Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

15 de Dezembro

III DOMINGO DO ADVENTO – ANO A

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA cf. Filip 4, 4.5
Alegrai-vos sempre no Senhor.
Exultai de alegria: o Senhor está perto.

Não se diz o Glória.

ORAÇÃO COLECTA
Deus de infinita bondade, que vedes o vosso povo
esperar fielmente o Natal do Senhor,
fazei-nos chegar às solenidades da nossa salvação
e celebrá-las com renovada alegria.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Is 35, 1-6a.10
«Deus vem salvar-nos»

Leitura do Livro de Isaías
Alegrem-se o deserto e o descampado, rejubile e floresça a terra árida, cubra-se de flores como o narciso, exulte com brados de alegria. Ser-lhe-á dada a glória do Líbano, o esplendor do Carmelo e do Saron. Verão a glória do Senhor, o esplendor do nosso Deus. Fortalecei as mãos fatigadas e robustecei os joelhos vacilantes. Dizei aos corações perturbados: «Tende coragem, não temais: Aí está o vosso Deus, vem para fazer justiça e dar a recompensa. Ele próprio vem salvar-vos». Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria. Voltarão os que o Senhor libertar, hão-de chegar a Sião com brados de alegria, com eterna felicidade a iluminar-lhes o rosto. Reinarão o prazer e o contentamento e acabarão a dor e os gemidos.
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL 145 (146), 7.8-9a.9bc-10 (R. cf. Is 35, 4)
Refrão: Vinde, Senhor, e salvai-nos. Repete-se
Ou: Vinde salvar-nos, Senhor. Repete-se

O Senhor faz justiça aos oprimidos,
dá pão aos que têm fome
e a liberdade aos cativos. Refrão

O Senhor ilumina os olhos dos cegos,
o Senhor levanta os abatidos,
o Senhor ama os justos. Refrão

O Senhor protege os peregrinos,
ampara o órfão e a viúva
e entrava o caminho aos pecadores. Refrão

O Senhor reina eternamente.
o teu Deus, ó Sião,
é rei por todas as gerações. Refrão

LEITURA II Tg 5, 7-10
«Fortalecei os vossos corações,
porque a vinda do Senhor está próxima»

Leitura da Epístola de São Tiago
Irmãos: Esperai com paciência a vinda do Senhor. Vede como o agricultor espera pacientemente o precioso fruto da terra, aguardando a chuva temporã e a tardia. Sede pacientes, vós também, e fortalecei os vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima. Não vos queixeis uns dos outros, a fim de não serdes julgados. Eis que o Juiz está à porta. Irmãos, tomai como modelos de sofrimento e de paciência os profetas, que falaram em nome do Senhor.
Palavra do Senhor.

ALELUIA Is 61, 1 (cf. Lc 4, 18)
Refrão: Aleluia. Repete-se
O Espírito do Senhor está sobre mim:
enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres. Refrão

EVANGELHO Mt 11, 2-11
«És tu Aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. Mateus
Naquele tempo, João Baptista ouviu falar, na prisão, das obras de Cristo e mandou-Lhe dizer pelos discípulos: «És Tu Aquele que há-de vir, ou devemos esperar outro?». Jesus respondeu-lhes: «Ide contar a João o que vedes e ouvis: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa Nova é anunciada aos pobres. E bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim motivo de escândalo». Quando os mensageiros partiram, Jesus começou a falar de João às multidões: «Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? Então que fostes ver? Um homem vestido com roupas delicadas? Mas aqueles que usam roupas delicadas encontram-se nos palácios dos reis. Que fostes ver então? Um profeta? Sim – Eu vo-lo digo – e mais que profeta. É dele que está escrito: ‘Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, para te preparar o caminho’. Em verdade vos digo: Entre os filhos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista. Mas o menor no reino dos Céus é maior do que ele».
Palavra da salvação.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Irmãs e irmãos:
Cada novo ano litúrgico é um ano de graça.
Cheios de alegria pela vinda gloriosa do Senhor,
imploremos, com toda a confiança,
dizendo (ou: cantando):
R. Vinde, Senhor, e salvai-nos.
Ou: Ouvi-nos, Senhor.
Ou: Vinde, Senhor Jesus.
1. Para que na Igreja inteira, nesta Diocese e nas suas paróquias,
se anuncie a Boa Nova a toda a gente,
e o Espírito faça florir cada deserto,
oremos.
2. Para que nos lares e instituições de todo o mundo,
haja trabalho, liberdade, pão e paz,
e a angústia não perturbe os corações,
oremos.
3. Para que os cegos, os leprosos e os doentes,
e os que vivem sem alegria e sem coragem,
ponham toda a sua esperança no Senhor,
oremos.
4. Para que no meio da violência quotidiana,
o Espírito faça desabrochar flores de paz
e fortaleça todos aqueles que a perderam,
oremos.
5. Para que nesta Paróquia e nos seus vários grupos,
cada um de nós, à maneira de Jesus, sirva os mais pobres
e vá em socorro dos maltratados e dos que sofrem,
oremos.
Senhor, nosso Deus,
que nos prometeis a felicidade sem fim,
concedei-nos um coração pobre
e fazei que a próxima vinda do vosso Filho
transforme o mundo com a sua paz.
Ele que vive e reina por todos os séculos dos séculos

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Fazei, Senhor, que a oblação deste sacrifício
se renove sempre na vossa Igreja,
de modo que a celebração do mistério por Vós instituído
realize em nós plenamente a obra da salvação.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Prefácio do Advento I

ANTÍFONA DA COMUNHÃO cf. Is 35, 4
Dizei aos desanimados: Tende coragem e não temais.
Eis o nosso Deus que vem salvar-nos.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Concedei, Senhor, pela vossa bondade,
que este divino sacramento nos livre do pecado
e nos prepare para as festas que se aproximam.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

O caminho para a felicidade

A procura da felicidade norteia a existência de toda criatura humana, por disposição divina. A Liturgia do Domingo “Gaudete” indica o verdadeiro caminho para encontrá-la e oferece um exemplo seguro a seguir.

I – Uma lufada de ânimo para chegar até o fim

Dizia o célebre teórico de guerra Karl von Clausewitz1 que a melhor forma de vencer um adversário é fazê­-lo perder o ânimo de combater, pois a quebra de sua força moral é a causa principal de seu aniquilamento físico. Assim, quando empreendemos uma ação com desânimo, não atingimos a meta. Pelo contrário, quem tem uma confiança só­lida, baseada numa fé vigorosa, desenvolve energias e entusias­mo para perseverar até o fim com galhardia. Se, por acaso, na realização de um árduo esforço, sentimos faltar o fôlego, basta uma lufada de esperança para redobrar as boas disposições e garantir o sucesso.

A Igreja, no 3º Domingo do Advento ― chamado Domin­go Gaudete ―, tem em vista este propósito: fazer uma pausa nas admoestações do período de penitência e amenizar a tristeza causada pela lembrança dos pecados cometidos, para conside­rar com alegria a perspectiva do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Em breve seremos libertados de nossa miséria, se soubermos ouvir os seus ensinamentos e nos abrirmos às graças que Ele nos traz, e poderemos seguir adiante com entusiasmo, confortados pela certeza de que nos será dada a salvação. Esse verdadeiro gáudio pela próxima vinda do Redentor é a nota tô­nica desta Missa, simbolizada pela cor rósea dos paramentos e expressa nos textos litúrgicos, sem, todavia, excluir totalmente o caráter penitencial. Depois do pecado original, a cruz tornou-se indispensável para obtermos a glória no cumprimento da finali­dade para a qual fomos criados.

A sede de felicidade da criatura humana

Se voltarmos nossa atenção para cada criatura humana, encontraremos em todas elas o desejo de alcançar a felicidade. Quando Adão, belíssimo boneco de barro, saiu das mãos divinas e lhe foi infundido um sopro de vida, já possuía ele essa aspira­ção que era atendida com largueza por sua participação na pró­pria natureza de Deus, a Felicidade Absoluta. Tão elevada era a figura deste varão que o Senhor ia visitá-lo no Paraíso, à hora da brisa da tarde (cf. Gn 3, 8). Eram felizes nossos primeiros pais! Porém, expulsos daquele local de delícias em consequência do pecado, Adão e Eva viram-se obrigados a habitar este mundo repleto de dificuldades, sem perder, entretanto, aquele anseio de felicidade. Ardiam de desejo de retornar ao estado de ou­trora, de gozar das maravilhas que tinham conhecido no Éden. Mais tarde, constituído o povo de Israel, especialmente amado pela Providência, esperava ele o advento de um Salvador que o tirasse dessa desditosa situação.

Com o transcurso dos séculos e dos milênios, os hebreus ― sempre numa tremenda instabilidade e submetidos à escra­vidão por diversas vezes ― foram alimentando a ideia de que o Messias seria um homem aquinhoado por dons meramente na­turais, portador de soluções humanas e políticas para todos os problemas. Sua grande incógnita era acerca da vinda deste en­viado que traria a felicidade, a qual já não concebiam como uma condição semelhante à do Paraíso, mas segundo padrões terre­nos. Algo parecido ocorre conosco, pois sabemos que o centro de nossa vida e a fonte da alegria é Nosso Senhor Jesus Cristo; contudo, as ilusões do mundo apontam para uma pseudofelici­dade baseada em boa carreira, na aquisição de um valioso pa­trimônio, numa posição de prestígio, num vantajoso casamento ou, talvez, em negócios lucrativos. Numa palavra, a felicidade para os que assim pensam está na matéria, e não em Deus. Eis aí o lamentável equívoco.

Para desfazer esta falácia, a Liturgia do Domingo da Ale­gria nos indica o verdadeiro caminho da felicidade e oferece um exemplo seguro a seguir.

II – A alegria de cumprir a própria missão

O episódio narrado na sequência evangélica do 3º Domingo do Advento dá-se em circuns­tâncias muito especiais. Nos­so Senhor estava adentrando o segundo ano de sua vida pú­blica e já realizara inúmeros milagres, encontrando-Se de regresso da pequenina cidade de Naim, onde por sua ini­ciativa ressuscitara o filho de uma viúva (cf. Lc 7, 11-15). Ao passar pelas estradas tor­tuosas da região entrou no vilarejo e deparou-Se com alguns homens transportan­do um morto. Mandou parar o cortejo e restituiu a vida ao defunto, entregando-o em se­guida à sua mãe. Este fato te­ve enorme repercussão que, somada à de muitos outros, moveu Israel inteiro a falar do grande Profeta que havia surgi­do.

O Precursor pagou sua fidelidade à verdade com a prisão

Naquele tempo, 2a João estava na prisão.

João Batista, varão íntegro que recentemente abalara Israel com sua pregação e exemplo de vida, havia sido preso. Em sua retidão, o Precursor dissera algumas verdades ao rei Herodes Antipas ― que, escravo das próprias paixões, era do­minado por uma concubina, a esposa de seu irmão Filipe ― e, por isso, o tirano resolvera prendê-lo. Pungente contraste: as paixões desregradas e soltas de Herodes dão-lhe uma liberdade de ação ilegítima, e a honestidade de João leva-o à prisão.

Na perspectiva do Domingo Gau­dete surge uma pergunta: qual dos dois goza de autêntica alegria, Antipas, o adúltero, ou São João, encarcerado por sua fidelidade? Devemos nos compenetrar de que Deus criou o homem para um destino eterno, no gáudio ou no sofrimento. Portan­to, a verdadeira alegria é a que nos conduz à felici­dade do Céu, e não aque­la que nos acarreta a des­graça sem fim. No entanto, a humanidade bem gostaria de criar uma terceira via: um limbo onde não houves­se sofrimento nem possibili­dade de visão beatífica, mas apenas uma vida natural, puramente sensitiva, pela eternidade inteira.

Lembremo-nos da importante máxima: “non datur ter­tius ― não há uma terceira posição”. Esta foi inventada por satanás ao cair do Céu e é feita de fumaça, é ilusória, pois na realidade não existe: ou violamos a moral e damos vazão às nossas más inclinações, reproduzindo em nós a pseudoalegria de Herodes Antipas, ou somos íntegros, a exemplo de João, e também nós estamos a todo instante na “prisão”, ou seja, subjugando e acorrentando nossas tendências e paixões de­sordenadas.

Preocupação exclusiva com a glória de Cristo

2b Quando ouviu falar das obras de Cristo, enviou-Lhe alguns discípulos, 3 para Lhe perguntarem: “És Tu, Aquele que há de vir ou devemos esperar um outro?”

Que acontecimentos teriam levado o Precursor, já no cár­cere, a mandar seus discípulos fazerem esta pergunta ao Divino Mestre? Antes de aventar qualquer hipótese, tenhamos presen­te que ele é um Santo, considerado por Nosso Senhor como o maior homem nascido até aquele momento. Logo, não se tra­ta de uma incerteza sobre a identidade de Cristo, que já fora apresentado por ele em termos claríssimos: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29); “Depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, ante o qual não sou digno de me prostrar para desatar-Lhe a correia do calçado. Eu vos batizei com água; Ele, porém, vos batizará no Espírito Santo” (Mc 1, 7-8). João Batista sabia perfeitamente quem era Jesus, e não precisava de qualquer explicação.

Então, por que os envia com a incumbência de indagar a respeito do caráter messiânico de Nosso Senhor? Fiel à sua missão de apontar o Filho de Deus, arde de desejo que todos reconheçam o Salvador que está entre eles e quer transmitir aos outros a sua felicidade de tê-Lo visto e ser seu contemporâneo.

São João Batista encontrava-se preso na torre de Maque­ronte ― inacessível fortaleza de Herodes, localizada nas pro­ximidades do Mar Morto, a 1158 m de altitude sobre o nível deste2 ―, sem qualquer possibilidade de atuação. Em dado momento, chegaram-lhe aos ouvidos, por meio de seus segui­dores, as repercussões dos grandes e numerosos milagres ope­rados por Jesus. Esta pareceria ser a hora propícia para man­dar um recado Àquele que é o Criador do universo, o Onipo­tente: “Senhor, estou preso, libertai-me!ˮ. Por um simples ato de vontade de Deus, Nosso Senhor, as correntes se desfariam, as algemas se abririam e ele sairia da prisão. Mas o Precursor não pensava em si ou nos infortúnios padecidos naquele esta­do e nem sequer lhe ocorreu a ideia de pedir um alívio. Para ele era indiferente morrer ou viver: sua preocupação voltava­-se exclusivamente para a glória do Redentor.

Conceito messiânico desviado

Por isso, João Batista se empenhava em criar condições para que Nosso Senhor Se manifestasse cada vez mais. Ele já estava extenuado pelas vãs tentativas de convencer seus discí­pulos, que insistiam numa concepção política a respeito do Messias. Anelavam um rei humano que ascendesse ao trono de Israel e desse força ao seu povo. Conforme iam acompanhando o ministério de Nosso Senhor Jesus Cristo tomavam-se de inse­gurança, porque Ele era um Homem capaz de fazer milagres es­trondosos, embora não Se pronunciasse em matéria de política e pregava o advento de um misterioso Reino de Deus que não pa­recia ser deste mundo. Instigados pela inveja, custava-lhes acre­ditar que Aquele fosse o Cristo, por não corresponder às suas expectativas e ao modelo por eles idealizado. Considerações co­mo estas pululavam em suas mentes: “É nascido em Nazaré…ˮ; “O pai d’Ele era carpinteiro!ˮ; “Mas será, de fato, o Messias?ˮ (cf. Mt 13, 54-57). Aliás, algo análogo se passava em relação ao próprio Precursor, o qual não havia preenchido as esperanças nele depositadas quando começaram a segui-lo.

Esta cegueira, sem dúvida, deixava São João indignado, até que percebeu restar apenas uma saída para quebrar aquela frieza: que eles tivessem contato direto com Jesus, o único que poderia transformá-los a fim de compreenderem quem Ele era. Tudo o que estava ao seu alcance havia feito por eles, não pou­pando esforços para comunicar-lhes a extraordinária alegria na qual se sentia imerso por exercer sua missão de Precursor. En­viou-os, pois, confiante em que Nosso Senhor fizesse por eles o que pessoalmente ele não conseguira, e de que a conversa com o Mestre fosse ocasião para receberem uma graça que agisse no fundo de suas almas e viessem a se converter. Essa persistência em querer mais para os outros do que para si e em procurar tor­ná-los felizes, de uma felicidade sobrenatural, era característica do Precursor.

O Evangelista frisa: “Quando ouviu falar das obras de Cristo”, indicando que São João discernira ser a hora apropria­da para enviá-los, dada a forte impressão causada pelos mila­gres de Jesus. É no teor da pergunta que fica consignado o fato de ansiarem por um Messias segundo outros padrões: “És Tu, Aquele que há de vir ou devemos esperar um outro?”.

Em contraste com a despretensão de seu mestre, que vi­via completamente esquecido de si e preocupado com eles, os discípulos de São João não pediram a Nosso Senhor por aquele que os formara. Tinham-lhe tão pouco amor que não se interes­saram em tirá-lo do cárcere e livrá-lo daquela penosa situação. Esses somos nós, sempre que nos fechamos e só atendemos às solicitações do egoísmo e às nossas vantagens pessoais, mais de­dicados a nós mesmos do que a Deus e ao próximo. Em conse­quência, a felicidade foge de nós e cresce o egocentrismo.

Os milagres provavam que Ele era o Messias

4 Jesus respondeu-lhes: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: 5 os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados”.

A resposta de Nosso Senhor, cheia de sabedoria, não foi: “Eu sou o Messias”. Provavelmente, dado o estado de espírito de quem o interrogava, uma declaração nesses termos não seria bem recebida. Sua afirmação oferecia elementos para que eles compreendes­sem a verdade por si, como se dissesse: “Ana­lisem o que acontece, vejam as minhas obras e as suas consequências, e em função disso tirem conclusões. Quem vê todos os prodígios que Eu faço e não acredita que sou o Messias, não tem inteligência”. E recorre aos vaticínios de Isaí­as, bastante conhecidos por todos os israelitas (cf. Is 26, 19; 29, 18; 35, 5; 42, 7; 62, 1), como uma confirmação. De fato, qualquer cego que gritasse à distância pedindo a cura saía de sua presença enxergan­do e dando graças a Deus. Havia também devolvido a saúde a inú­meros paralíticos, como o da piscina de Betesda (cf. Jo 5, 1-9) ou aquele que fora descido pelo teto (cf. Mc 2, 3-12). Bastava tocar nos leprosos que as chagas desapareciam, ou nos surdos e mudos, que eram sanados. Ele acabara de ressuscitar um morto com gran­de estrépito no país, como acima foi recordado, e estava levando a Boa-nova a todos. Por meio dela, muitos adquiriam ― é este o maior milagre! ― a noção de que eram deficientes, não conse­guiam caminhar por si nas vias da virtude, e tomavam consciência de necessitarem do auxílio de Deus. Estes eram evangelizados e acolhiam a doutrina com entusiasmo.

Entretanto, se escandalizaram…

6 “Feliz aquele que não se escandaliza por causa de Mim!”

Por fim, Nosso Senhor completa a resposta com estas pa­lavras, sinal claro de que os discípulos de João Batista não acei­taram bem a mensagem e estavam com inveja da graça fraterna. Ao invés de se alegrarem por comprovar que outro fora favo­recido pela benevolência de Deus, numa manifestação patente de seu poder, veem na Pessoa de Jesus uma sombra projetada sobre si mesmos.

Tendo concluído que o objetivo de Nosso Senhor não era a restauração do reino de Israel, sentiram-se frustrados, pois imagi­navam que, pelo fato de haverem abandonado tudo para seguir o Precursor, seriam os primeiros junto ao Messias. Percebem agora que estão em segundo plano e, para se justificarem, têm de en­contrar n’Ele defeitos que demonstrem, de acordo com seus con­ceitos, não ser o Enviado: “Ele só fala do Pai, do Reino Eterno, da vida após a morte; vem pregando uma ressurreição…ˮ. Em suma, escandalizaram-se, a exemplo dos fariseus, que decerto ali esta­vam e se tinham como os primeiros, muito acima dos discípulos de São João. Vaidosos de seu conhecimento da Lei e da perfeita observância das regras, viam os milagres de Jesus e diziam que agia pelo poder dos demônios (cf. Mt 9, 34).

Mais ainda, os próprios Apóstolos receavam que Ele en­frentasse as autoridades do establishment israelita, com receio de perder a oportunidade de seguir uma grande carreira baseada em seus dotes excepcionais, da qual eles tirariam o consequente pro­veito. Também para os Doze aquele Messias não correspondia ao que pretendiam e se escandalizavam. Por isso Nosso Senhor afir­ma: “Feliz aquele que não se escandaliza por causa de Mim!”, ou seja, “Feliz aquele que, apesar de o mundo defender que a alegria se obtém de outra forma, sabe que ela está na cruzˮ.

Os lábios divinos elogiam o Precursor

7 Os discípulos de João partiram, e Jesus começou a falar às multidões sobre João: “O que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? 8 O que fostes ver? Um homem vestido com roupas finas? Mas os que vestem roupas finas estão nos palácios dos reis. 9 Então, o que fostes ver? Um profeta? Sim, Eu vos afirmo, e alguém que é mais do que profeta. 10 É dele que está escrito: ‘Eis que envio o meu mensageiro à tua frente; ele vai preparar o teu caminho diante de Ti’”.

Em seguida partiram os discípulos de João, sem que o Evangelho registre se reconheceram Jesus como Messias ou não. Contudo, as palavras de Nosso Senhor são uma proclama­ção evidente de sua identidade, pois Ele evoca as profecias e prova que as está cumprindo.

Após a saída deles, Jesus passa a falar sobre aquele que es­tá encarcerado, elogiando-o por não ser um caniço agitado pelo vento ― uma pessoa inconstante ―, mas um homem firme, ina­balável e íntegro, semelhante a uma torre ou uma rocha. Em sua austeridade recusara-se a usar roupas finas, como faziam os que se embrenhavam pelas vias políticas sem se importarem com o aspecto religioso, preocupados antes de tudo em traçar uma car­reira social brilhante junto aos poderosos deste mundo.

Nosso Senhor quer ainda mostrar que a grandeza de João vai muito além de sua condição de profeta. Este, como é sabi­do, está incumbido de anunciar, ensinar e apontar, de acordo com a vontade de Deus, os caminhos do dever, quase sempre contrários às vias libertinas propostas pelo mundo. Ora, por que ultrapassou o Precursor o marco do profetismo? Por ter sido também chamado ― além de proclamar a verdade ― a preparar as veredas do Homem-Deus. É o que comenta São João Cri­sóstomo: “Em que, pois, é maior? No fato de estar mais próxi­mo d’Aquele que tinha vindo. […] Assim como numa comitiva régia os que se encontram mais próximos à carruagem real são os mais ilustres entre todos, assim João, que aparece momentos antes do advento do Senhor. Notai como por causa disso [Jesus] declarou a excelência do Precursor”.3

Com profundidade e beleza, o Cardeal de La Luzerne exalta a figura de São João Batista, ressaltando seu papel ímpar na História: “Ele encerra a sucessão dos profetas e abre a mis­são dos Apóstolos. Ele pertence ao mesmo tempo à Antiga Lei e à Nova, e se eleva entre uma e outra como uma coluna majesto­sa, para marcar o limite que as separa. Profeta, apóstolo, doutor, solitário, virgem, mártir, ele é mais que tudo isso, porque é tudo isso ao mesmo tempo. Ele enfeixa todos os atributos da santida­de e, ao juntar em si mesmo tudo aquilo que constitui as diferen­tes classes de Santos, forma entre eles uma classe particular”.4

O valor do Reino dos Céus

11 “Em verdade vos digo, de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista. No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele”.

À primeira vista este versículo parece incompreensível, pois como pode o maior dentre os já nascidos ser o menor quan­do comparado aos habitantes do Reino dos Céus? Aqui Nosso Senhor Se refere a duas etapas e, portanto, a dois diferentes nas­cimentos. São João Batista recebeu a vida da graça no claustro materno de Santa Isabel, pelos efeitos da voz de Nossa Senhora, e nasceu sem pecado original. Nessa perspectiva, é o maior, uma vez que nenhum outro teve o privilégio de ser batizado dessa su­blime maneira. Porém, para entrar no Céu faz-se necessário nas­cer para a eternidade, e tão mais importante é o Reino Eterno que o mais elevado dos homens deste mundo torna-se pequeno perto dos justos que já gozam da visão beatífica. É o que defen­de São Jerônimo: “todo santo que já está com Deus é maior do que o que ainda se encontra em batalha. Pois uma coisa é pos­suir a coroa da vitória e outra estar ainda lutando na linha de combate”.5

Apesar da diferença entre o estado dos Bem-aventurados na glória e dos homens justos que ainda integram as fileiras da Igreja militante, todos os que se encontram junto a Deus obti­veram suas coroas seguindo a mesma via trilhada por São João Batista, que o fez grande neste mundo e maior ainda no outro. A sua glória deve-se à fidelidade a toda prova aos desígnios divi­nos pela aceitação do sofrimento, e isso o tornou digno do maior elogio feito por Nosso Senhor a alguém em todo o Evangelho.

III – O caminho da verdadeira felicidade

A Liturgia deste domingo nos con­vida à alegria, mostrando o ru­mo para alcançá-la. O contraste entre os protagonistas da cena de hoje é notório: enquanto São João está no cárcere e se submete a este pade­cimento com plena resignação, animado pela felicidade de ser íntegro e cumprir seu chamado, os discípulos veem-se privados des­sa felicidade pela inveja que os consome. Seme­lhante amargura acom­panha Herodes Antipas, escravizado por suas pai­xões, como também os fariseus que vivem à procura de louvor e in­censo, movidos pela sede de glória terrena. Os próprios Apóstolos tampouco estão inteiramente felizes nesse período da vida pública do Divino Mestre, pois aguardavam um Messias diferente do que têm diante de si.

A alegria, então, onde está? Na loucura da Cruz. Nosso Senhor Jesus Cristo não podia estar triste nem abraçar um ca­minho de depressão, e, todavia, escolheu o do Calvário para nos dar o exemplo e indicar que a conquista da felicidade comporta a adversidade e a dor. Lembremo-nos de seu ensinamento: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-Me” (Mt 16, 24). A ideia de que a felicidade exclui o so­frimento é infundada, pois uma vez que somos tendentes ao mal pela queda de nossos primeiros pais, o sofrimento tornou-se um elemento indispensável para a nossa santificação.

Com efeito, o problema do sofrimento não está tanto na­quilo que o ocasiona, mas no modo como é suportado. Ele existe em todas as situações da vida e pede de nossa parte o ânimo que esta Liturgia apresenta, do qual Maria Santíssima é modelo. Ela aceitou todos os padecimentos que se abateriam sobre seu Divi­no Filho e Se dispôs a dar seu contributo ao sacrifício redentor, pois queria a salvação de todos.

Nossa finalidade é pertencer a Jesus

Feito para pertencer a Nosso Senhor Jesus Cristo, o ser humano se realiza na medida em que assume com seriedade sua condição de batizado, membro da Santa Igreja Católica Apos­tólica Romana, dando passos adiante na prática da virtude e na busca da santidade. Quanto mais avançamos nessa via, maior é a alegria que nos invade, assim como o desejo de progredir ainda mais.

Consideremos de frente nosso destino eterno enquanto es­peramos a vinda do Salvador. Na noite de Natal Ele nascerá de novo, misticamente, e se aplicarmos em nossas vidas a lição des­ta Liturgia nascerá também em nossos corações, onde encontra­rá uma digna pousada para Se recolher.

 

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1) Cf. VON CLAUSEWITZ, Karl. Grundgedanken über Krieg und Kriegführung. Leip­zig: Insel, 1915, p.47-48.

2) Cf. SCHUSTER, Ignacio; HOLZAMMER, Juan B. Historia Bíblica. Nuevo Testa­mento. Barcelona: Litúrgica Española, 1935, t.II, p.157-158.

3) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía XXXVII, n.2. In: Obras. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo (1-45). 2.ed. Madrid: BAC, 2007, v.I, p.734.

4) LA LUZERNE, César-Guillaume de. Explication des Évangiles des Dimanches. 9.ed. Paris: Mequignon Junior, 1847, t.I, p.42.

5) SÃO JERÔNIMO. Comentario a Mateo. L.II (11,2-16,12), c.11, n.28. In: Obras Completas. Comentario a Mateo y otros escritos. Madrid: BAC, 2002, v.II, p.131.