Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

12 de Abril

DOMINGO DE PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR – ANO A

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA Salmo 139, 18.5-6
Ressuscitei e estou convosco para sempre; pusestes sobre mim a vossa mão: é admirável a vossa sabedoria.

Ou Lc 24, 34; cf. Ap 1, 5
O Senhor ressuscitou verdadeiramente. Aleluia. Glória e louvor a Cristo para sempre. Aleluia.

Diz-se o Glória.

ORAÇÃO COLECTA
Senhor Deus do universo, que neste dia, pelo vosso Filho Unigénito, vencedor da morte, nos abristes as portas da eternidade, concedei-nos que, celebrando a solenidade da ressurreição do Senhor, renovados pelo vosso Espírito, ressuscitemos para a luz da vida. Por Nosso Senhor.

Leitura I Act. 10, 34a, 37-43
Diante de pagãos, em casa do centurião Cornélio, Pedro anuncia o que já lhes havia chegado aos ouvidos: Cristo ressuscitou! E, completando aquela «boa notícia», garantindo, com o seu testemunho pessoal, a verdade dos acontecimentos daqueles dias, o Apóstolo explica-lhes o que eles querem dizer:
– Jesus de Nazaré, homem que viveu como eles e com Quem Pedro convivera, não é um simples homem. Ungido do Espírito de Deus, tem a plenitude de Deus em Si. Ele é o Messias, o Filho de Deus, como o demonstrou pelos milagres por ele mesmo presenciados e, sobretudo pelo milagre definitivo – a Ressurreição.
Pela Ressurreição, de que Pedro é testemunha, Jesus de Nazaré é o Juiz dos vivos e dos mortos, é o Salvador de todos os homens, judeus ou pagãos.

Leitura dos Actos dos Apóstolos
Naqueles dias, Pedro tomou a palavra e disse: «Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando a todos os que eram oprimidos pelo Demónio, porque Deus estava com Ele. Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém; e eles mataram-n’O, suspendendo-O na cruz. Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e permitiu-Lhe manifestar-Se¬, não a todo o povo, mas às testemunhas de antemão designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois de ter ressuscitado dos mortos. Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. É d’Ele que todos os profetas dão o seguinte testemunho: quem acredita n’Ele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados».
Palavra do Senhor.

Salmo Responsorial Sal. 117(118), 1-2, 16ab-17, 22-23
Refrão: Este é o dia que o Senhor fez:
exultemos e cantemos de alegria. Repete-se
Ou: Aleluia. Repete-se

Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom,
porque é eterna a sua misericórdia.
Diga a casa de Israel:
é eterna a Sua misericórdia. Refrão

A mão do Senhor fez prodígios,
a mão do Senhor foi magnífica.
Não morrerei, mas hei-de viver,
para anunciar as obras do Senhor. Refrão

A pedra que os construtores rejeitaram
tornou-se pedra angular.
Tudo isto veio do Senhor:
e é admirável aos nossos olhos. Refrão

Leitura II Col. 3, 1-4
Pelo seu Baptismo, o cristão morreu para o pecado e ressuscitou com Cristo para uma vida nova. Desde esse momento, recebeu a missão de, à semelhança de Cristo, conduzir os homens e todas as coisas para o Pai.
Inserido nas realidades divinas, não pode alhear-se do mundo, nem ficar indiferente aos esforços dos homens relativamente à construção dum mundo de felicidade, justiça e paz.
Inserido nas realidades da terra, não pode encerrar-se no mundo, trabalhando só para fins terrenos, esquecido do destino final do homem e do mundo.
Feito nova criatura pela Ressurreição de Cristo, o cristão viverá a vida de cada dia, sem perder de vista o fim superior, para que foi criado.

Leitura da Epístola do apóstolo S. Paulo aos Colossenses
Irmãos: Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo Se encontra, sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar, então também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória.
Palavra do Senhor.

Ou I Cor 5, 6b-8
Para significar o começo de uma nova existência, que teve lugar com a libertação do Egipto, os judeus celebravam a Páscoa com pão sem fermento, pois deitavam para fora de casa o fermento antigo.
Com Cristo Ressuscitado, começou para o Povo de Deus uma vida nova. Por isso, o cristão, deitando fora o fermento antigo (o pecado e a mentira), deve ser pão «ázimo», liberto de todo o mal, de tal modo que nele transpareça sempre a presença do Espírito.

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios
Irmãos: Não sabeis que um pouco de fermento leveda toda a massa? Purificai-vos do velho fermento, para serdes uma nova massa, visto que sois pães ázimos. Cristo, o nosso cordeiro pascal, foi imolado. Celebremos a festa, não com fermento velho, nem com fermento de malícia e perversidade, mas com os pães ázimos da pureza e da verdade.
Palavra do Senhor.

SEQUÊNCIA PASCAL
À Vítima pascal
Ofereçam os cristãos
sacrifícios de louvor
O Cordeiro resgatou as ovelhas:
Cristo, o Inocente,
reconciliou com o Pai os pecadores.
A morte e a vida
travaram um admirável combate:
depois de morto,
vive e reina o Autor da vida.
Diz-nos, Maria:
Que viste no caminho?
Vi o sepulcro de Cristo vivo,
e a glória do ressuscitado.
Vi as testemunhas dos Anjos,
vi o sudário e a mortalha.
Ressuscitou Cristo, minha esperança:
precederá os seus discípulos na Galileia.
Sabemos e acreditamos:
Cristo ressuscitou dos mortos:
Ó Rei vitorioso,
tende piedade de nós.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO I Cor 5, 7b-8a
Refrão: Aleluia. Repete-se
Cristo, nosso Cordeiro Pascal, foi imolado:
celebremos a festa do Senhor. Refrão

Evangelho Jo 20, 1-9
Pedro e João, juntamente com Madalena, são as primeiras testemunhas do túmulo vazio, naquela manhã de Páscoa. Não foi, porém, muito facilmente que eles chegaram à conclusão de que Jesus estava vivo. A sua fé será progressiva, caminhará entre incredulidade e dúvidas. Só perante as ligaduras e o lençol, cuidadosamente dobrados, o que excluía a hipótese de roubo, se lhes começam a abrir os olhos para a realidade.
No seu amor intuitivo, João é o primeiro a compreender os sinais da Ressurreição. Mas bem depressa Pedro, que, não por acaso mas intencionalmente, ocupa o primeiro lugar e nos aparece já nesta manhã como Chefe do Colégio Apostólico, descobre a verdade, anunciada tão claramente pela Escritura e pelo mesmo Jesus. Depois, em contacto pessoal com o Ressuscitado, a sua fé tornar-se-á firme como «rocha» inabalável.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. João
No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo que Jesus amava e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram». Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro¬. Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro:¬ viu e acreditou. Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.
Palavra da Salvação.

Em vez deste Evangelho pode ler-se o que se leu na Vigília da Noite Santa. Nas Missas Vespertinas pode ler-se o Evangelho de Lc 24, 13-15.

EVANGELHO (Facultativo para as Missas Vespertinas) Lc. 24, 13-35
A pedagogia catequística de Lucas, ao descrever o encontro de Cristo com os discípulos de Emaús, mostra-nos bem qual é o caminho, que leva o cristão a um verdadeiro encontro com Jesus. Na verdade, foi através da Sagrada Escritura que o conhecimento dos discípulos acerca de Jesus se aprofundou e se lhes revelou, claramente, o sentido da Sua missão. Foi, porém, na Eucaristia que
O encontraram: Aquele que julgavam perdido para sempre, está vivo e permanece com eles na Eucaristia. A Escritura e a Eucaristia, como o ensinou o Concílio Vaticano II, são os dois modos pelos quais nos alimentamos do «Pão da Vida» (DV 21).

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. Lucas
Dois dos discípulos de Jesus iam a caminho duma povoação chamada Emaús, que ficava a duas léguas de Jerusalém. Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido. Enquanto falavam e discutiam, Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem. Ele perguntou-lhes: «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?». Pararam, com ar muito triste, e um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único habitante de Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias». E Ele perguntou: «Que foi?». Responderam-Lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado. Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel. Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu. É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram: foram de madrugada ao sepulcro, não encontraram o corpo de Jesus e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos, a anunciar que Ele estava vivo. Alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas a Ele não O viram». Então Jesus disse-lhes «Homens sem inteligência e lentos de espírito para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram! Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória?». Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. Ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de seguir para diante. Mas eles convenceram-n’O a ficar, dizendo: «Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite». Jesus entrou e ficou com eles.
E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O. Mas Ele desapareceu da sua presença. Disseram então um para o outro: «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?». Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, que diziam: «Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão». E eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão.
Palavra da Salvação.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Caríssimos irmãos e irmãs em Cristo:
Neste dia santíssimo da Ressurreição do Senhor,
em que o Espírito nos faz homens novos,
oremos ao Pai para que a alegria da Páscoa se estenda ao mundo inteiro,
dizendo (ou: cantando), com fé:
R. Pela Ressurreição do vosso Filho, ouvi-nos, Senhor.
Ou: Abençoai, Senhor, a vossa Igreja.
Ou: Ouvi-nos, Senhor.
1. Pela Igreja católica e apostólica,
para que se alegre santamente nesta Páscoa
e proclame que o Senhor ressuscitou,
oremos.
2. Por todos os que foram baptizados,
para que aspirem às realidades do alto
e dêem graças pelo seu novo nascimento,
oremos.
3. Pela humanidade inteira,
para que acolha a Boa Nova e a Aliança
que Deus lhe oferece em Cristo ressuscitado,
oremos.
4. Pelas famílias cristãs,
para que o Cordeiro pascal, que é a nossa vida,
as alimente com o seu Corpo e o seu Sangue,
oremos.
5. Pela nossa comunidade (paroquial),
para que cresça no amor a Jesus Cristo
e dê testemunho da sua Ressurreição,
oremos.

Deus santo, Deus da vida, Deus salvador,
que na Ressurreição do vosso Filho
destes ao mundo a vitória sobre a morte,
fazei-nos viver ressuscitados com Ele,
deixando-nos conduzir pelo seu Espírito.
Por Cristo, nosso Senhor

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Exultando de alegria pascal, nós Vos oferecemos, Senhor, este sacrifício, no qual tão admiravelmente renasce e se alimenta a vossa Igreja. Por Nosso Senhor, Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Prefácio pascal I [mas com maior solenidade neste dia].

ANTÍFONA DA COMUNHÃO 1 Cor 5, 7-8
Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado: celebremos a festa com o pão ázimo da pureza e da verdade. Aleluia.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Senhor nosso Deus, protegei sempre com paternal bondade a vossa Igreja, para que, renovada pelos mistérios pascais, mereça chegar à glória da ressurreição. Por Nosso Senhor.
Na despedida, durante toda a Oitava, diz-se:
Ide em paz e o Senhor vos acompanhe. Aleluia. Aleluia.
R. Graças a Deus. Aleluia. Aleluia.

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

Os Apóstolos ou as Santas Mulheres?

A diversidade de comportamento entre os seguidores do Divino Mestre no dia da Ressurreição indica-nos como agradar a Deus, apesar de sermos imperfeitos.

I – É a Páscoa do Senhor!

Após quarenta dias de espera e penitência, acompanha­mos de perto as dores inenarráveis de Nosso Senhor Jesus Cristo na Semana Santa. E finalmente celebra­mos a Ressurreição do Senhor ― mistério essencial de nossa Redenção ―, cujas alegrias e aleluias se estenderão por cin­quenta dias, recordando o tempo que Jesus esteve junto aos seus na Terra, até subir aos Céus, e a fase na qual Nossa Senhora e os Apóstolos aguardaram a descida do Espírito Santo. É um perío­do de júbilo, por significar a passagem da vida anterior, marcada pela culpa original, para a vida nova trazida por Jesus, abrindo as portas do Céu, que estavam fechadas para a humanidade.

Morte e Ressurreição do Homem-Deus

Dentre os efeitos da queda de Adão está a perda do dom de imortalidade e, em consequência, a separação da alma e do corpo no fim da vida, sofrimento tão tremendo, horroroso e in­tenso que não há palavras capazes de exprimi-lo. Quem retor­nou para descrever este trágico momento?

Ora, Nosso Senhor Jesus Cristo, que jamais cometeu qual­quer falta, quis passar por este transe e suportar as dores da morte como nós as padeceremos, para retribuir a Deus a glória que Lhe fora negada pelo pecado e nos redimir. E quando Ele, tendo inclinado a cabeça, entregou o espírito e sua Alma sacros­santa abandonou aquele Corpo adorável e sagrado, ambos per­maneceram unidos à divindade.

Como mostram os Evangelhos, a Paixão de Nosso Senhor teve um caráter processivo: depois de ser julgado, flagelado, es­bofeteado, coroado de espinhos e de carregar a Cruz às costas, sua agonia durou cerca de três horas (cf. Mt 27, 45; Mc 15, 33; Lc 23, 44). E “só quando Ele realizou tudo quanto julgou neces­sário realizar foi que chegou a hora marcada, não pela necessi­dade, mas por sua vontade; não pelas exigências de sua nature­za, mas por seu poder”.1 Em sentido contrário, a Ressurreição foi repentina. Eis um aspecto deste mistério que devemos ter sempre presente: ao terceiro dia, Cristo retomou o Corpo por seu poder di­vino, de modo instantâneo. Não mais um corpo mortal como o nosso ― que assumira ao lon­go de sua vida terrena, por um milagre negativo2 ―, e sim em seu estado normal, ou seja, glorioso, como correspondia à bem-aventurança de sua Alma. E isto por um simples ato de sua divina vontade.

Imaginemos que nessa hora a imensa pedra que cer­rava o sepulcro tenha saltado dos trilhos. Ela havia sido sela­da pelos membros do Sinédrio, que se empenharam, ademais, em pôr uma guarda no local para evitar que o Corpo fosse roubado. Embora sem fé, os príncipes dos sacerdotes e os fari­seus eram profundamente in­teligentes e sabiam que tudo quanto Jesus prometera se havia cumprido, o que os le­vou a fazer deduções claras a respeito da possibilidade de se dar algo inesperado (cf. Mt 27, 62-66). Assim, os soldados foram os primeiros — depois, sem dúvida, de Nossa Senhora3 — a tomar conhecimento da Ressurrei­ção. Assustados, correram para contar aos sinedritas o ocorrido. Estes, presas do pânico, chegaram a pagar­-lhes a fim de espalharem o boato de que o Corpo de Nosso Senhor tinha sido re­tirado à noite pelos discípu­los (cf. Mt 28, 11-13). Eis as imediatas reações diante de um acontecimento que fixa­ria definitivamente o rumo da História da salvação.

II – O testemunho do Discípulo Amado

O Apóstolo São João demonstra especial zelo ao redigir seu Evangelho. Escreve-o, enquanto testemunha ocu­lar, para pessoas que não tiveram contato com Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitado, o que constituiu um privilégio dos Onze, das Santas Mulheres e dos discípulos. Estes últimos somavam mais de quinhentos, que O encontraram quiçá na Ga­lileia (cf. I Cor 15, 6), e é provável que tenham presenciado a sua subida aos Céus, em Betânia (cf. Lc 24, 50-51). Neste sentido, declara São Pedro na primeira leitura (At 10, 34a.37-43), extraí­da dos Atos dos Apóstolos: “Deus O ressuscitou no terceiro dia, concedendo-Lhe manifestar-Se não a todo o povo, mas às teste­munhas que Deus havia escolhido: a nós, que comemos e bebe­mos com Jesus, depois que ressuscitou dos mortos” (10, 40-41). Com efeito, Nosso Senhor teve a delicadeza de tomar alimento na companhia deles para perderem qualquer receio de que fos­se um fantasma. Eles viram, acreditaram, e alguns até puderam n’Ele tocar; outros, em contrapartida, serão chamados a crer, sem ver, vivendo da fé dos primeiros.

Fé tão robusta, firme e inabalável, que os levou a propagar a notícia da Ressurreição do Senhor por toda a parte, dispostos a sofrer o martírio, se necessário fosse, em defesa desta verdade que haviam constatado. Assim, os Apóstolos enfrentaram ufanos as perseguições mais terríveis, e acabaram dando testemunho deste extraordinário episódio com a própria vida. Desta forma, a Fé Ca­tólica se espalhou pelo mundo inteiro, a ponto de Tertuliano afir­mar dos cristãos que se multiplicavam no Império Romano: “Nós somos de ontem; todavia, enchemos vossas cidades, ilhas, fortes, vilas, conselhos, bem como os campos, tribos, decúrias, o palácio, o senado, o foro; apenas vos deixamos os vossos templos. […] Nós poderíamos migrar e vos deixar em situação de vergonha e deso­lação”.4 Santo Agostinho,5 muito atilado e inteligente, chegou a dizer aos incrédulos de sua época que ao negarem a Ressurreição mostravam grande estultice, pois se Nosso Senhor não tivesse res­suscitado, então havia feito um milagre bem maior: a difusão da Igreja Católica por todo o orbe sem ter ressurgido dos mortos.

Analisemos, nesta perspectiva, o trecho recolhido pela Li­turgia do Domingo da Páscoa, conjugado com os relatos dos ou­tros evangelistas.

Imprudência temerária?

1 No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo.

São Marcos narra terem sido três as mulheres que parti­ram de manhã cedo para o túmulo: “Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé” (Mc 16, 1). À primeira vista, como de­finir seu proceder?

Imprudência! Elas não planejaram nada ou, quando muito, o fizeram de maneira insuficiente, não usaram a razão e agiram por impulso. Afinal, sabiam perfeitamente que o Corpo de Jesus já fora preparado (cf. Mt 27, 59-61; Mc 15, 46-47; Lc 23, 53-55), pois antes do sepultamento passara por um cuidadoso processo nas mãos de Nicodemos e de José de Arimateia, que compra­ram para tal os melho­res perfumes e bálsamos (cf. Jo 19, 38-40). Além disso, o Corpo sagrado de Nosso Senhor fora depositado num túmulo fechado por uma lápide, que corria entre dois tri­lhos e havia sido lacrada. Como três mulheres con­seguiriam girá-la? Só no caminho elas pensaram neste detalhe: “Quem nos há de remover a pe­dra da entrada do sepul­cro?” (Mc 16, 3). Sim, quem lhes prestaria este auxílio àquela hora da manhã, num local cus­todiado por guardas (cf. Mt 27, 66)? Outra agravante eram as pres­crições do Direito Romano, que proibiam a violação de uma se­pultura, o que, na verdade, é também contrário ao direito natural. Elas estavam prestes a transgredir as leis civis, num regime tão estrito quanto o do Império.

É também evidente que não tinham pedido licença a São Pedro e aos demais Apóstolos, a qual, decerto, não lhes teria sido concedida. Eles, cientes da suspeita dos judeus de que o Corpo poderia ser roubado, não queriam dar margem a uma ca­lúnia, mandando mulheres ao sepulcro numa hora imprópria. A ação era comprometedora, pois mesmo que elas não lograssem sequer se aproximar, a mera tentativa ocasionaria um escânda­lo, e seria interpretada como uma atitude insuflada pelos Após­tolos, com o objetivo de sondar as condições do lugar para reti­rar o cadáver. Na aparência, o intento era motivado apenas por irreflexão, loucura, imaginação e fantasia. Terá sido exatamente isto? Mais adiante analisaremos com vagar este ponto. Por fim, quando se depararam com o túmulo aberto e vazio, resolveram informar os Onze, às pressas.

Autoridade mais respeitada que os vínculos familiares

2 Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde O colocaram”. 3 Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. 4 Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. 5 Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou.

Entrementes, onde se encontravam os Apóstolos? Reunidos no Cenáculo, com as portas e janelas fechadas: o extremo oposto da atitude im­prudente das mulheres. Ante a notícia do desaparecimento do Corpo, São Pedro e São João saíram correndo para certificar-se da veracidade do anúncio de Santa Maria Madalena. Era o que lhes cabia fazer ante tal surpresa.

São João adiantou-se e chegou primeiro ao túmulo, pois era jovem e ágil, enquanto São Pedro já sentia sobre si o peso das dé­cadas. Chama a atenção o respeito do Evangelista por Pedro, em virtude da idade. É este, sem dúvida, um aspecto real, porém não o mais importante. Sabemos que os familiares gozam de prece­dência sobre os corpos dos seus falecidos, inclusive com relação às autoridades. Ora, na qualidade de parente de Nosso Senhor, João teria direito de ingressar no sepulcro de imediato, precedendo Pedro que não possuía qualquer vínculo sanguíneo com o Mestre. No entanto, compreendendo que ele fora constituído Chefe da Igreja nascente, o Discípulo Amado ignorou os laços humanos e deteve-se à entrada, para esperar que o primeiro Papa chegasse.

A incompreensão de São Pedro

6 Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão 7 e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte.

Ao penetrar no sepulcro e ver tudo em perfeita ordem ― conforme a descrição deste versículo ―, São Pedro concluiu que o Corpo não fora roubado. É incontestável que a única preocu­pação de um ladrão consiste em furtar aquilo que deseja e nunca se empenha em deixar objetos remexidos por ele no seu devido lugar; pelo contrário, o caos é o indício normal de sua passagem por uma casa. “Se alguém tivesse mudado a localização do Cor­po” ― comenta São João Crisóstomo ― “não o teria desnudado para isso. Ou, se o tivessem roubado, não teriam tido o traba­lho de tirar o sudário da cabeça, enrolá-lo e colocá-lo à parte. Como teriam feito? Teriam levado o Corpo tal como estava”.6

A despeito das evidências, São Pedro não entendeu o que suce­dera e não acreditou. Ele ainda não havia recebido uma graça especial para crer na Ressurreição.

O Discípulo Amado acreditou pela fé de Nossa Senhora

8 Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou. 9 De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual Ele devia ressuscitar dos mortos.

Bem diversa foi a reação do Discípulo Amado. Ele en­trou, fez uma inspeção do túmulo junto com São Pedro e acredi­tou. Por conseguinte, foi o primeiro a ter fé ― depois de Nossa Senhora ―, mesmo sem qualquer contato com Jesus ressusci­tado e, neste sentido, superou inclusive Santa Maria Madalena. Como podemos explicar isto? “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus!” (Mt 5, 8). De fato, a condição de Apóstolo Virgem conferia a São João uma elevada visão da realidade e uma superior sabedoria.

Não nos esqueçamos, também, da cena aos pés da Cruz: “Quando Jesus viu sua Mãe e perto d’Ela o discípulo que amava, disse à sua Mãe: ‘Mulher, eis aí teu filho’. Depois disse ao discí­pulo: ‘Eis aí tua Mãe’. E dessa hora em diante o discípulo A levou para a sua casa” (Jo 19, 26-27). Fiel aos desígnios do Senhor, “ele A guardará como seu bem, ele substituirá junto a Ela seu Divi­no Amigo; ele A amará como sua própria mãe; ele será por Ela amado como um filho”.7 É natural que, desde então, se estabe­lecesse um entrelaçamento profundo e um relacionamento ínti­mo entre ambos. Como seriam as conversas de Maria com João! Em circunstâncias tão trágicas quanto estas, o tema dos colóquios terá sido a Paixão e Morte de Nosso Senhor. Maria Santíssima, embora com a alma traspassada de dor, era a única que conser­vava acesa a certeza da Ressurreição do Senhor, enquanto todos os outros, insuficientes na fé, eram incapazes de alcançar o signifi­cado daquilo que Jesus lhes revelara repetidas vezes: “O Filho do Ho­mem deve ser entregue nas mãos dos pecado­res e crucificado, mas ressuscitará ao terceiro dia” (Lc 24, 7). A Igreja vivia, portanto, de sua extraordinária fé.

Num misto de so­frimento, alegria e san­ta ansiedade, Nossa Se­nhora ardia em desejos de que seu Filho ressur­gisse, e o terá confiden­ciado a São João para consolá-lo, manifestan­do-lhe o momento em que isto aconteceria. De forma que, quando Santa Maria Madalena irrompeu no Cenáculo e contou que o Corpo não estava no túmulo, ele se lembrou imedia­tamente das palavras de Maria Santíssima. E, mais tarde, ao constatar que não se tratava de roubo, soube dis­cernir, na meticulosa disposição das faixas de linho e do pano, a mão daquele Senhor que é a ordem por excelência, a própria or­dem do universo. E ele acreditou! Por isso escreve estes versículos para convencer os que não viram e deveriam crer, como se disses­se: “Eu acreditei sem ter visto e só depois recebi a confirmação. Vós também precisais acreditar”.

III – Perante a Ressurreição: amor ou indiferença?

Curto foi o espaço de tempo transcorrido entre os epi­sódios narrados neste trecho e a aparição de Nosso Se­nhor às Santas Mulheres, que partiram em seguida para dar a Boa-nova da Ressurreição aos Apóstolos (cf. Mt 28, 9-10; Mc 16, 9-10; Jo 20, 14-18). Porém, a reação deles foi de descren­ça (cf. Mc 16, 11), pois “essas notícias pareciam-lhes como um delírio” (Lc 24, 11), deixando-os alarmados (cf. Lc 24, 22). O contraste entre a postura dos discípulos — resguardados por medo dos judeus (cf. Jo 20, 19) — e a de Santa Maria Madalena e suas companheiras mostra que enquanto os homens são pru­dentes e guiam-se pela razão, as mulheres cometem loucuras…

Contudo, como procedeu Jesus ante a cautela de uns e a temeri­dade de outros?

Aos Apóstolos, Ele “censurou-lhes a incredulidade e dure­za de coração, por não acreditarem nos que O tinham visto res­suscitado” (Mc 16, 14), e só Se pôs no meio deles depois de ter ido ao encontro das mulheres, às quais, pelo contrário, demons­trou complacência, além de enviar-lhes Anjos (cf. Mt 28, 1-7; Mc 16, 5-7; Lc 24, 4-7; Jo 20, 12-13) que as trataram com espe­cial cortesia. E mais, os discípulos, incumbidos de divulgar a ver­dade pelo mundo inteiro, acabaram por ser evangelizados pelas Santas Mulheres que, ao sair correndo para anunciar a Ressur­reição, se tornaram apóstolos dos Apóstolos.

O amor conquista a benevolência de Deus

Subentende-se, então, que Nosso Senhor gosta de atitudes irrefletidas? Com efeito, o amor delas não era totalmente puro por estar misturado com imprudências. Basta observarmos que Nossa Senhora não Se incorporou à aventura, sinal de não ser esta isenta de certo desatino. E elas próprias tampouco creram logo de início, uma vez que o aviso dado a São Pedro e a São João foi apenas sobre o desaparecimento do Corpo. Não obs­tante, possuíam um amor mais intenso que o dos Apóstolos. Sua conduta, apesar dos defeitos, é de quem ama.

Isto põe em evidência uma realidade impressionante sin­tetizada na célebre frase de Santo Agostinho: “Dilige, et quod vis fac ― Ama e faze o que queres”.8 Quando há caridade, ain­da que imperfeita, Deus aceita as nossas disposições com bene­volência e as aprimora. Assim, entre a prudência dos discípulos e o desvario das Santas Mulheres, Nosso Senhor Jesus Cristo pendeu para este último. Por quê? No comportamento prudente não havia amor e no insensato, sim. Se Jesus premiou a audácia, foi graças a algo de saudável e santo a ela ligado.

A supremacia do amor

Que concluir deste episódio em benefício de nossa vida espiritual? Ele serve para nos mostrar quanto a razão é impor­tante e a doutrina deve ser assimilada de modo exímio. Mas, ao mesmo tempo, manifesta que a ousadia com base numa intui­ção dada pelo amor pode sobrepujar a ação originada do sim­ples conhecimento. Isto porque a audácia está vinculada ao dom de conselho, e este é superior à virtude da prudência. Ora, se alguém age de acordo com a prudência, seus atos são humanos, embora auxiliados pela graça; enquanto pelo dom de conselho a alma recebe uma inspiração certeira ― que transcende a razão discursiva ―, mediante a qual escolhe o caminho a seguir e, sal­tando as premissas, chega logo à conclusão, sob uma moção do Espírito Santo. Inúmeros feitos, no decurso dos séculos, revelam isto. Conta-se que Hernán Cortés, prevenindo a defecção dos homens de sua comitiva — tentados de abandoná-lo na heroica gesta de conquistar o imenso México para Nosso Senhor Jesus Cristo com algumas poucas centenas de soldados —, mandou destruir os navios de sua própria frota, a fim de impedir-lhes a retirada. Audácia levada ao extremo, resolução épica, não fruto de um pausado silogismo, mas de uma infusão do dom de conse­lho. É como a mãe que, pelo instinto materno, discerne com cla­reza a doença do filho que os médicos não conseguem descobrir.

Princípio este que com tanta propriedade exprimiu Joseph de Maistre: “La raison ne peut que parler, c’est l’amour qui chante — A inteligência só sabe falar, o amor é que canta”.9 E também Pascal, em sua famosa sentença: “O coração tem suas razões que a razão não compreende!”.10 De fato, este amor é fonte de conselho, de entusiasmo, de certos arrojos que dificilmente brotam do puro raciocínio. É, pois, primordial amar, porque a nossa Santa Religião é sobremaneira grande para ser só entendida, ou para a ela aderir­mos partindo do mero intelecto. Com Santa Teresinha do Menino Jesus, é preciso exclamar: “Compreendi que só o Amor fazia agir os membros da Igreja e que se o Amor viesse a se extinguir, os Apóstolos não anunciariam mais o Evangelho, os mártires recu­sariam derramar seu sangue… Compreendi que o Amor encerra todas as vocações, que o Amor é tudo, que abraça todos os tempos e todos os lugares… Numa palavra, que ele é eterno!…”.11

Se condensássemos o Evangelho num único termo, este seria amor! Eis um dos importantes ensinamentos contidos nos relatos evangélicos da Ressurreição. Com o coração abrasa­do entreguemo-nos a Cristo por inteiro, sabendo que as nossas audácias são tomadas por Ele com benevolência.

IV – A Ressurreição: prenúncio da glória reservada aos batizados

Em muitos países de tradição cristã costuma-se comemo­rar a Ressurreição com a troca de ovos de Páscoa. Belo símbolo, porque o ovo contém em si um germe de vida. Ele representa o inestimável benefício trazido pela Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, pré-figura da nossa.

A Ressurreição conquistou-nos a verdadeira vida

Nós estávamos mortos, porque carregávamos a herança do pecado original cometido por nossos pais Adão e Eva, mas o Salvador nos obteve uma vida nova, infinitamente mais valio­sa que a humana: a participação na própria vida divina. E este tesouro merece ser tratado com especial carinho, dirigindo nos­so amor no rumo certo, segundo o ensinamento da Liturgia do Domingo da Páscoa.

Por isso São Paulo nos recomenda na segunda leitura (Col 3, 1-4) que, uma vez mortos para os vícios e ressuscitados com Cristo, orientemos nossas preocupações para o que vem do alto e não para as coisas concretas que desviam os olhos e o coração de nosso destino eterno, tal como os defuntos não mais se ocupam de seus antigos afazeres ao deixarem esta Terra. Quanta febricitação, fruto do egoísmo e da vaidade! Quanta ilu­são com o mundo, os elogios, a repercussão social! Quanta aten­ção à saúde e ao dinheiro! Cuidados que, até não que têm de legítimo, nos arrastam e nos toldam os horizontes, e constituem uma falta contra o Primeiro Mandamento, tão pouco considera­do em nosso exame de consciência.

A alegria da ressurreição final

Entretanto, tenhamos presente que Nosso Senhor Jesus Cristo virá para julgar os vivos e os mortos. Então, a uma voz de comando d’Ele, num só instante, as almas reencontrarão os corpos, auxiliadas pelos Anjos da Guarda que se encarregarão de reunir as cinzas.12 Enquanto peregrinamos neste vale de lá­grimas, recordemos que há apenas dois caminhos ao término dos quais nos espera a eternidade feliz no Céu ou a padecente e infeliz, no inferno. Não há uma terceira via!

Após a nossa ressurreição, quando afinal sairmos deste “ovo”, a contemplação de Deus nos cumulará de tanta alegria e consolo que não haverá mais possibilidade do menor sofrimento. Será um gozo espiritual, já que nossos olhos carnais não foram feitos para ver a Deus. No entanto, é necessário que o corpo acompanhe a alma neste estado, dada a entranhada união exis­tente entre ambos. Assim, ele se tornará espiritualizado e a tal ponto a alma o dominará que, por um simples desejo, esta elabo­rará as próprias roupas sem precisar recorrer a ilustres alfaiates. No exterior transparecerão as maravilhas postas no interior por um dom divino, conforme afirma São Paulo, ainda na segunda lei­tura: “Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com Ele, revestidos de glória” (Col 3, 4). A ressurreição produzirá em cada Bem-aventurado uma tão gran­de transformação que não nos reconheceremos mais.

Eis o futuro que nos aguarda, tão superior a qualquer expectativa que não somos sequer capazes de excogitar como será. “Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que O amam” (I Cor 2, 9). Peçamos a Cristo Jesus que nos conceda, em sua infinita misericórdia, a plenitude da vida sobrenatural conquistada por sua Morte e Ressurreição.

 

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1) SANTO AGOSTINHO. In Ioannis Evangelium. Tractatus VIII, n.12. In: Obras. 2.ed. Madrid: BAC, 1968, v.XIII, p.241.

2) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.14, a.1, ad 2.  

3) A respeito deste tema, ver: CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. Uma mulher pre­cedeu os evangelistas. In: Arautos do Evangelho. São Paulo. N.75 (Mar., 2008); p.10-17; Comentário ao Evangelho do Domingo da Páscoa na Ressurreição do Se­nhor – Ano A, no Volume I desta coleção.  

4) TERTULIANO. Apologeticum, XXXVII: ML 1, 462-463.

5) Cf. SANTO AGOSTINHO. De Civitate Dei. L.XXII, c.5. In: Obras. Madrid: BAC, 1958, v.XVI-XVII, p.1633-1636.

6) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía LXXXV, n.4. In: Homilías sobre el Evangelio de San Juan (61-88). Madrid: Ciudad Nueva, 2001, v.III, p.281.

7) GUÉRANGER, OSB, Prosper. L’Année Liturgique. Le Temps de Noël – I. 20.ed. Tours: Alfred Mame et fils, 1919, p.328.

8) SANTO AGOSTINHO. In Epistolam Ioannis ad Parthos tractatus decem. Tracta­tus VII, n.8. In: Obras. Madrid: BAC, 1959, v.XVIII, p.304.

9) DE MAISTRE, Joseph. Essai sur le principe générateur des constitutions politiques et des autres institutions humaines. Paris: L. Ecclésiastique, 1822, p.19, nota 3.

10) PASCAL, Blaise. Pensées sur la religion. C.II, n.14. In: Pensées. Dijon: Victor La­gier, 1835, p.50.  

11) SANTA TERESA DE LISIEUX. Manuscrito B. Minha vocação é o amor. In: Obras Completas. São Paulo: Paulus, 2002, p.172.

12) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., Suppl., q.77, a.4, ad 4.