Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

31 de Maio

DOMINGO DE PENTECOSTES – ANO A

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA Sab 1, 7
O Espírito do Senhor encheu a terra inteira;
Ele, que abrange o universo, conhece toda a palavra. Aleluia.

Ou Rom 5, 5; 8, 11
O amor de Deus foi derramado em nossos corações
pelo Espírito Santo que habita em nós. Aleluia.
Diz-se o Glória.

ORAÇÃO COLECTA
Deus do universo,
que no mistério do Pentecostes santificais a Igreja
dispersa entre todos os povos e nações,
derramai sobre a terra os dons do Espírito Santo,
de modo que também hoje se renovem nos corações dos fiéis
os prodígios realizados nos primórdios da pregação do Evangelho.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Actos 2, 1-11
«Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar»

De harmonia com a promessa de Jesus, o Espírito Santo, manifestando a Sua presença sob os sinais sensíveis do vento e do fogo, desce sobre os Apóstolos, transforma-os totalmente e consagra-os para a missão, que Jesus lhes confiara.
Com este Baptismo no Espírito Santo, nascia assim, oficialmente, a Igreja. Nesse dia, homens separados por línguas, culturas, raças e nações, começavam a reunir-se no grande Povo de Deus num movimento que só terminará com a Vinda final de Jesus.

Leitura dos Actos dos Apóstolos
Quando chegou o dia de Pentecostes, os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo lugar. Subitamente, fez-se ouvir, vindo do Céu, um rumor semelhante a forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam. Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem. Residiam em Jerusalém judeus piedosos, procedentes de todas as nações que há debaixo do céu. Ao ouvir aquele ruído, a multidão reuniu-se e ficou muito admirada, pois cada qual os ouvia falar na sua própria língua. Atónitos e maravilhados, diziam: «Não são todos galileus os que estão a falar? Então, como é que os ouve cada um de nós falar na sua própria língua? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia, vizinha de Cirene, colonos de Roma, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los proclamar nas nossas línguas as maravilhas de Deus».
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 103 (104), 1ab e 24ac.29bc-30.31.34 (R. 30)
Refrão: Enviai, Senhor, o vosso Espírito
e renovai a face da terra. Repete-se
Ou: Mandai, Senhor o vosso Espírito,
e renovai a terra. Repete-se
Ou: Aleluia. Repete-se

Bendiz, ó minha alma, o Senhor.
Senhor, meu Deus, como sois grande!
Como são grandes, Senhor, as vossas obras!
A terra está cheia das vossas criaturas. Refrão

Se lhes tirais o alento, morrem
e voltam ao pó donde vieram.
Se mandais o vosso espírito, retomam a vida
e renovais a face da terra. Refrão

Glória a Deus para sempre!
Rejubile o Senhor nas suas obras.
Grato Lhe seja o meu canto
e eu terei alegria no Senhor. Refrão

LEITURA II 1 Cor 12, 3b-7.12-13
«Todos nós fomos baptizados num só Espírito,
para formarmos um só Corpo»

O Espírito Santo é «a alma da Igreja». É Ele que dá aos Apóstolos a perfeita compreensão do Mistério Pascal e os leva a anunciar a Ressurreição a todos os homens, sem excepção. É por Ele que nós acreditamos que Jesus é Deus e essa nossa fé se mantém. É Ele que enriquece o Corpo Místico com dons e carismas, numa grande variedade de vocações, ministérios e actividades. É Ele que, ao mesmo tempo que nos distingue, dando-nos uma personalidade própria dentro da Igreja, nos põe em comunhão uns com os outros, de tal modo que a diversidade não destrói a unidade.

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios
Irmãos: Ninguém pode dizer «Jesus é o Senhor» a não ser pela acção do Espírito Santo. De facto, há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diversas operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum. Assim como o corpo é um só e tem muitos membros e todos os membros, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim também sucede com Cristo¬¬. Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos baptizados num só Espírito, para constituirmos um só Corpo. E a todos nos foi dado a beber um único Espírito.
Palavra do Senhor.

SEQUÊNCIA
Vinde, ó santo Espírito,
vinde, Amor ardente,
acendei na terra
vossa luz fulgente.

Vinde, Pai dos pobres:
na dor e aflições,
vinde encher de gozo
nossos corações.

Benfeitor supremo
em todo o momento,
habitando em nós
sois o nosso alento.

Descanso na luta
e na paz encanto,
no calor sois brisa,
conforto no pranto.

Luz de santidade,
que no Céu ardeis,
abrasai as almas
dos vossos fiéis.

Sem a vossa força
e favor clemente,
nada há no homem
que seja inocente.

Lavai nossas manchas,
a aridez regai,
sarai os enfermos
e a todos salvai.

Abrandai durezas
para os caminhantes,
animai os tristes,
guiai os errantes.

Vossos sete dons
concedei à alma
do que em Vós confia:

Virtude na vida,
amparo na morte,
no Céu alegria.

ALELUIA
Refrão: Aleluia. Repete-se
Vinde, Espírito Santo,
enchei os corações dos vossos fiéis
e acendei neles o fogo do vosso amor. Refrão

EVANGELHO Jo 20, 19-23
«Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós:
Recebei o Espírito Santo»

Com a Páscoa, inicia-se a nova Criação. E, como na primeira, também agora o Espírito Santo está presente, a insuflar aos homens, mortos pelo pecado, a vida nova do Ressuscitado. Jorrando do Corpo glorificado de Cristo, em que se mantêm as cicatrizes da Paixão, o Sopro purificador e recriador do mesmo Deus, comunica-se aos Apóstolos. Apodera-se deles, a fim de que possam prolongar a obra da nova Criação, e assim a humanidade, reconciliada com Deus, conserve sempre a paz alcançada em Jesus Cristo.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».
Palavra da salvação.

Diz-se o Credo.

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Concedei-nos, Senhor nosso Deus,
que o Espírito Santo, segundo a promessa do vosso Filho,
nos revele plenamente o mistério deste sacrifício
e nos faça conhecer toda a verdade.
Por Nosso Senhor .

PREFÁCIO O mistério do Pentecostes
V. O Senhor esteja convosco.
R. Ele está no meio de nós.
V. Corações ao alto.
R. O nosso coração está em Deus.
V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.
R. É nosso dever, é nossa salvação.
Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente,
é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação
dar-Vos graças, sempre e em toda a parte.
Hoje manifestastes a plenitude do mistério pascal
e sobre os filhos de adopção,
unidos em comunhão admirável ao vosso Filho Unigénito,
derramastes o Espírito Santo,
que no princípio da Igreja nascente
revelou o conhecimento de Deus a todos os povos da terra
e uniu a diversidade das línguas na profissão duma só fé.
Por isso, na plenitude da alegria pascal,
exultam os homens por toda a terra
e com os Anjos e os Santos proclamam a vossa glória,
cantando numa só voz:
Santo, Santo, Santo..

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Actos 2, 4.11
Todos ficaram cheios do Espírito Santo
e proclamavam as maravilhas de Deus. Aleluia.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Senhor nosso Deus,
que concedeis com abundância à vossa Igreja os dons sagrados,
conservai nela a graça que lhe destes,
para que floresça sempre em nós o dom do Espírito Santo,
e o alimento espiritual que recebemos
nos faça progredir no caminho da salvação.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

“E renovareis a face da Terra…”

Cheios do Espírito Santo, os Apóstolos incendiaram o mundo

A maravilhosa cena narrada por São Lucas, nos Atos dos Apóstolos, é das mais importantes na História da Igreja. Para compreendermos a fundo seu significado, examinemos em que circunstâncias ela se passou.

Estavam os Apóstolos preparados para sua sublime vocação?

Qual a situação espiritual dos Apóstolos? Era de supor que, após três anos de convívio diário com Nosso Senhor Jesus Cristo, estivessem preparados para a missão que lhes cabia, de firmar e expandir a Santa Igreja. Contudo, não o estavam. Em várias pas­sagens do Evangelho, vemo-los repletos de fragilidades.

Logo após episódios, sermões e milagres impressionan­tes, não se punham a fazer comentários sobre a grandeza das palavras ou dos gestos do Mestre, mas sim a discutir a respeito de quem seria o primeiro-ministro num suposto reino temporal que, acreditavam, Cristo iria fundar…

Quando Jesus lhes dizia que estavam para se cumprir as profecias a respeito de sua Paixão, Morte e Ressurreição, eles nada entendiam (cf. Lc 18, 31-34), pois disputavam sobre quem seria o maior (cf. Mc 9, 31-35). A mãe de João e Tiago aproxi­mou-se um dia de Jesus, acompanhada pelos dois filhos, para Lhe pedir que reservasse para eles os dois primeiros cargos do futuro reino (cf. Mt 20, 20-23).

No fim da Santa Ceia, logo após a saída de Judas, houve um diálogo revelador. Depois de Pedro dizer que estava disposto a dar a vida pelo Mestre — declaração que Jesus não aceitou, profetizando-lhe a tríplice negação —, Tomé manifestou sua ce­gueira sobre os acontecimentos iminentes, e Filipe demonstrou não estar plenamente consciente da divindade de Jesus, pedin­do-Lhe: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta” (Jo 14, 8). Ao que Nosso Senhor replicou: “Há tanto tempo estou convos­co e não Me conheceste, Filipe! Aquele que Me viu, viu também o Pai. Como, pois, dizes: Mostra-nos o Pai… Não credes que es­tou no Pai, e que o Pai está em Mim?” (Jo 14, 9-10).

Esta era a situação daqueles que Jesus Cristo convoca­ra para serem as colunas de sua Igreja. Não O compreendiam. Por quê? Entre as várias explicações possíveis, três parecem de maior peso.

Em primeiro lugar, o ser humano, debilitado após o pecado original, não tem apetência de elevar as vistas para as verdades su­periores. Seu gosto está em voltar-se para cogitações meramente práticas, concretas, atraído pelos aspectos medíocres da vida. Por isso não se dá conta daquilo que é grandioso e para o qual é cha­mado. Este problema se coloca de forma mais aguda para quem tem uma vocação incomum, como ocorreu com os Apóstolos: não percebiam que lhes cabia a maior missão da História.

Outra explicação é de natureza psicológica. A sociedade de Israel era bem hierarquizada, tendo no topo a raça dos sa­cerdotes, e depois toda uma coorte de pessoas vinculadas com o sacerdócio ou a realeza, como os escribas, os fariseus e a classe mais abastada. De outro lado, a Galileia era uma região despre­zada, considerada bárbara e ignorante. Ora, os Apóstolos eram quase todos galileus e pescadores. Sentiam-se, portanto, em cer­ta inferioridade. Agora lhes aparecia a oportunidade de subirem aos primeiros cargos do novo reino…

Por fim, faltava-lhes um amor ardoroso por Nosso Senhor. Se o tivessem, todo o resto se resolveria. Não adiantava assimila­rem a doutrina, nem mesmo ter fé e esperança, pois essas virtu­des de nada valem se não são acompanhadas pela caridade.

Nem após a Ressurreição de Nosso Senhor desaparece­ram essas fragilidades. A incredulidade de São Tomé é exem­plo característico. Passou o Senhor entre eles mais quarenta dias, fez-lhes revelações e deu ensinamentos. Não adiantou. Com o que continuavam preocupados? Com a restauração do reino de Israel…

Ainda no momento da Ascensão, quando o Divino Mestre lhes fala da vinda próxima do Espírito Santo, eis como reagem: “Então os que se tinham congregado, interrogavam-No dizen­do: ‘Senhor, é porventura agora que ides instaurar o reino de Israel?’” (At 1, 6).

A preparação para Pentecostes

Apesar de se encontrarem nesse estado de espírito, a graça divina ia trabalhando suas almas.

Imediatamente antes da Ascensão, Jesus havia ordenado aos Apóstolos que não se afastassem de Jerusalém, pois dentro de poucos dias seriam batizados no Espírito Santo. Voltaram, então, para a Cidade Santa, e subiram ao andar superior do Cenáculo: “Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, Mãe de Jesus, e os irmãos dele” (At 1, 14).

Conta a Sagrada Escritura que em certo momento São Pedro propôs que se escolhesse alguém para substituir Judas, e “deitaram sorte e caiu a sorte em Matias” (At 1, 26). Nesta pas­sagem temos um dos pontos que é oportuno reter: a posição de São Pedro, que já claramente age como Papa.

Vemos também como os Apóstolos conheciam o valor da oração. Por meio dela se preparavam para receber o Espírito Santo. E “perseveraram unanimemente”, ou seja, estavam concordes e, além disso, estavam jun­tos, porque a oração de vários unidos pelo amor de Jesus Cristo e em fun­ção d’Ele tem esta pro­messa: “Onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou Eu no meio deles” (Mt 18, 20).

Estavam recolhidos, modo excelente de prepa­ração para grandes aconte­cimentos. O próprio Jesus passara quarenta dias no deserto, antes de iniciar sua vida pública. Embora não se possa dizer que os Apóstolos estivessem me­lhores do que antes, ha­viam tomado, assim, uma atitude sapiencial. A graça de Pentecostes será, de al­gum modo, o desabrochar de uma flor, cuja semente vinha germinando em suas almas. Quer dizer, apesar de essa gra­ça ter sido gratuita, uma iniciativa de Deus, eles, em certa medida, prepararam o caminho para ela.

Por fim chegamos a um ponto fundamental: oravam com Maria. Eis a condição indispensável para receber as graças do Espírito Santo. Como Esposa d’Ele, Nossa Senhora deve Lhe ter pedido que descesse sobre os Apóstolos. Reunindo-se com a Santíssima Virgem, eles obtiveram graças que liberaram suas almas dos últimos obstáculos para se beneficiarem com Pente­costes.

A descida do Espírito Santo

Pentecostes era uma das festas tradicionais judaicas. Nela se ofereciam a Deus as primícias das colheitas do campo. Tra­tava-se de uma das três grandes festas chamadas da “peregri­nação”, pois nelas os israelitas deviam peregrinar até Jerusalém para adorar a Deus no Templo. Os judeus da diáspora, ou seja, os residentes no estrangeiro, designavam-na pela palavra grega pentekosté — quinquagésimo dia —, por ser celebrada cinquenta dias depois da Páscoa.

“Estavam todos” presentes no Cenáculo, diz São Lucas na primeira leitura desta Liturgia. Era toda a Igreja nascente: cerca de 120 pessoas, entre as quais os Doze Apóstolos, os setenta e dois discípulos e as Santas Mulheres.

Encontravam-se absortos na oração quando se fez ouvir um ruído estrondoso e um vento impetuoso. Em seguida, apa­recem pequenas chamas. Segundo uma piedosa e antiga tradi­ção, a primeira língua de fogo — a mais rica — pousou sobre a cabeça de Nossa Senhora, e a partir d’Ela se multiplicou para os outros.

Por que essas manifestações exteriores? Deus quis tornar visível a plenitude que entregava, o ímpeto de amor, a grandeza do dom que descia. “Uma forte ventania” pode ser vista como a chegada da torrente de graças que estavam sendo derramadas sobre todos os presentes. Eram graças místicas eficazes e supe­rabundantes que “encheram” o Cenáculo.

Além do fenômeno auditivo, e talvez sensitivo, terá havido um certo perfume? A ideia nos parece plausível.

O fogo, feito de luz e calor, era o melhor elemento para simbolizar o ardor próprio à ação restauradora e entusiasmante do Espírito Santo. Ao pairarem sobre as cabeças de Maria e dos demais presentes, as chamas se apresentavam sob a forma de línguas de fogo. Nelas podemos ver simbolizadas as labaredas que a pregação daqueles varões suscitaria.

“Todos ficaram cheios do Espírito Santo”. De Maria a Igreja exclama: “cheia de graça” (Lc 1, 28), e de fato Ela o foi desde o primeiro instante de sua Imaculada Conceição. No Ce­náculo recebe uma plenitude ainda maior. Nessa passagem ve­mos também os Apóstolos, de acordo com suas respectivas mis­sões, serem inundados dos mais especiais dons. Lembraram-se, então, com amor e compreensão, de tudo o que o Mestre lhes ensinara, estando prontos para percorrer o mundo pregando a Boa-nova.

A graça do Espírito Santo muda todos

Diz a leitura que naqueles dias Jerusalém estava repleta de judeus e gentios vindos de todas as partes da Terra. Como o ruído da ventania fora ouvido por toda a cidade, diante do Cenáculo “juntou-se a multidão, e todos ficaram confusos, pois cada um ouvia os discípulos falar em sua própria língua. Cheios de espanto e admiração, diziam: ‘Esses homens que estão fa­lando não são todos galileus? Como é que nós os escutamos na nossa própria língua?’”. E São Lucas continua: “Estavam, pois, todos atônitos e, sem saber o que pensar, perguntavam uns aos outros: ‘Que significam estas coisas?’. Outros, porém, escar­necendo, diziam: ‘Estão todos embriagados de vinho doce’” (At 2, 12-13).

Neste trecho se diz que os Apóstolos — bem como os discí­pulos e as Santas Mulheres — começaram a falar várias línguas e, mais adiante, que cada um os ouvia falar na sua própria lín­gua. Não fica claro se falavam uma língua e todos os entendiam, ou se falavam várias. Os exegetas não são concordes a tal respei­to. Uma expressão no versículo anterior, “conforme o Espírito os inspirava”, favorece a segunda hipótese.

São Pedro levantou a voz e disse ao povo: “Homens da Judeia e vós todos que habitais em Jerusalém: seja-vos isto co­nhecido e prestai atenção às minhas palavras. Estes homens não estão embriagados, como vós pensais, visto não ser ainda a hora terceira do dia” (At 2, 14-15). Ninguém se embriaga às nove da manhã — a hora terceira. Estavam ébrios, mas de uma embria­guez divina, e proclamavam a doutrina do Divino Mestre, pro­nunciando palavras de sabedoria, acerto, glória e repreensão.

“Mas cumpre-se o que foi dito pelo profeta Joel: ‘Aconte­cerá, nos últimos dias…’” (At 2, 16-17). São Pedro recordou as profecias sobre Cristo. O povo as conhecia e se impressionou, abrindo os corações à conversão. O Príncipe dos Apóstolos fi­nalizou suas palavras, dizendo: “A este Jesus, Deus O ressusci­tou: do que todos nós somos testemunhas. Exaltado pela direita de Deus, havendo recebido do Pai o Espírito Santo prometido, derramou-O como vós vedes e ouvis. Pois Davi pessoalmente não subiu ao Céu, todavia diz: ‘O Senhor disse a meu Senhor: Senta-te à minha direita até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés’. Que toda a casa de Israel saiba, portan­to, com a maior certeza de que este Jesus, que vós crucificastes, Deus O constituiu Senhor e Cristo” (At 2, 32-36).

São Pedro faz aqui, como Papa, a primeira proclamação de um dogma na História: o da divindade de Nosso Senhor.

“Ao ouvirem essas coisas, ficaram compungidos no ínti­mo do coração e indagaram de Pedro e dos demais Apóstolos: ‘Que devemos fazer, irmãos?’. Pedro lhes respondeu: ‘Arre­pendei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois a promessa é para vós, para vossos fi­lhos e para todos os que ouvirem de longe o apelo do Senhor, nosso Deus’” (At 2, 37-39).

Terá se convertido a maior parte dos que ouviram São Pe­dro? Os Atos dos Apóstolos não nos dão elementos para saber. Mencionam, como vimos, os que “escarnecendo, diziam: ‘Estão todos embriagados de vinho doce’”. Assim, a mesma graça que convertia a muitos, acabava sendo rejeitada por outros. Também não devem ter sido boas as reações dos fariseus, ao saberem des­ses prodígios e do início da glorificação pública d’Aquele que haviam feito crucificar.

Foram batizadas três mil pessoas. Em poucas horas, a Igre­ja passava a contar com pelo menos 3.120 membros. Era o início do apostolado em sistema de “avalanche”, que se multiplicaria quando os Apóstolos começassem a fazer milagres. Em breve iam estender a evangelização por todo o mundo antigo, e che­garia um momento em que o Império Romano inteiro estaria cristianizado.

Pedir uma nova efusão de graças

Para iniciar o terceiro milênio da Era Cristã, o Santo Pa­dre João Paulo II quis publicar uma Carta Apostólica, assinada na Praça de São Pedro em 6 de janeiro de 2001. Nesse belíssi­mo documento, assinalamos o seguinte trecho: “Ao longo destes anos, muitas vezes repeti o apelo à Nova Evangelização; e faço­-o agora uma vez mais para inculcar sobretudo que é preciso re­acender em nós o zelo das origens, deixando-nos invadir pelo ardor da pregação apostólica que se seguiu a Pentecostes. Deve­mos reviver em nós o sentimento ardente de Paulo que o levava a exclamar: ‘Ai de mim se não evangelizar!’ (I Cor 9, 16)”.1

Eis aí indicado o caminho para que neste terceiro milênio a Igreja rebrilhe com uma luz ainda mais fulgurante que nos sé­culos anteriores: “reacender em nós o zelo das origens, deixan­do-nos invadir pelo ardor da pregação apostólica que se seguiu a Pentecostes”.

Festa do amor de Deus, Pentecostes nos traz esta men­sagem: devemos ter pela Santa Igreja Católica um amor sem limites, que se traduza em interesse candente por ela, em ora­ções, em obras de apostolado. Se nós, católicos, formos assim, todos os males que afligem o mundo de hoje serão vencidos.

Assim como os Apóstolos, perseveremos com Maria San­tíssima em oração, pedindo que o Espírito de Caridade nos in­funda aquele amor que os abrasou: Emitte Spiritum tuum et crea­buntur, et renovabis faciem terræ — Enviai, Senhor, o vosso espíri­to criador e será renovada toda a face da Terra (cf. Sl 103, 30).

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1) JOÃO PAULO II. Novo Millennio Ineunte, n.40.