Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

23 de Setembro

DOMINGO XXV DO TEMPO COMUM – ANO B

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA
Eu sou a salvação do meu povo, diz o Senhor.
Quando chamar por Mim nas suas tribulações,
Eu o atenderei e serei o seu Deus para sempre.

ORAÇÃO COLECTA
Senhor, que fizestes consistir a plenitude da lei
no vosso amor e no amor do próximo,
dai-nos a graça de cumprirmos este duplo mandamento,
para alcançarmos a vida eterna.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Sab 2, 12.17-20
«Condenemo-lo à morte infamante»

Leitura do Livro da Sabedoria
Disseram os ímpios: «Armemos ciladas ao justo, porque nos incomoda e se opõe às nossas obras; censura-nos as transgressões à lei e repreende-nos as faltas de educação. Vejamos se as suas palavras são verdadeiras, observemos como é a sua morte. Porque, se o justo é filho de Deus, Deus o protegerá e o livrará das mãos dos seus adversários. Provemo-lo com ultrajes e torturas, para conhecermos a sua mansidão e apreciarmos a sua paciência. Condenemo-lo à morte infame, porque, segundo diz, Alguém virá socorrê-lo.
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 53 (54), 3-4.5.6.8 (R. 6b)
Refrão: O Senhor sustenta a minha vida. Repete-se

Senhor, salvai-me pelo vosso nome,
pelo vosso poder fazei-me justiça.
Senhor, ouvi a minha oração,
atendei às palavras da minha boca. Refrão

Levantaram-se contra mim os arrogantes
e os violentos atentaram contra a minha vida.
Não têm a Deus na sua presença. Refrão

Deus vem em meu auxílio,
o Senhor sustenta a minha vida.
De bom grado oferecerei sacrifícios,
cantarei a glória do vosso nome, Senhor. Refrão

LEITURA II Tg 3, 16 – 4, 3
«O fruto da justiça semeia-se na paz
para aqueles que praticam a paz»

Leitura da Epístola de São Tiago
Caríssimos: Onde há inveja e rivalidade, também há desordem e toda a espécie de más acções. Mas a sabedoria que vem do alto é pura, pacífica, compreensiva e generosa, cheia de misericórdia e de boas obras, imparcial e sem hipocrisia. O fruto da justiça semeia-se na paz para aqueles que praticam a paz. De onde vêm as guerras? De onde procedem os conflitos entre vós? Não é precisamente das paixões que lutam nos vossos membros? Cobiçais e nada conseguis: então assassinais. Sois invejosos e não podeis obter nada: então entrais em conflitos e guerras. Nada tendes, porque nada pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, pois o que pedis é para satisfazer as vossas paixões.
Palavra do Senhor.

ALELUIA cf. 2 Tes 2, 14
Refrão: Aleluia. Repete-se
Deus chamou-nos por meio do Evangelho,
para alcançarmos a glória
de Nosso Senhor Jesus Cristo. Refrão

EVANGELHO Mc 9, 30-37
«O Filho do homem vai ser entregue…
Quem quiser ser o primeiro será o servo de todos»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Naquele tempo, Jesus e os seus discípulos caminhavam através da Galileia. Jesus não queria que ninguém o soubesse, porque ensinava os discípulos, dizendo-lhes: «O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens, que vão matá-l’O; mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará». Os discípulos não compreendiam aquelas palavras e tinham medo de O interrogar. Quando chegaram a Cafarnaum e já estavam em casa, Jesus perguntou-lhes: «Que discutíeis no caminho?». Eles ficaram calados, porque tinham discutido uns com os outros sobre qual deles era o maior. Então, Jesus sentou-Se, chamou os Doze e disse-lhes: «Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos». E, tomando uma criança, colocou-a no meio deles, abraçou-a e disse-lhes: «Quem receber uma destas crianças em meu nome é a Mim que recebe; e quem Me receber não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou».
Palavra da salvação.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Oremos, irmãos e irmãs, a Deus Pai, que está perto de quantos O invocam e é misericordioso para com todos, e supliquemos confiadamente, dizendo (ou: cantando): R. Escutai, Senhor, a oração do vosso povo. Ou: Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor. Ou: Ouvi, Senhor, a nossa oração.

  1. Para que a palavra de Deus ilumine a santa Igreja, e, em todas as horas da tarde e da manhã, haja quem trabalhe na vinha do Senhor, oremos.
  2. Para que os responsáveis pela economia mundial não se fechem às necessidades de ninguém, mas defendam os direitos dos mais pobres, oremos.
  3. Para que todos os cidadãos tenham emprego, os camponeses tempo favorável às colheitas, e cada família uma digna habitação, oremos.
  4. Para que as nossas aldeias, vilas e cidades, sejam lugares de convivência e amizade, onde se invoque o Senhor e haja paz, oremos.
  5. Para que os membros da nossa assembleia dominical sintam gosto em trabalhar no serviço do Evangelho e encham o coração com os seus valores, oremos.

Senhor, nosso Deus, cujos pensamentos e caminhos estão muito acima dos nossos, fazei que a palavra de Jesus nos desperte para o trabalho da sua vinha. Por Cristo Senhor nosso.

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Aceitai benignamente, Senhor, os dons da vossa Igreja,
para que receba nestes santos mistérios
os bens em que pela fé acredita.
Por Nosso Senhor.

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Salmo 118, 4-5
Promulgastes, Senhor,
os vossos preceitos para se cumprirem fielmente.
Fazei que os meus passos sejam firmes
na observância dos vossos mandamentos.

Ou Jo 10, 14
Eu sou o Bom Pastor, diz o Senhor;
conheço as minhas ovelhas
e as minhas ovelhas conhecem-Me.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Sustentai, Senhor, com o auxílio da vossa graça
aqueles que alimentais nos sagrados mistérios,
para que os frutos de salvação
que recebemos neste sacramento
se manifestem em toda a nossa vida.
Por Nosso Senhor.

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

Uma sociedade marcada pela inocência

Estando com seus discípulos na Galileia, o Divino Mestre lhes fala de perseguições, Morte e Ressurreição, em contraposição à ideia de um Messias meramente humano, restaurador do poder temporal de Israel. Diante deles abre-se um panorama inteiramente novo: humildade, desapego e serviço serão as características de quem quiser exercer a autoridade segundo o espírito de Jesus.

I – A sociedade humana no Paraíso

Uma sociedade que se desenvolvesse no Paraíso Terres­tre, composta por uma humanidade em estado de jus­tiça original, seria regida pela graça divina e favorecida por dons preternaturais e sobrenaturais concedidos por Deus. Nela reinariam a plena harmonia e o total entendimento entre os homens, sem inveja nem rivalidades. Cada qual admiraria a virtude dos outros, alegrando-se com eles e desejando-lhes a maior santidade possível.

Aconteceu, contudo, que o homem pecou e foi expulso do Paraíso. Despojada dos dons de que gozavam nossos primeiros pais, a humanidade ficou sujeita à doença, à morte, ao desequilí­brio psíquico e a tantas outras mazelas.

Mais grave ainda, a alma perdeu o dom de integridade, pelo qual dominava a concupiscência e mantinha as paixões em perfeita ordem.1 Sem este dom, elas entraram em ebulição, tornando necessária ao ser humano uma contínua luta interior para poder governá-las. A inocência entrou em estado de belige­rância para se preservar do pecado.

A causa mais profunda das dissensões

Consequências desta desordem são a inveja e as riva­lidades, principal causa, por sua vez, das rixas e dissensões. Pois, como afirma o Apóstolo São Tiago na segunda leitura (Tg 3, 16―4, 3) deste 25º Domingo do Tempo Comum, “onde há inveja e rivalidade, aí estão as desordens e toda espécie de obras más” (Tg 3, 16).

De fato, é a inveja um dos vícios mais perniciosos. Quem por ela se deixa levar não conhece a felicidade. O invejoso está sempre se comparando com os outros, e quando se depara com quem o supera em qualquer ponto, logo se pergunta: “Por que ele é mais e eu menos? Por que ele tem e eu não?”. Esta atitude torna ácida e amargurada a sua vida, causando toda espécie de dissabores e, por vezes, até de mal-estar físico.

Deste “por quê?” ― proveniente em última análise do or­gulho — decorrem os males todos. Com muita clareza o aponta São Tiago: “De onde vêm as guerras? De onde vêm as brigas en­tre vós? Não vêm, justamente, das paixões que estão em conflito dentro de vós?” (Tg 4, 1).

Quanta luta trava o homem hoje, por exemplo, para obter mais dinheiro, mais poder ou mais prestígio, recorrendo muitas vezes a meios ilícitos ou até criminosos! Em quantas misérias morais cai ele, para atingir este objetivo!

Porém, mesmo tendo acumulado imensa fortuna ou gal­gado o suprassumo do poder, nunca estará satisfeito. Sempre quererá mais, porque a alma humana é insaciável, por natureza, uma vez que é feita para o infinito, para o absoluto, para o eter­no.2 Daí conclui São Tiago: “Cobiçais, mas não conseguis ter. Matais e cultivais inveja, mas não conseguis êxito. Brigais e fa­zeis guerra, mas não conseguis possuir” (Tg 4, 2).

Enorme esforço faz o homem ganancioso para obter algo que, em vez de trazer-lhe a felicidade, o fará perder a paz de alma!

A santidade faz recuperar o equilíbrio perdido

Para vencer as paixões desregradas e recuperar o equilí­brio de alma perdido por causa do pecado há apenas um cami­nho: abraçar as vias da santidade.

Na luta constante contra as próprias paixões, procurando submetê-las à Lei Divina, irá o homem restaurando a inocência primitiva e, com isso, suas reações de alma se tornarão cada vez mais semelhantes àquelas que teria no Paraíso. O que ali lhe se­ria fácil, custa-lhe agora, nesta Terra de exílio, grande esforço, dura luta interior e muita ascese, acompanhados do indispen­sável auxílio da graça. Pois sem esta nenhum homem é capaz de dominar a tremenda ebulição de suas paixões.

O Reino de Deus, portanto, prosperará aqui na Terra na medida em que houver entre os homens almas santas, faróis de virtude e de inocência a iluminar o caminho da humanidade. Se­rá o Reino da inocência, à imagem do Inocente por excelência, Nosso Senhor Jesus Cristo. Teremos, assim, a realização mais próxima possível da civilização paradisíaca. É esta uma das im­portantes lições a tirar do rico Evangelho deste domingo.

II – Duas mentalidades em entrechoque

Naquele tempo, 30 Jesus e seus discípulos atravessavam a Galileia. Ele não queria que ninguém soubesse disso…

Após descer do Monte Tabor e exorcizar um menino pos­sesso, diante de numerosa multidão, Jesus dirigiu-Se à Galileia.

Quis fazer a viagem discretamente, só com os mais pró­ximos, porque ao longo do caminho ensinava os seus discípu­los. O Evangelista deixa aqui transparecer a divina pedagogia de Nosso Senhor. Ele instruía os discípulos durante o trajeto por meio do convívio. Não lhes ensinava a filosofia dos gregos, nem a doutrina dos mestres de Israel. Abria-lhes os segredos de seu Divino Coração, dava-lhes a conhecer tudo quanto ouvira do Pai (cf. Jo 15, 15).

Jesus prepara os Apóstolos para a provação

Do sublime episódio ocorrido no Tabor — ao qual só as­sistiram Pedro, Tiago e João —, nada havia transpirado. Entre­tanto, os outros Apóstolos, vendo aqueles três tão radiantes e cheios de luz, muito provavelmente percebiam que algo de gran­dioso devia ter acontecido. Sem dúvida estavam curiosos, talvez aflitos, para saber o que sucedera.

Quiçá pensassem, segundo seus critérios mundanos, que o Mestre tivesse revelado algum ousado plano para a conquista do poder e havia, por isso, necessidade de se guardar rigoroso segredo. A ideia da restauração de um reino temporal, que des­se aos israelitas um domínio sobre os demais povos, estava tão arraigada nos judeus daquele tempo — e também nos seguido­res de Jesus —, que após a Ressurreição ainda houve quem Lhe perguntasse: “Senhor, é porventura agora que ides instaurar o reino de Israel?” (At 1, 6).

Aos poucos, Nosso Senhor ia retificando esta visualização mundana e materialista de seus discípulos. O próprio fato de Se deslocar com eles sem que ninguém o soubesse correspondia a este objetivo. Jesus desejava estar a sós com os Apóstolos para formá-los e prepará-los para as difíceis provações futuras.

31 …pois estava ensinando a seus discípulos. E dizia-lhes: “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles O matarão. Mas, três dias após sua Morte, Ele ressuscitará”.

Anunciando sua Paixão e Morte, Ele punha diante dos Doze o amargor da prova e da perseguição.

Com efeito, “nada era mais chocante para os judeus que a ideia de um Messias sofredor e vítima”,3 afirma Didon. Eles esperavam com avidez a glória, o triunfo de Israel, uma paz e prosperidade de séculos ou até de milênios… Ou seja, aspiravam uma eternidade de gozo terreno.

Davam-se conta os Apóstolos, decerto, de que Jesus es­tava criando uma instituição para dar continuidade à sua obra. Percebiam, também, que Ele os ia formando para, em determi­nado momento, cada qual exercer um importante papel. Con­tinuavam, no entanto, tomados pela ideia equivocada de um reino terreno, e sua preocupação era precisamente saber quem ocuparia os altos cargos nesta nova organização.

Assim o assinala ainda Didon, ao comentar as rivalidades que se levantavam entre eles: “Pedro tinha sido designado como chefe; Tiago e João pareciam se beneficiar de certa predileção. Ora, estas preferências acentuadas não deixavam de despertar nos outros algum ciúme e inveja. […] Daí as disputas ácidas, as competições, as ofensas, o amor-próprio ferido”.4

Nesse clima de ambição e de delírio de mando dos seus discípulos, Nosso Senhor os está pacientemente preparando para não sucumbirem à terrível provação que se aproximava.

32 Os discípulos, porém, não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar.

Não era a primeira vez que Ele anunciava sua Paixão e Ressurreição aos Apóstolos. Estes, contudo, tão distantes estavam de tais cogitações, que nem sequer Pedro, Tiago ou João, testemunhas privile­giadas da Transfiguração, entenderam o que Ele lhes quis dizer. Ao descer do Monte Tabor, o Senhor já os havia alertado para na­da contarem, “até que o Filho do Homem houves­se ressurgido dos mortos” (Mc 9, 9). Todavia, ignora­vam o sentido destas pala­vras, pois discutiam entre si o que significaria “ser res­suscitado dentre os mor­tos” (Mc 9, 10). Bem apon­ta o Crisóstomo que “mes­mo depois de Pedro ter sido repreendido; depois de Moisés e Elias haverem falado sobre ela [a Morte de Cristo], qualificando-a de ‘glória’; apesar de terem ouvido a voz do Pai saída de dentro da nuvem; de tantos milagres e da Ressurreição ime­diata, pois Ele não lhes disse que duraria muito tempo morto, mas ressuscitaria ao terceiro dia; não obstante tudo isto, não puderam suportar o novo anúncio da Paixão e se entristeceram profundamente. Tristeza que procedia da ignorância da força das palavras do Senhor”.5

De sua parte, o padre Lagrange assim analisa esta pas­sagem: “Os discípulos continuam não compreendendo. O que menos convinha ao Messias era a Paixão; o que menos se enten­dia ainda da doutrina de Jesus era a necessidade do sofrimento. Quando o Mestre disto falou pela primeira vez, Pedro protes­tou, mas foi vivamente repreendido (cf. Mc 8, 33); na segunda vez, os discípulos mudaram de assunto (cf. Mc 9, 11); agora eles não ousam sequer perguntar”.6

Sua mentalidade estava em choque com Nosso Senhor

Se os discípulos não compreendiam o que Ele lhes dizia, qual o motivo de terem medo de perguntar? Jesus sempre os tratara com uma bondade inefável e a ocasião não podia ser mais propícia, estando eles a sós com seu Mestre. Era tão fácil, sobretudo naquele momento de intimidade, pedir-Lhe um es­clarecimento!

Havia para isso uma profunda razão psicológica. A pers­pectiva daquela Morte ia contra todos os planos de projeção social, de solução política e econômica que eles almejavam. Significava a destruição do castelo de ilusões que os israelitas montaram a respeito do Messias: o de um homem capacíssimo, cheio de dons para libertar do domínio romano o povo eleito e projetá-lo acima dos outros povos.

Os Apóstolos percebiam que a mentalidade deles estava em choque com a de Nosso Senhor, pois Ele ensinava uma dou­trina que, no fundo dos seus corações, não desejavam ouvir. A resposta de Jesus podia tornar clara demais esta dissonância, colocando-os na obrigação de mudar de mentalidade, o que de todo eles não queriam.

Bem observa o padre Tuya a este propósito: “Eles sabem que as predições do Mestre se cumprem. Têm um pressentimen­to em relação àquele programa sombrio — para Jesus e para eles — e evitam insistir sobre ele”.7

O homem, segundo nos ensina a filosofia tomista, nunca pratica o mal enquanto mal; sempre procura justificá-lo, dando­-lhe uma aparência de bem.8 E no espírito dos discípulos duas ideias contraditórias entravam em conflito: a do autêntico Mes­sias, que lhes falava de perseguições, Morte e Ressurreição, e a de um Messias meramente humano, restaurador do poder tem­poral de Israel. Eles então racionalizavam para justificar a ideia errada na qual insistiam em acreditar.

O receio de romper os alicerces desta mentalidade política e terrena os fazia ter medo de perguntar.

33 Eles chegaram a Cafarnaum. Estando em casa, Jesus perguntou- -lhes: “O que discutíeis pelo caminho?” 34 Eles, porém, ficaram calados, pois pelo caminho tinham discutido quem era o maior.

Sabia Cristo perfeitamente de qual assunto os Apóstolos tratavam ao longo do percurso. À incômoda indagação, entre­tanto, eles ficaram calados, envergonhados de dizer-Lhe que o tema de sua conversa havia sido uma egoística disputa de prima­zia pessoal.

O seu silêncio já era um meio reconhecimento da falta co­metida, da qual eles tinham certa consciência, como afirma o Cardeal Gomá: “sua conduta está em flagrante oposição com o sentir do Mestre, e estão confusos diante d’Ele”.9

No mesmo sentido se pronunciam alguns comentaristas da Companhia de Jesus: “O silêncio dos discípulos perante a pergunta do Mestre é muito psicológico. Sentem-se, sem dúvida, cons­cientes de que suas aspirações não encontrariam aprovação”.10

Um novo conceito de autoridade

35 Jesus sentou-Se, chamou os Doze e lhes disse: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!”

Cristo conhecia bem aqueles que escolhera, pois, confor­me comenta o padre Lagrange, Ele “não Se espanta com a preo­cupação dos discípulos, nem contesta o princípio da hierarquia, mas insinua o espírito novo do qual deve estar animado quem tem cargo de direção. Há certamente aqui a previsão de outra ordem de coisas”.11

Com suas palavras, Jesus não condena o desejo de obter a primazia, mas põe uma condição: para ser o primeiro, é preciso ser “o último de todos e aquele que serve a todos”! Esta afirma­ção abria um panorama completamente novo para os Apósto­los, os quais compartilhavam do conceito de autoridade comum e corrente naquela época: quem é mais forte, mais capaz, mais inteligente, mais rico ou mais esperto, este manda e os outros obedecem.

Perante tal visão, Nosso Senhor declara qual é a regra de governo que deverá vigorar na Era Cristã: “O novo Reino que quero instaurar não será como os reinos da Terra. O que deve ani­mar meus discípulos não é o espírito de ambição, a procura das grandezas. Pelo contrário, a primeira condição, a condição fun­damental para almejar o primeiro lugar no Reino messiânico é a humildade, o menosprezo das honras, o desinteresse de quem se esquece de si mesmo para se dedicar ao serviço dos irmãos”.12

Humildade, menosprezo das honras, desinteresse por si mesmo e dedicação aos irmãos: eis as características de quem deve mandar de acordo com o espírito de Jesus. É a precedência da virtude e da inocência na sociedade. Nada mais oposto à ira, à inveja e às rivalidades que tanto atormentam o homem depois do pecado original!

A este respeito, transcreve o padre Maldonado expressivo comentário do Bispo e mártir São Cipriano: “Com sua resposta, cortou Jesus qualquer emulação e extirpou toda ocasião e pre­texto da mordaz inveja. Não é lícito ao discípulo de Cristo ter estes ciúmes e invejas, nem pode existir entre nós disputa por sobressair, pois aprendemos que o caminho para a primazia é a humildade”.13

Convém notar, por fim, que Jesus “sentou-Se” antes de fa­zer esta solene declaração, “como para julgar, de seu tribunal, e ensinar aos Apóstolos, de sua cátedra, algo grave e importante, que merecia ser dito não de pé e como que de passagem, mas sentado e de propósito, com plena advertência e consideração”.14

III – Governar em função da inocência

36 Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles, e abraçando-a disse.

Comentam extensamente os exegetas este episódio, no qual Jesus chama para junto de Si uma criança, rela­cionando-o com a narração de São Lucas, que no final do seu relato reproduz estas palavras do Salvador: “pois quem dentre vós for o menor, esse será grande” (Lc 9, 48).

As crianças estão isentas de inveja e vanglória

Ressalta-se, em geral, como o Divino Mestre Se serve des­te eloquente recurso pedagógico para fazer ver aos discípulos, cegos pelo desejo de supremacia, a necessidade de serem sim­ples e humildes. Pois, como observa o Crisóstomo, “pôs ali no meio um menino bem pequeno, livre que está de todas as pai­xões. Um menino assim está isento de orgulho, de ambição de glória, de inveja, de teimosia e todas as paixões semelhantes”.15

Por sua vez, Beda, o Venerável, ressalta o quanto Deus tem em alta estima a virtude da humildade, pois “aconselha aos que querem ser os maiores que recebam, em honra d’Ele, os po­bres de Cristo, ou que sejam como meninos, a fim de conserva­rem a simplicidade sem arrogância, a caridade sem inveja e a dedicação sem ira. O fato de abraçar o menino significa que os humildes são dignos de seu abraço e de seu amor”.16

Mostra Jesus, neste episódio, quanto o verdadeiro discí­pulo não deve estar preocupado se será ou não maltratado, es­quecido, posto de lado. Ele precisa se apresentar sem qualquer pretensão nem orgulho, e, pelo contrário, admirando as quali­dades alheias. Quem assim age será o primeiro a receber a mise­ricórdia de Deus. Aquele que se tem por último e se considera o menor será quem mais recebe da Divina Providência.

Pode-se conjecturar a profunda perplexidade dos Doze naquela circunstância: queriam eles ocupar posição de desta­que, Jesus aponta-lhes a necessidade de procurar o último lugar. Aspiravam a um reino messiânico glorioso, Jesus alerta-os sobre sua Paixão e Morte na Cruz… O choque de mentalidades vai-se tornando cada vez mais patente. Porém, tudo é dito com doçura, sem acrimônia, no momento oportuno, de forma a que as divi­nas palavras do Mestre penetrem beneficamente nos espíritos. Manifesta Ele aqui, uma vez mais, a admirável e delicada arte de corrigir, que servirá de modelo a todos quantos tiverem o en­cargo da direção das almas.

Jesus externa seu amor por quem jamais pecou

37 “Quem acolher em meu nome uma destas crianças, é a Mim que estará acolhendo. E quem Me acolher, está acolhendo, não a Mim, mas Àquele que Me enviou”.

Embora os evangelistas sejam muito sintéticos ao narrar esta passagem, podemos bem imaginar o quanto Nosso Senhor deve ter-Se demorado com este menino, fazendo belíssimas considerações sobre a infância. Podemos supor, também, com quanto ardor elogiou sua humildade e desprendimento, pondo em realce as virtudes próprias a quem jamais pecou.

Transparece, neste último versículo do Evangelho hoje co­mentado, todo o amor de Jesus pela inocência, representada na criança por Ele abraçada. Este menino — o futuro mártir Santo Inácio de Antioquia, segundo uma antiga tradição — simboliza a pessoa que se entrega a Deus, sem reservas nem racionaliza­ções, com reta intenção.

Cristo é modelo do inocente, enquanto Homem, e a Inocên­cia em essência, enquanto Deus. Ele chama para junto a Si aquela criança porque, como ensina São Leão Magno, “ama a infância, mestra de humildade, regra de inocência, modelo de doçura. Cris­to ama a infância, sobre a qual Ele orienta o modo de agir dos adul­tos, e à qual quer reconduzida os anciãos; Ele atrai a seu próprio exemplo (cf. I Cor 14, 20) aqueles que eleva ao Reino eterno”.17

Sobre este versículo, comenta São Beda: “E acrescenta ‘em meu nome’ para que os discípulos, guiados pela razão, adquiram em nome de Cristo a virtude que o menino pratica guiado pela natureza. No entanto, para não se pensar que Ele se referia só àquele menino, quando ensinava que Ele era honrado nos meni­nos, […] acrescenta: ‘E todo o que recebe a Mim, não Me rece­be, mas Àquele que Me enviou’, etc., querendo ser considerado em grau igual ao de seu Pai”.18

“Quem acolher em meu nome uma destas crianças, é a Mim que estará acolhendo”. Jesus Se mostra, assim, igual ao Pai, indicando, ao mesmo tempo, que quem recebe o inocente, o afaga e o protege, abraça na realidade ao próprio Deus.

Em tal perspectiva, lembra Maldonado que São Marcos “aduz esta razão no lugar da conclusão posta por São Mateus: ‘Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e vos tornar­des semelhantes às crianças, não entrareis no Reino dos Céus’. Prova-se implicitamente esta conclusão com o que diz aqui São Marcos: que ninguém entrará no Reino de Deus se não for seme­lhante a Deus. ‘Nenhuma coisa manchada poderá entrar naquela cidade’, como escreve São João no Apocalipse 21, 27. Não podeis ser semelhantes a Deus se não O recebeis; e não O podeis receber se não Me recebeis a Mim, que fui enviado pelo Pai. E a Mim não Me podeis receber se não recebeis em meu nome os meninos e não vos assemelhais a eles. Portanto, ‘se não vos converterdes e vos tornardes como meninos, não entrareis no Reino dos Céus’”.19

Uma nova forma de governar e se relacionar

De acordo com o espírito do Evangelho, pouco antes de­clarado pelo Divino Mestre, quem quiser ter autoridade deve estar disposto a servir. Jesus acaba de ensinar aos Apóstolos esta verdade, chocando inteiramente a mentalidade pagã que domi­nava os seus espíritos, segundo a qual se deve dominar os outros à base da força.

Em uma sociedade marcada pela inocência, a autoridade deve governar o súdito como quem governa uma criança. Ela não tem delírios de mando; é despretensiosa, flexível e humilde; está sempre à disposição dos outros. Sendo ela tenra e frágil, pe­de ser conduzida com carinho e afeto. E, para isso, o governante tem de se pôr a serviço dos seus subordinados, criando um regi­me que busque mais atrair do que impor, procurando despertar neles o entusiasmo pela prática do bem.

IV – O bem mais precioso que o homem pode receber

Preservar a inocência batismal — ou recuperá-la, caso se tenha tido a desgraça de perdê-la — deve ser a meta de todo cristão. Porque quem a possui conserva na alma Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai e o Espírito Santo.

A inocência é o bem mais precioso que o homem pode re­ceber. A união com quem jamais pecou, a própria Santíssima Trindade, outorga-lhe uma autoridade que nem o poder, nem o dinheiro, nem as manobras diplomáticas são capazes de conceder.

Em sua primitiva inocência, o homem era inerrante, pois, como ensina São Tomás, “a retidão do primeiro estado não era compatível com nenhum engano do intelecto”.20 De manei­ra análoga, o homem que mantém sua inocência batismal será infalível à medida que se deixe guiar pela graça, pelas virtudes infusas e os dons do Espírito Santo. Assim o afirma o padre Gar­rigou-Lagrange: “Na ordem da graça, a fé infusa nos faz aderir à Palavra divina e ao que ela exprime. […] Enquanto os sábios dissertam longamen­te e levantam toda sorte de hipóteses, Deus faz sua obra naqueles que têm o coração puro”.21

Devemos, por conse­guinte, envidar todos os esfor­ços para manter sem pecado a nossa alma, ainda que seja necessário para isto sacrificar até mesmo a vida. E se, por infelicidade, tivermos perdi­do a inocência batismal, em­penhemo-nos ao máximo em recuperá-la, como o fez Santa Maria Madalena, através de um ardente amor ao Divino Redentor. Ela tanto amou que se assemelhou ao Amado, a ponto de ser venerada como a primeira das virgens na La­dainha de Todos os Santos.

 

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1) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Compendium Theologiæ. L.I, c.192.

2) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q.3, a.8.

3) DIDON, OP, Henri-Louis. Jésus-Christ. Paris: Plon, Nourrit et Cie, 1891, p.483.

4) Idem, p.484.  

5) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía LVIII, n.1. In: Obras. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo (46-90). 2.ed. Madrid: BAC, 2007, v.II, p.216-217.

6) LAGRANGE, OP, Marie-Joseph. Évangile selon Saint Marc. 5.ed. Paris: Lecoffre; J. Gabalda, 1929, p.244.

7) TUYA, OP, Manuel de. Biblia Comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.V, p.695.

8) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q.27, a.1, ad 1.

9) GOMÁ Y TOMÁS, Isidro. El Evangelio explicado. Año tercero de la vida pública de Jesús. Barcelona: Rafael Casulleras, 1930, v.III, p.83.

10) LEAL, SJ, Juan; DEL PÁRAMO, SJ, Severiano; ALONSO, SJ, José. La Sagrada Escritura. Evangelios. Madrid: BAC, 1961, v.I, p.450.

11) LAGRANGE, op. cit., p.244-245.  

12) DEHAUT. L’Évangile expliqué, défendu, médité. 2.ed. Paris: Lethielleux, 1867, v.III, p.290.

13) MALDONADO, SJ, Juan de. Comentarios a los Cuatro Evangelios. Evangelios de San Marcos y San Lucas. Madrid: BAC, 1951, v.II, p.151.

14) Idem, ibidem.

15) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, op. cit., n.3, p.223.

16) SÃO BEDA. In Marci Evangelium Expositio. L.III, c.9: ML 92, 224.

17) SÃO LEÃO MAGNO. In Epiphaniæ Solemnitate. Sermo VII, hom.18 [XXXVII], n.3. In: Sermons. 2.ed. Paris: Du Cerf, 1964, v.I, p.281.

18) SÃO BEDA, op. cit., 224-225.

19) MALDONADO, op. cit., p.152-153.

20) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.94, a.4.

21) GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Réginald. Le sens commun. La philosophie de l’être et les formules dogmatiques. 4.ed. Paris: Desclée de Brouwer, 1936, p.412; 417.