Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

30 de Julho

XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA Salmo 67, 6-7.36
Deus vive na sua morada santa,
Ele prepara uma casa para o pobre.
É a força e o vigor do seu povo.

ORAÇÃO COLECTA
Deus, protector dos que em Vós esperam,
sem Vós nada tem valor, nada é santo.
Multiplicai sobre nós a vossa misericórdia,
para que, conduzidos por Vós,
usemos de tal modo os bens temporais
que possamos aderir desde já aos bens eternos.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I 1 Reis 3, 5.7-12
«Pediste a sabedoria»

Leitura do Primeiro Livro dos Reis
Naqueles dias, o Senhor apareceu em sonhos a Salomão durante a noite e disse-lhe: «Pede o que quiseres». Salomão respondeu: «Senhor, meu Deus, Vós fizestes reinar o vosso servo em lugar do meu pai David e eu sou muito novo e não sei como proceder. Este vosso servo está no meio do povo escolhido, um povo imenso, inumerável, que não se pode contar nem calcular. Dai, portanto, ao vosso servo um coração inteligente, para governar o vosso povo, para saber distinguir o bem do mal; pois, quem poderia governar este vosso povo tão numeroso?». Agradou ao Senhor esta súplica de Salomão e disse-lhe: «Porque foi este o teu pedido, e já que não pediste longa vida, nem riqueza, nem a morte dos teus inimigos, mas sabedoria para praticar a justiça, vou satisfazer o teu desejo. Dou-te um coração sábio e esclarecido, como nunca houve antes de ti nem haverá depois de ti».
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Sal. 118 (119), 57.72.76-77.127-128.129-130
(R . 97a )
Refrão: Quanto amo, Senhor, a vossa lei! Repete-se
Senhor, eu disse: A minha herança
é cumprir as vossas palavras.
Para mim vale mais a lei da vossa boca
do que milhões em ouro e prata. Refrão

Console-me a vossa bondade,
segundo a promessa feita ao vosso servo.
Desçam sobre mim as vossas misericórdias e viverei,
porque a vossa lei faz as minhas delícias. Refrão

Por isso, eu amo os vossos mandamentos,
mais que o ouro, o ouro mais fino.
Por isso, eu sigo todos os vossos preceitos
e detesto todo o caminho da mentira. Refrão
São admiráveis as vossas ordens,
por isso, a minha alma as observa.
A manifestação das vossas palavras ilumina
e dá inteligência aos simples. Refrão

LEITURA II Rom 8, 28-30
«Predestinou-nos para sermos conformes à imagem do seu Filho»

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos: Nós sabemos que Deus concorre em tudo para o bem daqueles que O amam, dos que são chamados, segundo o seu desígnio. Porque os que Ele de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que Ele seja o Primogénito de muitos irmãos. E àqueles que predestinou, também os chamou; àqueles que chamou, também os justificou; e àqueles que justificou, também os glorificou.
Palavra do Senhor.

ALELUIA cf. Mt 11, 25
Refrão: Aleluia. Repete-se
Bendito sejais, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque revelastes aos pequeninos
Q95;os mistérios do reino. Refrão

EVANGELHO – Forma longa Mt 13, 44-52
«Vendeu tudo quanto possuía para comprar aquele campo»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «O reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O homem que o encontrou tornou a escondê-lo e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía e comprou aquele campo. O reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola. O reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes. Logo que se enche, puxam-na para a praia e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos e o que não presta deitam-no fora. Assim será no fim do mundo: os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos e a lançá-los na fornalha ardente. Aí haverá choro e ranger de dentes. Entendestes tudo isto?» Eles responderam-Lhe: «Entendemos». Disse-lhes então Jesus: «Por isso, todo o escriba instruído sobre o reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas».
Palavra da salvação.

EVANGELHO – Forma breve Mt 13, 44-46
«Vendeu tudo quanto possuía para comprar aquele campo»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «O reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O homem que o encontrou tornou a escondê-lo e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía e comprou aquele campo. O reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola».
Palavra da salvação.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Unidos no Espírito Santo, peçamos, irmãs e irmãos, a Deus Pai, para nós e para os outros fiéis, os dons que Ele tem preparados para todos, dizendo (ou: cantando), com fé e humildade:

R. Abençoai, Senhor, o vosso povo. Ou: Ouvi, Senhor, a nossa oração. Ou: Pela vossa misericórdia, ouvi-nos, Senhor.

1. Pela Igreja santa e pela sua unidade, pela nossa Igreja particular e pela sua santidade, pelos ministros que a servem e por todos os seus fiéis, oremos.

2. Pelos que têm de julgar e pelos que são julgados, pelos que procuram, mas não encontram, pelos que estão alegres e pelos que choram, oremos.

3. Por aqueles que têm fé e pelos descrentes, pelos que fazem de Deus o seu tesouro e por todos os que O negam e ofendem, oremos.

4. Pelos que estudam e pelos que ensinam, pelos avós, pelos pais e pelos filhos, pelos jovens, os adolescentes e as crianças, oremos.

5. Por nós próprios e pelos outros baptizados, pelos leitores que proclamam a palavra de Deus e pelos acólitos que servem o altar da Eucaristia, oremos.

Deus todo-poderoso e eterno, que ofereceis a salvação a todos os homens e mulheres e não quereis que nenhum deles se perca, fazei que os acontecimentos deste mundo concorram para o bem dos que Vos amam. Por Cristo Senhor nosso.
ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Aceitai, Senhor,
os dons que recebemos da vossa generosidade
e trazemos ao vosso altar,
e fazei que estes sagrados mistérios, por obra da vossa graça,
nos santifiquem na vida presente
e nos conduzam às alegrias eternas.
Por Nosso Senhor.

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Salmo 102, 2
Bendiz, ó minha alma, o Senhor
e não esqueças os seus benefícios.

Ou Mt 5, 7-8
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Senhor, que nos destes a graça de participar neste divino sacramento, memorial perene da paixão do vosso Filho,
fazei que este dom do seu amor infinito
sirva para a nossa salvação. Por Nosso Senhor.

 

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E. P.

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AS PARÁBOLAS SOBRE O REINO

I – O Reino revelado pelo Divino Mestre

Tendo sido enviados alguns soldados pelas autoridades religiosas do Templo para prender Jesus, retornaram sem cumprir a missão, alegando ter sido impossível executá-la, pelo simples fato de nunca ninguém ter falado como Ele. Transparece, nesse episódio, o grande poder de expressão da verdade ensinada pela Verdade Encarnada. Ninguém jamais chegou a ser mestre, ou virá a sê-lo, em toda significação do ter­mo, como o foi Jesus Cristo. Quem, de fato, conseguirá ultra­passar em pedagogia o Pregador Divino?

Consideremos também quanto o homem é moralmente in­capaz de conhecer por si só e em sua plenitude as verdades reli­giosas, necessitando para tal do concurso da Revelação. E tam­bém a esse respeito devemos questionar: quem melhor do que o próprio Jesus para oferecer essa Revelação? Ele trazia do alto uma rica variedade de temas para nos instruir, entre os quais se encontrava o do Reino de Deus.

Objetivo dos ensinamentos de Jesus

Seu grande desejo era nos fazer conhecer diretamente as maravilhas que o Pai tinha nos preparado, pois não é fácil exprimi-las em linguagem humana, como o próprio São Paulo diria: “os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o cora­ção humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que O amam” (I Cor 2, 9). Mas se Ele nos mostras­se o Reino dos Céus, ao invés de no-lo revelar, perderíamos os méritos. Por isso, tornava-se indispensável servir-Se de imagens aproximativas, muito penetradas de lógica e verossimilhança, e facilmente acessíveis à nossa inteligência. Os recursos de uma oratória empolada não eram necessários ao Mestre, por ser Ele quem era e por comunicar uma doutrina eterna, grandiosa, por­tanto, na sua própria substância.

Em face do anteriormente dito, e analisando os fatos como se realizaram, torna-se claro para um simples leitor dos Evan­gelhos o quanto Jesus não teve por objetivo, em sua vida públi­ca, formar profissionais, artistas ou especialistas em ciência. Ele Se empenhou em constituir as pedras vivas de sua Igreja para encaminhá-las ao seu Reino Eterno. Compreendemos também melhor algumas das razões que O levaram a Se apresentar, em sua missão, como perfeito e excelente modelo para todos os que são chamados a ensinar. Pelo seu modo de agir, advertia os er­ros, enganos e desvios daqueles que visam fazer-se conhecidos através da docência, ou daqueles que procuram se apropriar da verdade, quando na realidade é ela um bem comum.

Depois de Jesus, os Santos e os Doutores muito nos es­clareceram sobre este ponto particular, como o fez Santo Agos­tinho ao escrever: “quem reivindique para si próprio o que Tu ofereces para uso de todos, e queira fazer seu o que é de todos, será repelido do bem comum para o que é seu, isto é, da verdade para a mentira”.1 Sim, por este prisma Jesus nos deu o mais alto exemplo de despretensão, tal como nos diz São Paulo: “Sendo Ele de condição divina, não Se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-Se aos homens” (Fl 2, 6-7). Por tal mo­tivo, invariavelmente, nós O encontramos reportando-Se ao Pai.

Supremacia do divino magistério

Eis alguns elementos que nos levam a melhor en­tender o porquê de Jesus Se fixar nos céus da História como o Divino Mestre. As­sim, afirma o Doutor An­gélico: “o principal Doutor da doutrina espiritual e da Fé é Cristo, conforme a Carta aos Hebreus: ‘Tendo começado a ser anunciada a salvação pelo Senhor, nos foi confirmada por aque­les que O tinham ouvido e também pelo testemunho de Deus com sinais, prodí­gios’ (Hb 2, 3-4), etc.”.2

E, de fato, com to­da segurança pode-se falar numa excelência do magis­tério de Cristo, pois “o po­der de Cristo ao ensinar se vê, seja pelos milagres com que confirmava a doutrina, seja pela eficácia com que persuadia, seja pela autori­dade com que falava, pois o fazia como quem tinha domínio so­bre a Lei, afirmando: ‘Eu, porém, vos digo’, seja finalmente pela retidão de seu proceder, vivendo sem pecado”.3

Reforçando ainda mais essa visualização sobre o sagrado magistério do Divino Mestre, São Tomás nos mostra como a ciên­cia sagrada supera todas as outras, tanto no tocante ao seu obje­to, pois se ocupa de temas elevados que são inacessíveis à pura inteligência humana, enquanto as outras só abrangem o que se encontra em seus limites; quanto no que diz respeito à certeza, pois a ciência sagrada baseia-se na luz divina que é infalível, e as outras, na luz da razão, que é passível de erro. Daí concluir: “Sob qualquer dos ângulos, a ciência sagrada é a mais excelente”.4

Diante dessa supremacia do divino magistério de Jesus, reconsideremos por que motivo servia-Se Ele de parábolas em seu ensino.

Método que entrelaça simplicidade e eternidade

As parábolas eram muito co­muns no Antigo Testamento. Entre elas podemos men­cionar a do canto da vinha de Isaías (cf. Is 5, 1-7) ou a usada por Natã para invec­tivar Davi por seus pecados (cf. II Sm 12, 1-4). Tudo leva a crer que, nos tempos da vida pública de Nosso Senhor, elas haviam se tornado ainda mais utilizadas, sobretudo entre os rabinos. Eram de tipo muito variado, incluin­do uma comparação com o intuito de tornar acessível um ensinamento árduo de ser en­tendido. Enquanto instrumen­to pedagógico, apesar de sua simplicidade –– e talvez até por essa razão —, acabavam por ser atraentes, pois, devido a certa nota de ambiguidade que sem­pre as acompanhava, resultavam enigmáticas. Da mesma forma, ficavam curiosamente intrigados aqueles que não alcançavam seu inteiro significado, e os que captavam seu conteúdo gozavam de alguma alegria. Daí dirigir-Se o Divino Mestre aos seus ouvintes nestes termos: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!” (Mc 4, 9).

Discutem entre si os autores a esse propósito. Alguns, através de um prisma feito de justiça, analisam as parábolas en­quanto sendo um procedimento utilizado pelo Messias com o objetivo de castigar os que se negavam a acreditar na Revela­ção, apesar de seus milagres. Entre eles sobressai Maldonado, bem como Knabenbauer e Fonk. Outros, pelo contrário, a partir da misericórdia explicam que o suave véu das parábolas visava estimular o interesse dos circunstantes, levando-os a fazer per­guntas, e por isso afirma São Jerônimo: “Mistura as coisas trans­parentes com as obscuras para que, por meio das que entendem, incitá-los ao conhecimento das que não entendem”.5

Também era indispensável que Jesus formasse seus discí­pulos passo a passo — e não de maneira brusca — dentro dos novos horizontes. E sob este ponto de vista, o método por Ele adotado não poderia ser melhor. De si, a parábola deveria ser simples, desprovida de qualquer caráter rebuscado e, ao tratar de matéria ligada à eternidade, tornava-se sempre atual. Simpli­cidade e eternidade eram termos que se entrelaçavam no cerne da Revelação trazida por Jesus a respeito do Reino.

Duas visões opostas do Reino

Os judeus tinham uma concepção equivocada sobre este ponto em particular. Julgavam ser a vinda do Messias uma opor­tunidade única para a realização do sonho nacionalista do povo eleito: uma intervenção divina para instaurar uma era histórica, na qual a supremacia política, social e financeira sobre todos os povos seria atingida com glória e triunfo.

Bem no sentido oposto estava o conteúdo da Revelação sobre o verdadeiro Reino. Neste, tudo é despretensão, lentidão e enfrentamento de obstáculos. Daí sua aproximação com as figuras do grão de mostarda, do joio e do trigo, parábolas con­trapostas aos erros de visualização do povo judeu.

Jesus prega à multidão

Essa é a temática tratada ao longo de todo o capítulo 13 de São Mateus. Neste, acompanhamos a pregação de Jesus na Ga­lileia. Ao sair de casa, Jesus Se senta à margem do Mar de Tibe­ríades. Envolve-O tal multidão que Ele Se vê na contingência de subir a uma das barcas, para dali falar a todos. Discorre mais uma vez em parábolas: o semeador, a cizânia, o grão de mostarda, o fermento. Depois disso, despede os ouvintes e retorna para casa. Uma vez a sós com os discípulos, Lhe é feito o pedido de expli­cações sobre a metáfora da cizânia. Se continuarmos a ouvi-Lo, penetraremos no trecho do Evangelho da Liturgia de hoje.

Se bem que São Mateus apresente esses ensinamentos co­mo tendo sido proferidos em casa, apenas aos discípulos, e não à multidão, Maldonado opina em sentido contrário: “Eu creio ser mais provável que os tenha dito a todos antes, junto com as outras parábolas”.6

II – A parábola do tesouro escondido

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 44 “O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo”.

Os detalhes secundários são omitidos pelo Evangelista. Terão, ou não, sido tratados pelo Divino Mestre? Não temos como o saber. Contudo, pode-se imaginar o quanto a exposição de Jesus deve ter sido atraentíssima, pelo fa­to de Ele discorrer sobre os temas através de sua humanidade e, pari passu, ir iluminando, bem dispondo e auxiliando, pela graça e por seu poder divino, o fundo da alma de cada um ali presente.

Mateus tem um objetivo concreto em mente. Por tal razão sintetiza a parábola nos seus elementos essenciais, deixando de lado, por exemplo, a indicação de como foi descoberto o tal tesou­ro. Conhecemos nós episódios havidos na História a propósito de descobertas deslumbrantes nessa linha. Por isso, fica ao encargo de nossa imaginação ambientá-la, completando os pormenores.

O homem esconde novamente o tesouro. De uma pers­pectiva moral, procede bem, não se apropriando das riquezas encontradas. E, ao mesmo tempo, mostra-se prudente não dei­xando à vista aquelas preciosidades, para evitar as tentações que alguém pudesse ter ao deparar-se com elas. “Não é necessário adequar este dado [o fato de esconder o tesouro] ao significado da parábola, porque, segundo minha teoria, não é parte dela, senão ornato”,7 diz Maldonado, e discorre sobre este ponto em particular com muito e sábio critério, glosando considerações feitas por São Jerônimo e São Beda.

Parece-nos curioso que os autores concentrem seus co­mentários sobre o homem que encontra o tesouro, mas sejam displicentes em considerar o campo onde estava ele escondido. Seja-nos permitido fazer uma aplicação a esse propósito.

Olhando para os primeiros tempos da Igreja, vemos quanto custou aos judeus e pagãos convertidos “comprar o campo” no qual se escondia o tesouro da salvação. A renúncia exigida era to­tal: família, bens, reputação e até a própria vida. Quão bem pro­cederam, todavia, os que então abraçaram a Fé Católica!

A humanidade atual, qual dos dois pa­péis representa: o do homem que deseja comprar ou o do que quer vender? Infelizmente, a quase totali­dade dos fatos nos incli­na à segunda hipótese. Muitos de nós, hoje em dia, caímos na insensatez de não mais nos importarmos com esse tesouro de nossa Fé, que tanto custou aos nossos antepas­sados, e pelo qual o Salvador derramou todo o seu preciosíssimo Sangue no Calvário. Por quão miserável preço vendemos, alguns de nós, esse tão elevado tesouro, tal como fez Esaú com sua pri­mogenitura, ao trocá-la por um mísero prato de lentilhas! Hoje, mais do que nunca, multiplicam-se as “lentilhas” da sensualida­de, da corrupção, do prazer ilícito, da ambição, etc.

Aqui também poderia estar incluída a figura do religioso que se deixa arrastar pelos afazeres concretos e vai se olvidando do “tesouro” pelo qual tudo abandonou em seu primitivo fervor.

Essa plenitude de alegria do homem da parábola deve nos acompanhar a vida inteira, sem interrupção, por ser um dos efeitos da verdadeira Fé. A virtude é um dom gratuito; não se compra. No entanto, sua posse contínua e crescente custa esfor­ços de ascese, piedade e fervor. É preciso “vendermos” todas as nossas paixões, caprichos, manias, vícios, sentimentalismos, em síntese, toda a nossa maldade. É o melhor “negócio” que se pos­sa fazer nesta Terra.

III – A parábola da pérola preciosa

45 “O Reino dos Céus também é como um comprador que procura pérolas preciosas. 46 Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola”.

“O Reino dos Céus é semelhante não ao mercador, e sim à pérola; como na parábola precedente ele não é semelhante ao homem que encontra o tesouro, mas ao próprio tesouro em questão”.8  Na Antiguidade, as pérolas eram consideradas de um valor inestimável. Por esse motivo, quem encontrasse à venda alguma de excelente categoria esta­ria disposto a desfazer-se de todos os seus bens para comprá­-la.9 O texto nos fala de “um comprador que procura pérolas preciosas”. Ele, ao adquirir uma de altíssima qualidade, não pensa em vendê-la — pelo menos nada consta a esse respeito na letra do Evangelho.

Sobre detalhes secundários, debatem entre si diversos au­tores. O importante é reter a ideia de que a presente parábola tem o mesmo sentido da anterior, variando apenas a matéria, ou seja, trata-se de, se necessário for, deixar tudo o que se possui com vistas a adquirir esse “tesouro”, ou “pérola”, que nada mais é do que o próprio Reino dos Céus.

A esse respeito pondera São João Crisóstomo: “Vede como o Evangelho é o tesouro escondido no mundo e como nele es­tão escondidos os bens!”. E mais adiante, completando seu pen­samento, afirma: “Com efeito, a verdade é una, e não é possível dividi-la em muitas partes. E assim como quem é dono de uma pérola sabe que é rico ― mas muitas vezes sua riqueza, que lhe cabe em uma mão, é desconhecida pelos demais —, da mesma forma, em seu devido tempo, ocorre com o Evangelho: os que o possuímos sabemos que com ele somos ricos; mas os infiéis, que desconhecem este tesouro, desconhecem também nossa riqueza”.10

De fato, quantos pensadores pagãos acabaram por aderir à verdade do Cristianismo, naqueles primeiros tempos, ao se senti­rem atraídos por sua doutrina, chegando alguns deles a entregar sua vida por amor a ela? Eram “bons negociantes de pérolas”.

Pelo contrário, numerosos chegam a ser, hoje, os que abandonam a “pérola” da verdade e preferem rolar no precipí­cio do erro, do equívoco e da confusão. Lançam-se, sem receio, nas águas turvas da indiferença e da tibieza a propósito de sua salvação eterna, do Reino e do próprio Deus. Para esses, o senso do ser vai se tornando cada vez mais embotado, a ponto de qua­se não mais distinguirem entre bem e mal, belo e feio, verdade e erro.

E quantos há que, conhecendo a verdade, a ela não se en­tregam, por pura falta de generosidade? Não “vendem todos os seus bens”. E quais são os que, no mundo atual, estão dispostos a tudo sacrificar para manter o estado de graça?

Enfim, essas duas parábolas completam-se harmoniosa­mente. Uma se refere ao pulchrum do Reino, a da pérola; a ou­tra busca inculcar-nos a ideia da vantagem, utilidade e prêmio, a do tesouro. Nesta última se reflete a gratuidade do Reino — “encontra” —; na anterior, o esforço — “procura”. Em ambas torna-se patente quanto deve desapegar-se dos bens deste mun­do todo aquele que deseja adquirir o Reino dos Céus.

IV – A parábola da rede

47 “O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. 48 Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam. 49 Assim acontecerá no fim dos tempos: os Anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, 50 e lançarão os maus na fornalha de fogo. E aí haverá choro e ranger de dentes”.

Continuamos ouvindo Jesus falar nas cercanias do Mar de Tiberíades, em cujas águas, segundo informações de entendidos, há aproximadamente trinta espécies dife­rentes de peixes. Descreve bem a realidade histórico-geográfica desta parábola o padre Manuel de Tuya,11 ao analisar segundo a legislação levítica os peixes que eram considerados impuros — devido à ausência de escamas, etc. — e outros classificados como maus por serem defeituosos. Daí que, ao chegar à praia a rede após ter sido puxada pelos pescadores, os bons fossem pos­tos em cestos e os maus recusados.

Esta cena, tão comum na vida diária de seus discípulos, é recordada pelo Divino Mestre com o intuito de lhes deixar claro que, para penetrar no Reino dos Céus, é indispensável ser bom cidadão neste mesmo Reino, que aqui começa com a vida sobre­natural. Só assim não seremos excluídos no nosso juízo particular e, portanto, também no Final. “A Santa Igreja se compara a uma rede, porque foi entregue a pescadores, e quem quer que seja é trazido por ela das ondas do presente século ao Reino Eterno, a fim de que não pereça submergido no abismo da morte eterna.

“Esta rede reúne todo tipo de peixes, porque chama ao per­dão dos pecados os sábios e os ignorantes, os livres e os escravos, os ricos e os pobres, os poderosos e os débeis. […] Estará comple­tamente cheia a rede, isto é, a Igreja, quando dentro dela se acolha o último homem; […] porque assim como o mar é figura do mun­do, também a margem é figura do fim dos tempos, em cujo ter­mo, é certo, os peixes bons são colocados em cestos e os maus são atirados fora, porque também os eleitos são recebidos nas man­sões eternas e os réprobos, perdida a luz do Reino interior, são lançados às trevas exteriores. Pois agora a rede da Fé nos recolhe a todos, bons e maus, como peixes mesclados em comum; mas logo na margem se verá os que estão dentro da rede da Santa Igreja”.12

Não só segundo São Gregório esta “rede” pode ser inter­pretada como uma imagem da Igreja; muitos outros autores opi­nam no mesmo sentido. A Igreja se compõe de justos, e também de pecadores. O mal que às vezes encontramos na sua parte hu­mana não deve nos assustar, nem mesmo escandalizar; já está previsto. Nem por isso deixa a Igreja de ser santa em sua es­sência, pois é ela divina. O que nos deve importar é buscar essa “pérola” e, encontrando esse “tesouro”, abandonar todo apego para sermos bons “peixes” nessa rede.

A tarefa da separação caberá aos Anjos, no dia do Juízo: os bons à direita, os maus à esquerda; os sacerdotes santos serão apar­tados dos sacerdotes sacríle­gos; os religiosos observantes, dos sensuais; os magistrados íntegros, dos injustos; serão re­cebidas as virgens prudentes, rejeitadas as néscias; as espo­sas fiéis afastadas das adúlte­ras; em síntese, os eleitos serão postos de um lado, e os répro­bos de outro.

Caberia aqui uma exaus­tiva descrição a respeito dos tormentos eternos dos maus no inferno, como também, e em contraposição a estes, dos gozos celestiais que terão os bons na vida eterna. Não fal­tará ocasião para se discorrer sobre tão importante matéria.

V – Epílogo

Jesus ensinava a seus discípulos a substância e as belezas do Reino dos Céus, constituindo-os doutores. Deste mo­do, altamente formados, deviam eles ensinar aos outros com abundância e variedade de doutrina, segundo o nível e neces­sidade de seus ouvintes, sem jamais serem surpreendidos “de mãos vazias”. “Porque da mesma maneira que o pai de família deve ali­mentar os seus com o mantimento corporal, assim o doutor evan­gélico deve sustentar o povo cristão com o sustento espiritual”.13

Para nós também constitui uma necessidade, quando te­mos outros sob nossa responsabilidade, empregarmos todos os meios da melhor erudição — antiga e atual — e da mais atraen­te didática, a fim de bem instruí-los e formá-los.

Jesus contemplava, nessa ocasião, o futuro de sua obra, já não mais somente com os conhecimentos eternos de sua di­vindade, nem apenas com os da visão beatífica de sua Alma na glória, mas através de sua experiência humana, e discernia os esplendores do desenlace final de todos os acontecimentos, de­pois de seus dramas e sofrimentos durante a Paixão. Exultava de alegria por ver com antecipação o triunfo de seus discípulos, da Igreja, e dos bons em geral após o Juízo, assim como a justiça do Pai desabando sobre aqueles que rejeitariam sua Revelação. Por isso, descortinava diante do público — como também de seus discípulos — panoramas do porvir, ora com tintas sombrias e carregadas de gravidade, ora com fulgores deslumbrantes e ma­ravilhosos. Seus ouvintes, às vezes, enchiam-se de temor e de terror, e, em outros momentos, de consolação e esperança. Pois o pavor é um excelente freio face ao convite do mal, e a esperan­ça é um dos melhores estímulos para nos conduzir a Deus.

Fixemos nosso entendimento e nosso coração nas maravi­lhas do Reino dos Céus, e conservemos um perseverante terror da eternidade no inferno. Desta forma, estaremos em condições para nos localizar entre aqueles convidados que se encontrarão à direita de Jesus, no Juízo Final! ²

 

1) SANTO AGOSTINHO. Confessionum. L.XII, c.25, n.34. In: Obras. 7.ed. Madrid: BAC, 1979, v.II, p.538.

2) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.7, a.7.

3) Idem, q.42, a.1, ad 2.  

4) Idem, I, q.1, a.5.  

5) SÃO JERÔNIMO. Comentario a Mateo. L.II (11,2-16,12), c.13, n.33. In: Obras Completas. Comentario a Mateo y otros escritos. Madrid: BAC, 2002, v.II, p.163.

6) MALDONADO, SJ, Juan de. Comentarios a los Cuatro Evangelios. Evangelio de San Mateo. Madrid: BAC, 1950, v.I, p.508.

7) Idem, p.508-509.  

8) Idem, p.509-510.

9) Cf. PLÍNIO, O VELHO. Naturalis Historia. L.IX, c.35.

10) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía XLVII, n.2. In: Obras. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo (46-90). 2.ed. Madrid: BAC, 2007, v.II, p.22.

11) Cf. TUYA, OP, Manuel de. Biblia Comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.V, p.321.

12) SÃO GREGÓRIO MAGNO. Homiliæ in Evangelia. L.I, hom.11, n.4. In: Obras. Madrid: BAC, 1958, p.577.  

13) MALDONADO, op. cit., p.512.