Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

17 de Janeiro

II Domingo do tempo comum – Ano B

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA Salmo 65, 4
Toda a terra Vos adore, Senhor,
e entoe hinos ao vosso nome, ó Altíssimo.

ORAÇÃO COLECTA
Deus eterno e omnipotente,
que governais o céu e a terra,
escutai misericordiosamente as súplicas do vosso povo
e concedei a paz aos nossos dias.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I 1 Sam 3, 3b-10.19
«Falai, Senhor, que o vosso servo escuta»

Leitura do Primeiro Livro de Samuel
Naqueles dias, Samuel dormia no templo do Senhor, onde se encontrava a arca de Deus. O Senhor chamou Samuel e ele respondeu: «Aqui estou». E, correndo para junto de Heli, disse: «Aqui estou, porque me chamaste». Mas Heli respondeu: «Eu não te chamei; torna a deitar-te». E ele foi deitar-se. O Senhor voltou a chamar Samuel. Samuel levantou-se, foi ter com Heli e disse: «Aqui estou, porque me chamaste». Heli respondeu: «Não te chamei, meu filho; torna a deitar-te». Samuel ainda não conhecia o Senhor, porque, até então, nunca se lhe tinha manifestado a palavra do Senhor. O Senhor chamou Samuel pela terceira vez. Ele levantou-se, foi ter com Heli e disse: «Aqui estou, porque me chamaste». Então Heli compreendeu que era o Senhor que chamava pelo jovem. Disse Heli a Samuel: «Vai deitar-te; e se te chamarem outra vez, responde: ‘Falai, Senhor, que o vosso servo escuta’». Samuel voltou para o seu lugar e deitou-se. O Senhor veio, aproximou-Se e chamou como das outras vezes: «Samuel, Samuel!» E Samuel respondeu: «Falai, Senhor, que o vosso servo escuta». Samuel foi crescendo; o Senhor estava com ele e nenhuma das suas palavras deixou de cumprir-se.
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 39 (40), 2.4ab.7-8a.8b-9.10-11 (R. 8a.9a)
Refrão: Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade. Repete-se

Esperei no Senhor com toda a confiança
e Ele atendeu-me.
Pôs em meus lábios um cântico novo,
um hino de louvor ao nosso Deus. Refrão

Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações,
mas abristes-me os ouvidos;
não pedistes holocaustos nem expiações,
então clamei: «Aqui estou». Refrão

«De mim está escrito no livro da Lei
que faça a vossa vontade.
Assim o quero, ó meu Deus,
a vossa lei está no meu coração». Refrão

«Proclamei a justiça na grande assembleia,
não fechei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.
Não escondi a justiça no fundo do coração,
proclamei a vossa bondade e fidelidade». Refrão

LEITURA II 1 Cor 6, 13c-15a.17-20
«Os vossos corpos são membros de Cristo»

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios
Irmãos: O corpo não é para a imoralidade, mas para o Senhor, e o Senhor é para o corpo. Deus, que ressuscitou o Senhor, também nos ressuscitará a nós pelo seu poder. Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo? Aquele que se une ao Senhor constitui com Ele um só Espírito. Fugi da imoralidade. Qualquer outro pecado que o homem cometa é exterior ao seu corpo; mas o que pratica a imoralidade peca contra o próprio corpo. Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós e vos foi dado por Deus? Não pertenceis a vós mesmos, porque fostes resgatados por grande preço: glorificai a Deus no vosso corpo.
Palavra do Senhor.

ALELUIA cf. Jo 1, 41.17b
Refrão: Aleluia. Repete-se
Encontramos o Messias, que é Jesus Cristo.
Por Ele nos veio a graça e a verdade. Refrão

EVANGELHO Jo 1, 35-42
«Foram ver onde morava e ficaram com Ele»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo, estava João Baptista com dois dos seus discípulos e, vendo Jesus que passava, disse: «Eis o Cordeiro de Deus». Os dois discípulos ouviram-no dizer aquelas palavras e seguiram Jesus. Entretanto, Jesus voltou-Se; e, ao ver que O seguiam, disse-lhes: «Que procurais?». Eles responderam: «Rabi – que quer dizer ‘Mestre’ – onde moras?». Disse-lhes Jesus: «Vinde ver». Eles foram ver onde morava e ficaram com Ele nesse dia. Era por volta das quatro horas da tarde. André, irmão de Simão Pedro, foi um dos que ouviram João e seguiram Jesus. Foi procurar primeiro seu irmão Simão e disse-lhe: «Encontrámos o Messias» – que quer dizer ‘Cristo’ –; e levou-o a Jesus. Fitando os olhos nele, Jesus disse-lhe: «Tu és Simão, filho de João. Chamar-te-ás Cefas» – que quer dizer ‘Pedro’.
Palavra da salvação.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Irmãs e irmãos em Cristo: Oremos a Deus nosso Pai, que nos faz conhecer a sua vontade através da história do mundo e dos homens, e digamos (ou: e cantemos), humildemente:

R. Ouvi-nos, Senhor. Ou: Concedei-nos, Senhor, a vossa graça.

Ou: Ouvi, Senhor, a nossa súplica.

1. Para que a nossa Diocese, suas paróquias e movimentos sejam confirmados na fé pelo Papa N., sucessor do apóstolo São Pedro, oremos.

2. Para que os responsáveis da nossa Pátria desenvolvam com entusiasmo o bem comum e promovam os direitos dos cidadãos mais necessitados, oremos.

3. Para que os jovens da nossa Diocese, à semelhança do pequeno Samuel, escutem com júbilo a voz de Cristo que os chama, oremos.

4. Para que os membros da nossa assembleia participem dignamente na Eucaristia e cresçam cada vez mais em boas obras, oremos.

5. Para que os fiéis defuntos das nossas famílias alcancem o perdão dos seus pecados, e entrem na vida que não tem fim, oremos.

Deus eterno e omnipotente, que nos chamais a seguir-Vos como o vosso Filho chamou os Apóstolos, confirmai no seu propósito os que respondem com decisão e renovai o entusiasmo dos que vacilam no caminho. Por Cristo Senhor nosso

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Concedei-nos, Senhor,
a graça de participar dignamente nestes mistérios,
pois todas as vezes que celebramos o memorial deste sacrifício
realiza-se a obra da nossa redenção.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Salmo 22, 5
Para mim preparais a mesa
e o meu cálice transborda.

Ou 1 Jo 4, 16
Nós conhecemos e acreditámos
no amor de Deus para connosco.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Infundi em nós, Senhor, o espírito da vossa caridade,
para que vivam unidos num só coração e numa só alma
aqueles que saciastes com o mesmo pão do Céu.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

“Encontrámos o Messias”

A despretensão com que o Batista conduzira seus discípulos a Jesus; o inflamado zelo de André e João ao encontrarem o Redentor; Simão Pedro, magnífico fruto deste apostolado… No Evangelho deste domingo encontramos o paradigma da ação evangelizadora para todos os tempos.

 

 

I – Todos somos chamados a evangelizar

Deus quer “que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (I Tim 2, 4). Para isso, Jesus criou a Igreja, instituição essencialmente missionária e apostólica, que, no desenrolar dos séculos, foi cumprindo in crescendo esta grandiosa missão. Ele mesmo nos disse: “Eu vim para que as ovelhas tenham vida e para que a tenham em abun­dância” (Jo 10, 10).

O chamado ao apostolado não é privilégio exclusivo dos religiosos. Ele se estende também aos leigos, conforme nos en­sina o Concílio Vaticano II: “o apostolado dos leigos, que deri­va da própria vocação cristã, jamais poderá faltar na Igreja. A mesma Sagrada Escritura demonstra abundantemente como foi espontânea e frutuosa esta atividade no começo da Igreja.

“Os nossos tempos, porém, não exigem um menor zelo dos leigos; mais ainda, as condições atuais exigem deles abso­lutamente um apostolado cada vez mais intenso e mais univer­sal. Com efeito, o aumento crescente da população, o progresso da ciência e da técnica, as relações mais estreitas entre os ho­mens, não só dilataram imensamente os campos do apostolado dos leigos, em grande parte só acessíveis a eles, mas também suscitaram novos problemas que reclamam a sua atenção inte­ressada e o seu esforço.

“Este apostolado torna-se tanto mais urgente quanto a auto­nomia de muitos setores da vida humana, como é justo, aumentou, por vezes com um certo afastamento da ordem ética e religiosa e com grave perigo para a vida cristã. Além disso, em muitas regiões onde os sacerdotes são demasiado poucos ou, como acontece por vezes, são privados da liberdade de ministério, a Igreja dificilmen­te poderia estar presente e ativa sem o trabalho dos leigos.

“Sinal desta multíplice e urgente necessidade é a evidente atuação do Espírito Santo que hoje torna os leigos cada vez mais conscientes da própria responsabilidade e por toda a parte os anima ao serviço de Cristo e da Igreja”.1

Não menos inci­sivo do que o Concílio Vaticano II é o Doutor Angélico ao ressaltar es­ta responsabilidade dos leigos, de modo especial nas situações de crise de religiosidade: “quando a Fé está em perigo, todos estão obrigados a propa­lar aos outros a sua fé, seja para instruir ou con­firmar a fé dos outros fiéis, seja para reprimir o insulto dos infiéis”.2

Já Pio XII, em seu tempo, condenava a ina­ção em matéria de apos­tolado: “O Papa deve, em seu posto, vigiar incessantemente, re­zar, e com prodigalidade, a fim de que o lobo não termine por penetrar no redil para roubar e dispersar o rebanho […]; os cola­boradores do Papa no governo da Igreja fazem quanto lhes é pos­sível […]. Mas isso hoje não basta: todos os fiéis de boa vontade devem despertar-se do seu letargo e sentir a parte de responsabi­lidade que lhes cabe no êxito desta empresa de salvação”.3

Em síntese, nossa vida interior exige — quando busca sua perfeição plena — que auxiliemos todos os que estejam ao al­cance de nossa atividade apostólica, para encaminhá-los ao seio da Igreja.

Esta magnífica obra evangelizadora tem seu paradigma na Liturgia de hoje.

II – O apostolado de São João Batista

Naquele tempo, 35 João estava de novo com dois de seus discípulos 36 e, vendo Jesus passar, disse: “Eis o Cordeiro de Deus!”

São João Batista — valoroso exemplo de apóstolo de­sapegado — jamais permitiu a entrada, em sua grande alma, do menor resquício de ciúmes de seus seguido­res, sobretudo em relação a Jesus. E embora fosse parente pró­ximo do Salvador, afirmava: “eu não sou digno de Lhe desatar a correia do calçado” (Jo 1, 27). Expressão forte para aqueles tempos, pois competia aos servos lavar os pés dos visitantes de grande categoria, tirando-lhes antes o calçado. Abraçava, des­ta forma, a condição de escravo em face d’Aquele seu sucessor. Esta era uma das razões de sua capacidade de comover as almas e de incentivá-las à penitência rumo à metanoia ― mudança de mentalidade. Sua humildade arquetípica, e tão transparente na autenticidade de sua pregação, conferia um caráter de confiabi­lidade insuperável à pessoa do Precursor. Aqui se encontra ou­tra qualidade essencial do verdadeiro apóstolo: a despretensão.

Ele também afirmara: “É este de quem eu disse” (Jo 1, 30), o que indica com clareza que Jesus deveria ser a substância de sua pregação. Talvez fosse esta uma das principais causas de ter escolhido um terreno menos arriscado para desenvolver seu apostolado. Estando longe de Jerusalém e, portanto, do raio de ação dos escribas e fariseus, podia livremente referir-se Àque­le que Se constituiria como verdadeira “pedra de escândalo” (Is 8, 14). O cerne de sua fala era “o Cordeiro de Deus”, em quem depositava a plenitude de sua fé.

Evangelizador desapegado e atraente

O Evangelista descreve o Batista com ricas e belas cores, atestando quanto seu primeiro mestre lhe marcara a alma de maneira agradável e indelével. Ademais, com arte e poucas pa­lavras, retrata a enorme perplexidade levantada por seus discur­sos. Que escola ou quais mestres o haviam formado para ensinar com tanta segurança? Sacerdotes e levitas de Jerusalém, envia­dos pelos judeus curiosos, indagavam: quem é este que batiza dizendo não ser o Cristo, nem Elias e nem sequer o Profeta? Todos — quer os instruídos e formados, quer as simples pessoas do povo — percebiam que João era um homem inspirado por Deus. Sua aura de profecia, mistério e santidade crescia a ca­da dia, encantando as multidões e incutindo temor e inveja nos grandes.

De dentro de seu total desprendimento, sua única preo­cupação era a de preparar os caminhos do Senhor, arrebanhan­do em torno de si alguns discípulos, com vistas a entregá-los ao Cordeiro de Deus. Exemplo para nós também, sobretudo por este prisma, pois é como devemos proceder em nosso aposto­lado, conduzindo as vocações para o seio da Igreja, para a vida eclesial.

Emerge destes episódios mais uma das qualidades do Ba­tista, e esta pouco ressaltada: a de um apóstolo arquetípico. Sua atratividade era irresistível, tornando difícil a despedida. Daí se entende por que os dois discípulos permaneciam enlevados pelo fervor das palavras e pela figura do mestre, apesar de já declinar o dia! Por outro lado, eles não faziam ideia da extraor­dinária graça que os aguar­dava. A Providência Divina jamais deixa sem prêmio os verdadeiros devotos. Mais dia, menos dia, Ela lhes pa­ga em superabundância. A constância, amor e entusias­mo destes dois discípulos lhes fariam merecer a graça de serem os primeiros chamados para o disci­pulado de Jesus Cristo.

“Eis o Cordeiro de Deus”

Sobre o início do Evangelho de hoje, assim se expressa o padre An­drés Fernández Truyols: “E, no outro dia, nas primeiras horas da tarde, en­quanto se achava o Batista em compa­nhia de dois de seus discípulos, João e André, vendo de novo passar Jesus, repetiu aquela mesma profunda e dul­císsima declaração da véspera: ‘Eis o Cordeiro de Deus’.

“Os dois discípulos, ao ouvi­rem — quiçá pela segunda vez — es­sa sentença dos lábios de seu mestre, pronunciada com tanto amor e certe­za, iluminados, sem dúvida, e movi­dos pela graça interior que o próprio Cordeiro de Deus lhes comunicava, despedem-se daquele que até então haviam tido por mestre e se dispõem a seguir Jesus.

“O Batista não opõe a menor resistência; antes, os estimu­la a irem atrás do novo Mestre. ‘João era o amigo do Esposo. Não procurava sua própria glória, mas dava testemunho da ver­dade. Por isso não queria reter consigo seus discípulos, impedin­do-os de seguir o Senhor; pelo contrário, ele mesmo lhes aponta Aquele que eles deviam seguir’”.4

Segundo Maldonado, o Batista tinha os olhos cravados em Nosso Senhor, por estar “cheio de admiração e de religioso espanto”.5 Torna-se patente que Jesus passeava. Para onde ia? Alguns Padres manifestam-se favoráveis à hipótese de que es­tava à procura de São João Batista. Todavia, Maldonado não é desta opinião e julga estivesse o Salvador distraindo-Se ou cami­nhando em outra direção e, por este motivo, “deixou-Se ver por João, para que d’Ele desse novo testemunho”.6

Já São João Crisóstomo ressalta outros importantes deta­lhes deste episódio: “Seu desejo [de São João Batista] teria sido de que prestassem atenção nele, para falar uma só vez. Mas co­mo isso não ocorria com frequência, por causa do sono de seus ouvintes, para que levassem em conta as suas palavras repetia várias vezes a mesma coisa. […]

“Todos os demais profetas e apóstolos anunciaram a Cristo quando este estava ausente. Uns antes de sua Encarnação. Ou­tros depois da Ascensão. Só ele O anunciou estando presente. […]

“Por que não viajou por toda a Judeia para anunciá-Lo, mas se estabeleceu junto ao rio, esperando que Ele viesse, para indicá-Lo às multidões tão logo Se apresentasse? Porque queria que fossem as obras de Cristo que o fizessem. Entretanto, ele se preocupava em torná-Lo conhecido e em convencer alguns para que ouvissem suas palavras de salvação. São João deixa para Ele o testemunho mais seguro, que provém das obras, como disse o próprio Cristo: ‘Não recebo testemunho de um homem, porque as obras que o Pai Me concedeu fazer dão testemunho de Mim’. E não há meio mais eficaz do que este, pois sem haver acendi­do mais que uma pequeníssima faísca, depressa ela se converteu em uma chama enorme, e os que antes não davam crédito às pa­lavras de São João, dizem: ‘Tudo o que João dizia era verdade’.

“Ao contrário, se tudo isso tivesse sido dito percorrendo os caminhos da Judeia, poderia ter parecido que o fazia por algum interesse humano, e sua pregação ficaria suspeita”.7

E São João Crisóstomo acrescenta ainda este comentário: “‘Olhando fixamente para Jesus que passava, exclamou: Eis o Cordeiro de Deus’. São João disse isto para deixar consignado que O reconhecia não só por ouvi-Lo falar, mas por vê-Lo passar”.8

“Convém que Ele cresça e eu diminua”

O padre Manuel de Tuya, muito acertadamente, comen­ta que este trecho do Evangelho de hoje aponta uma continu­ação da missão do Batista, de anunciar a chegada do Messias e dar testemunho d’Ele. Do mesmo modo como antes procedera diante das multidões e do Sinédrio, agora o faz perante seus dois discípulos: “Não os reterá, mas os orientará rumo a Cristo. Des­fará seu ‘círculo’ para fazer crescer o de Cristo. É o tema desta passagem: ‘Convém que Ele cresça e eu diminua’ (Jo 3, 30)”.9

O famoso Fillion10 vê o versículo por um outro ângulo e afirma que a exclamação de São João ― “Eis o Cordeiro de Deus!” ― foi suficiente para produzir nos dois discípulos, de maneira repentina, uma reação de maravilhamento. Já Maldo­nado11 manifesta-se favorável à ideia de que o Precursor julgava seus dois discípulos prontos para seguir o Messias.

III – André e João encontram Jesus

37 Ouvindo essas palavras, os dois discípulos seguiram Jesus.

Desde toda a eternidade, Jesus vira estes dois discípulos e os amara; agora, com seus olhos humanos e sem Se deixar perceber, o Salvador os contempla de soslaio. Ele sempre quis atraí-los, mas, seguindo uma zelosa diploma­cia, deixou a cargo de quem os formara tomar a iniciativa de encaminhá-los. De sua parte, Jesus não faz senão oferecer ao Precursor um pequeno pretexto, ou seja, passa diante de seus olhos.

O Batista demonstra, uma vez mais, sua total devoção ao Sal­vador, e aproveita imediatamente a oportunidade, pois teme que Ele passe e não volte!

Quantas vezes este mesmo Jesus Se apresen­ta ao longo da caminha­da de nossa vida! Ora é uma inspiração, ou um bom anseio pervadido de consolação, às vezes até uma dor de consciên­cia e um arrependimento, ou ainda exemplos de virtu­de ou de maldade aos quais assistimos… Sim, Ele nos aparece de mil modos, e eis aqui o grande modelo dian­te de nós neste Evangelho.

Devemos ser ávidos dessas ocasiões para discernirmos as divinas insinuações de Nosso Senhor.

Fiéis aos ensinamentos de seu mestre, no entusiasmo pela figura do Cordeiro tão bem apresentada ao longo de enlevan­tes conversas e pregações, os dois discípulos resolvem segui-Lo. Conforme explica o padre Manuel de Tuya, “‘seguir alguém’, ‘ir atrás de’, era sinônimo, nos meios rabínicos, de ir à sua escola, ser seu discípulo”.12 Portanto, seguiram-No nos dois sentidos da palavra, ou seja, fisicamente e com o intuito de passarem a ser seus discípulos.

Quantas vocações ficaram abandonadas pelos caminhos da História pelo fato de não reagirem como estes dois! Quantas perdições!

Da sua parte, Maldonado,13 com base em vários Padres da Igreja, ressalta a importância da pregação. Neste versículo, Je­sus colhe os primeiros frutos do rico plantio de João.

Inocente ansiedade por entrar em contato

38 Voltando-Se para eles e vendo que O estavam seguindo, Jesus perguntou: “O que estais procurando?” Eles disseram: “Rabi (que quer dizer: Mestre), onde moras?”

Jesus nunca deixa de vir ao nosso encontro e jamais Se nega a encorajar-nos nas vias do bem. Tão afetuosa e paternal é sua ati­tude com os dois, que chega a nos comover. Ambos manifestam uma inocente ansiedade de dirigir-se a Ele; no entanto, por res­peito ou temor reverencial, não ousam abordá-Lo. Segundo a boa educação de todos os tempos, cabe a quem tem autoridade iniciar a conversa, e Nosso Senhor o faz com suma bondade, porque dis­cerne o fundo do desejo de ambos e coloca-os à vontade.

“Rabi” é o título que Lhe conferem, e assim demonstram quanto anseiam por aprender sua doutrina. Em seguida Lhe fazem uma pergunta: “onde moras?”. Comenta Alcuíno a es­te respeito: “Não querem se beneficiar do magistério de forma passageira, e por isso Lhe perguntam onde vive para que, de fu­turo, possam ouvir suas palavras em segredo, visitá-Lo muitas vezes e instruir-se muito melhor”.14

Como o Evangelho é perene, também a nós Jesus pergun­ta: “O que estais procurando?”. Ou seja, o que procuramos nos lugares frequentados por nós, em nossas companhias, amizades, ações, etc.? Buscamos a glória de Deus e de sua Santa Igreja? Será o Reino dos Céus, a edificação dos outros, nossa salvação, nossa santificação? Ou antes será nossa vanglória, nosso amor­-próprio, nossa sensualidade, nossos prazeres? É possível que nós não Lhe queiramos responder agora, contudo, no dia do Juí­zo — particular e Final —, deveremos prestar-Lhe contas exa­tas, diante dos Anjos e dos homens.

Imitemos os dois discípulos, e perguntemos a Jesus onde vi­ve Ele atualmente. Imaginemos qual seria sua resposta. Decerto não O encontraremos nos espetáculos imorais, nem nas disputas vaidosas, etc. Antes de tudo, Ele vive no Céu, como no tabernácu­lo, mas também no coração dos inocentes, de todos os que se man­têm na graça de Deus e fogem do pecado. Nós bem o sabemos…

Sagrado convívio

39 Jesus respondeu: “Vinde ver”. Foram pois ver onde Ele morava e, nesse dia, permaneceram com Ele. Era por volta das quatro da tarde.

A cortesia de Jesus é insuperável, pois poderia indicar-lhes o caminho e marcar-lhes um encontro para o dia seguinte. Pelo contrário, convida-os a segui-Lo, ou seja, já os aceita como dis­cípulos.

Assim procedeu Jesus, conforme nos ensina São Cirilo, “para nos ensinar primeiro que nas coisas boas não é louvável atrasar-se, porque o adiamento de algo bom é sempre um pre­juízo. E, depois, para mostrar que, para se salvar, não basta aos ignorantes saberem qual é a santa casa de Cristo, nosso Salva­ dor, isto é, a Igreja, se não chegarem até ela com fé e observa­rem com ânimo fervoroso o que nela se faz”.15

Quem nos dera conhecer o conteúdo daquele sagrado con­vívio! “Que dia tão feliz passaram! E que noite tão agradável!” — exclama Santo Agostinho — “Há quem seja capaz de nos di­zer o que ouviram da boca do Senhor? Edifiquemos também nós e façamos uma casa em nosso coração, onde Ele venha ensinar­-nos e falar conosco”.16

A nós também dirige Jesus este convite cheio de benque­rença. E assim procederá Ele até o último minuto da História. Como é possível opor-Lhe resistência?

IV – Simão Pedro, fruto do apostolado de André

40 André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram as palavras de João e seguiram Jesus.

Os comentaristas são praticamente unânimes em frisar a humildade do Evangelista neste versículo, pelo fato de não se mencionar a si próprio como sendo o outro dos dois. A nosso ver, os bons anos de convívio muito estreito com a mais humilde de todas as criaturas, Maria Santíssima, lhe haviam arrebatado o coração no maravilhamento por esta excelsa virtude.

41 Ele foi encontrar primeiro seu irmão Simão e lhe disse: “Encontramos o Messias” (que quer dizer: Cristo).

Sem dúvida, a longa conversa mantida com Jesus fizera crescer João e André na fé. Ambos deviam estar inflamados de zelo, entusiasmo e fervor em seu noviciado recém-começado. Logo surgem os resultados comprobatórios da autêntica reali­dade dessa fé: o apostolado. O bem é eminentemente difusivo, as impressões sobrenaturais deviam ser muito fortes, o enlevo e veneração por Nosso Senhor estavam no mais elevado grau. A recordação das inúmeras conversas, previsões e comentários de João Batista sobre o Messias constituíram para eles um quadro lógico, belo e harmônico com a figura de Cristo. Era imperioso conquistar novos discípulos para o Messias. O primeiro que en­contraram foi Simão e sobre ele devem ter despejado o desabafo de todas as suas místicas emoções e a concatenação de suas aná­lises e conclusões.17 E qual foi a reação de Simão?

Profecia sobre o futuro de Simão

42 Então André conduziu Simão a Jesus. Jesus olhou bem para ele e disse: “Tu és Simão, filho de João; tu serás chamado Cefas” (que quer dizer: Pedra).

Conforme faz notar São João Crisóstomo,18 Pedro acredi­tou de imediato no que lhe transmitiam e quis conhecer o quan­to antes o Messias. Por isso deixou-se levar.

Jesus, por seu divino ver, já conhecia Simão desde toda a eternidade. Agora seus olhos humanos coincidiam no mesmo juízo. Deus e Homem lançam, em profecia, a pedra fundamen­tal da futura Igreja. Nenhum dos neodiscípulos deve ter enten­dido o alcance daquelas palavras, que mais tarde se tornariam claras e explícitas, nestas outras: “tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16, 18).

Dois olhares marcaram a vida de Pedro: este inicial e o último, após o qual ele “flevit amare — chorou amargamente” (Lc 22, 62).

V – Conclusão

E impossível não constatar, no Evangelho de hoje, a funda­mental importância do apostolado pessoal, direto, e sob o poder de uma hierarquia. Vê-se, já nos primórdios da constituição de sua Igreja, o Divino Redentor preocupado em es­tabelecer a Pedra-Base de seu edifício. Por esta razão, em todo e qualquer sucessor de Cefas, nós devemos honrar esta Pedra, obe­decendo com toda submissão às determinações da Igreja.

Roguemos a Maria, Mãe da Igreja, que jamais nos sepa­remos nem um só milímetro da Cátedra infalível de Pedro, em nossa fé, espírito e disciplina. Que a Virgem Santíssima infunda em nossas almas a felicidade de crer no que a Hierarquia ensina, praticar o que ela ordena, amar o que ela ama, e percorrer as suas vias para chegar à glória eterna. ²

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1) CONCÍLIO VATICANO II. Apostolicam actuositatem, n.1.

2) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.3, a.2, ad 2.

3) PIO XII. Discurso aos homens da Ação Católica, de 12/10/1952.

4) FERNÁNDEZ TRUYOLS, SJ, Andrés. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. 2.ed. Ma­drid: BAC, 1954, p.141.

5) MALDONADO, SJ, Juan de. Comentarios a los Cuatro Evangelios. Evangelio de San Juan. Madrid: BAC, 1954, v.III, p.125.

6) Idem, ibidem.

7) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía XVIII, n.1-3. In: Homilías sobre el Evangelio de San Juan (1-29). 2.ed. Madrid: Ciudad Nueva, 2001, v.I, p.227; 230-232.

8) Idem, n.2, p.230.

9) TUYA, OP, Manuel de. Biblia Comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.V, p.985-986.

10) Cf. FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Infancia y Bautis­mo. Madrid: Rialp, 2000, v.I, p.327.

11) Cf. MALDONADO, op. cit., p.125.

12) TUYA, op. cit., p.987.

13) Cf. MALDONADO, op. cit., p.126.

14) ALCUÍNO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. In Ioannem, c.I, v.37-40.

15) SÃO CIRILO DE ALEXANDRIA. In Ioannis Evangelium. L.II, c.1: MG 73, 218.

16) SANTO AGOSTINHO. In Ioannis Evangelium. Tractatus VII, n.9. In: Obras. Madrid: BAC, 1955, v.XIII, p.229.

17) Maldonado afirma que “pode-se considerar como algo certo que João, o futuro Evangelista, fez o mesmo que André: foi ao encontro de seu irmão, Tiago, e o le­vou ao Senhor. A união dos dois pares de irmãos, amigos e companheiros de pesca, faz suspeitar que os quatro viajaram na mesma caravana para serem batizados pelo Precursor e pensavam retornar juntos à Galileia, quando sua boa sorte os conduziu à rústica tenda de campanha habitada por Cristo, decidindo ser seus discípulos, e com Ele regressaram à sua terra” (MALDONADO, op. cit., p.131, nota 1).

18) Cf. SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía XIX, n.1. In: Homilías sobre el Evange­lio de San Juan (1-29), op. cit., p.241.