Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

25 de Agosto

DOMINGO XXI DO TEMPO COMUM – ANO C

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA Salmo 85, 1-3
Inclinai o vosso ouvido e atendei-me, Senhor,
salvai o vosso servo, que em vós confia.
Tende compaixão de mim, Senhor,
que a Vós clamo o dia inteiro.

ORAÇÃO COLECTA
Senhor Deus,
que unis os corações dos fiéis num único desejo,
fazei que o vosso povo ame o que mandais
e espere o que prometeis,
para que, no meio da instabilidade deste mundo,
fixemos os nossos corações
onde se encontram as verdadeiras alegrias.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Is 66, 18-21
«De todas as nações hão-de reconduzir os vossos irmãos»

O desígnio de Deus é que todos os homens se salvem. De “todas as nações” e de “todas as línguas”, o Senhor quer reconduzir a humanidade como oferenda à sua glória, e assim realizar a vocação última de todos os homens: viverem eternamente na casa do Pai comum, graças ao chamamento que a todos fez por meio de Jesus Cristo.

Leitura do Livro de Isaías
Eis o que diz o Senhor: «Eu virei reunir todas as nações e todas as línguas, para que venham contemplar a minha glória. Eu lhes darei um sinal e de entre eles enviarei sobreviventes às nações: a Társis, a Fut, a Lud, a Mosoc, a Rós, a Tubal e a Javã, às ilhas remotas que não ouviram falar de Mim nem contemplaram ainda a minha glória, para que anunciem a minha glória entre as nações. De todas as nações, como oferenda ao Senhor, eles hão-de reconduzir todos os vossos irmãos, em cavalos, em carros, em liteiras, em mulas e em dromedários, até ao meu santo monte, em Jerusalém – diz o Senhor – como os filhos de Israel trazem a sua oblação em vaso puro ao templo do Senhor. Também escolherei alguns deles para sacerdotes e levitas».
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 116 (117), 1.2 (R. Mc 16, 15)
Refrão: Ide por todo o mundo,
anunciai a boa nova. Repete-se

Louvai o Senhor, todas as nações,
aclamai-O, todos os povos. Refrão

É firme a sua misericórdia para connosco,
a fidelidade do Senhor permanece para sempre. Refrão

LEITURA II Hebr 12, 5-7.11-13
«O Senhor corrige aquele que ama»

A palavra que foi dirigida aos nossos irmãos do passado em tempo de perseguição para os encorajar na provação, vem sempre a propósito também para nós para nos ensinar a ver com olhos de fé as muitas provações da vida e a entendê-las no seu sentido positivo, que é sempre desígnio de amor de Deus sobre nós.

Leitura da Epístola aos Hebreus
Irmãos: Já esquecestes a exortação que vos é dirigida, como a filhos que sois: «Meu filho, não desprezes a correcção do Senhor, nem desanimes quando Ele te repreende; porque o Senhor corrige aquele que ama e castiga aquele que reconhece como filho». É para vossa correcção que sofreis. Deus trata-vos como filhos. Qual é o filho a quem o pai não corrige? Nenhuma correcção, quando se recebe, é considerada como motivo de alegria, mas de tristeza. Mais tarde, porém, dá àqueles que assim foram exercitados um fruto de paz e de justiça. Por isso, levantai as vossas mãos fatigadas e os vossos joelhos vacilantes e dirigi os vossos passos por caminhos direitos, para que o coxo não se extravie, mas antes seja curado.
Palavra do Senhor.

ALELUIA Jo 14, 6
Refrão: Aleluia. Repete-se
Eu sou o caminho, a verdade e a vida, diz o Senhor:
ninguém vai ao Pai senão por Mim. Refrão

EVANGELHO Lc 13, 22-30
«Hão-de vir do Oriente e do Ocidente
e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus»

Jesus diz-nos que todos os homens são chamados à salvação e a viverem com Deus; mas que este desígnio de Deus tem de ser acolhido por cada um, que terá, por isso, de se esforçar por passar pela porta estreita, não vá, por negligência, ficar de fora da sala do banquete do reino de Deus.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, Jesus dirigia-Se para Jerusalém e ensinava nas cidades e aldeias por onde passava. Alguém Lhe perguntou: «Senhor, são poucos os que se salvam?». Ele respondeu: «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir. Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, vós ficareis fora e batereis à porta, dizendo: ‘Abre-nos, senhor’; mas ele responder-vos-á: ‘Não sei donde sois’. Então começareis a dizer: ‘Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste nas nossas praças’. Mas ele responderá: ‘Repito que não sei donde sois. Afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade’. Aí haverá choro e ranger de dentes, quando virdes no reino de Deus Abraão, Isaac e Jacob e todos os Profetas, e vós a serdes postos fora. Hão-de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus. Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos».
Palavra da salvação.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Irmãos e irmãs:
Oremos ao Senhor, fonte de vida,
que protege e livra das angústias os que n’Ele confiam,
e apresentemos-Lhe as necessidades de todos os homens,
dizendo (ou: cantando), cheios de confiança:
R. Atendei, Senhor, a nossa prece.
Ou: Não nos abandoneis, Senhor.
Ou: Pela vossa misericórdia, ouvi-nos, Senhor.
1. Pelo Papa N., sinal visível da unidade na Igreja,
para que proclame, diante de todos os homens,
as palavras de vida eterna de Jesus,
oremos.
2. Pelos governantes de todos os povos e nações,
para que a sua sabedoria e honestidade
fortaleçam a justiça e a concórdia na sociedade civil,
oremos.
3. Pelos que procuram a verdade que os pode salvar,
para que, em Cristo e no seu Evangelho,
possam descobrir a resposta às suas inquietações,
oremos.
4. Por todos os nossos parentes e amigos,
para que tenham saúde do corpo e da alma
e vivam sempre segundo a vontade de Deus,
oremos.
5. Por todos os casais da nossa comunidade (paroquial),
para que as esposas sejam o encanto dos seus lares
e os maridos as amem como Cristo amou a Igreja,
oremos.
(Outras intenções: acontecimentos nacionais importantes; fiéis defuntos …).
Senhor, nosso Deus,
fonte e origem de todos os bens,
não permitais que nos escandalizemos
com as palavras sinceras do vosso Filho
nem nos envergonhemos de sermos seus discípulos.
Ele que vive e reina por todos os séculos dos séculos.

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Senhor, que pelo único sacrifício da cruz,
formastes para Vós um povo de adopção filial,
concedei à vossa Igreja o dom da unidade e da paz.
Por Nosso Senhor.

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Salmo 103, 13-15
Encheis a terra, Senhor, com o fruto das vossas obras.
Da terra fazeis brotar o pão e o vinho que alegra
o coração do homem.

Ou Jo 6, 55
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue
tem a vida eterna, diz o Senhor,
e Eu o ressuscitarei no último dia.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Realizai plenamente em nós, Senhor,
a acção redentora da vossa misericórdia
e fazei-nos tão generosos e fortes
que possamos agradar-Vos em toda a nossa vida.
Por Nosso Senhor.

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

A porta do Céu

“Senhor, são poucos os que se salvam?”. Pergunta feita a Jesus com escasso intuito de perfeição. Entretanto, muitos serão os interessados em conhecer a resposta do Divino Mestre.
Ouçamo-la com atenção.

I – A viagem definitiva

Ao se apresentar diante de nós uma possível viagem, nos­sas atenções começam a dividir-se entre o presente e o futuro, entre o ambiente atual com suas ocupações e o lugar para onde rumaremos. Se nossa ausência for de longa du­ração, e ainda mais se nosso destino se localizar num país bem distante, entraremos num certo estado de tensão que poderá ser maior ou menor, em função do temperamento e mentalidade de cada um, mas a indiferença total raramente acontecerá.

Passaporte, roupas, objetos, remédios, etc., constituirão um pensamento mais ou menos constante em meio às nossas ati­vidades normais do dia a dia, antes de partir. O idioma, os cos­tumes, o clima, a alimentação, etc., excitarão nossa curiosidade, alimentando o sonho de uma experiência nova, meio mitificada quanto às possíveis felicidades. Do amanhecer ao apagar das lu­zes, nossa imaginação percorrerá as ruas, praças e monumentos daquela cidade onde iremos morar durante um certo tempo. As providências concretas, por menos metódico que se seja, terão prioridade em nossas responsabilidades e afazeres, e a tal ponto que provavelmente teremos iniciado nossa viagem muito antes de subir no avião.

No entardecer desta vida, empreenderemos a mais impor­tante e definitiva mudança de nossa existência rumo à… eterni­dade. Mas será diferente de todas as outras, pois não poderemos levar absolutamente nada de nossos pertences e nem sequer se­rá preciso passaporte. Ela não terá volta atrás e deverá se reali­zar a sós, sem acompanhantes. A partida é inadiável, desde todo o sempre foi fixada por Deus, e não terá atraso. A chegada tanto poderá dar-se no inferno, quanto no Céu, e para este último lo­cal ainda é possível que haja uma passada pelo Purgatório.

Porém, essa é a viagem por quase todos relegada ao es­quecimento. Carreira, dinheiro, prazeres, saúde — em síntese, o mundanismo — é a obsessão que transtorna as mentes desde a saída de Adão do Paraíso, prolongando pelos séculos e milênios os ecos do episódio havido entre Marta e Maria: “Marta, porém, afadigava-se muito na contínua lida da casa. Parou então e dis­se: ‘Senhor, não Te importas que a minha irmã me tenha deixa­do sozinha com o serviço da casa? Diz-lhe, pois, que me ajude’. O Senhor respondeu-lhe: ‘Marta, Marta, tu afadigas-te e andas inquieta com muitas coisas, quando uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada’” (Lc 10, 40-42). De fato, só uma coisa é necessária: a salvação eterna. “Pois, que aproveitará a um homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma?” (Mt 16, 26).

O Evangelho de hoje nos convidará a considerar de perto essa passagem para a eternidade.

II – O Evangelho

22 Ia pelas cidades e aldeias ensinando, e caminhando para Jerusalém.

Jesus quer salvar a todos. E estando a caminho de sua última visita a Jerusalém, não deixava de entrar nas ci­dades e aldeias a fim de ensinar a cada um. Exemplo para nós: em nosso apostolado, jamais devemos fazer acepção de pessoas ou de lugares, a Boa-nova é destinada a um âmbito universal.

23a Alguém Lhe perguntou: “Senhor, são poucos os que se salvam?”

Era evidente tratar-se de uma pergunta feita por um judeu, apesar de estar naqueles tempos generalizada entre o povo a ideia de que todos os filhos de Abraão se salvavam, sem exceção, pelo simples fato de serem tais. Para entender-se melhor o porquê da curiosidade nessa matéria, deve-se notar que, de quando em vez, apareciam afirmações em escritos apócrifos, inflando o número dos que se perdem em relação aos poucos que se salvam. Daí o desejo desse hebreu que acompanhava o Mestre pelo caminho, de obter uma resposta exata, conforme comenta um conceituado exegeta: É frequente esta preocupação nos rabinos. Pensava-se na salvação eterna, sobretudo na dos israelitas, porque os demais haviam merecido sua perdição e quase se alegravam dela”.1

Aliás, essa é uma questão que passou a ser muito discutida na própria Era Cristã, debaixo dos mais variados prismas. Por exem­plo, em inícios do século VI, espalhou-se por certos ambientes da Europa uma heresia sobre a salvação final dos Anjos e homens em sua totalidade, terminando, assim, as penas eternas do inferno. Es­sa doutrina foi condenada pelo Papa Vigílio, no ano de 543: “Se alguém diz ou sente que o castigo dos demônios ou dos homens ím­pios é temporal e que em algum momento terá fim, ou que se dará a reintegração dos demônios ou dos homens ímpios, seja anátema”.2

Um dos mais delicados estudos talvez seja o teológico, quan­do as hipóteses levantadas não encontram uma claríssima formu­lação na doutrina revelada. Esse é justamente o caso em questão, e bem definido pelo famoso padre Antonio Royo Marín, OP:

“Eis aqui um dos problemas mais angustiantes e difíceis que podem oferecer ao teólogo. A pergunta é uma das que, com maior frequência e apaixonado interesse, formula a maioria das pessoas. E, sem embargo, não há outra em toda a Teologia ca­tólica que possa responder-se com menos segurança e certeza. A divina Revelação está muito obscura; a Tradição cristã está muito dividida, e a Igreja nada definiu a este propósito. Não po­demos mover-nos, por conseguinte, senão no terreno das meras conjecturas e probabilidades.

“Daí a grande diversidade de opiniões, sobretudo entre os pregadores e teólogos. Desde o extremo rigorismo de um Mas­sillon — cujo terrível sermão sobre ‘o pequeno número dos que se salvam’, atormentou tantos espíritos — até o otimismo exa­gerado e imprudente de tantos outros que salvam quase todo o mundo, há uma grande variedade de opiniões intermediárias”.3

E com sua concisão sempre clara e luzidia, São Tomás as­sim se expressa sobre a matéria:

“A respeito de qual seja o número dos homens predesti­nados, dizem uns que se salvarão tantos quantos foram os anjos que caíram; outros, que tantos como os Anjos que persevera­ram; outros, enfim, que se salvarão tantos homens quantos anjos caíram e, ademais, tantos quantos sejam os Anjos criados. Mas, melhor é dizer que só Deus conhece o número dos eleitos que hão de ser colocados na felicidade suprema”.4

Ele respondeu-lhe: 23b “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque vos digo que muitos procurarão entrar e não conseguirão”.

É imperativo o conselho de Jesus: esforçai-vos, indicando­-nos o quanto não se deve deixar para “procurar” entrar à última hora. Mas, infelizmente, é assustador o número de pessoas que, ao longo da vida, se despreocupam de saber o que lhes aconte­cerá após a morte. Muitos estão dispostos a trocar o Céu pelo fugaz prazer de um segundo e agem tal qual o fez Judas Iscario­tes face às enganosas delícias deste mundo: “Que quereis dar­-me e eu vo-lo entregarei” (Mt 26, 15). Não são poucos os que preferem Barrabás a Jesus, entregando-se às paixões e pecados em detrimento do convívio sem fim, com Deus. São Basílio des­creve o modo pelo qual eles fazem essa insensata opção:

“Com efeito, a alma vacila sempre: quando reflete sobre a eternidade se decide pela virtude. Mas, quando olha o presente, prefere os prazeres da vida. Aqui vê a moleza e os deleites da carne; lá, a sujeição, a servidão e o cativeiro da mesma. Aqui a embriaguez, ali a sobriedade. Aqui os risos dissolutos, lá a abun­dância de lágrimas. Aqui as danças, lá a oração. Aqui o canto, lá o pranto. Aqui a luxúria, lá a castidade”.5

Mas, qual é essa porta estreita? Jesus no-la indica: “Nem todos os que dizem Senhor, Senhor, entrarão no Reino dos Céus, senão aquele que faz a vontade de meu Pai” (Mt 7, 21).

Ela consiste, portanto, na obrigação nossa de abater o or­gulho, controlar nosso olhar, pensamentos e desejos, guardar nosso coração das afeições desordenadas, viver da fé e da espe­rança na prática da verdadeira caridade, etc.

25 “Quando o pai de família tiver entrado e fechado a porta, vós, estando fora, começareis a bater à porta, dizendo: ‘Senhor, abre-nos’. Ele responderá: ‘Não sei donde sois’”.

Os evangelistas costumam relatar as aproximações que o Divino Mestre fazia entre o Reino dos Céus e um banquete… Segundo as praxes da época, por medidas de segurança, além de outras razões, ao chegar o último convidado, o anfitrião tranca­va as portas. E assim, para tornar ainda mais clara a alegoria da porta estreita para se entrar no Céu, Jesus apresenta a parábola do pai de família que se fecha em casa com os seus filhos e ami­gos. Os que restaram fora pedirão que lhes deixe entrar, e rece­berão a resposta: “Não sei donde sois”. A razão dessa resposta não vinha do fato de não haver mais lugar, mas sim, por não terem querido entrar pela porta estreita.

Que surpresa para aqueles que julgavam estar salvos devi­do à prática de umas tantas e poucas obrigações religiosas…

A cena descrita nesta passagem traduz em termos domés­ticos uma profunda realidade eterna. A família aqui representa­da é a divina. A ela pertencem todos os batizados que vivem na graça de Deus e, nesta morrendo, gozarão da felicidade perpétua participativa do convívio da Santíssima Trindade. De fora daquela intimidade ficarão todos os que morrerem impenitentes de seus pecados. O Pai os tratará como estranhos desconhecidos.

26 “Então começareis a dizer: ‘Comemos e bebemos em tua presença, tu ensinaste nas nossas praças’”.

É bem verdade. Quantas vezes nós nos aproximamos da mesa da Comunhão e nos beneficiamos dos demais Sacramen­tos, ouvimos boas pregações sobre o Evangelho, além dos con­selhos em particular, no seio da Igreja fundada pelo Redentor. Porém, que proveito tiramos de todos esses privilégios? Eles nos são dados para melhor cumprirmos os Mandamentos. Insen­satos são aqueles que se entregam a uma vida de pecado até a hora da morte, arriscando-se a ouvir dos lábios de Jesus a sen­tença irrevogável de eterna reprovação. Só então entenderão as palavras do Divino Mestre: “Pois, que aproveitará a um homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma?” (Mt 16, 26).

27 “Ele vos dirá: ‘Não sei donde sois; afastai-vos de mim vós todos os que praticais a iniquidade’”.

Esta resposta contém duas afirmações:

“Não sei donde sois…”. Não devemos imaginar que somen­te serão objeto da rejeição de Jesus os não batizados. Também a nós, batizados, poderá ser ela aplicada se não cumprirmos nossos deveres. Neste caso, Jesus se dirigirá a nós de maneira ainda mais explícita: “Eu vos arranquei das trevas do pecado e vos redimi às custas de meu próprio sangue, elevando-vos à dignidade de filhos da Igreja. Mas vós quisestes as vias do orgulho e, seguindo o con­selho de satanás, obedecer à lei do mundo e entregar-vos às pai­xões. Não ouvistes a voz da graça e a de meus Ministros”…

“… afastai-vos de mim vós todos que praticais a iniquidade”. Ser repelido por Deus é o mais terrível dos tormentos eternos, segundo nos ensina a Teologia. Nós somos criados com vistas à felicidade eterna, ou seja, a conhecer a Deus face a face e amá­-Lo como Ele mesmo se ama — sempre guardadas as devidas proporções. Nossa alma tem sede desse convívio com Deus e só n’Ele repousaremos. Ora, o vermo-nos expulsos por Aquele que é a única Causa de nossa alegria, significaria para nós um tormento sem comparação. Que terrível palavra: “Afastai-vos de mim”…

28 “Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac, Jacó, e todos os profetas no Reino de Deus, e vós serdes expulsos para fora”.

Devido à nossa sensibilidade física reforçada pelo instinto de conservação, somos levados a julgar o fogo do inferno o pior dos tormentos. Na realidade, possui ele uma intensidade fortíssima, a ponto de tornar desprezível qualquer forno de alta combustão na face da Terra e, portanto, sua capacidade de infligir sofrimentos é incalculável. Porém, a maior dor se encontra apontada nas últimas palavras do versículo 28: “… serdes expulsos para fora”.

Que o inferno existe, as Escrituras (Cf. Jt 16, 17; Ecl 7, 18- 19; Is 33, 14; Dn 12, 2; Mt 13, 49-50; 25, 41-46; etc.) e o Infalível Magistério da Igreja6 o proclamam como verdade revelada.

A teologia busca razões claras para ajudar-nos na aceita­ção fácil desse indispensável dogma de Fé, como explica Pablo Buysse, em sua obra Dios, el alma y la religión: “Focalizemos, por exemplo, o seguinte caso, por desgraça muito frequente na vida passional. Um homem pretende seduzir uma angelical jovem. Ao resistir esta, profere uma ameaça. Em vão. A lâmina de um punhal ameaça o peito da jovem. Não cede apesar de tudo. O grito de raiva do malévolo se confunde com o grito de dor da ví­tima, que cai agonizante. O sedutor, desesperado, crava em seu próprio peito o punhal banhado ainda no sangue de sua vítima. Vede aí, um ao lado do outro, dois cadáveres: o do verdugo e o de uma mártir. Pode Deus confundi-los num mesmo destino? Não, mil vezes não. É preciso que esse criminoso seja castigado na outra vida e se premie para sempre essa virtude”.7

A pena dos sentidos

Ao cometer um pecado grave, a alma manifesta uma aver­são a Deus e um apego à criatura. À primeira cabe a pena do dano e à segunda, a dos sentidos.

Consideremos de início o menor dos sofrimentos: a pena dos sentidos.

Difícil é compreender a natureza de um fogo que não ne­cessita de combustível. Fogo “inteligente”, que atinge não só a matéria — sem consumi-la — mas também os próprios espíritos, anjos e almas. Ademais, trata-se de um fogo cuja ação aprisiona, coarcta e mantém as almas, a contragosto, num lugar específico. Segundo nos comenta o padre Antonio Royo Marín,8 os horro­res que alguém poderia enfrentar num calabouço escuro, sem poder mover-se, seriam nada em comparação com o encontrar­-se prisioneiro perpétuo de uma criatura inferior, o fogo, que o tiraniza numa asfixiante e intérmina imobilidade.

Será físico o pranto dos condenados? São Tomás comenta ser analógica a afirmação contida neste versículo, a respeito do choro. Afirma ele que, após a ressurreição dos corpos, não pode­rão os condenados exteriorizar suas dores através das lágrimas, pois os ressuscitados não produzirão nenhum tipo de humor.9

Pena do dano

O fato de faltar ao homem a agilidade de um felino — o gato por exemplo — ou a força de um leão, não significa uma privação, mas sim uma simples carência, pois não é próprio à nossa natureza possuir essas qualidades. Contudo, o ser para­plégico ou cego, faz-nos sofrer uma verdadeira privação. Ora, fomos criados para Deus, por isso temos sede da felicidade infi­nita de vê-Lo e amá-Lo tal qual Ele é. E a privação eterna desse gozo, na condição de “expulsos para fora”, constitui o maior de todos os tormentos.

Acrescente-se a isso a exclusão da presença de todos os Anjos e Santos, em especial de Jesus e de Maria, além da perda dos bens sobrenaturais (graças, virtudes e dons) e da glorifica­ção do próprio corpo. O ver nossos conhecidos de outrora na plenitude da felicidade, enquanto nós ardemos de indignação no “choro e ranger de dentes”, aumentará ainda mais um casti­go, de si, inimaginável.

Ademais, se todas essas angústias fossem passageiras… Não! Serão eternas, ou seja, não terão fim.

29 “Virão muitos do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e se sentarão à mesa do Reino de Deus”.

Será também terrível para um precito ver aqueles que vi­veram em sucessivas e posteriores épocas históricas ingressando no Reino dos Céus, enquanto ele é expulso de Deus para viver, eternamente imóvel, nas chamas do inferno.

III – Maria, Porta do Céu

30 “Então haverá últimos que serão os primeiros, e primeiros que serão os últimos”.

Surpreendente será essa inversão de valores, por isso, não devemos jamais nos sentir seguros devido às nossas qualidades, nem pe­las graças recebidas, menos ainda pela riqueza que pos­sa estar em nossas mãos. É necessário servir a Deus com ardor e entusiasmo, entrando “pela porta es­treita” que bem poderá ser Maria Santíssima. Não é sem razão que a Ela foi da­do o título de Porta do Céu. Estreita porque exige de nós uma confiança robusta em sua proteção maternal. Invoquemo-La em todas as tentações e dificuldades, a fim de comprovarmos a ir­refutável realidade de quanto “jamais se ouviu dizer que algum daqueles que têm recorrido à sua proteção maternal, implorado sua assistência, reclamado o seu socorro fosse por Ela desam­parado”. E, ao chegarmos ao Céu, rendamos eternas graças aos méritos infinitos de Jesus e às poderosas súplicas de Maria.

 

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1) LAGRANGE, OP, Marie-Joseph. L’Évangile de Jésus-Christ avec la synopse évangélique. Paris: Lecoffre – J. Gabalda, 1954, p.395.

2) Dz 411.

3) ROYO MARÍN, OP, Antonio. Teología de la salvación. Madrid: BAC, 1997, p.117.

4) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.23, a.7.

5) SÃO BASÍLIO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. In Lucam, c.XIII, v.22-30.  

6) Cf. CCE 1035.

7) BUYSSE, Pablo, apud ROYO MARÍN, op. cit., p.304.  

8) ROYO MARÍN, op. cit., p.304.

9) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. Suppl., q.97, a.3.