Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

22 de Julho

DOMINGO XVI DO TEMPO COMUM – ANO B

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA Salmo 53, 6.8
Deus vem em meu auxílio, o Senhor sustenta a minha vida.
De todo o coração Vos oferecerei sacrifícios,
cantando a glória do vosso nome.

ORAÇÃO COLECTA
Sede propício, Senhor, aos vossos servos
e multiplicai neles os dons da vossa graça,
para que, fervorosos na fé, esperança e caridade,
perseverem na fiel observância dos vossos mandamentos.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Jer 23, 1-6
«Reunirei o resto das minhas ovelhas
e dar-lhes-ei pastores»

No Evangelho, Jesus vai revelar-Se cheio de compaixão pela multidão, que é como um rebanho sem pastor. Mas já desde o Antigo Testamento Deus Se tinha revelado como bom Pastor do seu povo. Os cuidados do pastor pelo seu rebanho são uma boa comparação que nos pode fazer compreender o amor com que Deus Se preocupa com os homens e deseja que eles encontrem os verdadeiros caminhos da vida e o verdadeiro alimento que os há-de sustentar nesses caminhos. E logo se anuncia um “rebento justo”, um “verdadeiro rei”, o Messias futuro que Se há-de um dia apresentar como o “Bom Pastor”, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Leitura do Livro de Jeremias
Diz o Senhor: «Ai dos pastores que perdem e dispersam as ovelhas do meu rebanho!». Por isso, assim fala o Senhor, Deus de Israel, aos pastores que apascentam o meu povo: «Dispersastes as minhas ovelhas e as escorraçastes, sem terdes cuidado delas. Vou ocupar-Me de vós e castigar-vos, pedir-vos contas das vossas más acções – oráculo do Senhor. Eu mesmo reunirei o resto das minhas ovelhas de todas as terras onde se dispersaram e as farei voltar às suas pastagens, para que cresçam e se multipliquem. Dar-lhes-ei pastores que as apascentem e não mais terão medo nem sobressalto; nem se perderá nenhuma delas – oráculo do Senhor. Dias virão, diz o Senhor, em que farei surgir para David um rebento justo. Será um verdadeiro rei e governará com sabedoria; há-de exercer no país o direito e a justiça. Nos seus dias, Judá será salvo e Israel viverá em segurança. Este será o seu nome: ‘O Senhor é a nossa justiça’».
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 22 (23), 1-3a.3b-4.5.6 (R. 1)
Refrão: O Senhor é meu pastor:
nada me faltará. Repete-se

O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma. Refrão

Ele me guia por sendas direitas por amor
do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:
o vosso cajado e o vosso báculo
me enchem de confiança. Refrão

Para mim preparais a mesa
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça,
e o meu cálice transborda. Refrão

A bondade e a graça hão-de acompanhar-me
todos os dias da minha vida,
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre. Refrão

LEITURA II Ef 2, 13-18
«Ele é a nossa paz, que fez de uns e outros um só povo»

Continuando a expor o plano de Deus sobre o mundo, S. Paulo mostra como Jesus fez a união de todos os homens por meio da sua Cruz, em particular, a união entre o povo de Deus do Antigo Testamento e o do Novo Testamento. Nem são rigorosamente dois povos, mas dois momentos do mesmo povo em que se manifesta a continuação e o desenvolvimento do mesmo e único plano divino de levar todos os homens, de todos os tempos, à unidade do Corpo que tem Cristo por cabeça e pastor.

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Efésios
Irmãos: Foi em Cristo Jesus que vós, outrora longe de Deus, vos aproximastes d’Ele, graças ao sangue de Cristo. Cristo é, de facto, a nossa paz. Foi Ele que fez de judeus e gregos um só povo e derrubou o muro da inimizade que os separava, anulando, pela imolação do seu corpo, a Lei de Moisés com as suas prescrições e decretos. E assim, de uns e outros, Ele fez em Si próprio um só homem novo, estabelecendo a paz. Pela cruz reconciliou com Deus uns e outros, reunidos num só Corpo, levando em Si próprio a morte à inimizade. Cristo veio anunciar a boa nova da paz, paz para vós, que estáveis longe, e paz para aqueles que estavam perto. Por Ele, uns e outros podemos aproximar-nos do Pai, num só Espírito.
Palavra do Senhor.

ALELUIA Jo 10, 27
Refrão: Aleluia. Repete-se
As minhas ovelhas escutam a minha voz,
diz o Senhor;
Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-Me.
Refrão

EVANGELHO Mc 6, 30-34
«Eram como ovelhas sem pastor»

Sem a palavra de Deus os homens não encontram a união, são como ovelhas tresmalhadas de um rebanho a que falta o pastor. Jesus, ao contemplar a multidão que O seguia, mas que não era ainda a sua Igreja, sente por ela grande compaixão e vai-lhes dando o pão da palavra de Deus: “começou a ensinar-lhes muitas coisas”.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Naquele tempo, os Apóstolos voltaram para junto de Jesus e contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado. Então Jesus disse-lhes: «Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco». De facto, havia sempre tanta gente a chegar e a partir que eles nem tinham tempo de comer. Partiram, então, de barco para um lugar isolado, sem mais ninguém. Vendo-os afastar-se, muitos perceberam para onde iam; e, de todas as cidades, acorreram a pé para aquele lugar e chegaram lá primeiro que eles. Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-Se de toda aquela gente, porque eram como ovelhas sem pastor. E começou a ensinar-lhes muitas coisas.
Palavra da salvação.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Oremos, irmãs e irmãos, para que a Igreja e os povos da terra escutem e sigam o verdadeiro pastor, que quer salvar todos os homens, dizendo (ou: cantando), com fé:

R. Cristo, ouvi-nos. Cristo, atendei-nos.

Ou: Jesus Cristo, ouvi-nos.

Ou: Ouvi-nos, ó Rei da eterna glória.

1. Para que a Igreja santa, nossa mãe, glorifique o nome de Jesus, o seu Pastor, e anuncie em toda a parte o Evangelho, oremos.

2. Para que os governantes e as autoridades exerçam com justiça as suas funções e velem pelo bem de todo o povo, oremos.

3. Para que Jesus, o Mestre que sabe instruir, Se compadeça das multidões que O não conhecem e venha ensinar-lhes a verdade, oremos.

4. Para que o mundo novo inaugurado por Cristo, sem classes, sem divisões e sem fronteiras, seja a meta para onde caminhe a humanidade, oremos.

5. Para que as nossas comunidades (paroquiais) vivam em união com os pastores que Deus lhes deu, os amparem, com eles trabalhem e por eles rezem, oremos.

Senhor Jesus Cristo, nós Vos pedimos por todos os pastores, para que sejam dignos de Vós, e pelas ovelhas do rebanho que lhes confiastes, para que tenham fome das vossas palavras. Vós que viveis e reinais por todos os séculos dos séculos

 

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Senhor, que levastes à plenitude os sacrifícios da Antiga Lei
no único sacrifício de Cristo,
aceitai e santificai esta oblação dos vossos fiéis,
como outrora abençoastes a oblação de Abel;
e fazei que os dons oferecidos em vossa honra
por cada um de nós
sirvam para a salvação de todos.
Por Nosso Senhor.

ANTÍFONA DA COMUNHÃO cf. Salmo 110, 4-5
O Senhor misericordioso e compassivo
instituiu o memorial das suas maravilhas,
deu sustento àqueles que O temem.

Ou Ap 3, 20
Eu estou à porta e chamo, diz o Senhor.
Se alguém ouvir a minha voz e Me abrir a porta,
entrarei em sua casa, cearei com ele e ele comigo.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Protegei, Senhor, o vosso povo
que saciastes nestes divinos mistérios
e fazei-nos passar da antiga condição do pecado
à vida nova da graça.
Por Nosso Senhor.

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

A maior felicidade

No convívio nobre e elevado com os outros, ou no relacionamento calmo, silencioso e sereno com Deus, encontra-se a maior felicidade nesta Terra.

I – Solidão e convívio

A maior felicidade nesta Terra encontra-se no convívio, quando ele é respeitoso, nobre e elevado. No Céu, este atingirá a perfeição no pleno gozo da visão beatífica. Por isso, à primeira vista não é fácil entender os elogios feitos pelos Santos à solidão. Entretanto, o isolamento pode vir a ser abençoado, pois constitui um meio ideal para um excelente re­lacionamento com Deus. Pode acontecer que na sadia renúncia ao instinto de sociabilidade, por motivos sobrenaturais, seja-nos dado — por uma especial graça e chamado de Deus — um ine­fável relacionamento com Ele. Estes dois gêneros de convívio com Deus constituem justamente a essência dos primeiros versí­culos do Evangelho do 16º Domingo do Tempo Comum.

Reações animais no homem: as paixões

Por sermos compostos de corpo e alma, temos algo em co­mum com os animais, como também com os Anjos. Em nossa imaginação e apetite sensitivo — sobretudo na raiz de nossas paixões ou emoções — somos semelhantes aos animais. Basta estarmos diante de um objeto que nos atraia ou de um outro que nos cause rejeição, para que nossas emoções e paixões nos levem a reagir de forma irracional.

Uma águia, por exemplo, descerá das alturas num voo pi­cado e certeiro sobre um coelho a correr pela relva. Neste ato encontra-se um como que amor dela pelo alimento, nascido do ins­tinto de conservação, e do qual po­dem brotar, por sua vez, a alegria, a ousadia, bem como o ódio aos obs­táculos e às contradições, o temor, etc. Nessas tendências e reações podemos notar uma similitude com o mecanismo de nossas paixões.

Nem sempre as paixões são avassaladoras. Todavia, não é raro acontecer que o sejam. De si, são neutras. Não obstante, quando orientadas, governadas e disciplinadas pela vontade e pela razão, e estas pela fé, elas se transformam em poderosos meios para operar maravilhas. No extremo oposto — na sua desordem — temos os vícios, tão fre­quentes depois do pecado original e, sobretudo, em nossos dias: inveja, ciúmes, mentira, sensualidade, gula, etc.

O amor desregrado às criaturas e a verdadeira felicidade

Em nós, homens, esse sentir se evidencia não só com mais profundidade, mas com uma intensidade incomparavelmente maior: a inteligência, associada à imaginação, concebe um Bem universal, e a vontade o anseia sem limites. Santo Agostinho descreve este dilema da natureza humana:

“Bom é Aquele que me criou e Ele próprio é o meu bem; a Ele quero louvar por todos estes bens que integravam meu ser desde criança. No que pecava eu, então, era em buscar em mim mesmo e nas demais criaturas, e não n’Ele, os deleites, as gran­dezas e as verdades, pelo que logo caía em dores, confusões e erros”.1

De fato, só em Deus encontra o homem a plenitude de sua felicidade. Se erigir uma criatura para O substituir, lançar-se-á em sua busca com sede insaciável. É terribilíssimo este drama da insatisfação e, no entanto, tão comum. Os animais se saciam fora de Deus, em seu apetite natural. O homem, porém, está sempre concebendo novos e requintados prazeres, procurando-os com desejo infinito. Ouçamos, a esse respeito, São Tomás de Aquino:

“É impossível estar a bem-aventurança do homem em um bem criado. A bem-aventurança é um bem perfeito, que total­mente aquieta o desejo, pois não seria o último fim, se ficasse algo para desejar. O objeto da vontade, que é o apetite huma­no, é o Bem universal, como o objeto do intelecto é a Verdade universal. Disto fica claro que nenhuma coisa pode aquietar a vontade do homem senão o Bem universal. Mas tal não se en­contra em bem criado algum, a não ser só em Deus, porque toda criatura tem bondade participada. Por isso, só Deus pode satis­fazer plenamente a vontade humana, segundo o que diz o Salmo 102, 5: ‘Que enche de bens o teu desejo’. Consequentemente, só em Deus consiste a bem-aventurança do homem”.2

Esta explicação torna patente aos nossos olhos quanto é inatingível a felicidade plena, para nós, criaturas racionais, se erigirmos um fim último que não seja o próprio Deus. Pois um bem limitado será reconhecido com facilidade como tal por nossa inteligência que, em seguida, conceberá outro superior e nossa vontade será movida a desejá-lo. E assim, sucessivamente, até o infinito.

A busca de Deus no convívio ou na solidão

É o Bem infinito e eterno que torna gaudioso nosso con­vívio ou nossa solidão, pois até no isolamento, quando sobre­naturalizado, buscamos o relacionamento com Deus devido à nossa natureza sociável, conforme ensina São Tomás: “O ho­mem é naturalmente um ser sociável e, por este motivo, tem apetência para viver em sociedade e não ser solitário, ainda que não necessitasse dos outros para viver”.3 E afirma o Eclesiastes: “Dois homens juntos são mais felizes que um isolado” (4, 9).

Com base no anteriormente exposto, compreendemos melhor quanto devemos procurar esse Bem infinito em meio às nossas amizades, pois os seres humanos devem ser elemen­tos para melhor conhecermos e amarmos a Deus. Se para tal objetivo concorrem até as criaturas inanimadas, quanto mais os Bem-aventurados. Foi, aliás, o que se passou no conhecido epi­sódio do encontro, em Roma, de três Santos: São Francisco de Assis, Santo Ângelo Hierosolimita e São Domingos de Gusmão. Depois de haverem estado juntos na Basílica de São João de La­trão, dirigiram-se ao Convento de Santa Sabina, junto ao Monte Aventino, louvando a Deus em santas emulações. Ali chegando, estando frente a frente, na cela de São Domingos, puseram-se os três de joelhos e passaram a noite enaltecendo as virtudes uns dos outros, em piedosas práticas e orações. Esta cela foi trans­formada em capela e existe ali uma inscrição comemorativa do histórico acontecimento.4

Infelizmente, nos dias atuais, o convívio entre os homens se realiza cada vez mais com base no puro egoísmo, fato este que torna difícil degustar a cena do reencontro dos Apóstolos com o Divino Mestre. Marcos, que tanto aprendera na proximi­dade de Pedro, procura sintetizar tal felicidade de situação com estas simples palavras: “Os Apóstolos reuniram-se com Jesus”.

II – O convívio

Conforme se lê no versículo 7 deste mesmo capítulo, os Apóstolos haviam sido mandados em missão, dois a dois, a diferentes lugares. Não há informação histórica sobre quanto durou esta separação entre eles, nem a respeito dos lugares percorridos. Bem se pode imaginar as energias físi­cas e emocionais que eles empregaram nesta primeira aventura apostólica. Passar da atividade de pescadores para as de exorcis­tas, taumaturgos e pregadores, sem um longo curso preparatório em alguma academia, deve ter causado um não pequeno desgas­te a cada um, sem contar as saudades indizíveis e crescentes que os assaltavam. Teriam eles fixado uma data para o reencontro? Também nada se sabe sobre este particular. Ele pode ter-se da­do até por força do acaso, mas o certo é que todos coincidiram no momento de voltar a Jesus.

Reencontro com o Mestre

Naquele tempo, 30 os Apóstolos reuniram-se com Jesus e contaram tudo o que haviam feito e ensinado.

Tratava-se da primeira grande separação. Depois de tanto tempo e de inúmeras aventuras, retornar para junto do Mestre deve ter sido um acontecimento marcante na vida de cada um deles. Apesar de Cristo Jesus viver sob os véus de uma nature­za humana padecente e mortal, qualquer ato de admiração e de benquerença em relação a Ele era, no fundo, uma adoração di­reta a Deus. Ali estava o mesmo Jesus que mais tarde seria o da Ressurreição e da Ascensão, atuando no interior de seus eleitos com toda a penetração de sua divindade. Que convívio, neste mundo, poderia ser mais excelente do que este? O Mestre era o próprio Deus, agindo pela graça em suas almas e, ao mesmo tempo, fazendo uso de sua voz e palavras para instruí-los. Todos os termos por Ele utilizados eram os mais perfeitos e insubstituí­veis, numa linguagem elevada, nobre e bíblica, sempre acompa­nhada de um afeto jamais descritível ou superável. Em nenhuma oportunidade deixava o Messias de atraí-los e de conduzi-los ao desejo das coisas celestes.

O clima de cordialidade, amor fraterno e alegria criado por Jesus devia ser paradisíaco. Todos se sentiram à vontade para contar “tudo o que haviam feito e ensinado”. E não cons­ta, em nada, a presença do maldito vício da vaidade, entre eles. De início, aprenderam a lição: “sem Mim nada podeis fazer” (Jo 15, 5). Devia haver muita manifestação de humildade da parte deles, reconhecendo em Cristo a fonte de todos os triunfos obtidos naquele princípio de evangelização.

Com toda certeza, na primeira missão apostólica um fator teria contribuído para os unir ainda mais entre si, colocando-os em maior dependência de Nosso Senhor: as discussões com os escribas e fariseus. Estes não poderiam ter estado ausentes, pois, objetantes, obstinados e petulantes como sempre, decerto procuraram tornar impossível a atuação dos Apóstolos. Eviden­temente, os demônios que iam sendo exorcizados dos possessos somavam suas forças às dos fariseus para combater os discípulos de Jesus. Este choque de opiniões, métodos e doutrinas ia se­parando os Apóstolos, pouco a pouco, da mentalidade, espírito e concepções nas quais haviam haurido seu ensinamento reli­gioso desde a infância. Era-lhes necessário percorrer uma via purgativa para expungir do fundo da alma todos os erros ideo­lógicos e desvios teológico-morais incutidos por seus antigos mestres. Ora, a união cresce entre aqueles que têm de enfrentar, em comum, um obstáculo. Sentir o desagrado no relacionamen­to com os de sua antiga escola robustecia neles o desejo de reen­contrar os verdadeiros irmãos e, sobretudo, o Mestre. Quanto mais os discípulos se afervoravam no amor a Jesus, mais se dis­tanciavam de seus companheiros de outrora, e vice-versa.

Convívio fraterno entre os Apóstolos

Ia-se, desta maneira, constituindo uma ideal e fraterna comunidade entre os Apóstolos, na qual tudo se transformava em perdão, amor e benevolência. Esta era a real amizade. Num ambiente assim, desfruta-se uma felicidade insuperável aqui na Terra, preâmbulo da eterna, no Céu, pois em ambas tem-se a Deus como centro da existência.

Claro está que a visão direta de Deus, face a face, será nos­sa felicidade essencial. Contudo, não devemos desprezar o convívio com os Bem-aventura­dos no Céu.5

Pouco se fala da bem-aventurança aci­dental no Céu, mas, se Deus a criou, é porque cabe a ela um papel importante. Além da visão beatífica, tem­-se no Céu o gozo dos bens criados e legíti­mos que corresponde às nossas temperadas aspirações. É por isso que, na eternidade, existe a auréola dos mártires, dos doutores e das virgens. Estará entre estes gozos o reencontro das verdadeiras amizades e de todo bem feito neste mundo. E, por fim, a retomada de nossos corpos, em estado glorioso.

O reencontro dos Apóstolos com o Divino Mestre é des­crito pelo famoso Maldonado:

“Contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado. O verbo fazer é usado pelo Evangelista, de modo absoluto, no sen­tido de fazer milagres, como também em São Lucas (cf. Lc 9, 7; At 1, 1).

“Cristo lhes havia ordenado que ensinassem e confirmas­sem sua doutrina com os milagres (cf. Mc 6, 7; Mt 10, 1.7-8; Lc 9, 2). De uma e outra coisa Lhe prestam contas ao regressar, embora não saibamos a razão. A maior parte dos autores su­põe que procederam assim por parecer justo e razoável que des­sem satisfação da missão a quem os tinha enviado. Exemplo que deve ser seguido pelos pregadores, atribuindo a Cristo aquilo de bom que tiverem obtido em seus sermões, como fazem notar São Jerônimo, Estrabão e Teofilato. O que é muito verdadeiro, sendo louvável que o fizessem, como julgamos que de fato fi­zeram. Mas suponho que devia haver outro motivo, como é ra­zoável conjecturar. É que eles voltavam dessa missão cheios de alegria e muito animados por verem que tudo tinha acontecido como desejavam, de forma que, dando glória ao Senhor, relatam a Cristo tudo quanto tinham ensinado e os milagres que haviam feito, como afirma São Lucas que [noutra ocasião] procederam os setenta e dois discípulos (cf. Lc 10, 17).

“Supõe São Beda que não só contaram o que realizaram e ensinaram, bem como o que João tinha sofrido, como se não o soubesse Cristo”.6

III – A solidão

31 Ele lhes disse: “Vinde sozinhos para um lugar deserto, e descansai um pouco”. Havia, de fato, tanta gente chegando e saindo que não tinham tempo nem para comer.

Eis o outro lado da “moeda” do convívio com Deus: o silêncio, o isolamento, o repouso.

O próprio Jesus, em sua humanidade santíssima, sen­tia a necessidade disto para poder gozar da máxima intimidade com o Pai, apesar de estar hipostaticamente unido a Ele. Co­mo se não tivessem bastado os trinta anos de sua existência em Nazaré, retirara-Se a um completo isolamento de quarenta dias, no deserto, em silêncio, na perspectiva de sua vida pública. E mesmo durante o tempo de sua atuação no meio do povo, era habitual refugiar-Se no silêncio dos montes. Por fim, antes da Paixão, abraçou o doloroso abandono de três horas no Horto das Oliveiras.

É nesse sentido que nos adverte São João da Cruz: “Uma Palavra pronunciou o Pai, que foi seu Filho, e esta fala sempre em eterno silêncio, e em silêncio há de ser ouvida pela alma”.7

Deus Se faz ouvir no silêncio, na serenidade e na calma

Quão misterioso e fundamental é o silêncio! Deus mais nos visita no recolhimento do que nas atividades externas. Em geral, nossa vida sobrenatural dá passos mais firmes e decididos no silêncio do que em meio às ações. Os Sacramentos também produzem a graça em nossas almas sob o manto do silêncio. Este nos ensina a falar, como afirmava Sêneca: “Quem não sabe ca­lar, não sabe falar”.8

De igual maneira, importantes são a serenidade e a cal­ma no relacionamento humano ou na contemplação. Jesus, no Evangelho, nunca dá a impressão de estar asfixiado pela pressa. Às vezes até “perde tempo”: todos O procuram e Ele não Se deixa encontrar, tão absorto está na oração. No trecho evangéli­co de hoje convida seus discípulos a “perderem tempo” com Ele: “Vinde sozinhos para um lugar deserto, e descansai um pouco”. Recomenda frequentemente não se agitar. Quantos benefícios da “lentidão” recebe nossa saúde!

A este respeito, observa com acerto o Pregador da Casa Pontifícia, padre Raniero Cantalamessa: “Se a lentidão tem co­notações evangélicas, é importante dar valor às ocasiões de des­canso ou de demora que estão distribuídas ao longo da sucessão dos dias. O domingo e as festas, se são bem utilizadas, dão a possibilidade de cortar o ritmo de vida demasiado excitante e de estabelecer uma relação mais harmônica com as coisas, as pes­soas e, sobretudo, consigo mesmo e com Deus”.9

Os Apóstolos deviam estar exaustos depois de tantas ativi­dades e, por esta razão, comenta o padre Manuel de Tuya que, terminadas as narrações das viagens, “Cristo quer proporcionar­-lhes uns dias de descanso, levando-os a um ‘lugar deserto’ que estava ‘perto de Betsaida’. A causa era que nem depois de seu trabalho missionário, particularmente intenso, os deixavam sozi­nhos: as pessoas afluíam para Cristo. Marcos descreve este assé­dio das turbas com sua linguagem realista: ‘porque eram muitos os que iam e vinham, e nem tinham tempo para comer’. Talvez estas multidões que vêm, nessa ocasião, possam ser um indício do fruto desta ‘missão’ apostólica”.10

Fugir da agitação para se encontrar com Deus

32 Então foram sozinhos, de barco, para um lugar deserto e afastado.

Baseando-se em um pensamento de São João Crisósto­mo,11 Cornélio a Lápide12 conta que Davi, em sua infância, fu­gia da agitação da cidade e buscava a solidão dos desertos. Ali vencia os ursos e os leões. E lembra ainda que as Escrituras nos contam que Judite “havia feito no andar superior de sua casa um quarto reservado para si, no qual se conservava retirada com suas criadas” (Jt 8, 5). Os homens contemplativos, sempre que possível, abandonam o bulício do mundo e abraçam o isolamen­to para viver de Deus, com Ele e para Ele. Também para Jesus e os Apóstolos tornava-se impossível o repouso em Cafarnaum, onde eram muito conhecidos.

“À agitação ordinária decorrente da pregação e das curas” — escreve o Cardeal Gomá y Tomás — “acrescentava-se a pro­ximidade da Páscoa, que transformava a cidade marítima em centro de confluência das caravanas que subiam para Jerusalém: ‘Porque eram muitos os que iam e vinham, e nem tinham tem­po para comer’. Por isso se dirigiram à praia ‘e, entrando numa barca, se retiraram a um lugar deserto e afastado do território de Betsaida’. Havia duas cidades com este nome: uma na parte ocidental do lago, pátria de Pedro e André, e a outra na parte oriental, em direção ao norte, junto à foz do Jordão. Recebera o nome de Betsaida Júlia porque o tetrarca Filipe, que a tinha embelezado e dado o nome à cidade, quis que se chamasse Jú­lia em homenagem à filha de César Augusto. A barquinha que conduzia Jesus e os Apóstolos aportou ‘no outro lado do Mar da Galileia, ou seja, de Tiberíades’, junto à planície solitária que se abre ao sul de Betsaida. João escreve para os fiéis da Ásia, que desconheciam a topografia da Palestina, indicando-lhes a locali­zação do mar pela cidade que lhe dá o nome”.13

De outra perspectiva, a caridade pode ser definida como a própria vida de Deus em nós. Ora, Deus é ao mesmo tempo contemplação e ação. Ademais, a virtude é eminentemente difu­siva. Por tal motivo afirma São Tiago ser morta a fé quando não frutifica em obras (cf. Tg 2, 17). Daí decorre ser a vida mista, segundo São Tomás de Aquino,14 a mais perfeita, por conjugar ação e contemplação.

Desta forma, no Evangelho de hoje, Jesus nos ensina quanto devemos ser perfeitos no convívio com Deus, quer no isolamento, quer no relacionamento com os outros.

IV – Jesus nos governa com doçura

33 Muitos os viram partir e reconheceram que eram eles. Saindo de todas as cidades, correram a pé, e chegaram lá antes deles.

Não sabemos se, devido ao vento, o barco terá dado suas voltas em sentido contrário, ou se resolveram retardar o deslocamento, pelo fato de a conversa ter atingido uma aprazível atração. O certo é que um grande público os pre­cedeu naquela distância de 12 km.15 Homens, mulheres, crianças — vários dos quais enfermos — atravessaram o Jordão num ver­dadeiro testemunho de fé e de devoção a Jesus. “Assim também nós não devemos esperar que Cristo nos chame, mas devemos nos antecipar para ir até Ele”,16 conforme pondera Teofilato.

É para nós, esta passagem, um excelente incentivo e con­vite para procurarmos um convívio mais intenso e prolongado com nosso Salvador. Há quanto tempo não nos aguarda Ele, de­baixo das Sagradas Espécies, nos tabernáculos de todas as igre­jas?

Ovelhas sem pastor: compaixão de Jesus

34 Ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas.

A primeira leitura (Jr 23, 1-6) deste 16º Domingo do Tem­po Comum nos traz esta lamentação de Jeremias: “Ai dos pas­tores que deixam perder-se e dispersar-se o rebanho de minha pastagem, diz o Senhor! […] E eu reunirei o resto das minhas ovelhas […], e as farei voltar a seus campos, e elas se reproduzi­rão e multiplicarão” (23, 1.3). São os gemidos do próprio Deus em vista de suas almas fiéis em situação de abandono.

Também Ezequiel, por inspiração divina, condena dura e severamente os maus pastores de Israel e anuncia que Deus enviará às suas ovelhas um Bom Pastor, e este “será um prín­cipe no meio delas” (34, 24). De fato, aqui é Ele contempla­do no versículo que estamos comentando. Deus demonstrou verdadeiro amor divino ao criar a função de pastor entre os homens, pois desejava servir-Se dela para melhor simbolizar seu insuperável zelo por todos nós. Não sem razão enviou seus Anjos a convidar os pastores da região de Belém para serem os primeiros a adorá-Lo no Presépio. E Ele Se apresenta como o Pastor perfeito, pois é Aquele que dá a vida por suas ovelhas (cf. Jo 10, 11), conforme maravilhosamente comenta São Gre­gório Magno.17

Ao descer da barca, Jesus Se compadece daquelas ovelhas sem pastor e passa a ensiná-las. Não as instruía, porém, só com palavras. Muito mais! Sobretudo se levarmos em conta seu cui­dado pela alimentação de toda aquela multidão, tal como trans­parecerá no milagre da multiplicação dos pães e peixes, narrado nos versículos seguintes. Jesus comunicava sua graça, sua vida, seu amor. Quão inefável devia ser o desvelo d’Ele ao ensinar suas ovelhas, pois, mais do que dar a vida por elas, desejava ser a própria vida delas! Ele vive em cada uma das ovelhas que se deixa perpassar por sua graça, e está sempre pronto a auxiliá-las e oferecer-lhes os Sacramentos.

O governo pastoral

Neste mesmo ver­sículo, Jesus Se torna ex­celente exemplo para to­do tipo de governo, quer seja familiar, quer civil ou eclesiástico. Deste últi­mo de maneira especial, pela forma toda paternal — quase se poderia dizer “maternal” — com que deve ser exercido: com enorme doçura e suavi­dade, grande empenho e dedicação. Por isso, o governo eclesiástico é chamado “pastoral”, seus documentos são denomi­nados “pastorais”, etc.

Belíssimas são as palavras de São Pedro a este respeito: “Velai so­bre o rebanho de Deus, que vos é confiado. Tende cuidado dele, não cons­trangidos, mas esponta­neamente; não por amor de interesse sórdido, mas com dedicação; não como dominadores absolutos sobre as comunidades que vos são con­fiadas, mas como modelos do vosso rebanho. E, quando apare­cer o Supremo Pastor, recebereis a coroa imperecível de glória” (I Pd 5, 2-4).

 

____________________________

 

1) SANTO AGOSTINHO. Confessionum. L.I, c.20, n.31. In: Obras. 7.ed. Madrid: BAC, 1979, v.II, p.102.  

2) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q.2, a.8.

3) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Sententia Politicorum. L.III, lect.5, n.4.  

4) Cf. LEOINDELICATO, OCM, Egídio. Jardim Carmelitano, história chronológica e geográfica. Lisboa: Sylviana, 1741, t.II, p.220-221.

5) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.26, a.13.  

6) MALDONADO, SJ, Juan de. Comentarios a los Cuatro Evangelios. Evangelios de San Marcos y San Lucas. Madrid: BAC, 1951, v.II, p.124.

7) SÃO JOÃO DA CRUZ. Dichos de Luz y Amor, n.99. In: Vida y Obras. 5.ed. Ma­drid: BAC, 1964, p.966.

8) SÊNECA. De moribus. L.I, n.145.

9) CANTALAMESSA, OFMCap, Raniero. Echad las redes. Reflexiones sobre los Evangelios. Ciclo B. Valencia: Edicep, 2003, p.259.

10) TUYA, OP, Manuel de. Biblia Comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.V, p.675.

11) Cf. SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Ad populum antiochenum. Homilia XVII: MG 49, 179.

12) Cf. CORNÉLIO A LÁPIDE. Solitude. In: BARBIER, SJ, Jean-André (Org.). Les trésors de Cornelius a Lapide. 6.ed. Paris: Ch. Poussielgue, 1876, v.IV, p.429.

13) GOMÁ Y TOMÁS, Isidro. El Evangelio explicado. Años primero y segundo de la vida pública de Jesús. Barcelona: Rafael Casulleras, 1930, v.II, p.354-355.

14) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.188, a.6.

15) Cf. FERNÁNDEZ TRUYOLS, SJ, Andrés. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. 2.ed. Madrid: BAC, 1954, p.335.

16) TEOFILATO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. In Marcum, c.VI, v.30-34.  

17) Cf. SÃO GREGÓRIO MAGNO. Homiliæ in Evangelia. L.I, hom.14. In: Obras. Madrid: BAC, 1958, p.588-592.