Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

20 de Junho

XII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA Salmo 27, 8-9
O Senhor é a força do seu povo,
o baluarte salvador do seu Ungido.
Salvai o vosso povo, Senhor, abençoai a vossa herança,
sede o seu pastor e guia através dos tempos.

ORAÇÃO COLECTA
Senhor, fazei-nos viver a cada instante
no temor e no amor do vosso Santo nome,
porque nunca a vossa providência abandona
aqueles que formais solidamente no vosso amor.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Job 38, 1.8-11
«Aqui se quebrará a altivez das tuas vagas»
As forças da natureza deslumbram, por vezes, o homem, e frequentemente o dominam e até o aterrorizam. Mas, se ele as contemplar com serenidade e humildade, pode reconhecer nelas o poder de Deus e a sua grandeza. Deus a isso nos convida, como um dia o fez a Job, convidando-o a reconhecer o Criador ao olhar para as suas criaturas, o mar em particular, que hoje no Evangelho vai deixar também maravilhados os discípulos de Jesus.
Leitura do Livro de Job
O Senhor respondeu a Job do meio da tempestade, dizendo: «Quem encerrou o mar entre dois batentes, quando ele irrompeu do seio do abismo, quando Eu o revesti de neblina e o envolvi com uma nuvem sombria, quando lhe fixei limites e lhe tranquei portas e ferrolhos? E disse-lhe: ‘Chegarás até aqui e não irás mais além, aqui se quebrará a altivez das tuas vagas’».
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 106 (107), 23-24.25-26.28-29.30-31 (R. 1b)
Refrão: Dai graças ao Senhor,
porque é eterna a sua misericórdia. Repete-se
Ou: Cantai ao Senhor,
porque é eterno o seu amor. Repete-se

Os que se fizeram ao mar em seus navios,
a fim de labutar na imensidão das águas,
esses viram os prodígios do Senhor
e as suas maravilhas no alto mar. Refrão

À sua palavra, soprou um vento de tempestade,
que fez encapelar as ondas:
subiam até aos céus, desciam até ao abismo,
lutavam entre a vida e a morte. Refrão

Na sua angústia invocaram o Senhor
e Ele salvou-os da aflição.
Transformou o temporal em brisa suave
e as ondas do mar amainaram. Refrão

Alegraram-se ao vê-las acalmadas,
e Ele conduziu-os ao porto desejado.
Graças ao Senhor pela sua misericórdia,
pelos seus prodígios em favor dos homens. Refrão

LEITURA II 2 Cor 5, 14-17
«Tudo foi renovado»

O mistério pascal de Cristo, a sua morte que O levou à glória da ressurreição, constitui o início de uma criação nova. É a fé neste mistério que exerce pressão sobre os cristãos e os há-de impelir a viverem dele e a proclamá-lo ao mundo inteiro, como já impeliu S. Paulo depois da sua conversão. A vida cristã é uma vida pascal, cada dia renovada.

Leitura da Segunda Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios
Irmãos: O amor de Cristo nos impele, ao pensarmos que um só morreu por todos e que todos, portanto, morreram. Cristo morreu por todos, para que os vivos deixem de viver para si próprios, mas vivam para Aquele que morreu e ressuscitou por eles. Assim, daqui em diante, já não conhecemos ninguém segundo a carne. Ainda que tenhamos conhecido a Cristo segundo a carne, agora já não O conhecemos assim. Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. As coisas antigas passaram: tudo foi renovado.
Palavra do Senhor.

ALELUIA Lc 7, 16
Refrão: Aleluia. Repete-se
Apareceu entre nós um grande profeta:
Deus visitou o seu povo. Refrão

EVANGELHO Mc 4, 35-41
«Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe obedecem?»

Se a contemplação da obra da criação nos pode levar a reconhecer a presença de Deus junto dos homens, quanto mais a contemplação das obras realizadas por Jesus Cristo, o próprio Filho de Deus feito homem? E mais ainda do que acalmar a tempestade no lago da Galileia, o Senhor sempre presente na barca da Igreja, continua a trazer a paz e a bonança ao seu povo batido pelas vagas na travessia do mar desta vida a caminho do porto seguro da glória celeste.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse aos seus discípulos: «Passemos à outra margem do lago». Eles deixaram a multidão e levaram Jesus consigo na barca em que estava sentado. Iam com Ele outras embarcações. Levantou-se então uma grande tormenta e as ondas eram tão altas que enchiam a barca de água. Jesus, à popa, dormia com a cabeça numa almofada. Eles acordaram-n’O e disseram: «Mestre, não Te importas que pereçamos?». Jesus levantou-Se, falou ao vento imperiosamente e disse ao mar: «Cala-te e está quieto». O vento cessou e fez-se grande bonança. Depois disse aos discípulos: «Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?». Eles ficaram cheios de temor e diziam uns para os outros: «Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe obedecem?».
Palavra da salvação.

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Por este sacrifício de reconciliação e de louvor,
purificai, Senhor, os nossos corações,
para que se tornem uma oblação agradável a vossos olhos.
Por Nosso Senhor.

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Salmo 144, 15
Os olhos de todos esperam em Vós, Senhor,
e a seu tempo lhes dais o alimento.

Ou Jo 10, 11.15
Eu sou o Bom Pastor
e dou a vida pelas minhas ovelhas, diz o Senhor.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Senhor, que nos renovastes
pela comunhão do Corpo e do Sangue de Cristo,
fazei que a participação nestes mistérios
nos alcance a plenitude da redenção.
Por Nosso Senhor..

 

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

A borrasca: um castigo ou uma graça?

É bem paradigmática — não só para cada alma, mas também para a Igreja — esta tempestade pela qual passaram os Apóstolos: após as borrascas, a Igreja ergue-se sempre mais forte, mais jovem e com a sua beleza incomparavelmente acrescida.

I – Um pouco de História

Entre os grandes sermões sobre o Reino — o da Mon­tanha e o das parábolas — deu-se a viagem narrada no Evangelho de hoje, tendo como ponto de partida a fa­mosa cidade de Cafarnaum, à qual Jesus e seus discípulos ainda retornariam.

Sempre rodeado de muita gente, conseguia ser mais visto e ouvido por todos quando utilizava a natural inclinação da praia e os momentos de calmaria das águas, ao pregar de dentro de uma barca no Lago de Tiberíades. Este “Mar” de Genesaré ou da Galileia, como costumeiramente é chamado, e que se localiza ao nordeste da Palestina, com o tempo passou a ser a fronteira oriental da Galileia. Tem um tamanho considerável, sobretudo para as diminutas concentrações populacionais daqueles tem­pos, pois chega a ter 12 km de largura e 21 km de comprimento, com uma superfície de 170 km2, e entre 12 a 18 m de profun­didade em certas partes.1 Segundo o historiador Flávio Josefo2, por essa época o grande lago era cenário de uma intensa ativida­de. Havia 230 embarcações só em Magdala, sinal da grande pro­dutividade da indústria pesqueira em toda a circunvizinhança.

É junto às margens deste lago que se encontra a famosa cidade de Magdala, na qual Maria, irmã de Lázaro, decaíra mo­ralmente. Ali viveu durante anos, num castelo à beira das águas, antiga propriedade de sua família. Cidade, naquela época, de grande circulação de mercadorias, de refinado luxo e, como con­sequência, de costumes corrompidos. É nas proximidades deste lago que, além de Cafarnaum, encontramos as outras duas cida­des que mais assistiram aos milagres do Senhor, sem se conver­ter: Corozaim e Betsaida.

Nessas regiões Nosso Senhor atuou seguidamente, reali­zando retumbantes milagres como a multiplicação dos pães e dos peixes, e empreendendo uma de suas mais famosas viagens.

II – O acontecimento

A multidão se espremia a cada instante para melhor acompanhar as maravilhas saídas dos lábios do Sal­vador. De fato, dissera Ele: “Está escrito: ‘Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus’” (Mt 4, 4). Todos estavam presos àquela adorável voz. Queriam aproveitar as nesgas de luz solar que ainda restavam, para se alimentar daqueles manjares eternos. Por outro lado, em meio ao cansaço daquela ininterrupta jornada, Jesus planejava lançar mão de um de seus refúgios, assim classificados por São Remígio: “Lê-se que o Senhor teve três refúgios, a saber: o bar­co, o monte e o deserto. Sempre que a multidão O assediava, refugiava-Se em um deles”.3

O Divino Mestre, antes do anoitecer, determinou aos Após­tolos que rumassem ao outro lado, ou seja, à cidade de Gerasa. Chegara o momento dos últimos pedidos e das incontáveis des­pedidas finais, naquele alvoroço tão próprio ao temperamento oriental. Não deviam faltar aqueles ou aquelas que, não se im­portando em algo molhar suas vestimentas, aproximaram-se da embarcação para se beneficiar das derradeiras graças daquele abençoado convívio.

Para melhor exercitar a confiança no Pai, alçadas as ânco­ras, partiram as embarcações sem nenhuma provisão. Comenta o padre Andrés Fernández Truyols:

“O mar estava em bonança; o barco deslizava, suave e ágil, sobre o liso cristal das águas.

“Os Apóstolos conversavam tranquilamente e faziam seus cálculos: dentro de umas duas horas, antes do cair da noite, che­gariam à margem oposta, distante apenas uns 12 km. Estavam longe de pensar que, pouco depois, uma súbita tempestade po­ria sua fé e confiança a dura prova, proporcionando ao Divino Mestre a ocasião de dar uma esplêndida mostra de seu soberano poder.

“Este diminuto Mar da Galileia, que de ordinário apresen­ta-se na aprazível tranquilidade de suas águas, guarda sempre latente a ameaça de alguma furiosa tempestade.

“Situado a mais de 200 m abaixo do nível do Mediterrâ­neo, e como que apertado de quase todos os lados por um cintu­rão de montes, recebe sobre sua lisa superfície os ventos que se precipitam do alto do Hermon. Sob este duro golpe suas águas se revoltam e saltam como fogoso corcel ferido pelo chicote. Foi o que se passou neste dia em que os Apóstolos, ao deixarem a pequena enseada, viram as águas muito tranquilas, sem notar o menor indício de tormenta próxima.

“Jesus aproveitou esta tranquilidade para descansar das fadigas do dia. Estendeu-Se na popa, apoiando a cabeça, como nota Marcos (cf. Mc 4, 38), sobre o travesseiro, provavelmente um saquinho de couro cheio de lã, simples e tosco, que, para co­modidade dos próprios marinheiros ou talvez de algum viajante distinto, com certeza as barcas costumavam levar, uma vez que o Evangelista trata disso como algo bem determinado e conhe­cido, acrescentando o artigo (ἐπὶ τò πρoσχεφάλατoν). Como os Anjos do Céu deveriam estar contemplando seu Rei e Senhor deitado sobre a dura madeira: restaurando suas forças com o so­no, Aquele que vigia desde toda a eternidade; vencido pela fadi­ga, Aquele que move com seu dedo o universo inteiro!

“De súbito, desenhou-se no rosto dos Apóstolos um movi­mento de inquietação; interrompeu-se a conversa, fixaram-se as vistas no horizonte: sua longa experiência lhes fazia pressentir uma borrasca. E ela se precipitou, desde logo com um ímpeto formidável.

“Enquanto fremia a tempestade, Jesus continuava dor­mindo.

“A princípio os Apóstolos respeitariam o sono do Mes­tre. Desceriam as velas, tomariam os remos, poriam em jogo os meios sugeridos por sua perícia na arte de navegar, para enfren­tar o perigo ameaçador. Mas o mar se enfurecia mais e mais, e a embarcação corria o risco de ser tragada pelas ondas. Então, como supremo recurso, achegam-se ao Mestre: ‘Senhor, salva­-nos, pois perecemos!’. Ou, segundo a expressão mais viva de São Marcos: ‘Mestre, não Te importas que pereçamos?’.

“Tais palavras revelam bem quão turbados estavam os Apóstolos e como havia diminuído sua confiança. Contudo, não estava Jesus com eles? Não estava ali quem disse: ‘Fui Eu quem pôs a areia por limite do mar […]; por mais que se lhe agitem as ondas, são impotentes, se encresparão, mas não irão além’ (Jr 5, 22)?” 4.

III – O Evangelho

35 Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse a seus discípulos: “Vamos para a outra margem!”

São Lucas também nos relata o fato (cf. Lc 8, 22-25). São Mateus se cala sobre este particular. Embora nenhum dos dois Evangelistas declare as razões que levaram o Divino Mestre a tomar esta decisão, são elas dedutíveis com fa­cilidade. Como anteriormente dissemos, sintetizam-se na estafa física depois de um laborioso dia. Não nos esqueçamos da na­tureza humana de Jesus, se bem estivesse unida à divina. São João também menciona o cansaço do Salvador na passagem em que Ele, estando sentado junto ao poço, vê surgir a samaritana, quando também manifesta ter sede (cf. Jo 4, 6-7).

No presente episódio, a plausibilidade desta hipótese se torna clara pelo profundo sono no qual Jesus caiu, logo depois de subir à barca.

36 Eles despediram a multidão e levaram Jesus consigo, assim como estava, na barca. Havia ainda outras barcas com Ele.

Maldonado5 interpreta o fato de tomarem os Apóstolos a mesma embarcação de Jesus como algo providencial, pois quan­do Ele os repreendesse pela falta de fé, isso poderia ser feito com toda a liberdade. Parece-nos, porém, mais provável que as cir­cunstâncias assim o exigissem, uma vez que a barca lhes pertencia. Além disso, já se tornara tradicional estarem eles com o Mestre.

Também tradicional era a falta de preparativos para a via­gem. Quantos pães e peixes possuíam eles por ocasião dos dois milagres de sua multi­plicação? “Não leveis coisa alguma para o caminho, nem bor­dão, nem mochila, nem pão, nem dinhei­ro, nem tenhais duas túnicas” (Lc 9, 3), dis­sera-lhes Ele. Por isso conduziram-No na barca na situação em que se encontravam. De outro lado, pon­dera São João Crisós­tomo,6 Jesus quis tê­-los por testemunhas de seus milagres, mas desejava evitar aos outros o escândalo de verem que eles tinham tão diminuta fé.

Levantou-se uma grande tempestade

37 Começou a soprar uma ventania muito forte e as ondas se lançavam dentro da barca, de modo que a barca já começava a se encher.

Esta tempestade não se armou por acaso. Não poucas ve­zes, por causa de uma preocupação naturalista, quer-se atribuir aos elementos a causa, a força e a glória dos milagres. Tão sim­plória tendência chama a atenção de certos autores de fama, co­mo, por exemplo, Fillion: “Em cada uma das categorias dos mi­lagres evangélicos já ficaram indicadas as objeções mais comuns e mais recentes do racionalismo, e os princípios que ajudam a refutá-las. Não é, pois, necessário ocupar-nos das elucubrações da crítica liberal acerca dos milagres do Salvador, considerados isoladamente”.7 E, a seguir, o conceituado autor expõe o pensa­mento de vários dos racionalistas contemporâneos.

Infelizmente os limites deste artigo não permitem discor­rer sobre esse recalcitrante racionalismo, um mal muito mais difundido do que parece. Contra seu dogmatismo, lembremo­-nos de que “pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e pelo sopro de sua boca todo o seu exército. Ele junta as águas do mar como num odre, e em reservatórios encerra as ondas” (Sl 32, 6-7). Esse é o poder de Deus, muito acima do poder da razão humana, também por Ele criada.

“Começou a soprar uma ventania muito forte”. Alguns au­tores admitem ter sido esta tempestade ordenada pelo próprio Senhor, e foi ela muito forte para que grande fosse o prodígio. Ademais, quanto maior fosse o medo dos seus discípulos, maior seria o alívio de, por Ele, terem sido salvos.

As tormentas interiores

Ao longo dos dois últimos milênios, é habitual os comenta­ristas fazerem uma aproximação entre este paradigmático episó­dio e a Igreja ou a alma, em sua vida espiritual. Quando falam da Igreja, referem-se mais às perseguições por ela sofridas, assim como às divisões e heresias surgidas em seu seio. Ao fazerem a aplicação à alma, concentram sua atenção nos justos e não nos pe­cadores, os quais, ainda que possam ser considerados como uma “barca”, nesta não Se encontrará Cristo, nem sequer dormindo.

Seja como for, todos nós passamos por tormentas interio­res, às vezes, violentas. Dão-se elas por causas exteriores, mas com frequência também por razões interiores. Sobre estas se multiplicam as apreciações destes ou daqueles autores, como, por exemplo, as de São João de Ávila:

“Há aqueles que perderam esta joia da castidade por casti­go de Deus que, como diz São Paulo, com justo juízo os abando­nou ‘aos desejos desonestos de seus corações’ (Rm 1, 24), como nas mãos de cruéis carrascos. […] E mesmo que isso seja geral com todos os pecados, é especialmente com o da soberba. Deus costuma castigar a soberba secreta com a luxúria manifesta. Na­bucodonosor, por castigo de sua soberba, foi rebaixado ao nível dos animais (cf. Dn 4, 22.29-30), no qual permaneceu até conhe­cer e confessar que a excelência do Reino é de Deus.

“Há quem tem a soberba da castidade, crendo quase que ela é devida às suas forças. Deus o expulsa de entre os seus e, uma vez fora da companhia dos Anjos, ele cai entre os animais.

“Outros são soberbos e desprezam seus próximos por vê­-los carentes de virtude, sobretudo da castidade. Parecem-se com o fariseu em sua oração: ‘Não sou mau como os outros ho­mens, nem adúltero’ (Lc 18, 11). Quantas pessoas já vi serem castigadas com a queda por cometer este pecado! ‘Não conde­neis e não sereis condenados’ (Lc 6, 37). ‘Com a mesma medida que medirdes sereis medidos’ (Mt 7, 2). ‘Ai de ti que desprezas, porque serás desprezado!’ (Is 33, 1).

“Somos, todos os homens, da mesma massa, e todos po­demos cair nos pecados em que tenham caído nossos próximos. Tiremos, pois, bem do mal alheio, tomando como salutar adver­tência para nós, sem parecermos a áspide que sabe tirar o mal, como seria a soberba.

“Não nos esqueçamos de Davi, o qual, segundo diz São Basílio, caiu porque, posto diante da abundância de graças, acreditou-se seguro. ‘Eu disse em minha abundân­cia: Não serei jamais mu­dado’ (Sl 29, 7). Esqueceu­-se da sentença do Ecle­siástico: ‘No dia dos bens que temos, recordemo-nos dos males em que podemos cair’.

“Parecida com esta soberba é a vã confiança de quem procura a casti­dade apoiando-se apenas em suas próprias forças. Este pode repetir o que foi dito pelos Apóstolos: ‘Tra­balhamos a noite inteira em vão’ (Lc 5, 5); ou pelo Eclesiastes: ‘Quanto mais eu a procurava, tanto para mais longe fugiu de mim’. O que significa excesso de confiança em si e falta de oração ao Senhor e a Ma­ria.

“Quando era o tempo em que os reis saíam para batalhar (cf. II Sm 11, 1), Davi enviou seus generais, mas ele, acentua o li­vro santo, deixou-se ficar em casa e, passeando, caiu na tentação e no pecado de adultério. Quem foge do trabalho e do cumpri­mento de suas obrigações, logo será tentado.

“Por fim, a rebeldia da carne, de que sofre a humanidade, vem da desobediência de Adão. Quem desobedece a Deus e a seus representantes — os superiores — costuma ser logo casti­gado com a revolta de suas potências inferiores à razão”.8

A quem Deus castiga? Por incrível que pareça, Ele per­mite à tempestade desabar sobre as almas amadas por Ele. É o próprio Deus que declara fazer uso deste procedimento: “Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes de que Ele te repreenda, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima” (Pr 3, 11-12); “Eu re­preendo e castigo aqueles que amo” (Ap 3, 19).

Deus nos corrige através da tribulação

Santo Agostinho é também categórico a este propósito, pois assevera não pertencer à classe dos filhos quem não passa por tri­bulações. E em São Paulo encontramos a perfeita explicação: “Es­tais sendo provados para a vossa correção: é Deus que vos trata co­mo filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige? Mas se permanecêsseis sem a correção que é comum a todos, seríeis bas­tardos e não filhos legítimos. Aliás, temos na Terra nossos pais que nos corrigem e, no entanto, os olhamos com respeito. Com quanto mais razão nos havemos de submeter ao Pai de nossas almas, o qual nos dará a vida? Os primeiros nos educaram para pouco tem­po, segundo a sua própria conveniência, ao passo que este o faz para nosso bem, para nos comunicar sua santidade” (Hb 12, 7-10).

Estes trechos das Escrituras fazem-nos melhor compreen­der quanto o aparente sucesso dos maus, suas delícias e pros­peridade muitas vezes podem significar um dos piores castigos. Davi nos ensina como “em sua arrogância, o ímpio diz: Não há castigo, Deus não existe […]. Nada me abalará, jamais terei má sorte” (Sl 9, 25.27).

Desta forma, podemos dizer de Deus que, sendo Pai de toda consolação, é também o Pai da tribulação. Através desta, Ele nos corrige. Castiga-nos a fim de nos emendarmos, pois jamais quer a morte do pecador, e sim que se converta e viva (cf. Ez 33, 11).

Bons e maus passam por borrascas

Em síntese, bons e maus passam por borrascas; o proble­ma está na disposição interior de uns e de outros durante elas, conforme explica Santo Agostinho: “Apesar de [os justos e os maus] sofrerem o mesmo tor­mento, virtude e vício não são a mesma coisa. Assim como com um mesmo fogo o ouro resplandece e a palha fumega, com o mesmo debulhador se tritura a palha e se limpa o grão, e não se confunde o resíduo da azeitona com o azeite por terem sido prensados com o mesmo peso, assim também uma mesma ad­versidade prova, purifica e aprimora os bons, enquanto reprova, destrói e aniquila os maus. Por conseguinte, em idêntica dificul­dade, os maus abominam a Deus e blasfemam contra Ele, e os bons O glorificam e suplicam misericórdia. Eis aqui a impor­tância da qualidade, não dos tormentos, mas dos atormentados. Agitados com igual movimento, o lodo expele um odor repelen­te e o unguento, uma suave fragrância”.9

O “sono” de Jesus em nossa alma

38a Jesus estava na parte de trás, dormindo sobre um travesseiro.

Tal como a tempestade, o sono de Jesus naquele momento parecia ser preconcebido segundo uma finalidade que Ele tinha em vista. Era altamente formativo para seus discípulos sentirem a própria contingência e, desta maneira, serem estimulados a recorrer a Ele em última instância. Com isso estariam criadas as condições para a manifestação de seu poder divino. A este respeito nos diz São João Crisóstomo: “Se a tempestade tivesse se desencadeado estando Ele acordado, ou não houvessem ti­do medo algum nem lhe tivessem rogado, talvez nem pensassem que Ele tinha poder de fazer algo naquele transe”.10

Com muito acerto fazem os autores uma aproximação en­tre este fato ocorrido com os Apóstolos e o mistério do “sono” de Jesus, que às vezes se repete durante a tempestade pela qual passam nossas almas. O “sono” de Jesus poderá ser real ou apa­rente.

Quando nós nos afastamos de Jesus: “sono real”

Se, por desgraça, abraçamos o pecado mortal, nós nos afas­tamos de Jesus. Este é o mais terrível dos “sonos”, pois somos nós que O obrigamos a distanciar-Se de nós, além de perdermos a graça santificante. Logo em seguida arma-se a tempestade de nossas más tendências e paixões desordenadas, e submerge nosso senso moral. E se, nesta situação, somos apanhados pela morte, Deus dormirá em relação a nós o “sono eterno” de nossa terrível condenação ao inferno. Não haverá jamais, neste caso, meios de despertá-Lo.

Para o progresso de nossas almas: “sono aparente”

Há circunstâncias dolorosas em nossa vida espiritual, nas quais Jesus parecerá dormir, causando-nos a sensação de estar­mos abandonados. Esta será uma ótima oportunidade para com­bater nossa presunção e compreender que sem Ele nada podemos fazer (cf. Jo 15, 5). O temor de Deus não só é o princípio da sabe­doria, como também excelente meio de santificação (cf. Fl 2, 12). Privados por um período das delícias de suas consolações, mais facilmente nos purificamos das desordens de nossos afetos.

Também nosso sono deve ser santificado

Por outro lado, levando-se em conta que as menores ações de Jesus contêm lições de alta sabedoria para nós, o sono d’Ele na barca nos mostra quanto devemos santificar nosso repouso. Afinal de contas, o sono ocupa uma considerável parte de nossa existência sobre a Terra e, em certo sentido, é imagem da mor­te. Se desejamos que nossa morte seja santa e piedosa, é indis­pensável que também o seja sua prefiguração. É fundamental adormecermos sob as bênçãos do Sagrado Coração de Jesus e de Maria Santíssima: “guardai-nos também quando dormimos! […] Nosso corpo repouse em sua paz!”.11 Para tal, nada melhor do que evitar atitudes e modos de ser penetrados pelo espírito de moleza, falta de pudor ou sensualidade.

Na hora da tempestade, desperta tua fé e virá a bonança

38b Os discípulos O acordaram e disseram: “Mestre, estamos perecendo e Tu não Te importas?”

Quando, todavia, sem culpa nossa, damo-nos conta de es­tarmos involucrados em algum perigo, sigamos o conselho de Santo Agostinho:

“Cristão, em tua embarcação dorme Cristo; desperta-O, e Ele ameaçará as tempestades para que tudo recobre a calma. Naquele tempo, os discípulos, a ponto de naufragarem na bar­ca, enquanto Cristo dormia, foram símbolo do perigo de soçobrar dos cristãos, quando sua fé está adormecida. Já sabes o que diz o Apóstolo: ‘Cristo habita pela fé em nossos corações’ (Ef 3, 17). Sua presença bela e divina está sempre com o Pai; mas sua presen­ça da fé está em todos os cristãos. Por isso, se te vires em perigo, será porque Cristo está dormindo, isto é, não consegues vencer as concupiscências que se levantam com o sopro dos que persuadem ao mal, será porque tua fé está adormecida. Que significa tua fé estar adormecida? Que está apagada. Que significa dizer que está apagada? Que te esqueceste dela. E no que consiste despertar a Cristo? Em despertar a tua fé, em recordar o que crias. Recorda, portanto, de tua fé, desperta a Cristo. Tua própria fé dará ordens às ondas que te turbam e aos ventos que te acon­selham ao mal. De imediato desaparecerão, se amainarão, pois ainda que não cesse de falar o persuasor do mal, já não mais sacode a embarcação, já não en­crespa as ondas nem submerge o barquinho em que navegas”.12

Não O viram senão como Homem

39 Ele Se levantou e ordenou ao vento e ao mar: “Silêncio! Cala-te!” O vento cessou e houve uma grande calmaria. 40 Então Jesus perguntou aos discípulos: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” 41 Eles sentiram grande medo e diziam uns aos outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?”

É bem paradigmática para nós esta tempestade pela qual passaram os Apósto­los. Por quantos perigos não passamos nós também durante a vida? Se eles são evitáveis, não devemos enfrentá-los; se a eles nos expu­sermos, se os procurarmos e os amarmos, é certo que pereceremos. A fuga, nestes casos, acompanhada de oração, é o melhor remé­dio.

Comenta o padre Manuel de Tuya: “Se bem que os Apóstolos já tivessem presenciado alguns milagres de Cristo, não se lembraram de seu poder ante um espetáculo tão imponente. Mas seu império diante de forças cósmi­cas desencadeadas produz-lhes tão forte admiração que se perguntam quem é este que tem tais poderes”.13

Devido à união das duas nature­zas — divina e humana — na Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, “o Ho­mem recebeu no tempo a onipotência que o Filho de Deus possui ab æter­no”.14 Diz São Tomás de Aquino15 que a Alma de Nosso Senhor recebeu o po­der divino de fazer milagres numa tal superabundância, que é por transmissão d’Ele que os Santos as­sim também operam, como está em Mateus (cf. Mt 10, 1). Por este motivo manifestou todo o seu poder, inclusive sobre as cria­turas irracionais, como os ventos, o mar, a tempestade; ou, du­rante sua Paixão, sobre vários elementos, quando o véu do Tem­plo se rasgou, os túmulos se abriram, a terra tremeu e as rochas se fenderam (cf. Mt 27, 51-52).

A respeito desta passagem comenta Teofilato: “Se houves­sem tido fé, eles teriam acreditado que, mesmo dormindo, [Je­sus] podia conservá-los incólumes […]. Acalmando, pois, o mar com uma ordem — e não com uma vara como Moisés (cf. Ex 14), nem com a oração como Eliseu no Jordão (cf. II Rs 2), nem com a arca como Josué (cf. Js 3) —, Se mostrou a eles como Deus, e como Homem, quando Se entregou ao sono”.16

IV – As borrascas sobre a Igreja

Ao longo de dois milênios, a Igreja viu abater-se sobre ela toda espécie de tempestades, ameaçando sua exis­tência. Ora foram perseguições declaradas e cruentas, ora silenciosas e hipócritas. Ódios mortais e ingratidões históri­cas vincaram o curso das heresias e dos cismas.

Entretanto, a Igreja nunca duvidou d’Aquele que vela por seu imortal destino. E ainda quando Ele parece dormir, faz ecoar no interior dos fiéis sua infalível promessa: “Ecce ego vo­biscum sum omnibus diebus usque ad consummationem sæculi — Eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28, 20). A Igreja aprendeu com os Apóstolos a invocá-Lo e, dominando ou não a tempestade, a barca, mesmo em meio aos mais terríveis perigos, jamais vai ao fundo. Pelo contrário, como que ressurge sempre mais forte, mais jovem e com beleza inva­riavelmente acrescida. A cada ameaça, sua glória se eleva, por ser inquebrantável sua fé.

Quão grande bênção e que incomensurável graça sermos filhos da Igreja!

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1) Cf. FERNÁNDEZ TRUYOLS, SJ, Andrés. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. 2.ed. Madrid: BAC, 1954, p.164-165.

2) Cf. FLÁVIO JOSEFO. Guerra dos judeus. L.III, c.35, n.283.

3) SÃO REMÍGIO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. In Marcum, c.IV, v.35-41.

4) FERNÁNDEZ TRUYOLS, op. cit., p.316-317.  

5) Cf. MALDONADO, SJ, Juan de. Comentarios a los Cuatro Evangelios. Evangelio de San Mateo. Madrid: BAC, 1950, v.I, p.360.

6) Cf. SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía XXVIII, n.1. In: Obras. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo (1-45). 2.ed. Madrid: BAC, 2007, v.I, p.567.  

7) FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Exposición histórica, crí­tica y apologética. Madrid: Voluntad, 1926, t.III, p.564.

8) SÃO JOÃO DE ÁVILA. Obras espirituales. Madrid: Apostolado de la Prensa, 1951, p.49-50.  

9) SANTO AGOSTINHO. De Civitate Dei. L.I, c.8, n.2. In: Obras. Madrid: BAC, 1958, v.XVI-XVII, p.75-76.

10) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, op. cit., p.569.

11) COMPLETAS. Antífona do Cântico Evangélico. In: COMISSÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das Horas. Petrópolis: Ave Maria; Paulinas; Paulus; Vozes, 2000, v.III, p.1161.

12) SANTO AGOSTINHO. Sermo CCCLXI, n.7. In: Obras. Madrid: BAC, 1985, v.XXVI, p.337-338.  

13) TUYA, OP, Manuel de. Biblia Comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.V, p.656.

14) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.13, a.1, ad 1.

15) Cf. Idem, a.2, ad 3; q.44, a.4, ad 3.  

16) TEOFILATO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea, op. cit.