Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

21 de Abril

DOMINGO DE PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR – ANO B

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA Salmo 139, 18.5-6
Ressuscitei e estou convosco para sempre; pusestes sobre mim a vossa mão: é admirável a vossa sabedoria.

Ou Lc 24, 34; cf. Ap 1, 5
O Senhor ressuscitou verdadeiramente. Aleluia. Glória e louvor a Cristo para sempre. Aleluia.

Diz-se o Glória.

ORAÇÃO COLECTA
Senhor Deus do universo, que neste dia, pelo vosso Filho Unigénito, vencedor da morte, nos abristes as portas da eternidade, concedei-nos que, celebrando a solenidade da ressurreição do Senhor, renovados pelo vosso Espírito, ressuscitemos para a luz da vida. Por Nosso Senhor.

Leitura I Act. 10, 34a, 37-43
Diante de pagãos, em casa do centurião Cornélio, Pedro anuncia o que já lhes havia chegado aos ouvidos: Cristo ressuscitou! E, completando aquela «boa notícia», garantindo, com o seu testemunho pessoal, a verdade dos acontecimentos daqueles dias, o Apóstolo explica-lhes o que eles querem dizer:
– Jesus de Nazaré, homem que viveu como eles e com Quem Pedro convivera, não é um simples homem. Ungido do Espírito de Deus, tem a plenitude de Deus em Si. Ele é o Messias, o Filho de Deus, como o demonstrou pelos milagres por ele mesmo presenciados e, sobretudo pelo milagre definitivo – a Ressurreição.
Pela Ressurreição, de que Pedro é testemunha, Jesus de Nazaré é o Juiz dos vivos e dos mortos, é o Salvador de todos os homens, judeus ou pagãos.

Leitura dos Actos dos Apóstolos
Naqueles dias, Pedro tomou a palavra e disse: «Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando a todos os que eram oprimidos pelo Demónio, porque Deus estava com Ele. Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém; e eles mataram-n’O, suspendendo-O na cruz. Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e permitiu-Lhe manifestar-Se¬, não a todo o povo, mas às testemunhas de antemão designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois de ter ressuscitado dos mortos. Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. É d’Ele que todos os profetas dão o seguinte testemunho: quem acredita n’Ele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados».
Palavra do Senhor.

Salmo Responsorial Sal. 117(118), 1-2, 16ab-17, 22-23
Refrão: Este é o dia que o Senhor fez:
exultemos e cantemos de alegria. Repete-se
Ou: Aleluia. Repete-se

Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom,
porque é eterna a sua misericórdia.
Diga a casa de Israel:
é eterna a Sua misericórdia. Refrão

A mão do Senhor fez prodígios,
a mão do Senhor foi magnífica.
Não morrerei, mas hei-de viver,
para anunciar as obras do Senhor. Refrão

A pedra que os construtores rejeitaram
tornou-se pedra angular.
Tudo isto veio do Senhor:
e é admirável aos nossos olhos. Refrão

Leitura II Col. 3, 1-4
Pelo seu Baptismo, o cristão morreu para o pecado e ressuscitou com Cristo para uma vida nova. Desde esse momento, recebeu a missão de, à semelhança de Cristo, conduzir os homens e todas as coisas para o Pai.
Inserido nas realidades divinas, não pode alhear-se do mundo, nem ficar indiferente aos esforços dos homens relativamente à construção dum mundo de felicidade, justiça e paz.
Inserido nas realidades da terra, não pode encerrar-se no mundo, trabalhando só para fins terrenos, esquecido do destino final do homem e do mundo.
Feito nova criatura pela Ressurreição de Cristo, o cristão viverá a vida de cada dia, sem perder de vista o fim superior, para que foi criado.

Leitura da Epístola do apóstolo S. Paulo aos Colossenses
Irmãos: Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo Se encontra, sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar, então também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória.
Palavra do Senhor.

Ou I Cor 5, 6b-8
Para significar o começo de uma nova existência, que teve lugar com a libertação do Egipto, os judeus celebravam a Páscoa com pão sem fermento, pois deitavam para fora de casa o fermento antigo.
Com Cristo Ressuscitado, começou para o Povo de Deus uma vida nova. Por isso, o cristão, deitando fora o fermento antigo (o pecado e a mentira), deve ser pão «ázimo», liberto de todo o mal, de tal modo que nele transpareça sempre a presença do Espírito.

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios
Irmãos: Não sabeis que um pouco de fermento leveda toda a massa? Purificai-vos do velho fermento, para serdes uma nova massa, visto que sois pães ázimos. Cristo, o nosso cordeiro pascal, foi imolado. Celebremos a festa, não com fermento velho, nem com fermento de malícia e perversidade, mas com os pães ázimos da pureza e da verdade.
Palavra do Senhor.

SEQUÊNCIA PASCAL
À Vítima pascal
Ofereçam os cristãos
sacrifícios de louvor
O Cordeiro resgatou as ovelhas:
Cristo, o Inocente,
reconciliou com o Pai os pecadores.
A morte e a vida
travaram um admirável combate:
depois de morto,
vive e reina o Autor da vida.
Diz-nos, Maria:
Que viste no caminho?
Vi o sepulcro de Cristo vivo,
e a glória do ressuscitado.
Vi as testemunhas dos Anjos,
vi o sudário e a mortalha.
Ressuscitou Cristo, minha esperança:
precederá os seus discípulos na Galileia.
Sabemos e acreditamos:
Cristo ressuscitou dos mortos:
Ó Rei vitorioso,
tende piedade de nós.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO I Cor 5, 7b-8a
Refrão: Aleluia. Repete-se
Cristo, nosso Cordeiro Pascal, foi imolado:
celebremos a festa do Senhor. Refrão

Evangelho Jo 20, 1-9
Pedro e João, juntamente com Madalena, são as primeiras testemunhas do túmulo vazio, naquela manhã de Páscoa. Não foi, porém, muito facilmente que eles chegaram à conclusão de que Jesus estava vivo. A sua fé será progressiva, caminhará entre incredulidade e dúvidas. Só perante as ligaduras e o lençol, cuidadosamente dobrados, o que excluía a hipótese de roubo, se lhes começam a abrir os olhos para a realidade.
No seu amor intuitivo, João é o primeiro a compreender os sinais da Ressurreição. Mas bem depressa Pedro, que, não por acaso mas intencionalmente, ocupa o primeiro lugar e nos aparece já nesta manhã como Chefe do Colégio Apostólico, descobre a verdade, anunciada tão claramente pela Escritura e pelo mesmo Jesus. Depois, em contacto pessoal com o Ressuscitado, a sua fé tornar-se-á firme como «rocha» inabalável.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. João
No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo que Jesus amava e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram». Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro¬. Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro:¬ viu e acreditou. Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.
Palavra da Salvação.

Em vez deste Evangelho pode ler-se o que se leu na Vigília da Noite Santa. Nas Missas Vespertinas pode ler-se o Evangelho de Lc 24, 13-15.

EVANGELHO (Facultativo para as Missas Vespertinas) Lc. 24, 13-35
A pedagogia catequística de Lucas, ao descrever o encontro de Cristo com os discípulos de Emaús, mostra-nos bem qual é o caminho, que leva o cristão a um verdadeiro encontro com Jesus. Na verdade, foi através da Sagrada Escritura que o conhecimento dos discípulos acerca de Jesus se aprofundou e se lhes revelou, claramente, o sentido da Sua missão. Foi, porém, na Eucaristia que
O encontraram: Aquele que julgavam perdido para sempre, está vivo e permanece com eles na Eucaristia. A Escritura e a Eucaristia, como o ensinou o Concílio Vaticano II, são os dois modos pelos quais nos alimentamos do «Pão da Vida» (DV 21).

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. Lucas
Dois dos discípulos de Jesus iam a caminho duma povoação chamada Emaús, que ficava a duas léguas de Jerusalém. Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido. Enquanto falavam e discutiam, Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem. Ele perguntou-lhes: «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?». Pararam, com ar muito triste, e um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único habitante de Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias». E Ele perguntou: «Que foi?». Responderam-Lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado. Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel. Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu. É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram: foram de madrugada ao sepulcro, não encontraram o corpo de Jesus e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos, a anunciar que Ele estava vivo. Alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas a Ele não O viram». Então Jesus disse-lhes «Homens sem inteligência e lentos de espírito para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram! Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória?». Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. Ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de seguir para diante. Mas eles convenceram-n’O a ficar, dizendo: «Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite». Jesus entrou e ficou com eles.
E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O. Mas Ele desapareceu da sua presença. Disseram então um para o outro: «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?». Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, que diziam: «Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão». E eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão.
Palavra da Salvação.

ORAÇÃO DOS FIEIS

Caríssimos irmãos e irmãs em Cristo:
Neste dia santíssimo que o Senhor fez,
em que o Espírito nos torna homens novos,
oremos ao Pai, para que a alegria da Páscoa se estenda ao mundo inteiro,
dizendo (ou: cantando), com fé:
R. Pela Ressurreição do vosso Filho, ouvi-nos, Senhor.
Ou: Abençoai, Senhor, a vossa Igreja.
Ou: Ouvi-nos, Senhor.
1. Pela Igreja católica e apostólica,
para que se alegre santamente nesta Páscoa
e proclame que o Senhor ressuscitou,
oremos.
2. Por todos os que foram baptizados,
para que aspirem às realidades do alto
e dêem graças pelo seu novo nascimento,
oremos.
3. Pela humanidade inteira,
para que acolha a Boa Nova e a Aliança
que Deus lhe oferece em Cristo ressuscitado,
oremos.
4. Pelas famílias cristãs,
para que o Cordeiro pascal, que é a nossa vida,
as alimente com o seu Corpo e o seu Sangue,
oremos.
5. Pela nossa comunidade (paroquial),
para que cresça no amor a Jesus Cristo
e dê testemunho da sua Ressurreição,
oremos.
Deus santo, Deus da vida, Deus salvador,
que na Ressurreição do vosso Filho
destes ao mundo a vitória sobre a morte,
fazei-nos viver ressuscitados com Ele,
deixando-nos conduzir pelo seu Espírito.
Por Cristo Senhor nosso.

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Exultando de alegria pascal, nós Vos oferecemos, Senhor, este sacrifício, no qual tão admiravelmente renasce e se alimenta a vossa Igreja. Por Nosso Senhor, Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.
Prefácio pascal I [mas com maior solenidade neste dia].

ANTÍFONA DA COMUNHÃO 1 Cor 5, 7-8
Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado: celebremos a festa com o pão ázimo da pureza e da verdade. Aleluia.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Senhor nosso Deus, protegei sempre com paternal bondade a vossa Igreja, para que, renovada pelos mistérios pascais, mereça chegar à glória da ressurreição. Por Nosso Senhor.
Na despedida, durante toda a Oitava, diz-se:
Ide em paz e o Senhor vos acompanhe. Aleluia. Aleluia.
R. Graças a Deus. Aleluia. Aleluia.

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

A Ressurreição do Senhor

Entre os acontecimentos daquele dia, há episódios que passam muitas vezes despercebidos; porém, bem analisados, revelam em toda a sua força o poder do amor.

“Quia surrexit sicut dicit…”. Tal como havia anuncia­do aos seus, Jesus ressuscitou (cf. Mt 12, 40; 16, 21; 17, 9; 17, 22; 20, 19; Jo 2, 19-21). Esse supremo fato já havia sido previsto por Davi (cf. Sl 15, 10) e por Isaías (cf. Is 11, 10).

São Paulo ressaltará o valor desse grandioso acontecimen­to: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (I Cor 15, 14). Daí a importância capital da Pás­coa da Ressurreição, a magna festa da Cristandade, a mais anti­ga, e centro de todas as outras, solene, majestosa e pervadida de júbilo: “Hæc est dies quam fecit Dominus. Exultemus et lætemur in ea — esse é o dia que o Senhor fez, seja para nós dia de ale­gria e felicidade” (Sl 117, 24).

Na Liturgia, essa alegria é prolongada pela repetição da palavra aleluia, pelo branco dos paramentos e pelos cânticos de exultação. Com razão dizia Tertuliano: “Somai todas as soleni­dades dos gentios e não chegareis aos nossos cinquenta dias de Páscoa”.1

Na Ressurreição do Senhor, além de contemplarmos o triunfo de Jesus Cristo, celebramos também a nossa futura vi­tória, sendo aplicáveis a nós as belas palavras de São Paulo: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está o teu aguilhão?” (I Cor 15, 55).

Cristo foi o único que ressuscitou por seu próprio poder

Elias operara a ressurreição do filho da viúva de Sarepta, em casa de quem vivia (cf. I Rs 17, 17-24). Mais tarde, o mesmo faria Eliseu com o filho de uma sunamita (II Rs 4, 17-37).

O próprio Salvador, tomado de pena ao encontrar o ca­dáver da filha de Jairo, ordenou às mulheres que não mais cho­rassem, pois a menina apenas dormia. Jesus conservou consigo apenas os pais e três Apóstolos e, tomando-a pela mão, disse: “Menina, eu te ordeno, levanta-te!” (Mc 5, 41). Ela se pôs de pé cheia de vida e de alegria. Maravilhados com o prodígio, os pais nem se deram conta de que a jovenzinha precisava se alimentar, e o próprio Mestre teve de lhes lembrar isto (cf. Mc 5, 42-43).

A compaixão de Jesus pelos sofrimentos humanos se ma­nifestou novamente ao deparar Ele com um enterro, na cidade de Naim. Todos caminhavam consternados em extremo, pois fa­lecera o filho de uma viúva, seu único sustento. O féretro encon­trava-se cercado por gente desfeita em pranto. As misericordio­sas entranhas de Nosso Senhor se comovem: “Não chores”, diz Ele à pobre mãe. E, colocando sua onipotência divina a serviço de sua bondade infinita, diz: “Moço, eu te ordeno, levanta-te!”. Obedecendo à solene voz do Criador, começou a falar aquele que havia pouco ainda era defunto. Jesus tomou-o pela mão e o entregou a sua mãe (cf. Lc 7, 11-16).

A mais impressionante de todas as ressurreições operadas por Jesus foi, sem dúvida, a de Lázaro. Maria, irmã do morto, advertiu o Mestre de que o cadáver já entrara em decomposi­ção, pois recebera o ósculo da morte quatro dias antes. Entre­tanto, apesar de saber Jesus que o milagre a ser efetuado aguça­ria a inveja dos fariseus e, assim, apressaria sua própria morte, Ele ansiava ardentemente por cumprir os desígnios do Pai. No Sagrado Coração de Jesus encontram-se, então, dois fortes sen­timentos harmônicos: a compaixão por seu amigo Lázaro e pelas irmãs dele, e a pressa em realizar a finalidade de sua Encarna­ção. Manda que se remova a lápide da entrada do túmulo. Um repugnante odor se espalha entre os presentes. Uma voz pos­sante e onipotente ordena: “Lázaro, vem para fora!”. À boca do túmulo cavado na pedra, um cadáver revivescido apresenta-se com dificuldade, com vendas por todo o corpo. Uma nova deter­minação: “Desatai-o e deixai-o ir”, dito com divina serenidade. Era a mesma voz à qual os ventos e os mares obedeciam… (cf. Jo 11, 38-44).

Na Sexta-Feira Santa, ressurreições numerosas se opera­ram, concomitantes ao terremoto, às trevas e ao rasgão do véu do Templo. Os justos deixaram suas sepulturas, passearam pelas ruas e apareceram a muitas pessoas, certamente para increpá­-las pelo deicídio (cf. Mt 27, 52-53).

Ao longo da Era Cristã haverá outras ressurreições: São Pedro fará retornar à vida Tabita (cf. At 9, 36-43); São Paulo, com um abraço, reerguerá da morte o jovem Êutico (cf. At 20, 9-12); São Bento devolverá com saúde, a um camponês, o filho, cujo corpo inerte havia sido posto à porta do mosteiro.

Mas, se numerosas foram as ressurreições ao longo dos tempos, no que se distingue especialmente a de Cristo?

Em primeiro lugar, nunca ninguém profetizou seu próprio retorno à vida terrena. Menos ainda pôde alguém operar por seu próprio poder esse milagre tão acima da natureza criada.

“Destruí este templo, e eu o reedificarei em três dias” (Jo 2, 19). Era a maior prova de que Jesus dissera a verdade. Mais. De que Jesus é a Verdade. Nenhum ato poderia ser mais con­vincente que esse, mas nem por isso se convenceram os maus: “Enquanto elas voltavam, alguns homens da guarda já estavam na cidade para anunciar o acontecimento aos príncipes dos sa­cerdotes. Reuniram-se estes em conselho com os anciãos. De­ram aos soldados uma importante soma de dinheiro, ordenan­do-lhes: ‘Vós direis que seus discípulos vieram retirá-lo à noite, enquanto dormíeis. Se o governador vier a saber, nós o acalma­remos e vos tiraremos de dificuldades’. Os soldados receberam o dinheiro e seguiram suas instruções. E esta versão é ainda hoje espalhada entre os judeus” (Mt 28, 11-15).

Demonstração mais grandiosa de sua própria divindade, impossível. Má-fé mais entranhada entre seus inimigos, inima­ginável.

Um aspecto pouco comentado da narrativa da Ressurreição de Jesus

Embora não o tenham afirmado os evangelistas, é de sen­so comum, e os bons autores são concordes a este respeito, que Jesus apareceu em primeiro lugar a sua Mãe, logo após a Res­surreição. Na sequência, apareceu a Santa Maria Madalena (cf. Mc 16, 9; Jo 20, 11-17) e, depois, a outras das Santas Mulheres (cf. Mt 28, 9-10).

Por que motivo teria escolhido as mulheres para Se mani­festar, antes dos próprios Apóstolos?

Voltemos nossa atenção para uma passagem do Evangelho muito pouco analisada:

“Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tia­go, e Salomé compraram aromas para ungir a Jesus. E no pri­meiro dia da semana, foram muito cedo ao sepulcro, mal o Sol havia despontado. E diziam entre si: Quem nos há de remover a pedra da entrada do sepulcro?” (Mc 16, 1-3).

Agiam impensadamente, ou seja, de modo substancial­mente imperfeito, por várias razões. Sabiam que o cadáver havia sido ungido dois dias antes. Por que fazê-lo de novo? Ademais, tratava-se do corpo de uma pessoa falecida havia quarenta e oi­to horas. Por fim, é de bom senso que não se deve violar uma sepultura, qualquer que seja, e as leis romanas não toleravam uma transgressão desse tipo.

Havia dificuldades adicionais, como elas mesmas confes­sam: “Quem nos há de remover a pedra…?”. Naquela hora era improvável que encontrassem homens aos quais pudessem pedir tal serviço. E na hipótese de lá haver alguns, prestar-se-iam a realizar tarefa tão perigosa?

O sepulcro havia sido lacrado com todos os cuidados dos odientos adversários de Jesus, como sabiam os discípulos. Os príncipes dos sacerdotes e os fariseus “asseguraram o sepulcro, selando a pedra e colocando guardas” (Mt 27, 66). Como iriam elas convencer as sentinelas a lhes permitirem abrir o túmulo e retirar o cadáver?

E nada indica que elas tenham exposto seus planos a São Pedro e aos outros Apóstolos. É mais uma nota de imperfeição. Agiam por conta própria num assunto que poderia comprome­ter toda a Igreja nascente. Qualquer violação da sepultura dei­xaria a incipiente comunidade cristã em complicada situação diante das autoridades judaicas e romanas. O simples fato de chegarem a fazer aos vigias alguma proposta quanto ao cadáver daria razão aos príncipes dos sacerdotes e escribas, que haviam solicitado ao governador romano uma guarda diante do túmulo de Jesus, pois “seus discípulos poderiam vir roubar o Corpo e dizer ao povo: Ressuscitou dos mortos…” (Mt 27, 64).

Outra questão de grande peso para a avaliação dos fatos é esta: por que Nossa Senhora não se juntou a elas? Terão per­guntado à Mãe de Jesus se estava correto aquele modo de pro­ceder?

Além do mais, elas mesmas não criam na Ressurreição. Do contrário, teriam preferido ficar nas proximidades do Santo Se­pulcro, para aguardar os acontecimentos. Igualmente, não lhes teria ocorrido a ideia de embalsamar de novo o Corpo, a fim de protegê-lo da agressividade do tempo e da decomposição.

Este juízo parece por demais severo, ainda que apoiado em autores de grande importância. E de fato o é. Acrescente-se a isto que os próprios Apóstolos consideravam a situação com a gravidade que estamos descrevendo. As terríveis notícias sobre os acontecimentos da Paixão do Senhor, que se haviam propa­gado por todos os lados, e o ódio que podiam sentir pairando no ar, haviam lhes incutido terror até o fundo da alma. Por isto estavam trancados no Cenáculo.

Ora, é precisamente em meio a esse clima de tragédia e pânico que aquele grupo de piedosas mulheres, sem muito re­fletir sobre as consequências de seus atos, resolve sair antes do raiar da aurora…

Apesar da sua imprudência, as mulheres não foram repreendidas

Podemos imaginar a enorme preocupação que tomou a todos no Cenáculo, ao darem por falta dessas mulheres. E tam­bém o alvoroço que deve ter havido e os olhares de reprova­ção, quando elas voltaram para contar o que haviam presencia­do no túmulo de Jesus. Apóstolos e discípulos não só não acre­ditaram na narração, como atribuíram tudo à fértil imaginação feminina: “Mas essas notícias pareciam-lhes como um delírio, e não lhes deram crédito” (Lc 24, 11). Ao narrar o episódio dos discípulos de Emaús, São Lucas lhes coloca nos lábios um lamento sobre tais mulheres, que haviam assustado os que es­tavam no Cenáculo (cf. Lc 24, 22).

Apenas São Pedro e São João resolveram se mover para certificar-se do que ouviram, e creram em Santa Maria Mada­lena depois de examinarem o sepulcro de Jesus (cf. Jo 20, 3-8).

No fim de tudo, as próprias mulheres se deram conta do perigo a que se haviam exposto e da imprudência cometida: “Elas saíram do sepulcro e fugiram trêmulas e amedrontadas; e a ninguém disseram coisa alguma [pelo caminho], por causa do medo” (Mc 16, 8). Esta é a reação característica dos impreviden­tes: antes do ato, o perigo não existe; após as primeiras configu­rações deste, o pânico.

Diante desses fatos, tornam-se incompreensíveis as atitu­des de Nosso Senhor para com elas. Façamos uma breve recapi­tulação dos fatos:

  1. Por escolha de Jesus, a precedência na pregação do Evangelho cabia aos homens — os Doze Apóstolos e setenta e dois discípulos. Ora, o mais importante de todos os milagres, o fundamento de nossa fé, a Ressurreição do Senhor Jesus, não é comunicada aos homens em primeiro lugar, mas sim às mu­lheres. Elas são encarregadas pelo Raboni de transmitir a Boa­-nova para os próprios Apóstolos e discípulos, a fim de que estes a anunciem pelo mundo. Por cúmulo, eles nem sequer chegam a lhes dar crédito… (cf. Mc 16, 11).
  2. Jesus manda dois Anjos (cf. Lc 24, 4) para lhes comuni­car o grande acontecimento (cf. Lc 24, 6; Mc 16, 6; Mt 28, 6). É a primeira vez que no Evangelho deparamos com o termo ressur­reição após a morte do Senhor.
  3. Elas não só não recebem a menor recriminação da parte dos mensageiros celestes, mas são tratadas com enorme bonda­de e deferência. Um dos Anjos as recebe com palavras carinho­sas, procurando logo de início desfazer-lhes o medo e mostrar­-lhes que conhecia perfeitamente a alta razão que as movia até ali.
  4. Como ficou visto mais atrás, Jesus apareceu a Maria, sua Mãe, logo após sair do sepulcro. Em segundo lugar, a Madalena (cf. Jo 20, 16), com enorme ternura, chamando-a pelo nome. E, em terceiro, às outras mulheres, também com muita bondade, deixando que d’Ele se aproximassem e até osculassem seus pés (cf. Mt 28, 9-10).

O amor puro por Jesus acaba compensando as imperfeições

A esta altura nos perguntamos por que essa diferença de atitude de Jesus, para com elas, de um lado, e para com os Após­tolos, de outro. O trato do Senhor para os Apóstolos é bem des­crito por São Marcos: “Finalmente apareceu aos Onze, quando estavam à mesa, e censurou-lhes a sua incredulidade e dureza de coração, por não terem dado crédito aos que o viram res­suscitado” (Mc 16, 14). Sua primeira palavra, portanto, segundo o Evangelista, é de censura para com eles. Que diferença! Por quê?

Não teria entendido nada dessa sublime lição quem afir­masse que Jesus quis dar preeminência à mulher sobre o ho­mem. Não é este o caso. Na verdade, tais episódios deixam transparecer claramente a essência do Evangelho, que Nosso Senhor havia resumido nos seguintes termos: “Dou-vos um no­vo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13, 34). É no perfeito amor a Deus e ao próximo que está a síntese do Evangelho.

Era tão grande o amor que aquelas mulheres tinham por Jesus que até seu instinto de conservação havia se definhado, no que significasse ir ao encontro d’Ele. Carregavam imperfeições, mas o amor pelo Senhor era puro. E quando esse amor é assim acrisolado, Cristo mesmo toma sobre si a tarefa de aperfeiçoar as ações que a natureza humana decaída venha a realizar.

Com essa afirmação, não é nossa intenção fazer uma apo­logia da imprudência enquanto tal, mas ressaltar como as atitu­des irrefletidas das Santas Mulheres do Evangelho eram com­pensadas pelo puro amor de Deus — a caridade.

É por demais exíguo o espaço destas páginas para discorrer sobre a falsa e a verdadeira prudência. A primeira entrincheira a alma no mero raciocínio e abafa o fervor. Mas nesse episódio do Evangelho vemos premiado o amor, mesmo quando tingido de imperfeição. São Paulo se refere a essa supremacia do amor, ao afirmar de nada valerem o dom das línguas, o de profecia, o de ciência, e outros, sem a caridade (cf. I Cor 13, 1-3).

O fervor é um tesouro

São Tomás transcreve este pensamento de Aristóteles: “Os que são movidos pelo instinto divino são mais audazes…”.2

É oportuno lembrar que também o coração do jovem cos­tuma mover-se pelo amor, sobretudo quando arrebatado pelo fervor primaveril. Tal como as Santas Mulheres, muitas vezes não se guia pela prudência, nem pela razão, mas sim pela au­dácia. Se se trata de um amor desinteressado e puro, Deus o premeia.

Essa chama é um tesouro, que precisa ser tratada com carinho. Cabe aos pais e aos educadores não extin­gui-la, mas direcioná-la para as sendas do bem e da virtude.

Terminemos es­tas reflexões com uma explicitação de São Pedro Julião Eymard, fundador da Obra da Adoração perpétua ao Santíssimo Sacramen­to e da Congregação Sacramentina:

“A princípio foi pela Cruz que Nosso Senhor elevou até Si as almas. Mas pensava também no seu tro­no eucarístico.

“Elevou-as pela atração, pela força de seu amor. Mas este amor só é verdadeiramente poderoso quando se torna uma pai­xão sobrenatural.

“Todo pensamento, toda virtude que não se termina por uma paixão, é apenas infantilidade.

“[…] O amor só triunfa quando se torna paixão, porque esta é a afeição devotada. Do contrário, o amor continua mes­clado de amor-próprio, não é capaz senão de atos isolados de devotamento, age para desobrigar-se.

“[…] As paixões na ordem cristã seguem a mesma marcha que na ordem natural.

“A paixão concentra o homem. Falo das paixões humanas, independentemente do vício e do mal.

“Considerai aquele que ambiciona chegar a uma situação honrada e elevada. Não trabalha senão para atingir esse objeti­vo: dez, quinze anos, não importa. — É belo.

“A paixão dá unidade: tudo servirá para os seus desígnios, para auxiliá-la a realizar seu projeto; tudo, para ela, é apenas o meio de chegar ao fim.

“[…] Todo homem que não tem uma paixão, ainda não co­meçou a viver.

“Na realidade, todos têm. Pode ser má, pode tornar-se um crime contínuo, mas pode também ser digna e benfazeja. Isso a todos acontece. Não se marcha sem ter um objetivo, desde que se tenha senso.

“Na ordem sobrenatural, é também necessário ter uma paixão; sem isso, nada fareis.

“Amai apaixonadamente determinado mistério, determi­nada virtude; do contrário, permanecereis como um operário em seu trabalho, jamais vos tornareis um herói.

“[…] Dizem: É exagero! Mas o amor não é senão exagero.

“Exagerar é ultrapassar a lei; pois bem! O amor deve ser exagerado”.3

 

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1) TERTULIANO. De idolatria, c.XIV: ML 1, 683.

2) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q.45, a.3.

3) SÃO PEDRO JULIÃO EYMARD. A Santíssima Eucaristia. A Presença Real. Tra­dução pela nova edição crítica francesa. Petrópolis: Vozes, 1955, v.I, p.198-199; 203.