Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

21 de Janeiro

III Domingo do tempo comum – Ano B

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA Salmo 95, 1.6
Cantai ao Senhor um cântico novo,
cantai ao Senhor, terra inteira.
Glória e poder na sua presença,
esplendor e majestade no seu templo.

ORAÇÃO COLECTA
Deus todo-poderoso e eterno,
dirigi a nossa vida segundo a vossa vontade,
para que mereçamos produzir abundantes frutos de boas obras,
em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Jonas 3, 1-5.10
«Os habitantes de Nínive converteram-se do seu mau caminho»

Leitura da Profecia de Jonas
A palavra do Senhor foi dirigida a Jonas nos seguintes termos: «Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e apregoa nela a mensagem que Eu te direi». Jonas levantou-se e foi a Nínive, conforme a palavra do Senhor. Nínive era uma grande cidade aos olhos de Deus; levava três dias a atravessar. Jonas entrou na cidade, caminhou durante um dia e começou a pregar, dizendo: «Daqui a quarenta dias, Nínive será destruída». Os habitantes de Nínive acreditaram em Deus, proclamaram um jejum e revestiram-se de saco, desde o maior ao mais pequeno. Quando Deus viu as suas obras e como se convertiam do seu mau caminho, desistiu do castigo com que os ameaçara e não o executou.
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 24 (25), 4bc-5ab.6-7bc.8-9 (R. 4a)
Refrão: Ensinai-me, Senhor, os vossos caminhos. Repete-se

Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos,
ensinai-me as vossas veredas.
Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me,
porque Vós sois Deus, meu Salvador. Refrão

Lembrai-Vos, Senhor, das vossas misericórdias
e das vossas graças, que são eternas.
Lembrai-Vos de mim segundo a vossa clemência,
por causa da vossa bondade, Senhor. Refrão

O Senhor é bom e recto,
ensina o caminho aos pecadores.
Orienta os humildes na justiça
e dá-lhes a conhecer os seus caminhos. Refrão

LEITURA II 1 Cor 7, 29-31
«O cenário deste mundo é passageiro»

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios
O que tenho a dizer-vos, irmãos, é que o tempo é breve. Doravante, os que têm esposas procedam como se as não tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que andam alegres, como se não andassem; os que compram, como se não possuíssem; os que utilizam este mundo, como se realmente não o utilizassem. De facto, o cenário deste mundo é passageiro.
Palavra do Senhor.

ALELUIA Mc 1, 15
Refrão: Aleluia. Repete-se
Está próximo o reino de Deus;
arrependei-vos e acreditai no Evangelho. Refrão

EVANGELHO Mc 1, 14-20
«Arrependei-vos e acreditai no Evangelho»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia e começou a proclamar o Evangelho de Deus, dizendo: «Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho». Caminhando junto ao mar da Galileia, viu Simão e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores. Disse-lhes Jesus: «Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens». Eles deixaram logo as redes e seguiram Jesus. Um pouco mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, que estavam no barco a consertar as redes; e chamou-os. Eles deixaram logo seu pai Zebedeu no barco com os assalariados e seguiram Jesus.
Palavra da salvação.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Irmãos e irmãs: Para que a nossa resposta ao Evangelho de Jesus seja digna de tão grande chamamento, dirijamos ao Pai a nossa oração, dizendo (ou: cantando), com alegria:

R. Ouvi-nos, Senhor. Ou: Senhor, nós temos confiança em Vós. Ou: Senhor, vinde em nosso auxílio.

1. Pelo Papa N., pelos bispos, presbíteros e diáconos, para que, seguindo o caminho da fé, irradiem confiança, alegria e disponibilidade, oremos.

2. Pelos jovens da nossa Diocese que sentem o chamamento de Jesus, para que escutem a sua voz e O sigam, oremos.

3. Pelos responsáveis das nações em todo o mundo, para que descubram no Evangelho de Cristo o alicerce firme da justiça e da paz, oremos.

4. Pelos que se entregam ao serviço dos mais pobres, para que o Senhor lhes dê o seu Espírito e a perseverança nas dificuldades, oremos.

5. Por nós que participamos nesta celebração, para que tenhamos o desejo de viver na graça de Deus e de a ela voltar, se a viermos a perder, oremos.

Senhor, que, pela boca do vosso Filho, dissestes que o tempo se cumpriu e está próximo o reino de Deus, dai-nos um coração que saiba responder às surpresas inesperadas do Evangelho. Por Cristo Senhor nosso.
ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Aceitai benignamente,
e santificai Senhor, os nossos dons,
a fim de que se tornem para nós fonte de salvação.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Salmo 33, 6
Voltai-vos para o Senhor e sereis iluminados,
o vosso rosto não será confundido.

Ou Jo 8, 12
Eu sou a luz do mundo, diz o Senhor.
Quem Me segue não anda nas trevas,
mas terá a luz da vida.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Deus omnipotente,
nós Vos pedimos
que, tendo sido vivificados pela vossa graça,
nos alegremos sempre nestes dons sagrados.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

Não se deve dar tempo ao tempo, mas sim à eternidade

O chamado à conversão e o anúncio do Reino nos colocam na perspectiva de um “tempo abreviado” que deve ser vivido em função da eternidade.

 

I – Viver no tempo sob a perspectiva da eternidade

A comunicação de Deus com o homem — em particular nos episódios mais salientes narrados na Escritura Sa­grada — é o ponto central a partir do qual se desenrola a História. Como seria desejável assistir a todas as maravilhas da ação divina ao longo dos séculos, do grande mirante da eter­nidade, que só abandonaríamos no curto período entre nosso nascimento e o instante da morte! No entanto, dado que vive­mos dentro do tempo, isto não é possível. Mas também fazemos parte da História, e tudo o que veio antes de nós, assim como o presente e o futuro, tem íntima relação conosco. Como, então, nos associarmos aos passos de Deus em todas as épocas?

A Liturgia permite reviver a História da salvação

Eis a maravilha da Liturgia! Com efeito, ela nos faz parti­cipar não só dos acontecimentos celebrados, mas, inclusive, das mesmas graças concedidas em cada um deles, conforme afir­ma o Papa Pio XII na Encíclica Mediator Dei: “O Ano Litúrgi­co, que a piedade da Igreja alimenta e acompanha, não é uma fria e inerte representação de fatos que pertencem ao passado, ou uma simples e nua evocação da realidade de outros tempos. É, antes, o próprio Cristo, que vive sempre na sua Igreja e que prossegue o caminho de imensa misericórdia por Ele iniciado, piedosamente, nesta vida mortal, quando passou fazendo o bem (cf. At 10, 38) com o fim de pôr as almas humanas em contato com os seus mistérios e fazê-las viver por eles, mistérios que es­tão perenemente presentes e operantes, não de modo incerto e nebuloso”.1

Há um mês e meio abriu-se o novo Ciclo Litúrgico com o período do Advento, que revive ao longo de quatro semanas ― dedicadas à penitência e ao pedido de perdão por nossas faltas ― a espera da humanidade pela chegada do Messias. Vincula­mo-nos, assim, aos milênios que se seguiram desde a saída de Adão e Eva do Paraíso até o nascimento do Redentor. Exul­tando de alegria pela certeza de que uma mudança se verifica­ria e as coisas tomariam outra perspectiva, acolhemos Jesus na noite de Natal, O visitamos com os pastores e os Reis Magos, fugimos com Ele para o Egito, e O encontramos no Templo, se­parado de Nossa Senhora e de São José. Mais tarde assistimos ao seu Batismo, cuja comemoração encerra as festas e introduz o Tempo Comum, em que contemplaremos ao longo dos meses o começo da vida pública de Nosso Senhor, os milagres por Ele realizados, a indignação dos fariseus por perceberem a difusão de uma doutrina nova dotada de potência (cf. Mc 1, 27), dife­rente de tudo quanto ensinavam, bem como a insegurança e a inveja que os leva a querer matar o Filho de Deus.

Tempo Comum significa tempo de luta, de esforço no cum­primento do dever, de abnegação, de arrancar as nossas vaida­des, medidas fundamentais para a formação do caráter. Não é por acaso que neste 3º Domingo ouvimos o Divino Mestre de­clarar: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próxi­mo”.

Que tempo é este? Qual é o tempo que estamos vivendo? Avançam sem interrupção os ponteiros do relógio, sucedem-se os segundos, os minutos vão se escoando. A nossa vida se pauta pela expectativa dos instantes posteriores e do dia de amanhã… Que mensagem nos traz esta Liturgia ao falar da criatura tempo, enquanto nos convida a entrar no Reino de Deus?

A pregação de Jonas

Na primeira leitura (Jn 3, 1-5.10) Deus incumbe o profeta Jonas, pela segunda vez, de pregar em Nínive, mis­são que, como lemos em capí­tulos precedentes, ele aceita de má vontade. Convicto de que seus habitantes não iriam se converter, quiçá ele tenha pensado que as admoestações ao menos serviriam de elemen­to para condená-los, e por isso partiu com ímpeto de destrui­ção, tanto mais que os ninivi­tas se contavam então entre os adversários dos judeus. Como era uma cidade entregue aos vícios e de conceitos religio­sos desviados, predizer o seu castigo acabava sendo um de­leite para Jonas. Grande era a extensão de Nínive, a ponto de serem necessários três dias para ser percorrida, mas o pro­feta não poupou esforços em proclamar: “Ainda quarenta dias, e Nínive será destruída” (Jn 3, 4).

Ora, o rei e o povo leva­ram a sério sua palavra: “acre­ditaram em Deus; aceitaram fazer jejum, e vestiram sacos, desde o superior ao inferior” (Jn 3, 5). Por que agiram assim? Porque o Senhor lhes mostrou o seu caminho, e a sua verdade os orientou e conduziu, como reza o Salmo Responsorial (Sl 24, 4a.5a) da Liturgia de hoje. Desta forma eles adquiriram uma noção clara do rumo a ser seguido, e corresponderam à graça, atraindo a benevolência do Céu: “Ven­do Deus as suas obras de conversão e que os ninivitas se afasta­vam do mau caminho, compadeceu-Se e suspendeu o mal que tinha ameaçado fazer-lhes, e não o fez” (Jn 3, 10).

Neste domingo a Igreja deseja que, a exemplo dos nini­vitas, também nós atendamos à voz de Jesus que nos exorta: “Convertei-vos e crede no Evangelho!”.

II – O solene anúncio do Reino: “Convertei-vos!”

14 Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o Evangelho de Deus e dizendo: 15 “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!”

Vinha o Divino Mestre exercendo seu minis­tério de modo discre­to, em concomitância com os derradeiros meses da prega­ção do Precursor. De acordo com o relato do Evangelista São João ― objeto da conside­ração da Liturgia do anterior domingo (cf. Jo 1, 35-42) ―, nesse período Cristo encon­trou aqueles que posterior­mente passariam a integrar o número dos Doze, ao ser por Ele chamados de maneira definiti­va, como refere São Marcos nos próximos versículos.

A notícia da prisão de São João Batista constituiu o sinal es­perado por Jesus de que chegara a hora determinada pelo Pai para dar início à sua vida pública, abrir as comportas da graça e acentuar o tom de sua voz, predispondo as almas para seu apostolado. “Uma vez entregue João” ― comenta São Jerônimo ― “logo Ele mesmo começa a pregar. Com a Lei em declínio nasce, em consequência, o Evangelho”.2 Daí em diante nenhuma outra preocupação O detém, a não ser a de cumprir a missão redentora que Lhe fora confiada e mostrar o caminho da salvação. Qual é este caminho?

Em virtude da união hipostática, Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus e Homem verdadeiro; há n’Ele uma junção mis­teriosa entre as duas naturezas, na Pessoa do Verbo, que nos­sa inteligência jamais compreenderia sem um dom divino: a fé, na Terra, e a visão beatífica, na eternidade. Enquanto Homem, Ele dirá de Si mesmo: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6). Assim, o pedido de Davi, repetido no Salmo Respon­sorial ― “Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos, vossa verda­de me oriente e me conduza!” ―, torna-se n’Ele plenamente realizado. Ao formular este anseio faltava ao rei-profeta a ideia exata, como temos hoje, de qual era este Caminho. A nós que O conhecemos, é, pois, indispensável uma conversão.

O chamado à conversão e a perspectiva da eternidade

Converter-se significa mudar de vida, tomar um rumo di­ferente do que vinha sendo seguido, tal como fizeram os ninivi­tas ante a pregação de Jonas. Converter-se significa sair de uma situação materialista, naturalista e humana, para assumir uma postura angélica, sobrenatural e divina; esquecer os problemas banais para fixar-se numa perspectiva nova, não mais a do tem­po, mas a da eternidade, isto é, a do Reino de Deus. A quem de nós foi revelado o momento da morte? Nem sequer alguém muito jovem sabe se durará longos anos…

Quando recebemos o Batismo, passamos da condição de puras criaturas humanas à de filhos de Deus. No instante em que as águas batismais caíram sobre nossas cabeças, todos os pe­cados que pudéssemos haver cometido, se fomos batizados de­pois de adultos, foram perdoados ― inclusive os piores crimes ― e a nossa alma foi revestida de uma branca túnica. É neste estado que devemos mantê-la durante a vida inteira; e se vier a acontecer que um pedaço desta veste da inocência fique preso numa cerca ou seja ela manchada pela lama, basta um exame de consciência coroado por um pedido de perdão e a absolvição sacramental para que seja restaurada. O importante é conser­vá-la sempre alva, porque a qualquer hora ― até mesmo no dia de hoje! ― podemos ser chamados a prestar contas e, sem esta prerrogativa, não seremos aceitos no Reino de Deus. Eis o que a Liturgia recorda com as palavras: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo”.

Assim surge, no 3º Domingo do Tempo Comum, esta cria­tura de Deus: o tempo. E uma vez que a seus olhos o tempo não existe, porque tudo é presente, enquanto filhos de Deus nós so­mos convidados a viver em função da eternidade.

III – Um exemplo de mudança de vida

Belo exemplo de conversão nos é oferecido ainda pelo Evangelho, no qual Nosso Senhor vai convocar quatro pescadores — Simão e André, Tiago e João — para mudarem de vida, de trabalho e de situação.

A psicologia do pescador

16 E, passando à beira do Mar da Galileia, Jesus viu Simão e André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores.

É curioso observar que a escolha recaiu sobre pescadores. Jesus poderia ter designado sacerdotes, sinedritas, membros das escolas rabínicas — as universidades da época — ou quaisquer outras pessoas de maior projeção e influência. Mas quis pesca­dores…

Analisemos as características do pescador. Para ser bem sucedido ele precisa ter faro, certo tato, um “sexto sentido” pró­prio à sua profissão. Ao despertar de manhã, pelo vento, pela atmosfera, pela maresia e o tipo de ondas, sabe se o mar está piscoso e favorável ou se paira uma ameaça de tempestade, po­dendo ele mesmo vir a correr riscos; quais os pontos onde lançar a rede, e os que têm de ser evitados. Ele sabe que espécie de pei­xe corresponde a cada estação do ano, quando chegou a tempo­rada da desova e o período em que os peixes sobem, e distingue inclusive os costumes dos mais variados cardumes. Todo este co­nhecimento acaba lhe constituindo uma segunda natureza.

Ele se dedica à pesca para subsistir e não por puro dile­tantismo. Mais ainda, cabe ao pescador montar uma empresa, sendo-lhe exigido adequar as artes da pescaria ao relacionamen­to com a freguesia e, portanto, não apenas entender de pesca, mas estar a par das apetências dos consumidores da cidade. Por isso a sua vida está entre a atividade pesqueira e os interesses humanos, o que lhe proporciona, além da percepção das águas um atilado senso psicológico. Se for um ótimo pescador, porém um mau negociante, ou o contrário, seu ofício redundará num desastre. Ora, é dentre os pescadores que Cristo elege os seus. Por quê?

A graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa

17 Jesus lhes disse: “Segui-Me e Eu farei de vós pescadores de homens”.

Os Apóstolos de­veriam, dali em diante, pescar almas, não com o intuito de obter lucro, e sim para entregá-las a Deus. Ele, que “não su­prime a natureza mas a aperfeiçoa”,3 derrama­ria suas graças sobre as qualidades humanas dos discípulos com vistas a aproveitá-las, como res­salta Fillion: “As funções que lhes confiará, de­pois de tê-los preparado gradualmente, decerto não carecerão de seme­lhança com o ofício em que até então se haviam exercitado. […] Nele aprenderam a paciência e o animoso trabalhar”.4 O sobrenatural iria elevar e aprimorar as aptidões e os dons dos pescadores, oca­sionando-lhes extraordinárias possibilidades no cumprimento de sua vocação. Não era, pois, o caso de o Divino Mestre estar à pro­cura de outros se, naquele tempo, os pescadores se contavam en­tre os que possuíam mais senso psicológico, maior contato com a natureza e uma estupenda visão natural da obra da criação. Jesus preferiu estes porque, em suma, eram idealíssimos para dar início à formação do Colégio Apostólico e da Igreja.

Neste episódio reconhecemos uma prova da sabedoria de Deus e de sua bondade previdente: em duas barquinhas minús­culas, singrando um pequeno lago com quatro pescadores, esta­va o berço da Religião que iria transformar a face da Terra. Sim, “pela rede da santa pregação tiraram os homens do mar profun­do da infidelidade, conduzindo-os para a luz da Fé. Esta pesca é muito admirável, porque os peixes quando são colhidos morrem lentamente, enquanto os homens presos pela palavra da prega­ção são vivificados”,5 afirma São Remígio. Quem teria coragem de dizer aos gregos, aos romanos ou até aos bárbaros da época, que estes pobres trabalhadores triunfariam das civilizações tidas por grandiosas e sobre as suas ruínas iriam construir um impé­rio muito superior, a Civilização Cristã, com todas as riquezas e maravilhas estupendas que ela produziria no transcurso dos sé­culos? Santo Agostinho explica a razão mais elevada deste mo­do de proceder: “Se Deus houvesse escolhido um homem sábio, talvez esta eleição fosse atribuída à sua sabedoria. Nosso Senhor Jesus Cristo, que queria quebrantar a cerviz dos soberbos, não busca o pescador pelo orador, mas conquista o imperador pelo pescador”.6

Este modo de Jesus agir revela uma característica das vo­cações suscitadas por Deus: têm um aspecto genérico ― a gló­ria d’Ele, a que a totalidade das pessoas é destinada ― e outro específico. Cada um é chamado a uma determinada missão, que ninguém desempenhará tão bem quanto ele próprio. E é aqui­nhoado com qualidades humanas ordenadas ao cumprimento daquele objetivo, para o qual foi especialmente designado por Deus.

A figura usada ― “pescadores de homens” ―, todavia, é complexa, pois lançar a rede ao mar para pescar é coisa bem diversa de lançá-la numa praça para conquistar almas. Ser pes­cador de homens não rende dinheiro, enquanto de peixes, sim, sobretudo na sociedade judaica de então, dependente em gran­de medida da pesca e do pastoreio. Conhecedores da linguagem analógica e parabólica de Jesus, os quatro entenderam perfei­tamente o significado mais profundo do que lhes estava sendo dito.

Longa preparação para um reencontro definitivo

18 E eles, deixando imediatamente as redes, seguiram a Jesus. 19 Caminhando mais um pouco, viu também Tiago e João, filhos de Zebedeu. Estavam na barca, consertando as redes; 20 e logo os chamou. Eles deixaram seu pai Zebedeu na barca com os empregados, e partiram, seguindo Jesus.

Sendo o Evangelista sintético por excelência, São Marcos não conta os primeiros contatos de Nosso Senhor com Simão e André, Tiago e João, que antecederam a cena narrada nestes versículos. Encontro de emoção intensa, encontro cujas conse­quências teriam um alcance extraordinário, uma repercussão incalculável. Embora pareça fortuito, na realidade foi disposto desde toda a eternidade pelo braço onipotente de Deus. É evi­dente que Jesus não passou apenas dizendo “Segui-Me!”, pois houve um processo psicológico que foi preparando para esta en­trega aqueles discípulos que Ele próprio já havia colocado na escola de São João Batista. Trata-se, com efeito, dos mesmos que acompanharam Jesus quando ele passou pelas margens do Jordão, onde o Precursor estava batizando, como foi contem­plado no 2º Domingo do Tempo Comum. Eles acreditavam que Jesus era o Messias prometido, mas não tinham se tornado seus discípulos de forma incondicional e definitiva, conforme ressalta o padre Augustin Berthe: “Depois de terem seguido por algum tempo a este novo Mestre, tinham os quatro pescadores voltado às suas redes na expectativa das grandes coisas que devia operar o Libertador para salvar Israel”.7

Quantas conversas Ele não terá mantido com os quatro ― tal como no dia em que se conheceram ―, mostrando como a profissão de pescadores era interessante; entretanto, em lugar de contentar-se com ela, precisavam subir, porque mais impor­tante era atrair as almas para Deus, com vistas a reformar a face da Terra. Uma vez maduros, Cristo cruza com eles e, mediante um simples dito, os move a abandonar tudo para servi-Lo e se fixarem no apostolado, unindo-se a Ele para sempre. À seme­lhança do que vimos na primeira leitura, foram eles assistidos por uma autêntica graça de conversão.

Imaginemos a surpresa do reencontro, seguida de muita ale­gria, e a solicitude destes homens simples e rudes, mas de coração Lhe proporcionou, nesta hora, verdadeira felicidade, pois o ins­tinto de sociabilidade de Jesus-Homem — sublime, perfeito, ele­vadíssimo, totalmente assumido pela divindade — O levou a Se comover ao deparar com aqueles que seriam os seus Apóstolos, os seus filhos. Que “santa inveja” devemos ter deles!

Na ocasião, estes eleitos não eram capazes de avaliar a importância do ocorrido, nem atinar que estavam marcando a História. Porém, se eles houvessem vivido tal episódio após te­rem recebido tantas graças que lhes seriam derramadas mais adiante, e gozando, em decorrência, de uma altíssima compreensão da Pessoa de Nosso Senhor, qual não te­ria sido sua adesão de entusiasmo e sua veneração pe­lo Redentor!

Entrega sem reservas

Naquela época os pescadores constituíam uma camada social que, longe de ser a inferior do povo, equivalia à classe média de nossos dias. Zebedeu, pai de Tiago e João, possuía uma empresa ― em sociedade com Si­mão e André (cf. Lc 5, 10) ― e já havia reunido certo pecúlio, o que se conclui do fato de ter empregados para auxiliá­-lo. Por conseguinte, renunciar a esta posição, deixando o pai e as redes, era penoso; seguir Jesus não era empreen­der uma carreira com sucesso garantido; pelo contrário, era lançar-se no escuro, abraçar uma incógnita, porque passa­riam a viver de esmolas, deslocando-se sem cessar. Ninguém sabia o futuro que os aguardava, tanto mais que Nosso Senhor diria de Si: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu, seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça” (Mt 8, 20).

Ora, a docilidade e o desprendimento procedem da cari­dade. Os Apóstolos fizeram um ato de amor ao Mestre, a partir do qual já não pertencem a si mesmos, mas a Ele: são escravos d’Ele, não têm outro destino a não ser Ele! Para onde vão? Igno­ram! Nem sequer perguntam ou pensam nisto! Atitude perfeita, pois Nosso Senhor vinha pregando: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos!”. Um letrado, um doutor da Lei, um fariseu ou escriba pensaria: “Ah, que confian­ça ingênua!”. Não obstante, cabe-nos dizer: Arrebatador aban­dono! Que sabedoria a destes quatro! Que felicidade terem dito sim à graça, à vocação, com este ímpeto!

Neste Evangelho, como também na primeira leitura da profecia de Jonas, vemos que “a Palavra de Deus é viva, eficaz” (Hb 4, 12). Ela transforma, converte e santifica! Mais ainda, esta Palavra é salvífica, pois penetra e produz maravilhas, desde que saibamos corresponder a ela e sejamos flexíveis. Contudo, se lhe levantarmos obstáculos não daremos fruto — a menos que Deus, por uma misericórdia especial, nos “derrube do cavalo” como a São Paulo (cf. At 9, 4) —, pois Ele quer a nossa colabo­ração.

Quais são as nossas “redes”?

Para os discípulos a conversão significou deixar as redes. Quais serão as nossas “redes”? Quando o Filho de Deus nos chama, quando nos toca com uma graça no fundo da alma, co­mo respondemos a este apelo? Em todas as circunstâncias da vida Ele está nos convidando ad maiora. Qual é a nossa reação?

Nossos círculos sociais, determinadas relações de amizade, os afazeres diários, por vezes, nos afastam do verdadeiro objeti­vo, sugerindo-nos um sonho naturalista e mundano que não con­sidera a eternidade. Caprichos, manias, visualizações erradas, egoísmos, más inclinações precisam ser combatidos e rejeitados imediatamente, porque “o Reino de Deus está próximo”. O exemplo que nos dá o Evangelho nos impele a ascendermos a um patamar diferente. No que consiste ele? A partir do momen­to em que fomos elevados ao plano da graça pelo Batismo, não podemos mais obedecer aos ditames do mundo, nem ter como motor das nossas ações interesses pessoais, vaidades e orgulho. Devemos viver dos Sacramentos, da oração, de tudo aquilo que nos auxilia no cumprimento de nossa vocação individual e aban­donar a “rede” que nos liga às coisas terrenas, porque a nossa existência passou a ser outra! Estamos “angelizados”!

IV – A mensagem paulina: “o tempo está abreviado”

Na segunda leitura (I Cor 7, 29-31) diz São Paulo: “o tempo está abreviado” (I Cor 7, 29). As crianças têm a impressão de que o tempo demora a passar; um mês, é interminável. No entanto, conforme avançamos em idade, um ano parece um esfregar de olhos… Os dias se escoam rápido, e para quem tem experiência da vida tornam-se cada vez mais cur­tos, consumindo-se em acelerada contagem regressiva. De fato, quando se parte deste mundo o tempo é nada! E por mais que se venha a descobrir uma pílula capaz de prolongar a longevidade humana até 120 ou 240 anos, o que seria isto em comparação com a eternidade?

Por isso prossegue o Apóstolo: vivam “os que choram, como se não chorassem, e os que estão alegres, como se não estivessem alegres; e os que fazem compras, como se não pos­suíssem coisa alguma; e os que usam do mundo, como se de­le não estivessem gozando. Pois a figura deste mundo passa” (I Cor 7, 30-31). Sua intenção, nestes versículos, é mostrar que, havendo motivo, é bom derramarmos lágrimas, estarmos ale­gres, adquirirmos bens, usarmos das coisas do mundo que, de si, são lícitas; todavia, não depositemos nisto a nossa esperan­ça, nem nos deixemos fascinar a ponto de nos esquecermos de Deus. Chegada a hora da morte o corpo repousará no túmulo e a alma se encontrará diante d’Ele para ser julgada. Então, de que valerá o tempo? Sabemos que “a figura deste mundo pas­sa”. Que proveito terá aquele que caiu em pecado? No fundo, eis a mensagem paulina: “Tudo o que é legítimo pode ser feito, mas que ninguém ponha nisto o seu coração. Pelo contrário, fa­ça como se não existisse e tenha os olhos fixos na eternidade”.

Deixemos tudo para abraçar a santidade

É preciso meditar no dia do Juízo, quando todos os nossos pensamentos virão à tona. Se correspondermos ao convite da Liturgia deste domingo, firmando o propósito de nos unirmos mais ao Salvador e sermos exemplo de bem, de verdade e de virtude para o próximo, esta boa disposição pesará na sentença de cada um de nós.

Certos da bondade do Mestre, roguemos a Ele que nos dê forças para vencer as difi­culdades, pois o caminho do Céu não é fácil. Compenetremo-nos de que a cada passo nos cabe procurar ser mais perfeitos e con­formar nossas almas com a d’Ele, pelo princípio inerrante de que ou pro­gredimos ou nos tornamos tíbios. Na vida espiritual nunca estamos estagnados: quem não avança, re­trocede!

Peçamos, pois, a São Paulo, São Pedro, Santo André, São Tiago e São João que nos obtenham de Nosso Se­nhor Jesus Cristo a graça que eles re­ceberam: deixar tudo para abraçar a via da santidade, seja ela em família ou numa vocação religiosa, com coragem e cheios de confiança!

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1) PIO XII. Mediator Dei, n.150.

2) SÃO JERÔNIMO. Comentario a Mateo. L.I (1,1-10,42), c.4, n.3. In: Obras Com­pletas. Comentario a Mateo y otros escritos. Madrid: BAC, 2002, v.II, p.43.

3) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.1, a.8, ad 2.

4) FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Vida pública. Madrid: Rialp, 2000, v.II, p.22-23.  

5) SÃO REMÍGIO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. In Marcum, c.I, v.16-20.

6) SANTO AGOSTINHO. In Ioannis Evangelium. Tractatus VII, n.17. In: Obras. Madrid: BAC, 1955, v.XIII, p.239.

7) BERTHE, CSsR, Augustin. Jesus Cristo, sua vida, sua Paixão, seu triunfo. Einsiedeln: Benziger, 1925, p.114.