de forma sui generis. Veste-se de pele de camelo e se alimenta de gafanhotos e mel silvestre.

A súbita entrada em cena de São João Batista e a sua pre­gação fizeram dele uma figura convulsionante na sociedade judaica, que abalou o país de alto a baixo, mobilizou a popu­lação, produziu verdadeiro tremor nas consciências e suscitou perplexidade e interrogação no fundo das almas, a propósito de sua identidade. Inspirado pelo Espírito Santo, ele não foi exercer sua missão em Jerusalém, mas escolheu as margens do rio Jordão, onde a ascendência dos mestres da Lei, dos fariseus e das demais autoridades judaicas era menos efetiva, além de ser local de passagem das caravanas. E, permanecendo ali por longo tempo, seus ensinamentos foram se espalhando por toda a nação eleita.

Muitos teciam comentários a seu respeito, e logo circula­ram diferentes hipóteses sobre a figura do Precursor. Uns di­ziam que era o Messias, impressionados pelas qualidades deste homem de Deus; outros, baseando-se nas profecias que mencionavam a vol­ta de Elias, viam nele o grande profeta que tinha retorna­do de seu misterioso retiro; por fim, havia quem acredi­tasse ser o Profeta que haveria de vir (cf. Dt 18, 15).

Deus ama e institui as mediações

7 Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à Fé por meio dele. 8 Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz.

Nestes dois versículos, o Evangelis­ta sublinha que São João Batista não era a luz, e sim testemunha de um outro. Po­demos imaginar o Precursor como um ho­mem que vivia emocionado, à espera de quem ele anunciava.

Aqui vemos quanto a Providência ama o princípio de mediação e envia in­tercessores para orientar o povo no rumo das graças que Ela quer derramar. Ensi­na o Doutor Angélico: “Alguns homens são ordenados por Deus, de modo es­pecial; e não apenas dão testemunho de Deus naturalmente, pelo fato de existi­rem, mas também espiritualmente, por suas boas obras. Daí de­corre que todos os santos varões são testemunhas de Deus, pois por suas boas obras Deus Se faz glorioso entre os homens […]. No entanto, aqueles que não só participam dos próprios dons de Deus em si mesmos, agindo bem pela graça de Deus, mas os difundem a outros, falando, mobilizando e exortando, são mais especialmente testemunhas de Deus. […] João, então, veio ‘para dar testemunho’, para difundir junto a outros os dons de Deus e anunciar seu louvor”.3 Tais homens servem de instrumento e, em certo sentido, de pretexto para a comunicação dessas gra­ças, pois a Providência as concede em função do que eles dizem, fazem ou apontam. Para uns, de forma suficiente, para outros, superabundante; para uns, de forma cooperante, para outros, eficaz, mas a todos dá a graça através do mediador que Ela cons­titui, a fim de que as pessoas se convertam.

Insegurança entre as autoridades de Israel

19 Este foi o testemunho de João, quando os judeus enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntar: “Quem és tu?”

São João redigiu seu Evangelho com o objetivo, entre ou­tros, de contrapô-lo às calúnias e desvios dos chefes da sinagoga, inimigos da incipiente Religião Cristã. Por esta razão, nele esta­belece uma clara distinção entre Nosso Senhor e seus discípulos, de um lado, e os membros da classe dirigente de Israel, de outro lado. A estes ― e em particular os fariseus, neste versículo ― designa com o termo “judeus”.4

Jerusalém estava abalada. O burburinho popular em torno da pessoa de São João fez com que o Sinédrio — composto pe­las elites israelitas, sempre muito empenhadas em manter o con­trole sobre o establishment e não se descolar das suas respectivas bases na opinião pública da época — ficasse preocupado. Paira­va uma interrogação tremenda sobre aquele que estava pregan­do na outra margem do Jordão, num local onde controlá-lo ou prendê-lo para ser examinado no Templo não era tão fácil como seria na própria Cidade Santa.

Segundo o conceito deles, parecia evidente que se São João batizava, o fazia porque era o Messias, ou Elias ou o Pro­feta. A crença dos judeus em geral era que o Messias esperado abriria perspectivas grandiosas e traria a supremacia do povo judeu sobre todos os outros. Era possível que Ele viesse bati­zando, mas seria um batismo de glória e salvação meramente humanas. Elias, por sua vez, constituía uma figura ímpar entre todos os profetas e, enquanto tal, também tinha o direito de ba­tizar. O mesmo se diga do Profeta acima mencionado. Qual dos três era João? Assaltava-os um grande receio pelo fato de perso­nagem tão misterioso não ter passado pela escola deles. Então, a inteligência desses homens punha-se a campo para descobrir sua origem, seus objetivos, e o porquê daqueles gestos, daquela atitude e simbologia.

A pregação de São João se opunha aos desígnios do Sinédrio

Com efeito, a ideia que tinham do Messias não corres­pondia a São João Batista. Este “seguia uma via precisamente oposta. Afirmava que filhos de Abraão podiam surgir inclusive das pedras; não prometia domínios e supremacia; não portava nem invocava armas; não se ocupava de política; não fazia mi­lagres; era pobre e desnudo; mas, em compensação, toda a sua pregação se resumia numa admoestação moral”.5 Ele ensinava uma série de princípios que obrigavam quem o aceitasse como um enviado de Deus a mudar de vida. E isto era justamente o que não queriam os fariseus, cujas doutrinas se opunham às do Precursor. Contudo, pensavam eles, quiçá esta fosse apenas uma primeira fase de apresentação do Messias e, uma vez que ele adquirisse poder e influência política, com o domínio da opinião pública, se declarasse como eles desejavam. Era, por­tanto, vantajoso agir com diplomacia para que este homem fi­casse do lado deles.

Assim, resolve­ram expedir uma co­missão formada pelos mais capazes dentre os chefes religiosos israelitas, para saber ao certo quem ele era e decidir que atitu­de tomar. Por conse­guinte, precisavam de uma informação clara. Sem dúvida estavam inseguros, porque se a missão de São João fosse oficial, a fama deles ficaria compro­metida. Como expli­car, então, que não tivessem sido avisados de sua vinda nem o tivessem descoberto até aquele momento? Na verdade, eles de­viam ter noção de que já viviam no tempo do Messias, pois alguns anos antes, quando Herodes mandou perguntar aos príncipes dos sacerdotes e aos doutores da Lei onde Ele deveria nascer (cf. Mt 2, 3-6), foi-lhe dada a resposta correta, prova de que se aplicavam ao estudo e à interpretação das Escrituras, e este Esperado era tema de con­versas entre eles. E não é de todo impossível que o Espírito Santo ainda lhes tenha concedido luzes a respeito da proximidade do advento do Salvador.

Outro motivo que os levava a não menosprezar a figura de São João Batista era que, depois de séculos de ausência de profe­tismo, Israel sentia-se apetente de uma voz que se pronunciasse acerca do Messias futuro. O próprio Deus punha nas almas uma sofreguidão, dando a entender que sua vinda era iminente. Se os animais têm instintos inerrantes para pressentir certos fenô­menos da natureza, com maior razão existem na alma humana instintos que lhe permitem discernir o sobrenatural. É difícil de conjecturar que Nosso Senhor Jesus Cristo, estando no meio de­les, já com 30 anos de idade, não tenha sido anunciado por inú­meros sinais. Um Deus que Se encarna para viver em sociedade não causará nada na natureza? É evidente que a presença de um Homem que não possui personalidade humana, mas é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, e de sua Mãe, criatura sem peca­do original, deve ter exercido um vigoroso influxo sobre o povo eleito, suscitando ações, imponderáveis, insatisfações, anseios e suspenses que criavam uma expectativa crescente.

Ou controlar, ou destruir…

O clima reinante no Jordão era acirrado devido ao entre­choque do poder constituído, em toda a sua força, com um ho­mem que havia aparecido abruptamente. Não nos esqueçamos de que um ato sobrenatural feito com toda fé e compenetração tem três alcances: um é a alegria no Céu; outro, o tremor no inferno; e também repercute na Terra, onde as almas boas se sentem fortalecidas, os medíocres se tornam mais confusos e nos ruins cresce a amargura, a aflição, a insegurança. Este último era o efeito provocado no Sinédrio por São João Batista. Nicodemos e José de Arimateia deveriam experimentar maior apetência pa­ra o bem do que antes, mas a cúpula estava, havia algum tempo, temerosa, inquieta e agitada, mais ou menos como alguém que está com as mãos elevadas para impressionar o público, quando nota um outro revistando seu bolso para lhe tirar o dinheiro. Fi­ca sem saber como agir, porque quereria pôr as mãos no bolso e não pode fazê-lo pelo medo do ridículo.

Como homens perversos que eram os membros do Siné­drio, se João fosse o Messias, Elias ou um profeta, talvez apa­rentassem aceitá-lo para tentar entrar em confabulação com ele. Planejariam um modo de trazê-lo para si, a fim de dominá-lo e evitar que tomasse atitudes opostas aos seus interesses. Se não o conseguissem, moveriam uma guerra contra ele, procurariam silenciá-lo ou até matá-lo, como seus pais haviam feito a muitos profetas ao longo dos séculos e, dentro de alguns anos, eles pró­prios haveriam de fazer a Jesus. Ninguém sabe se a posterior prisão de São João Batista, ordenada por Herodes, não terá sido articulada por mãos ocultas…

Meticulosamente restituidor

20 João confessou e não negou. Confessou: “Eu não sou o Messias”.

Este encontro, entre a delegação dos representantes da Religião verdadeira e São João Batista, proporcionava a este úl­timo a possibilidade de afirmar de forma oficial o que não havia dito de maneira tão clara até então.

Ao narrar o testemunho do Precursor, o Evangelista in­tencionalmente usa dois verbos: “confessou e não negou”, um afirmativo e outro negativo. Apenas um seria suficiente, mas ele quis ressaltar que houve uma confissão, ou seja, uma declaração solene, uma manifestação da sua fé, e, ao mesmo tempo, São João “não negou a verdade porque disse que não era o Cristo; de outra forma teria negado a verdade […]. Não negou a verda­de porque, por maior que fosse considerado, não se entregou à soberba usurpando para si a honra alheia”.6

É comum vermos no decorrer da História que o homem, posto diante de dois valores espirituais, um maior e outro menor, tende a preferir o inferior. Por exemplo, quando Gedeão venceu os 135 mil madianitas com apenas 300 homens (cf. Jz 7–8, 12), os hebreus lhe ofereceram os adornos de ouro obtidos como despo­jos da batalha, e Gedeão fez com eles um riquíssimo efod, que ex­pôs em Efra, sua cidade. Pois bem, pouco tempo depois os judeus caíram na idolatria, adorando este objeto (cf. Jz 8, 24-27). É a lei da gravidade espiritual. Por isso, antes mesmo de ser inquirido explicitamente so­bre a sua missão, São João exclui por completo a ideia de ser o Messias. De fato, todo aquele que é enviado para anunciar alguém que lhe é superior tem verdadeiro pânico — posto por Deus e fruto da honestidade de alma — de que o tomem por es­se que anuncia. “É dever do bom servidor não só não defraudar seu senhor na glória que lhe é devida, como também rejeitar as honras que a multidão lhe queira tributar”.7 Em São João esta impostação era um sexto sentido, e ele nem sequer cogitava na possibilidade de se apresentar como o Cristo.

Bem podemos imaginar que o Precursor tenha dito isso com alegria, porque no fundo de sua alma havia esperança! Ele sabia, por inspiração mística, que estava próxima a manifesta­ção pública do Messias, batizado por ele pouco antes. Toda a movimentação que vinha crescendo às margens do Jordão, a ponto de chamar a atenção das autoridades e estas decidirem interrogá-lo, indicava que havia chegado a hora da revelação do Salvador.

Neste sentido, é oportuno tratarmos aqui de um porme­nor. Alguns comentaristas apresentam São João Batista brin­cando com Jesus, num celestial convívio, durante a infância. Outros creem que São João não O conheceu e, ainda menino, separou-se dos pais, pois é provável que tenha ficado órfão ce­do devido à idade avançada de Zacarias e Isabel. Partiu, então, rumo ao deserto onde receberia inspirações do Espírito Santo e seria preparado por Deus para a grande missão que lhe estava destinada. Somos desta última opinião e cremos, portanto, que ele viu Nosso Senhor pela primeira vez já na idade adulta. Pode­-se presumir o motivo que terá levado a Providência a dispor as coisas desta forma.

São João Batista representa toda a tradição; ele simboli­zava, como numa síntese, o Antigo Testamento e, enquanto tal, vinha anunciando a abertura do Novo. Se o Precursor conhe­cesse previamente o Divino Mestre, a sua ação teria um mérito muito menor, porque ele viria dando testemunho daquilo que já pudera comprovar. Pelo contrário, ao participar tanto quanto possível da expectativa do povo eleito, que há séculos implorava a vinda do Messias, seu anúncio tinha uma força sobrenatural extraordinária para converter as multidões.

Neste momento, registrado pela narração do Evangelis­ta, São João falava depois de ter batizado Nosso Senhor e, no dia seguinte, ao vê-Lo aproximar-Se, dirá aos seus discípulos: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. É este de quem eu disse: Depois de mim virá um Homem, que me é superior, porque existe antes de mim. Eu não O conhecia, mas, se vim batizar em água, é para que Ele Se torne conhecido em Israel” (Jo 1, 29-31). Por conseguinte, ele apontará o Messias, não como um profeta que diz “Acontecerá!”, e sim como alguém que proclama: “Já aconteceu!”.

É muito mais emocionante, nesta perspectiva, além de pos­suir maior substância intelectual, e até cognitiva, o fato de São João ter tido o primeiro contato com o Redentor quando este chega para ser batizado: “Eu devo ser batizado por Ti e Tu vens a mim!” (Mt 3, 14). O discernimento de quem é o Cordeiro de Deus é exatamente o elo entre o Antigo e o Novo Testamento, e foi naquele instante que se deu a faísca de união entre um e outro.

Quem era, pois, este homem?

21 Eles perguntaram: “Quem és, então? És tu Elias?” João respondeu: “Não sou”. Eles perguntaram: “És o Profeta?” Ele respondeu: “Não”.

Os enviados de Jerusalém julgavam que São João se apre­sentaria como o Messias, mas a sua primeira resposta os deixou desarvorados. E prosseguiram com novas perguntas. A notorieda­de do Precursor era tal que tinha propósito os sacerdotes e os le­vitas indagarem se ele era Elias ou não. E o faziam com certo me­do, porque Elias é o varão que mandara abrir a terra, cair fogo do céu, parar a chuva (cf. Eclo 48, 3), etc. Assim, à sua negativa deve ter-se seguido um alívio imediato, que não tardou a ser sufocado por crescente insegurança, porque João já era uma figura mítica, um homem que espantava e, decerto, tinha voz forte e segura. Po­dia ser que fosse o Profeta; neste caso, iam pedir um sinal, segun­do o costume judaico. Ele não era o Profeta por excelência, isto é, Nosso Senhor Jesus Cristo, mas sim um profeta.

São João não se dobra aos interesses do mal

22 Perguntaram então: “Quem és, afinal? Temos que levar uma resposta para aqueles que nos enviaram. O que dizes de ti mesmo?”

As respostas do Precursor mostraram aos emissários que com ele não valia a pena perder tempo em tratativas diplomá­ticas, uma vez que não seria fácil iniciar uma amizade a fim de aliciá-lo para o partido deles. Gostariam que São João se de­clarasse o Messias, o que serviria de pretexto para convidá-lo a fazer parte do Sinédrio. Se ele fosse um político sagaz, faria uma carreira brilhante com o apoio das autoridades, que promove­riam uma forte propaganda a seu favor e lhe dariam o dinheiro e o prestígio necessários para se tornar o homem mais benquis­to e elogiado de toda a nação. Ora, se não era o Messias, nem Elias nem o Profeta, quem era afinal? Eles quase suplicam uma definição, pois deviam levar alguma informação que livrasse sua missão de ser julgada um fracasso. Mas perceberam que parti­riam de mãos vazias, com as consequências que isso lhes traria ao se apresentarem perante seus chefes.

Declaração do Precursor e chamado à conversão

23 João declarou: “Eu sou a voz que grita no deserto: ‘Aplainai o caminho do Senhor’” ― conforme disse o profeta Isaías.

Se as primeiras palavras do Precursor os deixaram deso­rientados, estas, sem dúvida, intensificaram a perturbação. Eles já temiam pelo fato de a figura de João Batista ter-se projetado em Israel, provocando grande comoção na opinião pública. As multidões iam ouvir a pregação de São João e receber o batis­mo, e depois se emendavam. Era a graça do Espírito Santo mo­vendo as almas. Ademais, os fariseus conheciam a Escritura e sabiam o significado do oráculo de Isaías (cf. Is 40, 3) ― “eu sou a voz que grita no deserto” ―, o qual indicava com clareza que antes do aparecimento do Messias alguém se levantaria no deserto para pregar. Ao referi-lo, São João como que dizia, sem que ninguém ousasse contradizê-lo: “Eu sou aquele previsto por Isaías!”. E este Precursor também lhes falava em conversão: “Aplanai o caminho do Senhor”, ou seja, “mudai de mentalida­de para recebê-Lo”.

Para os maus, era apenas o começo da aflição…

24 Ora, os que tinham sido enviados pertenciam aos fariseus 25 e perguntaram: “Por que então andas batizando, se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?” 26 João respondeu: “Eu batizo com água; mas no meio de vós está Aquele que vós não conheceis, 27 e que vem depois de mim. Eu não mereço desamarrar a correia de suas sandálias”. 28 Isso aconteceu em Betânia, além do Jordão, onde João estava batizando.

Sempre preocupados com os rituais exteriores, os fa­riseus indagaram a respeito do batismo de João, cientes de que um banho purificador fora predito por vários profetas (cf. Is 1, 16; Ez 36, 25; Zc 13, 1). Que o Messias, Elias ou o Pro­feta “instituíssem ritos novos, nada tinha de particular; como enviados de Deus, podiam agir conforme suas ordens”.8 Mas se São João não o era, por que batizava? E, novamente, a respos­ta do Precursor causou perplexidade nos membros da comitiva, pois não a esperavam! É o Espírito Santo que fala pelos lábios e pela voz de São João Batista, para fazer bem aos fariseus. Eles pensavam que São João daria uma explicação justificando, com princípios, o batismo por ele administrado. Porém, para surpre­sa de todos, ele como que menospreza o próprio batismo, dizen­do: Que mal há em batizar com água?

Então, São João Batista se declara Precursor de alguém maior e anuncia que o Messias está entre eles, porque já O tinha batizado. O curioso é que poderiam ter perguntado quem era esse outro, mas não o fazem. Os fariseus têm medo, porque se Ele lhes fosse mostrado, deveriam mudar de vida. Com um Pre­cursor tão exigente, como seria Aquele de quem não merecia sequer desamarrar a correia das sandálias?

O resultado foi uma grande insegurança. Esse “no meio de vós” os incomodava enormemente, porque significava que entre eles se encontrava alguém que era maior do que o que vinha convulsionando o país. Israel era percorrido e penetrado por um espírito novo, que deixava a todos na expectativa. As pessoas se convertiam, choravam seus pecados, batiam no pei­to e… se esqueciam dos fariseus, dos saduceus e dos escribas. Numa palavra, esse homem atrapalhava, porque pregava uma conversão. Entretanto, acima dele está Aquele outro que é um Senhor incomum, de quem São João Batista dizia que não tinha altura para ser escravo. Estava “no meio deles”, e eles não O conheciam… E ficaram perturbados, enquanto crescia seu ponto de interrogação, por perceberem que o imenso transtorno cau­sado em sua cômoda situação pelo Precursor não passava de um mero tremor, perto do terremoto que ele vinha anunciando…

III – Não nos deixemos enganar pela aparente alegria do pecado!

De modo bem diferente à incondicional alegria que a vinda do Redentor deveria trazer, eis a correlação en­tre júbilo e tristeza, euforia e provação, evocada pelo Evangelho deste 3º Domingo do Advento. Enquanto os bons são assistidos pela alegria da esperança, como aconteceu a São João Batista e aos que se converteram ante a perspectiva do apareci­mento do Messias, há na alma dos maus tristeza e insatisfação. Cabe ao bom saber interpretar a frustração de quem vive no pe­cado e não pensar que ele está sendo bem-sucedido. Quando, na segunda leitura (I Tes 5, 16-24), São Paulo exorta “Estai sempre alegres!” (I Tes 5, 16), deseja mostrar que quem se une a Deus, pratica a virtude e trilha o bom caminho, não pode de forma al­guma deixar-se tomar pela má tristeza.

O Domingo da Alegria nos revela uma divisão claríssima que caracteriza a humanidade: os bons estão sempre alegres e os maus, por mais que procurem aparentar alegria, vivem na tris­teza. Aqueles que estão ligados a Deus têm o contentamento, a segurança e a felicidade de que carece quem se apega às coisas materiais e Lhe dá as costas. Ambos vivem juntos, mas no mo­mento em que o homem que pôs sua esperança no mundo e no pecado vê a alegria verdadeira manifestada pelo bom, ou se con­verte ou quer matá-lo, tal como fizeram a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Peçamos, nesta Liturgia, a graça de viver na alegria da vir­tude, como sinal de nossa inteira adesão ao Salvador que em breve chegará!

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1) TERCEIRO DOMINGO DO ADVENTO. Oração do Dia. In: MISSAL ROMA­NO. Trad. Portuguesa da 2a. edição típica para o Brasil realizada e publicada pe­la CNBB com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica. 9.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p.131.

2) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q.70, a.3.

3) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super Ioannem. C.I, lect.4.

4) Cf. TUYA, OP, Manuel de. Biblia Comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.V, p.972-973.

5) RICCIOTTI, Giuseppe. Vita di Gesù Cristo. 14.ed. Città del Vaticano: T. Poliglotta Vaticana, 1941, p.307-308.

6) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super Ioannem. C.I, lect.12.

7) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía XVI, n.2. In: Homilías sobre el Evangelio de San Juan (1-29). 2.ed. Madrid: Ciudad Nueva, 2001, v.I, p.205.

8) TUYA, op. cit., p.977.