Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

23 de Fevereiro

DOMINGO VII DO TEMPO COMUM – ANO A

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA cf. Salmo 12, 6
Eu confio, Senhor, na vossa bondade.
O meu coração alegra-se com a vossa salvação.
Cantarei ao Senhor por tudo o que Ele fez por mim.

ORAÇÃO COLECTA
Concedei-nos, Deus todo-poderoso,
que, meditando continuamente nas realidades espirituais,
pratiquemos sempre, em palavras e obras, o que Vos agrada.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Lev 19, 1-2.17-18
«Amarás o teu próximo como a ti mesmo»

Leitura do Livro do Levítico
O Senhor dirigiu-Se a Moisés nestes termos: «Fala a toda a comunidade dos filhos de Israel e diz-lhes: ‘Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo’. Não odiarás do íntimo do coração os teus irmãos, mas corrigirás o teu próximo, para não incorreres em falta por causa dele. Não te vingarás, nem guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor».
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 102 (103), 1-2.3-4.8.10.12-13 (R. 8a)
Refrão: O Senhor é clemente e cheio de compaixão.
Repete-se
Ou: Senhor, sois um Deus clemente e compassivo.
Repete-se

Bendiz, ó minha alma, o Senhor
e todo o meu ser bendiga o seu nome santo.
Bendiz, ó minha alma, o Senhor
e não esqueças nenhum dos seus benefícios. Refrão

Ele perdoa todos os teus pecados
e cura as tuas enfermidades;
salva da morte a tua vida
e coroa-te de graça e misericórdia. Refrão

O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade;
não nos tratou segundo os nossos pecados,
nem nos castigou segundo as nossas culpas. Refrão

Como o Oriente dista do Ocidente,
assim Ele afasta de nós os nossos pecados;
como um pai se compadece dos seus filhos,
assim o Senhor Se compadece dos que O temem. Refrão

LEITURA II 1 Cor 3, 16-23
«Tudo é vosso; vós sois de Cristo; Cristo é de Deus»

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios
Irmãos: Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é santo, e vós sois esse templo. Ninguém tenha ilusões. Se alguém entre vós se julga sábio aos olhos do mundo, faça-se louco, para se tornar sábio. Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus, como está escrito: «Apanharei os sábios na sua própria astúcia». E ainda: «O Senhor sabe como são vãos os pensamentos dos sábios». Por isso, ninguém deve gloriar-se nos homens. Tudo é vosso: Paulo, Apolo e Pedro, o mundo, a vida e a morte, as coisas presentes e as futuras. Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus.
Palavra do Senhor.

ALELUIA 1 Jo 2, 5
Refrão: Aleluia. Repete-se
Quem observa a palavra de Cristo,
nesse o amor de Deus é perfeito. Refrão

EVANGELHO Mt 5, 38-48
«Amai os vossos inimigos»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, digo-vos: Não resistais ao homem mau. Mas se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda. Se alguém quiser levar-te ao tribunal, para ficar com a tua túnica, deixa-lhe também o manto. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas. Dá a quem te pedir e não voltes as costas a quem te pede emprestado. Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus; pois Ele faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos. Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem a mesma coisa os publicanos? E se saudardes apenas os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Portanto, sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito».
Palavra da salvação.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

rmãos e irmãs:
Nós, que somos templo do Senhor
e morada do Espírito Santo,
peçamos a Deus Pai por todos os homens,
dizendo (ou: cantando), com humildade:
R. Abençoai, Senhor, o vosso povo.
Ou: Senhor, socorrei-nos e salvai-nos.
Ou: Pela vossa misericórdia, ouvi-nos, Senhor.
1. Pela nossa Diocese de N. e suas paróquias,
para que acolham a santidade que vem de Deus
e nelas reine o amor e o perdão,
oremos.
2. Pelos presbíteros que anunciam o Evangelho,
para que o façam com palavras simples e oportunas
e o mostrem no seu viver de cada dia,
oremos.
3. Pelos que exercem a autoridade na nossa Pátria,
para que sejam honestos nos seus empreendimentos,
em favor de todos os cidadãos,
oremos.
4. Por aqueles que aliviam os que sofrem,
para que saibam reconhecer a Jesus Cristo
nos pobres, nos humildes e nos mais fracos,
oremos.
5. Por nós mesmos aqui presentes na casa de Deus,
para que olhemos todos os homens como amigos
e saibamos perdoar a quem nos ofende,
oremos.
Senhor, nosso Deus,
que nos concedeis muito mais
do que ousamos pedir e esperar,
dai-nos um coração confiante
e atento às surpresas do vosso amor.
Por Cristo Senhor nosso

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Concedei, Senhor,
que celebremos dignamente estes divinos mistérios,
de modo que os dons oferecidos para vossa glória
sejam para nós fonte de eterna salvação.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Salmo 9, 2-3
Cantarei todas as vossas maravilhas.
Quero alegrar-me e exultar em Vós.
Cantarei ao vosso nome, ó Altíssimo.

Ou cf. Jo 11, 27
Senhor, eu creio que sois Cristo, Filho de Deus vivo,
o Salvador do mundo.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Nós Vos pedimos, Deus omnipotente,
que este sacramento de salvação
seja para nós penhor seguro de vida eterna.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

A sublime beleza moral da Nova Lei

Aos preceitos morais da Antiga Lei, Nosso Senhor vai acrescentar exigências muito mais profundas, elevadas e radicais.

I – A importância do Sermão da Montanha

No Evangelho de São Mateus o Sermão da Montanha ocupa três capítulos inteiros ― do quinto ao sétimo ―, e a Santa Igreja de tal forma valoriza esta pregação do Divino Mestre que lhe destinou seis domingos consecutivos do presente Ciclo Litúrgico, a fim de nos permitir considerá-la com maior profundidade e proveito espiritual. Assim, em domingos anteriores pudemos admirar a beleza das oito Bem-aventuran­ças (cf. Mt 5, 1-11), recebemos o convite de sermos sal e luz para o mundo (cf. Mt 5, 13-14) e consideramos as palavras de Jesus sobre o pleno cumprimento que Ele veio dar à Lei de Moisés (cf. Mt 5, 17). No próximo domingo veremos a impossibilidade de se servir, ao mesmo tempo, a Deus e às riquezas (cf. Mt 6, 24) e, por fim, no 9º Domingo, Nosso Senhor nos alertará sobre o risco de se construir a casa sobre a areia (cf. Mt 7, 24-27).

É no Evangelho deste 7º Domingo do Tempo Comum, en­tretanto, que se encontra o cerne de todo o Sermão da Monta­nha, o qual nos indica a via segura para atingirmos a santidade. No que consiste ser santo? Em alcançar a ousada meta traçada pelo Divino Mestre: “Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”.

II – A aurora de uma nova era no relacionamento humano

No Paraíso Terrestre, Adão e Eva possuíam a graça santi­ficante, as virtudes infusas e os dons do Espírito Santo, com os quais participavam intrínseca e formalmente da vida divina. Gozavam, ademais, de um equilíbrio interno perfei­to e não tinham apetência alguma desregrada, porque, em vir­tude do dom preternatural de integridade, suas potências infe­riores estavam submetidas à razão, e esta a Deus. Ao pecar eles perderam ― e com eles toda a humanidade ― esse feliz estado de justiça original.

O homem passou a enfrentar, em consequência, uma tre­menda luta interior provocada pela inclinação para o mal. E uma das manifestações dessa desordem é o amor-próprio exa­cerbado, com o decorrente desejo de vingança, de retaliação diante de qualquer ofensa, como evidencia um antigo dito ale­mão: Schadenfreude ist die beste Freude ― A alegria por ver a desgraça alheia é a melhor das alegrias.

Como veremos neste Evangelho, Nosso Senhor modificou completamente tal sistema cruel e egoísta de encarar o relacio­namento humano.

No Cristianismo, a vingança pessoal fica banida

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 38 “Vós ouvistes o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente!’ 39 Eu, porém, vos digo: Não enfrenteis quem é malvado! Pelo contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda!”

Já tivemos ocasião de explicar como a lei de talião vigorava na Antiguidade. Podemos encontrá-la no Código de Ha­murabi ― escrito por volta de 1750 a.C., na Babilônia ―, tendo sido, inclusive, incorpo­rada ao Direito Roma­no. Vale recordar vir o termo talião do latim talis, significando tal ou igual. Ou seja, o revide deveria ser proporcio­nado à ofensa. Em certo sentido, compreende-se que fossem estabeleci­das normas como esta, por se tratar de povos rudes habituados ao uso da força, entre os quais não era fácil fazer pre­valecer o direito e a jus­tiça. Na realidade, a lei de talião, ao promulgar a equivalência do casti­go em relação ao crime cometido, moderou as vinganças desmesuradas tão frequentes na época.

Também a legislação mosaica a empregava, como lemos no Livro do Êxodo: “urge dar vida por vida, olho por olho, den­te por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por quei­madura, ferida por ferida, golpe por golpe” (21, 23-25). Se bem que, no início, a aplicação desta lei competisse apenas à legítima autoridade, mais tarde, com a decadência dos costumes, os par­ticulares começaram a fazer justiça pelas próprias mãos e segun­do seu critério, praticando atrozes represálias contra os adversá­rios. É, pois, para premunir seus discípulos contra sentimentos de rancor que Nosso Senhor afirma: “se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda!”.

Ora, ouvindo estas palavras, uma pergunta aflora ao espí­rito: como entender tal preceito, uma vez que Ele mesmo agiu de outro modo ao ser esbofeteado por um soldado na casa de Anás? Em vez de oferecer a outra face, replicou: “Se falei mal, prova-o; mas se falei bem, por que Me bates?” (Jo 18, 23).

O Redentor veio implantar uma mentalidade nova. Ele quer que o egoísmo seja eliminado de nosso interior, a ponto de não reagirmos por amor-próprio quando alguém nos ofender ou esbofetear injustamente, mas considerarmos, antes de tudo, o ultraje feito a Deus pela violação dos seus Mandamentos.

Por este prisma, oferecer a outra face suporia induzir o agressor a cometer mais um pecado, em vez de conduzi-lo a cair em si. Ao interpelar seu algoz, na realidade Ele procurava o bem daquela pobre alma, dando-lhe oportunidade de reparar o seu erro. Embora o infeliz provavelmente não tivesse noção de ter esbofeteado o próprio Deus, nem por isso sua censurável bruta­lidade deixava de ser falta grave contra o bem e a justiça. Com sua resposta serena, Nosso Senhor tentava pôr a consciência do agressor em ordem.

Desapego dos bens materiais

40 “Se alguém quiser abrir um processo para tomar a tua túnica, dá-lhe também o manto!”

Naquele tempo era comum a posse de várias túnicas, mas só um ou dois mantos. Este último era reputado indispensável, o traje por excelência, mais valioso do que a própria túnica. Com efeito, vemos a preocupação de São Paulo em pedir a Timóteo, em uma de suas epístolas, a capa que havia deixado “em Trôade na casa de Carpo” (II Tim 4, 13). Segundo a Lei judaica, quem tomava o manto do próximo como penhor de empréstimo, não podia retê-lo até o dia seguinte e estava obrigado a devolvê-lo antes do pôr do Sol (cf. Ex 22, 26), porque faria muita falta ao proprietário. Assim, ao dizer que entreguemos “também o man­to” a quem nos quiser tomar a túnica, Nosso Senhor nos reco­menda o mais completo desapego dos bens terrenos e que nos­sas almas estejam livres de qualquer volúpia de posse.

Combate ao egoísmo

41 “Se alguém te forçar a andar um quilômetro, caminha dois com ele!”

Às vezes, os soldados romanos ou outros funcionários do governo requisitavam a ajuda de alguém para lhes servir de guia ou para outro trabalho, como aconteceu a Simão de Cire­ne, “que voltava do campo, e impuseram-lhe a Cruz para que a carregasse atrás de Jesus” (Lc 23, 26). Naturalmente, quando um imprevisto semelhante ocorria, muitos se queixavam e até se recusavam a atender ao pedido. Para nos ensinar o valor da cari­dade, diz Nosso Senhor: “Caminha dois quilômetros com ele!”. Ou seja, desde que esteja a seu alcance, faça de bom grado até mais do que lhe for solicitado.

O valor da generosidade

42 “Dá a quem te pedir e não vires as costas a quem te pede emprestado”.

No Antigo Testamento encontramos vários elogios a quem empresta: “jamais vi o justo abandonado, nem seus filhos a men­digar o pão. Todos os dias empresta misericordiosamente, e abençoada é a sua posteridade” (Sl 36, 25-26); “Feliz o homem que se compadece e empresta” (Sl 111, 5). Jesus, ao lembrar aos seus ouvintes esta verdade, demonstra que, de fato, não veio pa­ra abolir a Lei e os profetas, mas para lhes dar pleno cumpri­mento (cf. Mt 5, 17).

Então, como deve ser interpretado este versículo? É pre­ciso que nós cedamos sempre e demos tudo o que nos pedi­rem? Se este princípio fosse transformado em lei, a sociedade tornar-se-ia um caos em razão de incontáveis abusos. Não po­de ser esta, portanto, a intenção de Nosso Senhor. Deseja Ele que nos esqueçamos de nós mesmos, preocupando-nos com as privações alheias, e que estejamos limpos de qualquer interes­se e pragmatismo. Pelo contrário, o egoísta, aquele que vive fechado em si, jamais toma a iniciativa de auxiliar o necessitado, e se alguém lhe implora um favor, logo procura esquivar-se.

O preceito do amor universal

43 “Vós ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!’”

Quando, posto à prova, o Divino Redentor perguntou ao doutor da Lei o que nela estava escrito (cf. Lc 10, 25-26), este logo respondeu de maneira acertada, citando os Livros do Deu­teronômio e do Levítico: “Amarás o Senhor, teu Deus, de to­do o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças” (Dt 6, 5) e a “teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19, 18). Co­nheciam os judeus perfeitamente o preceito do amor universal, todavia consideravam como “próximos” apenas os seus compa­triotas, enquanto os gentios e os pagãos eram tidos como inimi­gos, merecedores de desprezo e ódio.

Verdadeiro Legislador, Nosso Senhor Jesus Cristo vai reti­ficar as interpretações falseadas da Lei de Moisés, que a altera­vam e empobreciam, para dar nova plenitude aos Mandamentos e ensinamentos antigos. Como já tivemos ocasião de comentar,1 ao confrontar a expressão “Vós ouvistes…” com a afirmação “Eu vos digo…”, do versículo seguinte, Ele mostra quão vazia é, em contraposição ao Evangelho, a moral das exterioridades cria­da pelos fariseus. Falando em primeira pessoa, Ele realmente “ensinava como quem tinha autoridade e não como os escribas” (Mt 7, 29).

44 “Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!”

Segundo a Nova Lei, os discípulos d’Aquele que é “man­so e humilde de coração” (Mt 11, 29) não deverão amar menos os que os aborrecem, perseguem e caluniam do que os que os estimam, exaltam e abençoam. Se queremos ser filhos de Deus, precisamos ter uma completa isenção de ânimo em relação aos inimigos e rezar por eles. A glória de Deus exige que procure­mos fazer o possível para a conversão de todos, imitando o su­blime exemplo de Jesus no alto da Cruz. Qual foi sua primeira palavra, pronunciada em relação aos que O crucificavam? “Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34).

Por certo, não se deve ser indolente e permitir aos adver­sários da Igreja agirem livremente contra Ela, implantando a iniquidade na Terra. Se é obrigação amar os inimigos, é mister também odiar o pecado! Cumpre, pois, pedir a intervenção divi­na para fazer cessar o mal e empregar todos os meios ― sempre conforme a Lei de Deus e a dos homens ― para que este não prevaleça no mundo.

A munificência infinita de Deus

45 “Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos Céus, porque Ele faz nascer o Sol sobre os maus e os bons e faz cair a chuva sobre os justos e injustos”.

Assim como o Pai que está nos Céus “faz cair a chuva so­bre os justos e injustos”, também derrama as suas graças sobre todos, inclusive sobre os miseráveis e os malfeitores. Deus criou os Anjos e os homens com o intuito de terem parte em sua feli­cidade absoluta. Tão grande é seu amor por nós e seu desejo de salvar-nos, que enviou seu Filho Unigênito e eterno a fim de Se encarnar e suportar os tormentos da Paixão para redimir o gêne­ro humano e lhe abrir as portas do Céu.

Sendo esta a vontade do Pai, cabe-nos trabalhar com ar­dor, não apenas pela salvação de todos os que lutam neste vale de lágrimas, mas ainda acelerar, com nossas preces e sacrifícios, a libertação das almas que padecem no Purgatório.

O amor é o sinal distintivo dos cristãos

46 “Porque se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa? 47 E se saudais somente os vossos irmãos, o que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa?”

Para podermos calcular a indignação dos fariseus por se­rem comparados aos pagãos e cobradores de impostos, conside­rados tão desprezíveis, basta recordar a oração de um deles no Templo: “Graças Te dou, ó Deus, que não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como o publicano que está ali” (Lc 18, 11).

A insuperável didática do Divino Mestre nos leva a com­preender facilmente através destas duas confrontações que amar os amigos e benfeitores nada tem de extraordinário. O mé­rito está em querer o bem até dos que nos atacam, roubam ou injuriam.

A esse respeito, esclarece Santo Agostinho: “Só a caridade distingue os filhos de Deus dos do demônio. Persignem-se todos com o sinal da Cruz de Cristo; respondam todos: Amém; cantem todos: Aleluia; batizem-se todos; frequentem a igreja, apinhem­-se nas basílicas; não se distinguirão os filhos de Deus dos do de­mônio a não ser pela caridade. […] Tens tudo o que quiseres; se te falta só a caridade, de nada te aproveita tudo o que tiveres”.2

Desta forma, ao notarmos a antipatia de alguém por nós, deveríamos pensar: “É por este que vou rezar, para que Nossa Senhora lhe obtenha a graça da salvação eterna. Na aparência, ele é meu inimigo; na realidade, faz um bem enorme à minha alma, pois me ajuda a perceber que, de fato, por causa dos meus defeitos, eu teria de me olhar e de me tratar como ele me olha e me trata. Assim, eu me conheço melhor”.

O heroísmo do perdão

Jesus nos convida a segui-Lo pelas vias heroicas da caridade, da paciência e do perdão máximo, rápido e total. Por este motivo não podemos guardar ressentimento contra ninguém, mas deve­mos esquecer a priori qualquer ofensa pessoal. Nós, cristãos, pre­cisamos ser um verdadeiro mar de perdão, como ensina o Apósto­lo: “Toda amargura, ira, indignação, gritaria e calúnia sejam des­terradas do meio de vós, bem como toda malícia. Antes, sede uns com os outros bondosos e compassivos. Perdoai-vos uns aos ou­tros, como também Deus vos perdoou, em Cristo” (Ef 4, 31-32).

Essa disposição interior que torna agradável o convívio en­tre os cristãos, chamava a atenção dos pagãos, nos primórdios da Igreja: “Vede como eles se amam e como estão dispostos a morrer um pelo outro”.3 Ora, passados dois mil anos de Cristan­dade, seria de se esperar que os ensinamentos do Divino Mestre houvessem penetrado nas instituições, nos costumes e no rela­cionamento humano, a ponto de ser a sociedade de hoje mais marcada pela caridade e benquerença do que foi outrora, como um vinho cujo sabor se requinta com o correr do tempo.

A meta mais ousada da História

48 “Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito!”

Jesus formula, com uma clareza insofismável, a meta e o objetivo de nossa vida: imi­tar o Pai celeste, modelo abso­luto de santidade, adequando a Ele nossa mentalidade, in­clinações e desejos. Mas como seremos perfeitos como Deus é perfeito? Por que meio che­garemos até essa suprema per­feição, impossível para nossa débil natureza? Nosso Senhor teria, então, dado um conse­lho impraticável? Ou seria um exagero didático? Ele poderia ter dito: “Sede perfeitos como Moisés foi perfeito, como Abraão, como Isaac, como Jacó”… Por que reportar a tão elevado modelo? Ocorre que o Filho, a Segun­da Pessoa da Trindade, o Verbo incriado, igual ao Pai, assumiu nossa natureza, e, sendo Homem, como Arquétipo da humani­dade, reproduziu em Si a perfeição do Pai, instando-nos a fazer o mesmo.

Com o Batismo nos é infundida a graça santificante ― par­ticipação na vida divina ―, acompanhada das virtudes e dos dons, permitindo-nos realizar ao modo divino aquilo que, pelas meras forças humanas, seria totalmente inatingível. Portanto, não nos contentemos em cumprir só os Mandamentos. Muito mais que is­so, devemos querer assemelhar-nos a Nosso Senhor, procurando ser perfeitos como Ele, para atender ao altíssimo convite fei­to no Sermão da Montanha. Este é o sentido da jaculatória que encontramos na Ladainha do Sagrado Coração: “Jesus, manso e humilde de Coração, fazei nosso coração semelhante ao vosso!”.4

III – Chamados ao verdadeiro heroísmo

A vida sobrenatural em nós é passível de crescimento, na medida em que rezemos, nos esforcemos na prática da virtude evitando as ocasiões de pecado e frequentemos os Sacramentos. Mais que em outras épocas históricas, vivemos cercados de perigos que ameaçam nossa perseverança. Para re­sistir a todas essas solicitações do demônio, do mundo e da car­ne, é indispensável alimentar um grande desejo de alcançar o heroísmo da perfeição.

No Céu nos está reservado um lugar que poderemos ocupar com mais ou menos brilho, dependendo da fidelidade com que busquemos ser “perfeitos como o nosso Pai celeste é perfeito”. A conhecida máxima de Paul Claudel, “a juventude não foi feita para o prazer, mas sim para o heroísmo”,5 na realidade está in­completa, pois o heroísmo em matéria de virtude não é uma obri­gação exclusiva dos jovens, mas de todos os homens, sem exceção.

Edificantes exemplos

Estas disposições, nós as encontramos em abundância na vida dos Santos. Certa vez, São Francisco de Sales, já sendo Bis­po de Genebra, se deparou com um nobre que o cumulou das maiores ofensas, às quais ele nada respondeu, guardando um si­lêncio cheio de doçura e serenidade. Após a saída do visitante, um sacerdote que presenciara a cena perguntou a São Francisco por que não reprimira o insolente com firmeza. “Meu padre” ― respondeu o Santo ― “fiz um pacto com a minha língua, pe­lo qual ela se calará enquanto meu coração estiver tomado e não replicará jamais a nenhuma palavra capaz de me provocar cólera”.6 Como era a sua pessoa que estava em jogo, ele jugulou o amor-próprio e conservou-se impassível. Dias depois, o culpa­do, comovido com a caridade do Bispo, veio em lágrimas pedir­-lhe perdão.7 É assim que devemos ser!

Disso deu exemplo também o Prof. Plinio Corrêa de Oli­veira ― aliás, grande admirador de São Francisco de Sales ―, com quem o Autor deste artigo conviveu durante quase qua­renta anos. Ele se mantinha permanentemente no espírito do Evangelho, mesmo diante de sofrimentos causados por pessoas próximas. Devido à restrição de alguns de seus movimentos, em consequência de um acidente automobilístico, precisava ele de auxílio para alguns atos da vida cotidiana. Seu inteiro desapego levava-o a nem sequer escolher as roupas a serem usadas, dei­xando a outros tal tarefa. Por vezes a escolha inadequada o leva­va a usar um terno leve em um dia frio ou um terno de inverno em tempo de calor, o que ele aceitava, enfrentando os incômo­dos sem jamais deles se queixar.

Não era raro, quando alguém lhe pedia um encontro, que ele não determinasse o lugar da reunião, mas mandasse indagar à pessoa onde gostaria de ser atendida. Em certa ocasião, Dr. Plinio recebeu em sua residência, às seis horas da tarde, alguns visitantes chegados do exterior, e estes ficaram tão entretidos e encantados na conversa com o anfitrião que às onze horas da noite ainda não se haviam retirado. Em nenhum momento Dr. Plinio lhes dava a entender o avançado da hora, pois, se não estava comprometida a Causa Católica, ele, com grande mansidão e cordura, procurava se adaptar aos outros, fazendo-lhes a vontade.

Ao admirar tais fatos, não podemos nos esquecer de que o verdadeiro heroísmo da virtude é inseparável da entrega com­pleta nas mãos de Deus, tendo consciência de que qualquer ato bom vem da graça, e não da natureza humana. Nós também so­mos chamados a seguir este caminho: ser perfeitos como o dese­ja o Pai celeste, cujo auxílio para tal não nos há de faltar!

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1) Cf. CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. O verdadeiro cumprimento da Lei está no que dizem os fariseus? In: Arautos do Evangelho. São Paulo. N.110 (Fev., 2011); p.10-17; Comentário ao Evangelho do VI Domingo do Tempo Comum – Ano A, neste mesmo volume.  

2) SANTO AGOSTINHO. In Epistolam Ioannis ad Parthos tractatus decem. Tracta­tus V, n.7. In: Obras. Madrid: BAC, 1959, v.XVIII, p.269.

3) TERTULIANO. Apologeticum, XXXIX: ML 1, 471.

4) CONGREGATIO DE CULTU DIVINO ET DISCIPLINA SACRAMENTO­RUM. Compendium Eucharisticum. Città del Vaticano: LEV, 2009, p.411.

5) CLAUDEL, Paul; RIVIÈRE, Jacques. Correspondance. 1907-1914. Paris: Plon, Nourrit et Cie, 1926, p.23.

6) HAMON, André-Jean-Marie. Vie de Saint François de Sales, Evêque et prince de Genève. Paris: Jacques Lecoffre et Cie, 1858, t.II, p.161.

7) Cf. Idem, p.295-296.