Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

20 de Agosto

XX DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA Salmo 83, 10-11
Senhor Deus, nosso protector,
ponde os olhos no rosto do vosso Ungido.
Um dia em vossos átrios vale mais de mil longe de Vós.

ORAÇÃO COLECTA
Deus de bondade infinita,
que preparastes bens invisíveis para aqueles que Vos amam,
infundi em nós o vosso amor,
para que, amando-Vos em tudo e acima de tudo,
alcancemos as vossas promessas, que excedem todo o desejo.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Is 56, 1.6-7
«Conduzirei os filhos dos estrangeiros ao meu santo monte»

A “Casa de Deus”, designada também por “montanha santa”, é agora a sua Igreja, que tem as portas abertas a todos os povos e a todos os homens. A leitura do Evangelho vai demonstrar que é verdadeira esta afirmação, que já vem do Antigo Testamento. O que não significa que a Casa de Deus seja lugar de confusão. Se todos nela têm lugar, é para ali se encontrarem na unidade da mesma fé: trata-se da Casa “do Senhor”, e não apenas de um lugar de encontro de homens.

Leitura do Livro de Isaías
Eis o que diz o Senhor: «Respeitai o direito, praticai a justiça, porque a minha salvação está perto e a minha justiça não tardará a manifestar-se. Quanto aos estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor para O servirem, para amarem o seu nome e serem seus servos, se guardarem o sábado, sem o profanarem, se forem fiéis à minha aliança, hei-de conduzi-los ao meu santo monte, hei-de enchê-los de alegria na minha casa de oração. Os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceites no meu altar, porque a minha casa será chamada ‘casa de oração para todos os povos’».
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 66 (67), 2-3.5.6.8 (R. 4)
Refrão: Louvado sejais, Senhor,
pelos povos de toda a terra. Repete-se

Deus Se compadeça de nós e nos dê a sua bênção,
resplandeça sobre nós a luz do seu rosto.
Na terra se conhecerão os vossos caminhos
e entre os povos a vossa salvação. Refrão

Alegrem-se e exultem as nações,
porque julgais os povos com justiça
e governais as nações sobre a terra. Refrão

Os povos Vos louvem, ó Deus,
todos os povos Vos louvem.
Deus nos dê a sua bênção
e chegue o seu temor aos confins da terra. Refrão

LEITURA II Rom 11, 13-15.29-32
«Os dons e o chamamento de Deus para com Israel são irrevogáveis»

S. Paulo, a propósito da incredulidade dos judeus, que não aceitaram Jesus Cristo, diz que isso acabou por ser ocasião de os pagãos receberem mais depressa o Evangelho; mas, como os dons de Deus são irrevogáveis, dia virá em que também os judeus alcançarão de Deus a graça da conversão a Cristo, visto que foi a eles antes de todos os outros que Deus fez as suas promessas de salvação.

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos: É a vós, os gentios, que eu falo: Enquanto eu for Apóstolo dos gentios, procurarei prestigiar o meu ministério a ver se provoco o ciúme dos homens da minha raça e salvo alguns deles. Porque, se da sua rejeição resultou a reconciliação do mundo, o que será a sua reintegração senão uma ressurreição de entre os mortos? Porque os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis. Vós fostes outrora desobedientes a Deus e agora alcançastes misericórdia, devido à desobediência dos judeus. Assim também eles desobedecem agora, de modo que, devido à misericórdia obtida por vós, também eles agora alcancem misericórdia. Efectivamente, Deus encerrou a todos na desobediência, para usar de misericórdia para com todos.
Palavra do Senhor.

ALELUIA cf. Mt 4, 2
Refrão: Aleluia. Repete-se
Jesus proclamava o evangelho do reino
e curava todas as doenças entre o povo. Refrão

EVANGELHO Mt 15, 21-28
«Mulher, é grande a tua fé»

Esta leitura vem culminar as duas anteriores, que excepcionalmente coincidem todas no mesmo ponto: Deus dirige o seu apelo a todos os homens, mesmo aos de fora do povo judeu. A mulher cananeia é estrangeira em relação ao povo de Israel, mas, pela fé, tornou-se mais próxima do Senhor do que muitos desse povo, que O rejeitaram. É a fé que aproxima de Deus, e não o sangue.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, Jesus retirou-Se para os lados de Tiro e Sidónia. Então, uma mulher cananeia, vinda daqueles arredores, começou a gritar: «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim. Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio». Mas Jesus não lhe respondeu uma palavra. Os discípulos aproximaram-se e pediram-Lhe: «Atende-a, porque ela vem a gritar atrás de nós». Jesus respondeu: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel». Mas a mulher veio prostrar-se diante d’Ele, dizendo: «Socorre-me, Senhor». Ele respondeu: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos». Mas ela insistiu: «É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos». Então Jesus respondeu-lhe: «Mulher, é grande a tua fé. Faça-se como desejas». E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada.
Palavra da salvação.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Irmãs e irmãos em Cristo: Deus quer conduzir ao seu monte santo todos os habitantes da terra. Peçamos pelas intenções do mundo inteiro, dizendo (ou: cantando), com fé e humildade: R. Lembrai-Vos, Senhor, do vosso povo. Ou: Ouvi-nos, Senhor. Ou: Tende compaixão de nós, Senhor.

1. Pelo Bispo N. que o Senhor nos concedeu, pelos presbíteros, diáconos e catequistas, e por todos os servidores da nossa Diocese, oremos.

2. Pelos povos da terra e seu desenvolvimento, pelos estrangeiros que vivem entre nós e pelos homens desprezados e infelizes, oremos.

3. Pelos que não têm casa, nem família, nem carinho, pelos que procuram trabalho e não o encontram e pelas vítimas das injustiças e maldades, oremos.

4. Pelas mães que pedem a Deus que as socorra, por aquelas que perderam toda a esperança, pelos pobres, pelos órfãos e pelas viúvas, oremos.

5. Por nós próprios que celebramos a nossa fé, por aqueles que a perderam ou a abandonaram e pelos que louvam a Deus com suas obras, oremos.

Senhor, nosso Deus, que escutastes as súplicas da mulher cananeia, atendei a oração do vosso povo e concedei a todos aqueles por quem pedimos a graça de Vos conhecerem e amarem. Por Cristo Senhor nosso.

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Aceitai, Senhor, o que trazemos ao vosso altar,
nesta admirável permuta de dons,
de modo que, oferecendo-Vos o que nos destes,
mereçamos receber-Vos a Vós mesmo.
Por Nosso Senhor .

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Salmo 129, 7
No Senhor está a misericórdia,
no Senhor está a plenitude da redenção.

Ou Jo 6, 51-52
Eu sou o pão vivo descido do Céu, diz o Senhor.
Quem comer deste pão viverá eternamente.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Senhor, que neste sacramento
nos fizestes participar mais intimamente no mistério de Cristo,
transformai-nos à sua imagem na terra
para merecermos ser associados à sua glória no Céu.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

Tudo se obtém pela fé

I – Introdução: judeus e cananeus

Os inimigos de Jesus estavam em extremo irritados com a pregação de uma doutrina nova dotada de potência de atração e conversão. O Divino Mestre, em sua sa­bedoria infinita, por razões diplomáticas resolveu retirar-Se por algum tempo da presença de seus adversários, a fim de lhes acal­mar os ânimos exaltados. Era a atitude mais indicada naquelas circunstâncias, segundo o que se pode deduzir da narração feita por dois evangelistas (cf. Mt 15, 21; Mc 7, 24). Atravessando a Galileia superior, a noroeste encontrava-se o território de Tiro e Sidônia ― no Líbano de hoje ―, habitado por pagãos de etnia cananeia, muito hostis aos judeus de então, segundo nos relata o famoso historiador hebreu Flávio Josefo.1

A propósito de ter ou não ter Jesus entrado naquelas cida­des fenícias, discutem os intérpretes. Alguns conservam uma boa margem de dúvida, em vista do sentido vago das expressões uti­lizadas por ambos os Evangelhos quando se referem a essa via­gem, apesar de mencionarem explicitamente a região. Outros ar­gumentam em sentido contrário, recordando que Elias já havia estado naquelas paragens (cf. I Re 17, 8-10) e se perguntam se seria inconveniente que Nos­so Senhor entrasse em ter­ras pagãs, mesmo que lá não exercesse seu ministério.

O fundo da questão es­tá ligado a fatos mais antigos.

De volta do cativeiro na Babilônia, o povo judeu levou mais de um século pa­ra se reinstalar na Palesti­na (de 538 a.C. a 398 a.C.). Em certo período (por vol­ta de 458 a.C.), um segundo núcleo de retornados contou no seu meio com uma figura exponencial: Esdras. Entre suas várias iniciativas estava a de revigorar os costumes e preceitos prescritos por Moi­sés, de maneira muito espe­cial os relativos aos casamen­tos mistos. Nessa ocasião foram excluídas de entre o povo judeu todas as mulheres cananeias, com seus respectivos filhos (cf. Es 9―10). Ademais, outro profeta, Neemias, toma­do de santo zelo, em período posterior expulsou de Jerusalém os comerciantes da cidade de Tiro, assim como tomou severas medidas para separar o povo eleito dos estrangeiros (cf. Ne 13).

II – Comentário ao evangelho

Naquele tempo: 21 Jesus foi para a região de Tiro e Sidônia.

Os cananeus eram, portanto, um povo que de modo al­gum podia ser procurado pelos judeus, daí a perplexi­dade de alguns comentaristas, que buscam uma expli­cação mais cômoda para o conteúdo deste versículo. Maior é a perplexidade se lembrarmos que o próprio Jesus havia proibido a seus discípulos qualquer incursão em territórios dos gentios.

Na realidade o Divino Mestre penetrou naquelas terras para ocultar-Se e não para pregar. Porém, pelo fato de Ele permanecer ali várias semanas e, sobretudo, por ter se difundido amplamente sua fama, não demorou para que sua presença fosse percebida. Conforme nos relatam Marcos (cf. Mc 3, 8) e Lucas (cf. Lc 6, 17), alguns habitantes daquela região já haviam assistido à pregação de Jesus na Palestina. Além disso, é indispensável recordarmos o quanto o porte e grandeza do Homem-Deus tornavam-No uma Pessoa que chamava possantemente a atenção logo num primeiro olhar. Daí a cena que veremos em seguida.

Uma mulher que rompe com os padrões errados vigentes

22 Eis que uma mulher cananeia, vindo daquela região, pôs-se a gritar: “Senhor, Filho de Davi, tem piedade de mim: minha filha está cruelmente atormentada por um demônio!”

Os comentaristas sublinham o caráter inesperado do apa­recimento dessa senhora, como também seu profundo respeito pelo Mestre. Por que Mateus quis acentuar ser ela uma cananeia? Responde-nos Maldonado: “Crisóstomo notou que o Evangelista precisamente disse que aquela mulher era cananeia para que apa­recesse mais admirável sua fé, dado que os cananeus, na opinião dos judeus, eram os mais ímpios entre os gentios”.2

Sobre a virtude dessa mulher, diz a Glosa: “Grande fé se nota nessas palavras da cananeia: ela crê na divindade de Cris­to quando O chama de ‘Senhor’; e em sua humanidade quando Lhe diz: ‘Filho de Davi’”.3

Alguns exegetas, tomados de admiração por essa procla­mação da cananeia, chegam a levantar a hipótese de que — nessa altura — ela já tivesse renunciado ao culto idolátrico tão difundido em Tiro e Sidônia. Filha de pais pagãos, rodeada de deuses falsos, quando seus relacionamentos sociais lhe impu­nham uma visualização errada sobre a Religião, ela rompe com todos e abraça a verdadeira Fé. É heroica sua virtude, em meio à corrupção do mundo; seu coração é sincero e reto, isento de maldade e cheio de fervor. Que glória para essa mulher e que lição para os dias de hoje!

Vivemos submersos num pavoroso relativismo, conforme afirmou na Missa Pro Eligendo Romano Pontifice o então Car­deal Ratzinger: “Quantos ventos de doutrina conhecemos nestes últimos decênios, quantas correntes ideológicas, quantas modas do pensamento… A pequena barca do pensamento de muitos cristãos foi muitas vezes agitada por estas ondas, lançada de um extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo, até à libertina­gem, ao coletivismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo, e por aí adiante. Cada dia surgem novas seitas e realiza-se quanto diz São Paulo acer­ca do engano dos homens, da astúcia que tende a levar ao erro (cf. Ef 4, 14). Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, mui­tas vezes é classificado como fundamentalismo. Enquanto o re­lativismo, isto é, deixar-se levar ‘aqui e além por qualquer vento de doutrina’, aparece como a única atitude à altura dos tempos hodiernos. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medi­da apenas o próprio eu e as suas vontades”.4

O mundo atual vem fazendo há muito um caminho con­trário ao da cananeia, ou seja, cada vez mais se paganiza e foge do Salvador. No fundo, estamos atravessando a pior crise de fé já ocorrida na História, mergulhados num laicismo avassalador, verdadeira ameaça e desafio para a Igreja. Começou-se por le­var uma vida em oposição ao que se acreditava, para aos poucos ir abolindo inteiramente a própria crença religiosa. Ora, a pre­ciosa virtude da fé necessita ser manifestada nos atos comuns e frequentes da vida, pois só exercitando-se ela pode se tornar robusta; caso contrário, tende a definhar. E não basta fazê-la consistir apenas em alguns atos e orações.

Esse é o exemplo que nos dá hoje a cananeia. O foco de seu carinho, afeto e esperança era sua filha, que vinha sofrendo “cruelmente”, fazia tempo, o tormento de uma possessão diabólica. Seu instinto materno se tornava cada dia ainda mais intenso, ao considerar os padecimen­tos daquela que era carne de sua carne. Uma só era a dor dessas duas criaturas. Por is­so, encontrando-se diante do Divino Taumaturgo, ela im­plora por si e pela filha.

Se ela estivesse influen­ciada pela mentalidade ateia e materialista de nosso tempo, decerto procuraria exclusivamente meios humanos pa­ra solucionar seu problema. Contudo, por sua grande fé, agiu de forma bem diferente. Já ouvira falar do Filho de Da­vi o qual, percorrendo a Galileia, curava todos os enfermos à sua passagem. Até os demônios eram expulsos por Ele. Inúmeras ve­zes penetrara em sua alma o anseio de levar sua pobre filha à pre­sença desse Senhor, ou até mesmo o desejo de ir sozinha à pro­cura d’Ele. Mas a viagem lhe seria em extremo penosa, e talvez impossível, ainda que não levasse a filha consigo. Neste último caso, como deixá-la sem assistência durante um longo período? Impedida pelas circunstâncias de realizar seu sonho, não deixa­va, todavia, de crer no poder do Filho de Davi, crescendo na fé a cada instante. Ele seria o Senhor que concederia à sua filha a fe­licidade roubada pelo demônio. Ardia no seu coração o desejo de encontrá-Lo e por esta razão rezava a fim de ter tal oportunidade.

Jesus Se põe ao alcance da cananeia

Por seu lado, Jesus caminhava por aquelas plagas de ma­neira oculta. Não queria fosse pública sua presença, sobretudo em se tratando de domínios da gentilidade. Entretanto, Ele é a Bondade, e assim como está sempre pronto para ir em busca da ovelha desgarrada, também jamais foge de quem Lhe corre atrás. Não terá o Salvador resolvido penetrar nessa região para Se colocar ao alcance dessa mulher tão valente na fé?

Vemos um proceder muito característico de Jesus nesta cena. Retira-Se do meio do povo eleito para tranquilizá-lo, tal qual o faz em muitas ocasiões com as almas preguiçosas, tíbias ou indiferentes. Em contrapartida, passa diante das almas fer­vorosas e atentas para que elas O descubram e se fixem na fé, tomando-O como guia. Sim, de forma inopinada e inimaginável, Jesus estava de passagem por regiões proibidas para os judeus. Só uma fé incomum seria capaz de descobrir aquele Deus escon­dido, indo prostrar-se a seus pés e gritar por clemência.

Outro exemplo nos dá a cananeia: com que sofreguidão se põe em busca do Filho de Davi, logo que ouve um minúscu­lo boato a respeito de sua presença ali. Bem diferente pode ser nossa fé. Será que não nos custa abandonar nossas comodidades para ir ao encontro de Jesus, seja numa Celebração Eucarística, seja diante de um tabernáculo? Não teremos recebido convites interiores de conversão e deixado passar as oportunidades por causa de injustificáveis e maléficas delongas? Quantos de nós, bem ao contrário da cananeia, chegamos até a hora da morte inteiramente escravizados ao demônio, correndo o risco de per­manecer a eternidade no inferno!

Eram muito frequentes, tanto entre os judeus como no meio dos pagãos, os casos de possessão diabólica, sendo as ví­timas torturadas, não raras vezes, com terríveis e violentas con­vulsões. Daí ter a cananeia se referido a sua filha empregando a expressão: “cruelmente atormentada”. O fato de intervir aos gritos e com insistência é próprio ao modo de ser oriental, além de demonstrar quanto o sofrimento da filha era agudo, consti­tuindo um só com sua própria angústia.

Silêncio desconcertante

23 Mas, Jesus não lhe respondeu palavra alguma. Então seus discípulos aproximaram-se e Lhe pediram: “Manda embora essa mulher, pois ela vem gritando atrás de nós”.

Misterioso silêncio do Salvador, o que inflamava mais ain­da o coração da angustiada mãe.

Várias são as opiniões dos autores sobre este particular. A primeira impressão que se tem é a de que Jesus não deseja­va chamar a atenção sobre Si, pelo fato de estar buscando iso­lamento, descanso e refúgio. Por outro lado, como Ele mesmo recomendara não utilizar os caminhos dos gentios, talvez fosse melhor não dar motivos para incompreensões ou calúnias. No entanto, a Glosa acentua um aspecto de suma importância sobre a causa dessa atitude do Divino Mestre: “Com essa dilação e fal­ta de resposta, revela-nos o Senhor a paciência e a perseverança da mulher”.5 Melhor ainda se exprime a esse respeito Maldona­do: “Parece-me que também por duas outras razões [Jesus] Se calou: para provar a fé e a constância da mulher ou para mostrar aos outros, como diz Crisóstomo, que ela teve uma fé grande e singular, pois, desprezada e sem ouvir sequer uma resposta, per­severou na súplica. Por fim, quis Cristo fazer ver que, não por sua vontade, mas forçado e premido pelos importunos rogos da mulher, concedia a graça dos milagres aos gentios, embora não tenha sido enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”.6

O alto grau de dramaticidade da cena impeliu os discípu­los a intercederem por ela. Na interpretação desse pormenor os Padres e demais comentaristas são inteiramente unânimes. De fato, à medida que ela externava sua aflição por seus clamores ao longo do caminho, certamente seu empenho em obter aque­le favor crescia pela fé que se robustecia a cada grito. Jesus e os seus devem ter resolvido entrar na casa dela, a fim de evi­tar o escândalo que, com sua atitude, ela promovia pelas ruas. Assim se entende melhor o quanto é apenas aparente a contra­dição a propósito deste detalhe, entre as narrações de Marcos (cf. Mc 7, 24-30) e a de Mateus. Estando, portanto, já na casa da cananeia, e antes de ela arrojar-se aos pés do Divino Taumatur­go, os Apóstolos rogam por ela e obtêm-lhe uma resposta. Até então, Jesus nem sequer a olhara, opondo ao seu fervor uma in­diferença própria a desanimar qualquer pessoa. Mas as palavras de Jesus talvez fossem ainda mais duras que o silêncio anterior.

Difícil teste para a humildade daquela mãe

24 Jesus respondeu: “Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel”.

Difícil é, à primeira vista, a compreensão dessa dura afirma­ção do Divino Mestre, porém, percorrendo-se os vários comenta­ristas, percebe-se a bela lógica da resposta, como, por exemplo, nestas palavras de São Jerônimo: “Não diz isso porque não hou­vesse sido enviado às demais nações, mas para indicar que fora enviado primeiro a Israel e, não tendo este povo recebido o Evan­gelho, justificar sua própria transmigração aos gentios”.7

Entretanto, não estava ao alcance da cananeia essa expli­cação. Pode-se imaginar qual deve ter sido sua perplexidade ao ouvir aquela resposta. Sua natureza feminina, por si só já ten­dente à fragilidade, a inclinaria a perder o ânimo, principalmen­te depois de um longo silêncio daquele grande Senhor. Quantas mães, a essa altura, não teriam se retirado para chorar a sós ou em companhia de sua pobre filha, em meio a uma terrível de­pressão! Para nós mesmos que ora consideramos essa cena, tal­vez não fosse necessário tanto para desistirmos de nosso intento. Não foi o que se passou com a cananeia…

25 Mas, a mulher, aproximando-se, prostrou-se diante de Jesus, e começou a implorar: “Senhor, socorre-me!”

Quantas e quão boas virtudes demonstra possuir esta alma fervorosa! Se nós soubéssemos rezar com tal confiança e persistên­cia, não obteríamos tudo o que pedimos? Quantas vezes deixamos de ser atendidos em nossas orações, pela falta de perseverança…

26 Jesus lhe disse: “Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-lo aos cachorrinhos”.

Parece-nos que, pari passu com o crescimento na fé da ca­naneia, mais duras se tornam as palavras do Salvador. Elas nos causam uma certa incompreensão e não serão raros os que com elas possam ficar chocados, sobretudo entre nós, ocidentais. Sobre este versículo assim se expressa Fillion: “Fazem notar os comentaristas — e com razão — que Jesus emprega um diminu­tivo que significa não os animais vulgares, sem dono, semissel­vagens, que andam errantes pelas ruas dos povoados orientais, alimentando-se de restos desprezíveis, senão dos ‘cachorrinhos’ domésticos, cuidados em casa e que participam dos jogos das crianças”.8 Como Marcos escrevia para um público étnico-cris­tão, acrescenta à narração dessa mesma passagem uma forte atenuante (cf. Mc 7, 27). Por isso continua Fillion: “Ademais, ao dizer o Divino Mestre: ‘Deixa primei­ro fartarem-se os filhos’, afirma­va, sim, o direito de prioridade dos judeus no tocante aos benefícios do Messias; mas declarava também que este direito não lhes era ex­clusivo e que um dia al­cançaria os gentios”.9

O grande prêmio da fé humilde e sem rancor

Sem embargo, não po­demos nos esquecer de que ali estava o melhor de todos os senhores, o mais bondoso de todos os pais, e não dei­xavam de ser humilhantes

aquelas palavras. Todavia, em nada ofenderam a mulher prostra­da a seus pés. A humildade autêntica não se ofende com nada. Em contrapartida, o orgulho e a soberba são causas das piores cegueiras. Pelo instinto materno e pela perspicácia própria às almas realmente humildes, percebendo o expediente que Jesus colocava à sua disposição, com todo o respeito ela replicou:

27 A mulher insistiu: “É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos!”

Nesta declaração, humildade e fé se abraçam e se osculam. Manifestando quanto é cândida sua alma, a cananeia aceita com inteira cordura as incisivas palavras de Jesus. Ela continua a chamá­-Lo de Senhor, mostrando disposições de adoração, e argumenta dentro de uma lógica impecável em favor de suas necessidades.

28 Diante disso, Jesus lhe disse: “Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu queres!” E desde aquele momento sua filha ficou curada.

Eis quanto mais valem a fé, a perseverança e a humildade do que a própria intercessão dos Santos. O que nem os Após­tolos conseguiram, ela arrancou de Nosso Senhor e até mesmo aparentemente contra a vontade d’Ele. E, além do mais, o favor obtido vinha acompanhado de um belo elogio.

A cananeia não teve medo de ser importuna, nem esmo­receu um só momento em seu ânimo e em sua fé. O que desejava, na realidade, era obter a cura de sua filha. Ha­via uma inteira correspondência entre seu anseio e seu pedido. Aqui se encontra uma condição essencial de uma boa oração: querer de fato aquilo que se pede. Inúmeras vezes não consegui­mos atingir nossos objetivos porque não é autêntica nossa súplica.

Outro ensinamento que podemos extrair do Evangelho de hoje é a necessidade de nos instruirmos sobre a verdadeira e boa doutrina. A cananeia ouviu e se informou a respeito dos atos e das pregações de Jesus. Isso lhe foi fundamental para crer. Um grande mal de nossos dias, a ignorância religiosa, talvez seja a principal causa dos dramas atuais, conforme nos afirma a Es­critura: “Ouvi a palavra do Senhor, filhos de Israel! Porque o Senhor está em litígio com os habitantes da Terra. Não há sin­ceridade nem bondade, nem conhecimento de Deus na Terra. Juram falso, assassinam, roubam, cometem adultério, usam de violência e acumulam homicídio sobre homicídio. […] porque meu povo se perde por falta de conhecimento” (Os 4, 1-2.6).

O conhecimento enaltece a fé, torna robusta a esperança dos bens eternos e atrai à prática da caridade, quer no amor a Deus, quer no amor ao próximo.

Muitos, por ignorância, e outros, por maldade mesmo, não querem hoje em dia abandonar o pecado. E se assim é, bem lhes vale a consideração de São Rábano: “Se alguém tem manchada sua consciência […] pela sujeira de algum vício, esse tem, sem dúvida, uma filha cruelmente atormentada pelo demônio. […] E se alguém viciou suas boas obras […] com o pecado, esse tam­bém tem uma filha agitada pelas fúrias do espírito impuro, […] e necessita, por conseguinte, recorrer às súplicas e às lágrimas, e acudir à intercessão e ao auxílio dos Santos”.10 ²

 

1) Cf. FLÁVIO JOSEFO. Contra Ápio. L.I, c.4.

2) MALDONADO, SJ, Juan de. Comentarios a los Cuatro Evangelios. Evangelio de San Mateo. Madrid: BAC, 1956, v.I, p.563.

3) GLOSA, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. In Matthæum, c.XV, v.21-28.

4) RATZINGER, Joseph. Homilia na Missa Pro Eligendo Romano Pontifice, de 18/4/2005.

5) GLOSA, op. cit.

6) MALDONADO, op. cit., p.563.

7) SÃO JERÔNIMO. Comentario a Mateo. L.II (11,2-16,12), c.15, n.40. In: Obras Completas. Comentario a Mateo y otros escritos. Madrid: BAC, 2002, v.II, p.209.

8) FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Vida pública. Madrid: Rialp, 2000, v.II, p.260.

9) Idem, p.260-261.  

10) SÃO RÁBANO MAURO. Commentariorum in Matthæum. L.V, c.15: ML 107, 979.