Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

20 de Maio

DOMINGO DE PENTECOSTES – Ano B

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA Sab 1, 7
O Espírito do Senhor encheu a terra inteira;
Ele, que abrange o universo, conhece toda a palavra. Aleluia.

Ou Rom 5, 5; 8, 11
O amor de Deus foi derramado em nossos corações
pelo Espírito Santo que habita em nós. Aleluia.
Diz-se o Glória.

ORAÇÃO COLECTA
Deus do universo,
que no mistério do Pentecostes santificais a Igreja
dispersa entre todos os povos e nações,
derramai sobre a terra os dons do Espírito Santo,
de modo que também hoje se renovem nos corações dos fiéis
os prodígios realizados nos primórdios da pregação do Evangelho.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Actos 2, 1-11
«Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar»

Leitura dos Actos dos Apóstolos
Quando chegou o dia de Pentecostes, os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo lugar. Subitamente, fez-se ouvir, vindo do Céu, um rumor semelhante a forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam. Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem. Residiam em Jerusalém judeus piedosos, procedentes de todas as nações que há debaixo do céu. Ao ouvir aquele ruído, a multidão reuniu-se e ficou muito admirada, pois cada qual os ouvia falar na sua própria língua. Atónitos e maravilhados, diziam: «Não são todos galileus os que estão a falar? Então, como é que os ouve cada um de nós falar na sua própria língua? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia, vizinha de Cirene, colonos de Roma, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los proclamar nas nossas línguas as maravilhas de Deus».
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 103 (104), 1ab e 24ac.29bc-30.31.34 (R. 30)
Refrão: Enviai, Senhor, o vosso Espírito
e renovai a face da terra. Repete-se
Ou: Mandai, Senhor o vosso Espírito,
e renovai a terra. Repete-se
Ou: Aleluia. Repete-se

Bendiz, ó minha alma, o Senhor.
Senhor, meu Deus, como sois grande!
Como são grandes, Senhor, as vossas obras!
A terra está cheia das vossas criaturas. Refrão

Se lhes tirais o alento, morrem
e voltam ao pó donde vieram.
Se mandais o vosso espírito, retomam a vida
e renovais a face da terra. Refrão

Glória a Deus para sempre!
Rejubile o Senhor nas suas obras.
Grato Lhe seja o meu canto
e eu terei alegria no Senhor. Refrão

LEITURA II 1 Cor 12, 3b-7.12-13
«Todos nós fomos baptizados num só Espírito,
para formarmos um só Corpo»

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios
Irmãos: Ninguém pode dizer «Jesus é o Senhor» a não ser pela acção do Espírito Santo. De facto, há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diversas operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum. Assim como o corpo é um só e tem muitos membros e todos os membros, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim também sucede com Cristo¬¬. Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos baptizados num só Espírito, para constituirmos um só Corpo. E a todos nos foi dado a beber um único Espírito.
Palavra do Senhor.

SEQUÊNCIA
Vinde, ó santo Espírito,
vinde, Amor ardente,
acendei na terra
vossa luz fulgente.

Vinde, Pai dos pobres:
na dor e aflições,
vinde encher de gozo
nossos corações.

Benfeitor supremo
em todo o momento,
habitando em nós
sois o nosso alento.

Descanso na luta
e na paz encanto,
no calor sois brisa,
conforto no pranto.

Luz de santidade,
que no Céu ardeis,
abrasai as almas
dos vossos fiéis.

Sem a vossa força
e favor clemente,
nada há no homem
que seja inocente.

Lavai nossas manchas,
a aridez regai,
sarai os enfermos
e a todos salvai.

Abrandai durezas
para os caminhantes,
animai os tristes,
guiai os errantes.

Vossos sete dons
concedei à alma
do que em Vós confia:

Virtude na vida,
amparo na morte,
no Céu alegria.

ALELUIA
Refrão: Aleluia. Repete-se
Vinde, Espírito Santo,
enchei os corações dos vossos fiéis
e acendei neles o fogo do vosso amor. Refrão

EVANGELHO Jo 20, 19-23
«Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós:
Recebei o Espírito Santo»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».
Palavra da salvação.

Diz-se o Credo.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Irmãos e irmãs em Cristo: Oremos ao Senhor do universo para que envie de novo o seu Espírito sobre a Igreja e sobre o mundo, dizendo (ou: cantando), com alegria:

R. Mandai, Senhor, o vosso Espírito.

Ou: Enviai, Senhor, o vosso Espírito.

Ou: Desça, Senhor, o vosso Espírito.

1. Sobre as Igrejas que procuram a unidade.

2. Sobre o Papa N., sobre os bispos, os presbíteros e os diáconos.

3. Sobre os acólitos, os leitores e os catequistas.

4. Sobre os que exercem algum ministério na Igreja.

5. Sobre as populações deslocadas e com fome.

6. Sobre as jovens que amam a virgindade mais que a vida.

7. Sobre os jovens que lutam para ser puros.

8. Sobre os esposos que se amam e sobre os que deixaram de se amar.

9. Sobre nós todos e sobre os nossos familiares.

Deus eterno e omnipotente, que enviais aos corações dos vossos filhos o Espírito Santo do Pentecostes, tornai-nos suas testemunhas para proclamarmos as vossas maravilhas. Por Cristo, nosso Senhor.

 

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Concedei-nos, Senhor nosso Deus,
que o Espírito Santo, segundo a promessa do vosso Filho,
nos revele plenamente o mistério deste sacrifício
e nos faça conhecer toda a verdade.
Por Nosso Senhor .

PREFÁCIO O mistério do Pentecostes
V. O Senhor esteja convosco.
R. Ele está no meio de nós.
V. Corações ao alto.
R. O nosso coração está em Deus.
V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.
R. É nosso dever, é nossa salvação.
Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente,
é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação
dar-Vos graças, sempre e em toda a parte.
Hoje manifestastes a plenitude do mistério pascal
e sobre os filhos de adopção,
unidos em comunhão admirável ao vosso Filho Unigénito,
derramastes o Espírito Santo,
que no princípio da Igreja nascente
revelou o conhecimento de Deus a todos os povos da terra
e uniu a diversidade das línguas na profissão duma só fé.
Por isso, na plenitude da alegria pascal,
exultam os homens por toda a terra
e com os Anjos e os Santos proclamam a vossa glória,
cantando numa só voz:
Santo, Santo, Santo..

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Actos 2, 4.11
Todos ficaram cheios do Espírito Santo
e proclamavam as maravilhas de Deus. Aleluia.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Senhor nosso Deus,
que concedeis com abundância à vossa Igreja os dons sagrados,
conservai nela a graça que lhe destes,
para que floresça sempre em nós o dom do Espírito Santo,
e o alimento espiritual que recebemos
nos faça progredir no caminho da salvação.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

Pentecostes, esperança para o século XXI

A instantânea e radical mudança dos Apóstolos no dia de Pentecostes, há dois mil anos, deita caudais de luz nas obscuras perspectivas de um século que voltou as costas a Deus.

I – Uma efusão de fogo divino no nascedouro da Igreja

A Solenidade de Pentecostes, na qual celebramos a des­cida do Espírito Santo sobre Nossa Senhora e os Após­tolos, é uma das festividades mais importantes do ca­lendário litúrgico. Este acontecimento conferiu maturidade à Igreja, pois, até então ela repousava nas mãos da Santíssima Virgem, como criança. E assim como Maria estivera presente no Calvário, aos pés da Cruz, enquanto Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, no Cenáculo Ela estava como Mãe do Corpo Mís­tico de Cristo. Mãe da Cabeça no Calvário, Mãe do Corpo no Cenáculo, Ela queria que esta Igreja recém-nascida crescesse e se desenvolvesse, a fim de tornar-se apta a exercer sua missão evangelizadora.

Naquele dia Nossa Senhora pôde ver como este amadure­cimento se deu num instante, quando Se derramou o Espírito Santo em línguas de fogo, primeiro sobre Ela e, depois, d’Ela para todos os Apóstolos, discípulos e Santas Mulheres que ali se encontravam em grande número. A partir daí a Igreja passou a ter mais efusão de santidade, de dons e de graça, e foi instituída na prática, no que se refere à sua ação externa, potência e expansão. O Cenáculo é o começo do assombro­so crescimento da Igreja, uma verdadeira explosão evangelizadora.

Assim comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira este aconteci­mento: “Apesar de tudo quanto Nosso Senhor até então fizera pela Igre­ja, poder-se-ia de algum modo dizer — não quero fazer uma comparação exata — que a Igreja era, antes de Pentecostes, um boneco de barro, que re­cebeu de Deus um sopro de vida em Pentecostes, com o Divino Espírito Santo. Ali tudo mudou, tudo passou a viver e tudo passou a pegar fogo no mundo, a contagiar o mundo, até o apogeu dos dias de hoje, em que o Evangelho é pregado a todos os povos”.1

Mudança instantânea e completa

É evidente que, já antes, os Apóstolos estavam na graça de Deus, como testemunha o episódio ocorrido no lava-pés, durante a Santa Ceia, quando São Pedro manifestou resistência e o Divino Mestre o admoestou: “‘Se Eu não os lavar, não terás parte comigo’. Exclamou então Simão Pedro: ‘Senhor, não so­mente os pés, mas também as mãos e a cabeça’. Disse-lhe Jesus: ‘Aquele que tomou banho não tem necessidade de lavar-se; está inteiramente puro. Ora, vós estais puros’” (Jo 13, 8-10). Entre­tanto, a presença divina tem graus; condição altíssima é o estado de graça, porém, é melhor ter o Espírito Santo na alma de uma maneira tão atuante que ela seja cumulada de sabedoria e de discernimento.

Tal foi o transbordamento de sobrenatural que se verificou em Pentecostes, como podemos comprovar pela diferença dos Apóstolos depois da vinda do Espírito Santo: eles se tornaram outros; decerto, até a fisionomia se transformou, começaram a se exprimir numa linguagem mais elevada, os gestos devem ter mudado… Por quê? Porque algo se havia operado no fundo de suas almas e, uma vez que a alma é a forma do corpo,2 é indubi­tável que esta repercussão se tenha feito sentir. Também alcan­çaram ciência e compreensão, como no passado não possuíam, conforme Nosso Senhor lhes anunciara: “o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (Jo 14, 26). Receberam, ainda, os dons de profecia, de fazer milagres e o das línguas, pelo qual falavam no seu idioma e todos os que os ouviam entendiam no próprio!

O impulso imprescindível para a expansão da Igreja

Vemos ali uma infusão de graças, totalmente sui generis, que deu início a uma nova etapa para a Igreja, pois, para os Após­tolos e discípulos exercerem a missão de pregar o Evangelho e administrar os Sacramentos, de modo que a face da Terra fosse penetrada pela Boa-nova, era indispensável serem confirmados na fé e pervadidos por uma plenitude, um ímpeto de amor. Eles foram inflamados, como bem o simbolizam as línguas de fogo! A língua é sinal de comunicação e interlocução, mas, neste caso, elas eram de fogo porque vinham aquecidas e cheias de luz, isto é, prenunciando que as palavras deles comoveriam. A tal ponto que, ao sair dali, São Pedro fez um eloquente sermão, em vir­tude do qual três mil pessoas se converteram e foram batizadas (cf. At 2, 41).

Eis uma rápida síntese de tudo quanto o Espírito Santo trouxe à Igreja nascente naquela ocasião insuperável. Contu­do, ao celebrar este acontecimento, podemos cair no engano de considerá-lo um episódio longínquo, meramente histórico, sem qualquer relação conosco. Acaso Pentecostes não deita seu abundante fulgor também em nossos dias? Tendo já comentado em outras ocasiões3 a Liturgia desta Solenidade, abordaremos aqui o tema por um enfoque útil para a atualidade.

II – Pentecostes no século XXI

Como criaturas humanas que somos, habituados às coisas sensíveis, ou seja, ao que vemos, ouvimos ou apalpamos, vivemos muito mais voltados para a maté­ria do que propriamente para o espírito; por isso tendemos a crer apenas naquilo que é concreto, como o Apóstolo São Tomé que, ao receber a notícia da Ressurreição de Nosso Senhor, dis­se: “Se não vir nas suas mãos o sinal dos pregos, e não puser o meu dedo no lugar dos pregos, e não introduzir a minha mão no seu lado, não acreditarei!” (Jo 20, 25). Assim somos nós: quere­mos comprovar para acreditar. Esquecemos, todavia, que uma vez demonstrado um fato, a razão conclui ante as evidências e torna-se desnecessária a crença; pelo contrário, a fé é justamen­te uma virtude que nos leva a aceitar aquilo que ultrapassa a nossa constatação, segundo lemos na Escritura: “A fé é […] uma certeza a respeito do que não se vê” (Hb 11, 1).

Deus é todo-poderoso

Custa-nos, neste sentido, compenetrarmo-nos de um pon­to, que é o da onipotência de Deus, embora sempre proclame­mos no início do Credo: “Creio em Deus Pai todo-poderoso”. Até os Apóstolos se defrontavam com esta dificuldade, como se infere daquela passagem do Evangelho na qual, tendo o moço rico resolvido conservar seus bens e não seguir o Mestre, Ele disse: “É mais fácil passar o camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Lc 18, 25). Surpresos, os discípulos perguntaram: “‘Quem então poderá salvar-se?’. Respondeu Jesus: ‘O que é impossível aos homens é possível a Deus’” (Lc 18, 26-27).

Devemos, portanto, colocarmo-nos diante desta perspec­tiva: Deus é todo-poderoso! Ele tirou do nada o universo, uma multidão de criaturas! Se, por exemplo, temos oportunidade de observar as formiguinhas que se preparam para o inverno, le­vando folhas e alimento para o formigueiro, tomamos isto com naturalidade e não refletimos que é o Criador quem as sus­tenta, bem como a todos os demais seres: pedregulhos, ár­vores, insetos… tudo! Nós mesmos existimos, estamos cheios de vitalidade e somos capazes de ler este texto, porque Deus mantém a cada um.

Com seu poder absoluto Ele formou um boneco de barro que artista nenhum consegui­ria imitar; depois, soprou-lhe nas narinas e a figura adquiriu vida (cf. Gn 2, 7), gozando de inteligência, vontade e sensibilidade, num corpo perfeito. Mais ainda, além de ser dotado de uma alma espiritual, o homem possuía o estado de graça, com todos os dons sobrenaturais acrescidos dos preternaturais, como o dom de integridade, que o impedia de apetecer o mal, a não ser que “se rompesse pre­viamente a harmonia resultante da sujeição de sua razão su­perior a Deus”;4 o dom de imortalidade, mediante o qual não morreria, mas passaria desta vida para a outra, no Céu, sem a dolorosa separação da alma e do corpo; o dom de ciência infu­sa que, na qualidade de rei da criação, lhe conferia o conheci­mento de todas as coisas e das razões pelas quais Deus as fez. Quando os animais se enfileiraram diante de Adão para que lhes desse nome (cf. Gn 2, 19-20), ele os designou com o título correspondente àquilo que compreendia da essência de cada um: leão, tigre, avestruz, formiga… Todas estas maravilhas o primeiro homem as recebeu através de um sopro divino! Por quê? Porque Deus é todo-poderoso!

Um plano manchado pelo pecado

Não obstante, o plano concebido por Deus, ao dar a exis­tência ao homem, foi desfeito pelo pecado. Em consequência, Adão perdeu o dom de integridade, a imortalidade, a ciência infusa e… sobretudo, a graça! A partir dele toda a sua posteri­dade nasceu com a mancha da culpa original e se foi multipli­cando uma descendência, com algumas exceções, terrivelmente criminosa. Sobreveio o dilúvio, a Torre de Babel, e horrores sem conta acumularam-se ao longo de milênios de História, em que a decadência se fazia sentir a cada passo. Por fim, na plenitude dos tempos, a humanidade foi redimida pelo San­gue preciosíssimo de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas, apesar desta restauração, as gerações que se sucederam após a vinda do Messias, em sua maioria, voltaram as costas para os méritos infinitos da Paixão e afundaram novamente no vício; “o mundo não O reconheceu. Veio para o que era seu, mas os seus não O receberam” (Jo 1, 10-11). A pró­pria natureza humana vai se de­teriorando: enquanto no Antigo Testamento as pessoas possuíam uma grande resistência física, que lhes permitia viver centenas de anos ― como aconteceu a nossos pais, Adão e Eva, ou a Matusalém (cf. Gn 5, 5.27) ―, no presente, a expectativa de vida do homem está entre 70 e 75 anos.

Além disso, a força de vonta­de e a constituição psíquica sofre­ram significativa degradação. Na sociedade antiga, muito mais or­gânica que a de hoje, o equilíbrio nervoso e mental era mantido com mais firmeza; em nossos tempos, em meio à agitação da vida, dimi­nuiu a estabilidade. Em síntese, a virtude vai desaparecendo da face da Terra, o belo está se despedindo do gênero humano. Assim, encon­tramo-nos numa situação dramá­tica, talvez pior do que quando o Verbo Se encarnou para pregar o Evangelho e morrer na Cruz.

A mística atualidade da Liturgia

Ora, que relação têm estas reflexões com a Solenidade de Pentecostes? A consideração das festas litúrgicas não deve ser focalizada como um mero exercício de memória, de manei­ra semelhante a alguém que, chegado o aniversário de faleci­mento de um parente ou amigo, toma uma fotografia deste e relembra quanto ele era bom, mas depois continua seus afa­zeres sem dar mais importância ao fato. Se é verdade que na Liturgia cabe, em parte, também a recordação, no entanto há uma atualidade mística que se verifica no momento da Santa Missa, trazendo uma participação real, autêntica e direta nas graças distribuídas naquele dia ― hoje, em concreto, a efusão do Espírito Santo ―, porque nos congrega em torno de Cristo vivo, e não constitui apenas uma reminiscência do período em que Ele estava na Terra.

Tal é a doutrina da Igreja, conforme ensina o Papa Pio XI na Encíclica Quas primas: “para instruir o povo nas coisas da Fé e atraí-lo por meio delas aos íntimos gozos do espírito, muito maior eficácia têm as festas anuais dos sagra­dos mistérios que quais­quer ensinamentos, por autorizados que sejam, do Magistério Eclesiástico”.5 E o Papa Pio XII, na En­cíclica Mediator Dei sobre a Sagrada Liturgia, afirma: “O Ano Litúrgico, que a piedade da Igreja alimenta e acompanha, não é uma fria e inerte representação de fatos que pertencem ao passado, ou uma simples e nua evocação da reali­dade de outros tempos. É, antes, o próprio Cristo, que vive sempre na sua Igreja e que prossegue o caminho de imensa misericórdia por Ele iniciado, piedosamente, nesta vida mortal, quando passou fazendo o bem (cf. At 10, 38) com o fim de colocar as almas humanas em conta­to com os seus mistérios e fazê-las viver por eles, mistérios que estão perenemente presentes e operantes, não de modo incerto e nebuloso, de que falam alguns escritores recentes, mas porque, como nos ensina a doutrina católica e segundo a sentença dos Doutores da Igreja, são exemplos ilustres de perfeição cristã e fonte de graça divina pelos méritos e intercessão do Redentor; e porque perduram em nós no seu efeito, sendo cada um deles, de modo consentâneo à própria índole, a causa da nossa salvação”.6

A Igreja pede para “agora” as graças concedidas no Cenáculo

Não nos é dado penetrar integralmente em todo o signifi­cado e substância do acontecimento de Pentecostes, visto estar ele cheio de mistério. Na verdade, o que se teria passado com a Esposa de Cristo se não descesse o Paráclito sobre os Após­tolos? Não nos esqueçamos de que — digamo-lo com todo o respeito —, durante a Paixão de Nosso Senhor eles foram co­vardes, O abandonaram, desapareceram, fugiram (cf. Mt 26, 56; Mc 14, 50). Após a Morte e Ressurreição de Jesus tornaram a reunir-se, desejosos de ver a implantação do reino de Israel so­bre todos os povos (cf. At 1, 6), e não do Reino dos Céus que o Divino Mestre havia pregado! Esta é a natureza humana… in­capaz, por si, de atos sobrenaturais. Quiçá a Providência tivesse permitido que fossem tão pusilânimes para mostrar qual a dis­tância existente entre a nossa condição — da qual às vezes tan­to nos orgulhamos — e a força do Espírito Santo. Com efeito, muitas vezes julgamos que os Santos eram pessoas de vontade extraordinária, graças à qual venceram os obstáculos até con­quistarem a coroa da justiça. Ora, nenhum homem, por mais hábil que seja, alcança a perfeição por seu esforço pessoal; só praticará as virtudes de forma estável se assistido pelo Espírito Santo. É Ele quem santifica a Igreja inteira, como se deu naque­la manhã, quando o vento invadiu toda a casa onde estavam e as línguas de fogo pousaram sobre a cabeça dos Doze e de seus companheiros, como narra a primeira leitura (At 2, 1-11) desta Solenidade: de medrosos que eram, tornaram-se heróis!

Ao rezarmos a Oração do Dia, deparamo-nos com um pe­dido que goza de prodigiosa eficácia, muito maior que todas as nossas preces privadas, já que é uma súplica oficial da Igreja e, portanto, tem audiência absoluta junto ao Altíssimo: “Ó Deus, que, pelo mistério da festa de hoje, santificais a vossa Igreja in­teira, em todos os povos e nações, derramai por toda a extensão do mundo os dons do Espírito Santo, e realizai agora no coração dos fiéis as maravilhas que operastes no início da pregação do Evangelho”.7

Nós, católicos, temos o dom incomparável de pertencer ao Corpo Místico de Cristo e de também recebermos o Espírito Santo pelos Sacramentos do Batismo e, sobretudo, da Crisma, embora não com as espetacularidades ocorridas no Cenáculo. Mas a Igreja implora que “agora” sejam derramadas copiosa­mente nos corações dos fiéis, por toda a Terra, as graças conce­didas naquela ocasião aos Apóstolos e discípulos e, a fortiori, a Nossa Senhora.

Um dilúvio de fogo inundará a Terra

Assim, a comemoração da vinda do Espírito Santo nos oferece a solução para todos os problemas do mundo contem­porâneo. Muito a propósito escreve São Luís Maria Grignion de Montfort, em sua Oração Abrasada: “O Reino especial de Deus Pai durou até o dilúvio e terminou por um dilúvio de água; o Reino de Jesus Cristo terminou por um dilúvio de sangue, mas vosso Reino, Espírito do Pai e do Filho, continua até o presente e será terminado por um dilúvio de fogo, de amor e de justi­ça”.8 O fogo queima, aquece e ilumina; e, mais adiante, São Luís Grignion9 acrescenta que ele renova.

Não é possível que o plano original de Deus para a hu­manidade não venha a ser realizado por Ele de algum modo.

O homem pecou e, como já dissemos, por causa de sua maldade a sua natureza foi se rebaixando. Mas fixemos de novo a atenção na onipotência divina, enquanto aos nossos ouvidos ressoam as palavras de Jesus aos Apóstolos: “O que é impossível aos ho­mens é possível a Deus”. Se o Senhor permitiu tal decadência, teve como objetivo tornar patente, de um lado, o fracasso hu­mano, e, de outro, a plenitude de seu poder. Como deixar clara a autenticidade destes dois polos? O primeiro é evi­dente, uma vez que ficou comprovado o quanto somos terrivelmente débeis. Porém, é chegada a hora de assistirmos a um advento do Espírito Santo; porque, se foi preciso que houves­se sua efusão na Igreja primitiva para fazê-la passar da infância para o estado adulto, em nossos dias é indispensável que Ele venha para conferir a esta mesma Igreja o esplendor que Nosso Senhor Jesus Cris­to desejou ao fundá-la e dar à face da Terra um novo brilho!

Pentecostes e nossos dias

É ainda São Luís Grignion de Montfort quem prognostica uma era histórica na qual as almas quererão praticar a virtude de uma maneira ex­traordinária. De onde virá esta força? “Enviai o vosso Espírito, Senhor, e da Terra toda a face renovai”, é o que pedimos há dois mil anos e o que cantamos no Salmo Responso­rial (cf. Sl 103, 30). Sim, tudo pode ser renovado, nós podemos ser completamente mudados como o foram os discípulos! Então participaremos, de forma singular, da descida do Espírito San­to sobre Maria Santíssima e os Apóstolos, que hoje celebramos. Devemos nos firmar na fé de que para Deus nada é impossível e Ele está reservando suas mais especiais graças para esta fase da História chamada por tantos Santos de últimos tempos.10

“Acontecerá particularmente no fim do mundo e, logo, porque o Altíssimo com sua Santa Mãe devem formar grandes Santos que ultrapassarão tanto em santidade a maioria dos ou­tros Santos, quanto os cedros do Líbano suplantam os pequenos arbustos. […] Eles serão pequenos e pobres segundo o mundo […]; mas, pelo contrário, serão ricos em graça de Deus, que Ma­ria lhes distribuirá abundantemente; grandes e eminentes em santidade diante de Deus, superiores a toda criatura por seu zelo animoso, e tão fortemente apoiados pelo socorro divino que, com a humildade de seu calcanhar e em união com Maria, esmagarão a cabeça do demônio e farão triunfar Jesus Cristo”.11

A humanidade tem uma necessidade vital dessa efusão do Divino Espírito Santo. E esta é a razão de nos reunirmos ardo­rosamente em torno do altar, para pedir à Mãe das mães, Àque­la a cujo amor todos nós fomos entregues pelo Filho no alto da Cruz (cf. Jo 19, 26-27), que, enquanto Mãe do Corpo Místico, obtenha de seu Divino Esposo graças de maior fervor, de maior consolo, de maior piedade, de maior força para enfrentarmos todos os males, e que venha sem tardar o Paráclito e a face da Terra seja renovada! ²

 

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1) CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 6 jun. 1978.  

2) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.76, a.1.

3) Para outros comentários à Solenidade de Pentecostes, ver uma primeira opção de Evangelho (Jo 20, 19-23) oferecida pela Liturgia em: CLÁ DIAS, EP, João Scogna­miglio. A fé e a verdadeira paz. In: Arautos do Evangelho. São Paulo. N.52 (Abr., 2006); p.10-16; Comentário ao Evangelho do II Domingo da Páscoa – Ano B, neste mesmo volume, e Anos A e C, nos Volumes I e V desta coleção, respectivamente; A paz esteja convosco. In: Arautos do Evangelho. São Paulo. N.41 (Maio, 2005); p.6-11; Comentário ao Evangelho da Solenidade de Pentecostes – Ano A, no Vo­lume I desta coleção. Ver a segunda opção de Evangelho (Jo 4, 15-16.23b-26) ofe­recida pela Liturgia, no Ciclo C, em: O amor íntegro deve ser causa do bem total. In: Arautos do Evangelho. São Paulo. N.113 (Maio, 2011); p.10-17; Comentário ao Evangelho do VI Domingo da Páscoa – Ano A, no Volume I desta coleção. Ver ainda, no mesmo Volume I, o Evangelho da Vigília (Jo 7, 37-39) e a I Leitura (At 2, 1-11) da Missa do Dia; bem como esta última em: “E renovareis a face de Terra…”. In: Arautos do Evangelho. São Paulo. N.5 (Maio, 2002); p.5-10. E, por fim, ver Comentário à Sequência Veni Sancte Spiritus, no Volume V desta coleção.

4) ROYO MARÍN, OP, Antonio. Dios y su obra. Madrid: BAC, 1963, p.466.

5) PIO XI. Quas primas, n.20.  

6) PIO XII. Mediator Dei, n.150.

7) DOMINGO DE PENTECOSTES. Oração do Dia. In: MISSAL ROMANO. Trad. Portuguesa da 2a. edição típica para o Brasil realizada e publicada pela CNBB com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica. 9.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p.318.

8) SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Prière Embrasée, n.16. In: OEuvres Complètes. Paris: Du Seuil, 1966, p.681.

9) Cf. Idem, n.17, p.681-682.

10) Cf. SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Traité de la vraie dévo­tion à la Sainte Vierge, n.55-59. In: OEuvres Complètes, op. cit., p.520-522.

11) Idem, n.47; 54, p.512-513; 519.