Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

24 de Setembro

XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA
Eu sou a salvação do meu povo, diz o Senhor.
Quando chamar por Mim nas suas tribulações,
Eu o atenderei e serei o seu Deus para sempre.

ORAÇÃO COLECTA
Senhor, que fizestes consistir a plenitude da lei
no vosso amor e no amor do próximo,
dai-nos a graça de cumprirmos este duplo mandamento,
para alcançarmos a vida eterna.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Is 55, 6-9
«Os meus pensamentos não são os vossos»

Leitura do Livro de Isaías
Procurai o Senhor, enquanto se pode encontrar, invocai-O, enquanto está perto. Deixe o ímpio o seu caminho e o homem perverso os seus pensamentos. Converta-se ao Senhor, que terá compaixão dele, ao nosso Deus, que é generoso em perdoar. Porque os meus pensamentos não são os vossos, nem os vossos caminhos são os meus – oráculo do Senhor –. Tanto quanto o céu está acima da terra, assim os meus caminhos estão acima dos vossos e acima dos vossos estão os meus pensamentos.
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 144 (145), 2-3.8-9.17-18 (R. 18a)
Refrão: O Senhor está perto de quantos O invocam.
Repete-se

Quero bendizer-Vos, dia após dia,
e louvar o vosso nome para sempre.
Grande é o Senhor e digno de todo o louvor,
insondável é a sua grandeza. Refrão

O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
O Senhor é bom para com todos
e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas. Refrão

O Senhor é justo em todos os seus caminhos
e perfeito em todas as suas obras.
O Senhor está perto de quantos O invocam,
de quantos O invocam em verdade. Refrão

LEITURA II Filip 1, 20c-24.27a
«Para mim, viver é Cristo»

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses
Irmãos: Cristo será glorificado no meu corpo, quer eu viva quer eu morra. Porque, para mim, viver é Cristo e morrer é lucro. Mas, se viver neste corpo mortal me permite um trabalho útil, não sei o que escolher. Sinto-me constrangido por este dilema: desejaria partir e estar com Cristo, que seria muito melhor; mas é mais necessário para vós que eu permaneça neste corpo mortal. Procurai somente viver de maneira digna do Evangelho de Cristo.
Palavra do Senhor.

ALELUIA cf. Actos 16, 14b
Refrão: Aleluia. Repete-se
Abri, Senhor, os nossos corações,
para aceitarmos a palavra do vosso Filho. Refrão

EVANGELHO Mt 20, 1-16a
«Serão maus os teus olhos porque eu sou bom?»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O reino dos Céus pode comparar-se a um pro­prie­tário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha. Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha. Saiu a meia-manhã, viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo’. E eles foram. Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo. Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes: ‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’. Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’. Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’. Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz: «Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’. Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um. Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um. Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizen­do: ‘Estes últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor’. Mas o proprietário respondeu a um deles: ‘Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho. Eu quero dar a este último tanto como a ti. Não me será permitido fazer o que quero do que é meu? Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’. Assim, os últimos serão os primei­ros e os primeiros serão os últimos».
Palavra da salvação.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Oremos, irmãos e irmãs, a Deus Pai, que está perto de quantos O invocam e é misericordioso para com todos, e supliquemos confiadamente, dizendo (ou: cantando):

R. Escutai, Senhor, a oração do vosso povo. Ou: Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor. Ou: Ouvi, Senhor, a nossa oração.

1. Para que a palavra de Deus ilumine a santa Igreja, e, em todas as horas da tarde e da manhã, haja quem trabalhe na vinha do Senhor, oremos.

2. Para que os responsáveis pela economia mundial não se fechem às necessidades de ninguém, mas defendam os direitos dos mais pobres, oremos.

3. Para que todos os cidadãos tenham emprego, os camponeses tempo favorável às colheitas, e cada família uma digna habitação, oremos.

4. Para que as nossas aldeias, vilas e cidades, sejam lugares de convivência e amizade, onde se invoque o Senhor e haja paz, oremos.

5. Para que os membros da nossa assembleia dominical sintam gosto em trabalhar no serviço do Evangelho e encham o coração com os seus valores, oremos.

Senhor, nosso Deus, cujos pensamentos e caminhos estão muito acima dos nossos, fazei que a palavra de Jesus nos desperte para o trabalho da sua vinha. Por Cristo Senhor nosso.
ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Aceitai benignamente, Senhor, os dons da vossa Igreja,
para que receba nestes santos mistérios
os bens em que pela fé acredita.
Por Nosso Senhor.

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Salmo 118, 4-5
Promulgastes, Senhor,
os vossos preceitos para se cumprirem fielmente.
Fazei que os meus passos sejam firmes
na observância dos vossos mandamentos.

Ou Jo 10, 14
Eu sou o Bom Pastor, diz o Senhor;
conheço as minhas ovelhas
e as minhas ovelhas conhecem-Me.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Sustentai, Senhor, com o auxílio da vossa graça
aqueles que alimentais nos sagrados mistérios,
para que os frutos de salvação
que recebemos neste sacramento
se manifestem em toda a nossa vida.
Por Nosso Senhor.

 

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

O verme roedor da inveja

Veneno que corrói as almas, a inveja ainda é pior quando se revolta contra os favores espirituais concedidos por Deus ao próximo. A este vício moral se dá o nome de inveja da graça fraterna.

Não raras vezes, o trecho do Evangelho a ser comentado ganha em perspectiva quando o situamos no seu con­texto de tempo e lugar, observando o comportamento do público e as repercussões psicológicas dos protagonistas.

O ambiente no qual Jesus expôs a parábola

A parábola dos operários da vinha foi proferida pelo Di­vino Mestre em sua última viagem, quando retornava a Jeru­salém. Era um momento crucial. Atingindo o ápice de seus mi­lagres, prova inequívoca de sua divindade, Jesus havia ressus­citado Lázaro e, por razões prudenciais — tendo em vista as reações iradas de seus inimigos —, resolvera retirar-Se de Jerusalém. Passado algum tempo, retomou o caminho da Cidade Santa, onde entraria solenemente no Domingo de Ramos. E é neste último iti­nerário que vamos encontrá-Lo.

Naquela época, muito anterior a Gutenberg, não existia evidente­mente a imprensa, e menos ainda se podia pensar em rádio, televi­são e internet. Acostumados co­mo estamos a todos esses meios de comunicação, custa-nos imaginar como as notícias podiam se difundir. Na verdade, embora fossem transmitidas de boca a ouvido, nem por isso era lenta sua divulgação, sobretudo se re­vestidas de um caráter espetacular. Assim, por exemplo, as no­vas sobre a intensa atividade de São João Batista, cuja atuação pouco antecedera a de Jesus, haviam corrido por todo o país e até além-fronteiras, causando grande burburinho entre o povo e profunda preocupação no Sinédrio. Havia sido só o começo. Desde os dias nos quais o Precursor batizara seus primeiros pe­nitentes, Israel não mais deixara de ser sobressaltado por uma crescente onda de acontecimentos inusitados e abaladores. E es­sa sucessão de fatos culminaria na ressurreição de uma pessoa falecida havia quatro dias.

Todavia, tanto quanto os milagres — e até mais que eles —, eram surpreendentes os ensinamentos do Divino Mestre. Suas palavras caíam como refrescante chuva num arenal sedento, co­mo era o mundo de então, incluindo o povo eleito. Encontra­mo-nos ali numa perspectiva psicológica plena de curiosidade e inquietação, que levava as pessoas a se interessarem pelos míni­mos detalhes dos sermões de Jesus de Nazaré. Daí o grande nú­mero dos que se reuniam ao redor d’Ele, chegando a ponto de os evangelistas falarem às vezes de grande multidão, como acon­teceu na travessia do Jordão (cf. Mt 19, 1-2), quando da volta da Galileia à Judeia. De outro lado, a doutrina de Jesus e suas movimentações eram motivo de grande intranquilidade para es­cribas, fariseus e doutores da Lei. A progressiva fama do Divi­no Mestre os levara a Lhe apresentar questões aparentemente insolúveis e cada vez mais capciosas, mas o único resultado de suas investidas era dar-Lhe oportunidade de expor os seus di­vinos ensinamentos, que constituem o fundamento da doutrina católica. E o ensino de uma doutrina nova criava clima para a explicação de outra, num encadeamento natural extraordinário.

Doutrinas concatenadas

Vemos isto ocorrer na referida viagem de volta a Jerusa­lém, antecedente ao Domingo de Ramos. Nessa ocasião dá-se o pronunciamento de Nosso Senhor sobre a indissolubilidade do vínculo matrimonial e a beleza da virgindade (cf. Mt 19, 3-12). Com isto, ficava criada a ambientação favorável para Jesus cha­mar a todos para fazer parte de sua futura Igreja.

Na sequência da narrativa evangélica, nos deparamos com o encontro d’Ele com as crianças: “Deixai vir a Mim estas crian­cinhas e não as impeçais, porque o Reino dos Céus é para aque­les que se lhes assemelham” (Mt 19, 14).

Logo depois, Nosso Senhor diz que o primeiro no Reino dos Céus será o que se fizer como um menino, indicando a ne­cessidade de os homens se assemelharem às crianças para entrar no Reino dos Céus.

Segue-se o episódio do moço rico. Por ele, torna-se pa­tente para toda a História um dos maiores obstáculos para a adesão plena e total à Igreja: o apego aos bens deste mundo (cf. Mt 19, 16-22). Foi o ensinamento de Jesus, decorrente da recusa do jovem em atender ao chamado do Mestre, que provocou uma intervenção de Pedro. Por seu caráter em ex­tremo comunicativo, não resistiu ele em perguntar: “Eis que deixamos tudo para Te seguir. Que haverá então para nós?” (Mt 19, 27). Pela resposta a esta interrogação, vemos como es­tava Jesus preparando a opinião pública para receber seu cha­mado. E Ele responde com divina clareza: “E todo aquele que por minha causa deixar irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras ou casa receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna” (Mt 19, 29). Como o “cêntuplo” se refere à vida presente, a frase de Nosso Senhor nos conduz à fácil conclusão de serem­-nos prometidos dois prêmios diferentes: um na Terra, outro na eternidade. Trata-se de um grande encorajamento a todos os seguidores de Cristo, ajudando-os a permanecerem inabalá­veis no caminho a ser trilhado.

Precisamente neste ponto do Evangelho se inicia a pará­bola dos operários da vinha, com a qual Jesus faz uma espécie de remate de mais uma fase de instrução para seus seguidores, incluindo os do futuro.

A figura da vinha

Naquele tempo, Jesus contou esta parábola a seus discípulos: 1 “O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. 2 Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha”.

Ao contrário do que em geral se supõe, a região na qual hoje se incluem a Palestina e Israel era, no tempo de Nosso Se­nhor, extremamente fértil. O panorama muitas vezes árido e de­solador de nossos dias é resultante de dois mil anos de lutas e ar­rasamentos. Mas ali, de fato, era um país onde, além de correr o leite e o mel (cf. Nm 13, 27) e produzir ótimo azeite, cultivavam­-se excelentes vinhas, conforme no-lo atestam as Sagradas Es­crituras (cf. Nm 13, 23-24), certamente sinal de bênção de Deus.

No trabalho da vinha, utilizavam-se dois períodos do ano: o começo da primavera e o outono. O primeiro para deixá-la pronta para o florescimento e o outro para a colheita. Para am­bas as ocasiões se necessitava um bom número de trabalhadores extras, pois poucos eram permanentes. Por isso vemos, na pa­rábola em questão, o pai de família ir à procura dos operários, contratando uns por necessidade e outros pelo puro desejo de lhes oferecer um meio de ganhar algo.

3 “Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo, viu outros que estavam na praça, desocupados, 4 e lhes disse: ‘Ide também vós para a minha vinha! E eu vos pagarei o que for justo’. 5 E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três horas da tarde, e fez a mesma coisa. 6 Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: ‘Por que estais aí o dia inteiro desocupados?’ 7 Eles responderam: ‘Porque ninguém nos contratou’. O patrão lhes disse: ‘Ide vós também para a minha vinha’. 8 Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: ‘Chama os trabalhadores e paga-lhes uma diária a todos, começando pelos últimos até os primeiros!’ 9 Vieram os que tinham sido contratados às cinco da tarde e cada um recebeu uma moeda de prata. 10 Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. Porém, cada um deles também recebeu uma moeda de prata”.

As horas de trabalho eram divididas em quatro partes de sol a sol, ou seja, de três em três horas, das seis da manhã às seis horas da tarde. Entretanto, nesta parábola, os últimos tra­balharam tão só das cinco às seis horas da tarde, constituindo um quinto grupo. O salário, como é óbvio, era o contratado.

A explicação

11 “Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: 12 ‘Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro’. 13 Então o patrão disse a um deles: ‘Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? 14 Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. 15 Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?’”

Uma boa explanação sobre esta parábola, dada com a cla­reza, concisão e objetividade próprias ao estilo francês, é de au­toria do conhecido exegeta Louis Claude Fillion.1 Segundo ele, vários são os comentaristas dos Evangelhos concordes em que, nas parábolas, há circunstâncias cuja função é apenas de orna­mento. No presente caso, muitos comentadores tropeçam na análise, ao forçar uma interpretação de cada detalhe.

Tendo isto em vista, Fillion procura apontar a ideia domi­nante na parábola: “Parece ser que Deus, figurado no proprie­tário rico, cumpre fielmente suas promessas para os que O ser­vem, e que a todos dá, sem exceção, em qualquer ponto da vida em que tenham começado seu trabalho, uma justa recompensa de todas as suas fadigas”.2

Contudo, esse homem reparte seus dons na proporção que lhe apraz. Para vários exegetas, aqui reside a principal dificul­dade da parábola: à primeira vista, pareceria uma injustiça o se­nhor da vinha pagar o mesmo salário tanto para os que trabalha­ram mais, como para os que menos o fizeram.

Fillion ressalta que, na narrativa, ninguém foi esquecido na hora da distribuição, de forma que não há motivo para queixas. São Tomás é do mesmo parecer: “Quando se dá gratuitamen­te, cada um pode dar livremente a quem quer, mais ou menos, contanto que não recuse a ninguém o que lhe é devido; e isto sem prejuízo da justiça”.3 Voltando a Fillion, completa ele seu raciocínio com uma sentença da maior importância, sobre a qual voltaremos adiante: “Cada um deve se satisfazer com o recebido e demonstrar reconhecimento, sem olhar com vista invejosa os que ganharam mais”.4

O chamado de Deus

16a “Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos”.

Ao terminar o comentário, o autor francês aponta outra relevante lição da parábola: “Não são todos que começam a tra­balhar em sua salvação e santificação na mesma época de sua vida. Alguns o fazem na primeira hora, a infância; outros, na ju­ventude; outros ainda, na idade madura; e alguns iniciam quan­do já se manifestam os sinais precursores da morte. Felizes os operários da primeira hora, que só tenham vivido para Deus!

Felizes também aqueles que, tendo ouvido em qualquer época da vida o chamado da graça, correspondem a ele e acorrem para junto de seu Salvador, a fim de trabalhar com Ele e para Ele!”.5

Conforme dizíamos no princípio deste artigo, Jesus prepa­rava com suas pregações, nesta fase, o chamado a seus seguido­res futuros. Deus, tal como consta nesta parábola, chama todos à perfeição, apesar de o fazer em horas e ocasiões diversas da vi­da. Ninguém deve desanimar, se tiver deixado para muito tarde o preocupar-se com sua salvação, pois para todos a misericórdia de Deus reserva um prêmio. No entanto, também é necessário atender logo à convocação de Jesus, de maneira decidida. Ne­nhum dos chamados ao trabalho, nesta parábola, chegou a pro­por um horário mais tardio, mas imediatamente se pôs a traba­lhar. Nenhum também recusou. Assim devemos proceder nós: não devemos retardar o nosso sim ao chamado do Mestre.

A inveja, “cárie dos ossos”

Como vimos, Fillion recrimina a inveja nascida no cora­ção de alguns trabalhadores da vinha. Com efeito, esta parábola traz um ensinamento a propósito da inconsistência, ilogicidade e malícia da inveja.

No que consiste tal vício? Na tristeza por causa do bem alheio. Tanquerey salienta que o despeito causado pela inveja é acompanhado de uma constrição do coração, que diminui a sua atividade e produz um sentimento de angústia. O invejoso sente o bem de outra pessoa “como se fosse um golpe vibrado à sua superioridade”.6 Não é difícil perceber como este vício nasce da soberba, a qual, como explica o famoso teólogo padre Royo Marín, “é o apetite desordenado da própria excelência”.7 A inveja “é um dos pecados mais vis e repugnantes que se possa cometer”,8 faz questão de sublinhar o dominicano.

São Tomás 9 recolhe, entre os diversos comentários desta passagem contidos na Catena Aurea, o fato de os trabalhadores da vinha não se queixarem por considerar-se defraudados na re­compensa à qual tinham direito, e sim porque os outros haviam recebido mais do que mereciam. Vemos por aí a insensatez do invejoso, a ponto de sofrer mais com o sucesso dos outros do que com suas perdas.

Da inveja nascem diversos pecados, como o ódio, a intriga, a murmuração, a difamação, a calúnia e o prazer nas adversida­des do próximo. Ela está na raiz de muitas divisões e crimes, até mesmo no seio das famílias. Basta lembrar a história de José do Egito. Diz a Escritura: “Foi por inveja do demônio que a morte entrou no mundo” (Sb 2, 24). Aqui está a raiz de todos os males de nossa Terra de exílio. O primeiro homicídio da História teve esse vício como causa: “e o Senhor olhou com agrado para Abel e para sua oblação, mas não olhou para Caim, nem para os seus dons. Caim ficou extremamente irritado com isso, e o seu sem­blante tornou-se abatido” (Gn 4, 4-5).

Na parábola em questão, a inveja é o motivo da murmuração dos operários da primeira hora contra o dono da vinha. Este mes­mo afirmará: “Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?”. Pecado de consequências funestas, tornou amargurados muitos anjos, logo no primeiro dia da criação, que por essa razão foram precipitados do alto dos Céus ao mais profundo dos infernos. Não suportaram a infinita superioridade de Deus e, quiçá, a divindade de Jesus e a predestinação de sua Mãe à maternidade divina.

Os Evangelhos transbordam ao narrarem a perfídia dos escribas e fariseus contra o Messias. Qual a causa desse ódio deicida? Até mesmo Pilatos “sabia que tinham entregue Jesus por inveja” (Mt 27, 18).

Com propriedade afirma o Livro dos Provérbios: “Um co­ração tranquilo é a vida do corpo, enquanto a inveja é a cárie dos ossos” (14, 30).

Este vício comporta graus. Quando tem por objeto bens terrenos — beleza, força, poder, riqueza, etc.—, terá gravidade maior ou menor, dependendo das circunstâncias. Mas se dis­ser respeito a dons e graças concedidas por Deus a um irmão, constituirá um dos mais graves pecados contra o Espírito Santo: a inveja da graça fraterna. “A inveja do proveito espiritual do próximo é um dos pecados mais satânicos que se possa cometer, porque com ele não só se tem inveja e tristeza do bem do irmão, como também da graça de Deus, que cresce no mundo”,10 co­menta o padre Royo Marín.

Todas essas considerações devem gravar-se a fundo em nossos corações, fazendo-nos fugir deste vício como de uma pes­te mortal. Alegremo-nos com o bem de nossos irmãos, e louve­mos a Deus por sua liberalidade e bondade. Quem agir assim notará, em pouco tempo, como o coração estará sossegado, a vida em paz, e a mente livre para navegar por horizontes mais elevados e belos. Mais ainda: tornar-se-á ele mesmo alvo do ca­rinho e da predileção de nosso Pai Celeste.

De passagem, parece-nos oportuno notar que essa regra se aplica não somente a cada católico, como também às numerosas famílias espirituais existentes na Igreja. Entre elas deve reinar sempre e de modo crescente a atmosfera expressa pelo Apósto­lo nestas palavras: “A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (I Cor 13, 4-7).

Onde impera o amor a Deus, desaparece a inveja.

A recompensa demasiadamente grande

Aqui nesta Terra estamos só de passagem. Nosso destino é a visão beatífica na eternidade: “In lumine tuo videbimus lumen — Na tua luz veremos a luz” (Sl 35, 10). Nossa inteligência parti­cipará do lumen gloriæ — luz da glória — de Deus e será através desta que O veremos, face a face. Ele será o mesmo para todos, daí, na nossa parábola, ser o salário o mesmo para cada um dos operários da vinha.

Mas um salário que cumulará a todos de indizível felicida­de, pois, como disse Deus: “tua recompensa será demasiadamente grande” (Gn 15, 1). Porém, a condição essencial para todos lá che­garmos está fixada na verdadeira caridade, e jamais na inveja.

1) Cf. FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Vida pública. Ma­drid: Rialp, 2000, v.II, p.435.  

2) Idem, ibidem.

3) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.23, a.5, ad 3.

4) FILLION, op. cit., p.435.

5) Idem, ibidem.

6) TANQUEREY, Adolphe. Compendio de Teología Ascética y Mística. 4.ed. Madrid: Palabra, 2002, p.455.

7) ROYO MARÍN, OP, Antonio. Teología Moral para seglares. 7.ed. Madrid: BAC, 1996, v.I, p.488.

8) Idem, ibidem.

9) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. In Matthæum, c.XX, v.1-16.

10) ROYO MARÍN, op. cit, p.264.