Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

16 de Junho

DOMINGO XI DO TEMPO COMUM – ANO C

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA
Bendito seja Deus Pai,
bendito o Filho Unigénito,
bendito o Espírito Santo,
pela sua infinita misericórdia.

Diz-se o Glória.

ORAÇÃO COLECTA
Deus Pai,
que revelastes aos homens o vosso admirável mistério,
enviando ao mundo a Palavra da verdade
e o Espírito da santidade,
concedei-nos que, na profissão da verdadeira fé,
reconheçamos a glória da eterna Trindade
e adoremos a Unidade na sua omnipotência.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Prov 8, 22-31
Antes das origens da terra, já existia a Sabedoria

Leitura do Livro dos Provérbios
Eis o que diz a Sabedoria de Deus: «O Senhor me criou como primícias da sua actividade, antes das suas obras mais antigas. Desde a eternidade fui formada, desde o princípio, antes das origens da terra. Antes de existirem os abismos e de brotarem as fontes das águas, já eu tinha sido concebida. Antes de se implantarem as montanhas e as colinas, já eu tinha nascido; ainda o Senhor não tinha feito a terra e os campos, nem os primeiros elementos do mundo. Quando Ele consolidava os céus, eu estava presente; quando traçava sobre o abismo a linha do horizonte, quando condensava as nuvens nas alturas, quando fortalecia as fontes dos abismos, quando impunha ao mar os seus limites para que as águas não ultrapassassem o seu termo, quando lançava os fundamentos da terra, eu estava a seu lado como arquitecto, cheia de júbilo, dia após dia, deleitando-me continuamente na sua presença. Deleitava-me sobre a face da terra e as minhas delícias eram estar com os filhos dos homens».
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 8, 4-9 (R. 2a)

Refrão: Como sois grande em toda a terra,
Senhor, nosso Deus! Repete-se

Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos,
a lua e as estrelas que lá colocastes,
que é o homem para que Vos lembreis dele,
o filho do homem para dele Vos ocupardes? Refrão

Fizestes dele quase um ser divino,
de honra e glória o coroastes;
destes-lhe poder sobre a obra das vossas mãos,
tudo submetestes a seus pés: Refrão

Ovelhas e bois, todos os rebanhos,
e até os animais selvagens,
as aves do céu e os peixes do mar,
tudo o que se move nos oceanos. Refrão

LEITURA II Rom 5, 1-5
Para Deus, por Cristo, na caridade que recebemos do Espírito

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos: Tendo sido justificados pela fé, estamos em paz com Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual temos acesso, na fé, a esta graça em que permanecemos e nos gloriamos, apoiados na esperança da glória de Deus. Mais ainda, gloriamo-nos nas nossas tribulações, porque sabemos que a tribulação produz a constância, a constância a virtude sólida, a virtude sólida a esperança. Ora a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.
Palavra do Senhor.

ALELUIA cf. Ap 1, 8
Refrão: Aleluia. Repete-se
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo,
ao Deus que é, que era e que há-de vir. Refrão

EVANGELHO Jo 16, 12-15
«Tudo o que o Pai tem é meu.
O Espírito receberá do que é meu, para vo-lo anunciar»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis compreender agora. Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos guiará para a verdade plena; porque não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que está para vir. Ele Me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso vos disse que Ele receberá do que é meu e vo-lo anunciará».
Palavra da salvação.

Diz-se o Credo.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Caríssimos cristãos:
Nós, que não podemos salvar-nos a nós mesmos
e nada podemos sem Deus,
peçamos-Lhe a graça do seu perdão,
dizendo (ou: cantando), humildemente:
R. Atendei, Senhor, a nossa prece.
Ou: Escutai, Senhor, a nossa oração.
Ou: Lembrai-Vos, Senhor, do vosso povo.
1. Pela santa Igreja, que acredita em Jesus Cristo,
pelos seus filhos renascidos pela graça
e por todos os que vivem em pecado,
oremos.
2. Pelos que morrem às mãos de outros homens,
pelas vítimas da perseguição dos poderosos
e pelos casais destruídos pela infidelidade,
oremos.
3. Pelo mundo, mais pronto a condenar que a perdoar,
pelos juízes a quem foi confiada a justiça
e pelos réus que por eles vão ser julgados,
oremos.
4. Pelas mulheres pecadoras que se arrependem,
pelos homens que foram causa do seu pecado
e por aqueles que sentem Cristo vivo dentro de si,
oremos.
5. Por todos nós, pecadores,
pelos que não põem a confiança nos seus méritos,
mas tudo esperam da misericórdia de Deus,
oremos.
Deus eterno e omnipotente,
que muito perdoais a quem muito ama,
nós Vos louvamos pela vossa infinita misericórdia
e nos confiamos à vossa graça,
para obter o perdão das nossas culpas.
Por Cristo Senhor nosso.

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Santificai, Senhor, os dons
sobre os quais invocamos o vosso santo nome
e, por este divino sacramento,
fazei de nós mesmos uma oblação eterna para vossa glória.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

PREFÁCIO O mistério da Santíssima Trindade
V. O Senhor esteja convosco.
R. Ele está no meio de nós.
V. Corações ao alto.
R. O nosso coração está em Deus.
V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.
R. É nosso dever, é nossa salvação.
Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente,
é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação
dar-Vos graças, sempre e em toda a parte:
Com o vosso Filho Unigénito e o Espírito Santo,
sois um só Deus, um só Senhor,
não na unidade de uma só pessoa,
mas na trindade de uma só natureza.
Tudo quanto revelastes acerca da vossa glória,
nós o acreditamos também, sem diferença alguma,
do vosso Filho e do Espírito Santo.
Professando a nossa fé na verdadeira e sempiterna divindade,
adoramos as três Pessoas distintas,
a sua essência única e a sua igual majestade.
Por isso Vos louvam os Anjos e os Arcanjos,
os Querubins e os Serafins,
que Vos aclamam sem cessar, cantando numa só voz:
Santo, Santo, Santo.

ANTÍFONA DA COMUNHÃO cf. Gal 4, 6
Porque somos filhos de Deus,
Ele enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho,
que clama: Abba, Pai.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Ao professarmos a nossa fé na Trindade Santíssima
e na sua indivisível Unidade,
concedei-nos, Senhor nosso Deus,
que a participação neste divino sacramento
nos alcance a saúde do corpo e da alma.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

O fariseu e a pecadora

Simão recebe Jesus em sua casa com orgulhosa frieza. Maria Madalena, a pecadora, desdobra-se em manifestações de arrependimento e ternura. Por ter amado muito, viu-se ela redimida de todas as suas faltas. E o fariseu foi impedido, pelo orgulho, de pedir perdão.

Origens históricas dos fariseus

O orgulho, causa de todos os pecados, não abandona o ho­mem senão meia hora após a morte. Sutil e interior, sendo embora um lobo feroz de ambição, ele se esconde sob pele de ovelha. Por este motivo, o orgulhoso não é facilmente fustigado pela reprovação da sociedade, como acontece no caso dos demais vícios. Quão comum é encontrarmos a soberba fa­lando abertamente de suas próprias qualidades e virtudes — re­ais ou imaginárias — ou ostentando suas riquezas!

Esse é o grande mal dos que se julgam doutos e sábios. Terrível é a vaidade feminina quando desenfreada, mas ela pa­rece nada, em comparação com o orgulho descontrolado de um homem que procura passar por inteligente e culto. A este se po­deria aplicar o dito de Plínio: “Pasma ver aonde pode chegar a arrogância do coração humano estimulada pelo menor êxito”.1

Nesse quadro se encaixam os escribas e fariseus.

A origem histórica dos fariseus remonta à restauração de Israel após o cativeiro da Babilônia. Entretanto, suas caracterís­ticas descritas nos Evangelhos se evidenciaram depois da revolta e vitória dos Macabeus (cf. I Mac 2, 19-27), pois, opondo-se à forte influência helenista que se exercia acima de tudo sobre as camadas mais altas da sociedade, separaram-se por fidelidade às antigas tradições puras de Israel. Daí surgiu o nome de fariseu, que quer dizer separado. Entretanto, não constituíam eles então uma seita, partido político ou organização.

Como sói acontecer a todos aqueles que não restituem a Deus os dotes d’Ele recebidos, não tardou muito em julgarem­-se os fariseus os únicos donos da verdade, erigindo-se em lei e modelo face aos demais. Além disso, eram eles, em sua quase totalidade, os doutores da lei, também chamados escribas. Go­zavam, pois, de notoriedade, prestígio e influência. Essa situa­ção de superioridade, se não for equilibrada pela virtude da des­pretensão e pelo verdadeiro amor a Deus, facilmente conduz à hipocrisia da qual os acusara repetidamente o Divino Salvador (cf. Mt 15, 7; 16, 4; 22, 18; 23, 13-33; Mc 7, 6).

Ora, ademais, “o orgulho é suspicaz; converte em calúnia, com a interpretação mais injusta, o que foi dito ou executado com a maior simplicidade”.2 Esse é o caso do fariseu Simão, do Evangelho de hoje.

Por que Simão convidou Jesus?

Era uma honra insigne, e uma imensa graça, receber em sua casa um grande profeta, mais ainda tratando-se de um taumatur­go que até já havia operado uma ressurreição, a da filha de Jairo (cf. Lc 7, 41-55; Mc 5, 35-42). Simão convida Jesus de Nazaré e o recebe em meio a outros tantos fariseus. Qual seu objetivo?

Enganar-se-ia redondamente quem julgasse estar na raiz dos anseios de Simão alguma causa piedosa ou a admiração. O jantar constituiria uma excelente ocasião para ele e os demais fariseus observarem bem de perto esse personagem, já então mui­to comentado e discutido nas rodas da elevada esfera religiosa. Seriam verdadeiras as notícias espalhadas pelo povo a seu respei­to? Era essa a preocupação de todos.

Tanto faltaram a Simão motivos de fervor e devoção para pedir ao Mestre “que fosse comer com ele”, que dispensou-Lhe o tratamento comum e corrente empregado para receber qualquer pessoa sem projeção nem importância. Conhecemos, pela História, os costumes da época. Os homens, em geral, deslocavam-se a pé, por ruas e estradas empoeiradas. Em consequência, o bom acolhi­mento a um hóspede — sobretudo de certa categoria — consistia em mandar um servo lavar-lhe os pés logo após ter ingressado na casa, a fortiori se ele fosse participar de uma refeição. Ademais, era de bom-tom cumprimentar o convidado com um ósculo, à chegada. E por fim, um dos melhores sinais de benquerença e deferência es­tava em ungir a cabeça do visitante com óleo perfumado.

Pode-se discutir a elegância ou o bom gosto desse cerimo­nial, não, porém, pôr em dúvida o quanto Simão tratou a Jesus como um qualquer, negando-lhe as praxes próprias à recepção de um personagem distinto. Além do mais, não podemos nos es­quecer dos delírios existentes entre os fariseus de serem meticu­losos na observância dessas pequenas normas sociais ou religio­sas, tal qual nos relata um historiador: “Quero agora mencionar alguns fatos curiosos a propósito dos rabis. Nenhum pode sair à noite só, nem usar sandálias remendadas. […] Também não pode falar com mulheres num lugar público e deve por de parte toda intimidade com gente inferior — e, acreditem ou não, não deve caminhar ereto pois isso denuncia orgulho! Entre as fantásticas sutilezas que os rabis ensinam nas suas escolas, teimam que na Lei há 248 preceitos afirmativos, um número que — dizem — corresponde ao de membros e órgãos do corpo humano e 365 preceitos negativos, ou seja, o número de nossas artérias e veias, tudo totalizando 613, que é o conjunto das letras que compõem o Decálogo de Moisés”.3

Simão não admira seu convidado, muito pelo contrário, tem-Lhe antipatia. Seu juízo a respeito d’Ele já é categórico em seu subconsciente, e está ansioso por encontrar fatos que deem solidez à sentença pronta a ser formulada. Ele já conhece Jesus, mas sem em nada fazer uso da virtude da fé para analisá-Lo e sem a menor estima por Ele, desde a primeira notícia que lhe chegou a respeito do Mestre. Nos alvores do relacionamento en­tre ambos, despontou na alma de Simão um sentimento de inse­gurança, comparação e inveja.

É levando em consideração sua psicologia moral deforma­da pelas mazelas de uma existência talvez sectária e orgulhosa, que se compreenderá melhor a reação de Simão face ao impre­visto ocorrido a certa altura da ceia.

Uma pecadora que admirava a virtude

As mesas de refeição daqueles tempos costumavam ser em forma de um longo “u”. O anfitrião e o principal convidado sen­tavam-se lado a lado, bem ao centro.

Nessas ocasiões, as mulheres eram excluídas dos salões. Por­tanto, a entrada de uma dama naquele recinto, mesmo sendo de alta reputação, chocaria fortemente todos os comensais; mais ainda se fosse ela conhecida por seus maus costumes. Foi o que se passou.

Há muito que Maria Madalena havia provado o vazio e a mentira do pecado. Sua alma delicada ansiava uma oportu­nidade para mudar de vida, mas as circunstâncias a impediam de realizar esse bom intento. Por pura fraqueza caíra naqueles horrores. Mas, em seu coração feminino, guardava uma grande admiração pela virtude e — por incrível que pareça — em espe­cial pela pureza. Sua sensibilidade física a arrastava às engano­sas delícias da carne e, portanto, à ofensa grave a Deus; mas a espiritual a convidava à paz de consciência, ao amor ao Criador.

No auge desse dilema, depois de muito implorar socorro ao Céu, ouviu falar do surgimento de um grande profeta em Israel, taumaturgo em altíssimo grau: os paralíticos andavam, os cegos enxergavam, os surdos ouviam, os mudos falavam e até os mortos ressuscitavam. Afinal, pensou ela, chegara o remédio para todos os males que atormentavam seu espírito tão carregado de recri­minadoras aflições. Ela se considerava monstruosa e não via a hora em que pudesse sentir-se purificada de suas manchas. Por debaixo daquela lama imunda havia uma pele de arminho que ardia de anseios de limpeza.

As primeiríssimas reações de sua alma em relação a Jesus foram da mais entranhada simpatia. Desde o início, ela O amou mais do que a si própria e anelava pela oportunidade de se aproximar d’Ele. Assim, “quando soube que estava à mesa em casa do fariseu”, deci­diu enfrentar os rigo­rismos sociais e entrar na sala da ceia. Para chegar onde estava o Divino Mestre, deu a volta pelo lado externo da mesa e “colocando-se a seus pés, por detrás d’Ele, começou a banhar-Lhe os pés com lágrimas, e enxugava-os com os cabelos da sua cabeça, beijava-os, e os ungia com o perfume”, que trouxera num frasco de alabastro.

Antes, por sua concupiscência, andava irrequieta a atrair a atenção de todos para si; agora se ajoelha para servir. Os olhos com os quais ofendera a Deus por sua curiosidade irrefreada, choravam de dor pelo passado. Seus cabelos, outrora vaidosa­mente penteados, ela os utilizava nesse momento como fino li­nho para enxugar os pés do Senhor. Os lábios que tanto profe­riram palavras de insensatez consagravam-se em beijar aqueles divinos pés. Por fim, elevava à categoria de instrumento de lou­vor o perfume usado em outras eras para açular sua vaidade. “Assim, esta mulher pecadora tornou-se mais honesta que as vir­gens, depois de se consagrar à penitência e se dedicar a amar a Deus. E tudo quanto dela se disse [no versículo 38] passava-se exteriormente, mas o que movia sua intenção, e só Deus via, era muito mais cheio de fervor”.4

O juízo preconceituoso do fariseu

A segurança parecia retornar ao coração de Simão, o fa­riseu, ao assistir a tão escandalosa cena: “Se este fosse profe­ta, com certeza saberia de que espécie é a mulher que O toca: uma pecadora”. Seu juízo é apressado e infundado. Assim co­mo não teve fé e amor para enlevar-se com o Mestre, faltou-lhe também o discernimento para, na ex-pecadora, ver e interpretar os sinais de um arrependimento perfeito, pois são notórios os efeitos do vício ou da virtude estampados na face (cf. Eclo 13, 31). O orgulho de ser um rigoroso e sábio legista levou-o a uma conclusão aparentemente lógica, mas em realidade temerária, contra o Médico e contra a enferma. Além do mais, manifestou sua falsidade, pois, se concebeu no seu interior a convicção de estar diante de um homem comum e aguardou sua saída para provavelmente comentar com satisfação o aparente horror da­quele escândalo, por que chamá-Lo de Mestre? A esse respei­to, comenta com muita propriedade São Gregório Magno: “O Médico se encontrava entre dois enfermos; um tinha a febre dos sentidos, e o outro havia perdido o sentido da razão: aquela mu­lher chorava o que havia feito, mas o fariseu, orgulhoso pela sua falsa justiça, exagerava a força de sua saúde”.5

Além de não ter tido tino ou virtude para perceber na pe­cadora a enorme graça de que havia sido objeto, faltava ao fa­riseu humildade, fé e amor para ver em Jesus o Filho de Deus. Entretanto, a prova de quanto Jesus é profeta foi dada a Simão logo a seguir, no estilo tão apreciado naqueles tempos, através da parábola dos dois devedores. É notório o caráter universal das palavras do Salvador contidas nesse trecho, mas não pode­mos negligenciar a realidade concreta a desdobrar-se diante de seus olhos de Juiz Supremo.

Ali estavam dois réus. Ambos haviam ofendido a Deus em graus diferentes e necessitavam, portanto, do perdão. A pecadora estava tomada por um arrependimento perfeito e foram-lhe “per­doados os seus muitos pecados, porque muito amou”. Quanto ao fariseu, o Senhor lhe externa sua disposição em perdoá-lo, mas seria necessário, da parte dele, fé e maior amor. Indispensável era ao fariseu reconhecer seu débito para com Deus e pedir-Lhe per­dão, mas ele assim não procedeu, por ser orgulhoso.

É fácil compreender a sentença final do Divino Juiz: a peca­dora é oficial e publicamente perdoada; quanto ao fariseu, na me­lhor das hipóteses — se chegasse a arrepender-se e vencer seu or­gulho — caberia, talvez, o decreto de Nosso Senhor: “os publicanos e as meretrizes vos precedem no Reino de Deus” (Mt 21, 31).

É preciso ter pecado para crescer no amor?

É importante respondermos a uma questão: em face do Evangelho de hoje, é necessário a pessoa ter praticado um gran­de número de pecados para, ao ser perdoada, amar mais?

Se assim fosse, Maria Imaculada — não só pela sua pu­ríssima concepção, mas também por sua ilibada vida — seria a criatura que menos amou a Deus. Ora, sabemos com emocio­nado júbilo ser a Santíssima Virgem a mais amada e a mais per­feita amante, entre todos os seres saídos das mãos do Criador. Porém, a Ela também cabia rezar: “Perdoai as nossas dívidas”, como se pedia antigamente no Pai-Nosso, pois Ela Lhe deve o ser, a predestinação à maternidade divina, a plenitude de gra­ças, a concepção imaculada, a vida isenta de qualquer mancha de pecado, enfim, todos os dons, virtudes e privilégios que Lhe foram concedidos no mais alto grau.

Ela mesma externou esse reconhecimento, ao pronunciar o Magnificat, em casa de sua prima Santa Isabel: “A minha al­ma glorifica o Senhor; e o meu espírito exulta de alegria em Deus meu Salvador, porque olhou para a humildade de sua serva. Portanto, eis que, de hoje em diante, to­das as gerações Me chamarão ditosa, porque o Todo­-Poderoso fez em Mim grandes coisas” (Lc 1, 46-49).

A gratidão que se manifestava perfeita na peca­dora, não estava presente em Simão, o fariseu. Com independência das faltas cometidas, nós todos so­mos devedores diante da incomensurável bonda­de de Deus, pois Ele nos escolheu entre infinitos outros seres passíveis de serem criados, sobre os quais não incidiu seu ato criador. Mas, aos or­gulhosos não ocorrem esses pensamentos.

Debaixo desse prisma, Maria Santíssima é a maior devedora, pois Ela sozinha recebeu de Deus muito mais que a soma dos Anjos e dos Bem-aventurados, no seu conjunto.

Compreendemos agora melhor o Evangelho: a pecadora recebeu de Jesus dez vezes mais do que Simão, o fariseu. Ela amou o Redentor na mesma proporção, penetrada de gratidão. O outro, não. Por seu orgulho, ele não se reconhecia devedor e, portanto, não en­tendia nem desejava a remissão que Jesus lhe oferecia.

Abraçar a via do amor e da gratidão

“Eis que este Menino está posto para ruína e ressurreição de muitos em Israel e para ser sinal de contradição” (Lc 2, 34).

Diante de Jesus, ou estamos com o amor e gratidão da pe­cadora; ou, melhor ainda, com disposições de alma semelhantes às da Santíssima Virgem; ou seguindo as desordens do fariseu Simão.

Se abraçarmos a via do amor agradecido — quer na inocência, quer no arrependimento — a nós se aplica­rá o pensamento de São Tomás, como explica Garri­gou-Lagrange: “O menino, inclusive o não-batizado, se tem a idade do uso da razão e ama eficazmente o bem mais do que a si mesmo, está justificado pe­lo batismo de desejo, porque esse amor, que já é o amor eficaz a Deus, não é possível no estado atual da humanidade sem a graça regeneradora (cf. S. Th. I-II, q.109, a.3)”.6

Pelo contrário, se assumirmos a soberba do fariseu, sentiremos em nós o quanto “o orgulho é impaciente e malévolo; invejoso, arrogante, ambicioso, busca só os seus próprios interes­ses, pervadido de irritações e de ressentimen­tos pelo mal sofrido”. Provaremos no fundo de nossa alma “o regozijo com a injustiça e a tris­teza com a verdade”, porque o orgulho, para­fraseando São Paulo, “nada desculpa, de tudo desconfia, nada espera e nada suporta” (cf. I Cor 13, 4-7).

________________

1) PLÍNIO, O VELHO. Naturalis Historia. 2, 33.

2) VIVES, João Luís. De anima et Vita, I, 3: De superbia.  

3) FRANZERO, Carlo María. Memórias de Pôncio Pilatos. Lisboa: ENP, 1949, p.215.

4) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. In Lucam, c.VII, v.36-50.

5) SÃO GREGÓRIO MAGNO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit.

6) GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Réginald. El Salvador y su amor por nosotros. Madrid: Rialp, 1977, p.34.