Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

19 de Novembro

XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA Jer 29, 11.12.14
Os meus pensamentos são de paz
e não de desgraça, diz o Senhor.
Invocar-Me-eis e atenderei o vosso clamor,
e farei regressar os vossos cativos
de todos os lugares da terra.

ORAÇÃO COLECTA
Senhor nosso Deus, concedei-nos a graça
de encontrar sempre a alegria no vosso serviço,
porque é uma felicidade duradoira e profunda
ser fiel ao autor de todos os bens.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Prov 31, 10-13.19-20.30-31
«Põe mãos ao trabalho alegremente»

Leitura do Livro dos Provérbios
Quem poderá encontrar uma mulher virtuosa? O seu valor é maior que o das pérolas. Nela confia o coração do marido e jamais lhe falta coisa alguma. Ela dá-lhe bem-estar e não desventura, em todos os dias da sua vida. Procura obter lã e linho e põe mãos ao trabalho alegremente. Toma a roca em suas mãos, seus dedos manejam o fuso. Abre as mãos ao pobre e estende os braços ao indigente. A graça é enganadora e vã a beleza; a mulher que teme o Senhor é que será louvada. Dai-lhe o fruto das suas mãos e suas obras a louvem às portas da cidade.
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 127, 1-2.3.4-5 (R. cf. 1a)
Refrão: Ditoso o que segue o caminho do Senhor. Repete-se

Feliz de ti que temes o Senhor
e andas nos seus caminhos.
Comerás do trabalho das tuas mãos,
serás feliz e tudo te correrá bem. Refrão

Tua esposa será como videira fecunda,
no íntimo do teu lar;
teus filhos serão como ramos de oliveira,
ao redor da tua mesa. Refrão

Assim será abençoado o homem que teme o Senhor.
De Sião te abençoe o Senhor:
vejas a prosperidade de Jerusalém
todos os dias da tua vida. Refrão

LEITURA II 1 Tes 5, 1-6
«Para que o dia do Senhor não vos surpreenda como um ladrão»

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo
aos Tessalonicenses
Irmãos: Sobre o tempo e a ocasião, não precisais que vos escreva, pois vós próprios sabeis perfeitamente que o dia do Senhor vem como um ladrão nocturno. E quando disserem: «Paz e segurança», é então que subitamente cairá sobre eles a ruína, como as dores da mulher que está para ser mãe, e não poderão escapar. Mas vós, irmãos, não andais nas trevas, de modo que esse dia vos surpreenda como um ladrão, porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia: nós não somos da noite nem das trevas. Por isso, não durmamos como os outros, mas permaneçamos vigilantes e sóbrios.
Palavra do Senhor.

ALELUIA Jo 15, 4a.5b
Refrão: Aleluia. Repete-se
Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós,
diz o Senhor.
Quem permanece em Mim dá fruto abundante. Refrão

EVANGELHO – Forma longa Mt 25, 14-30
«Foste fiel em coisas pequenas:
vem tomar parte na alegria do teu Senhor»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «Um homem, ao partir de viagem, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens. A um entregou cinco talentos, a outro dois e a outro um, conforme a capacidade de cada qual; e depois partiu. O que tinha recebido cinco talentos fê-los render e ganhou outros cinco. Do mesmo modo, o que recebera dois talentos ganhou outros dois. Mas o que recebera um só talento foi escavar na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor. Muito tempo depois, chegou o senhor daqueles servos e foi ajustar contas com eles. O que recebera cinco talentos aproximou-se e apresentou outros cinco, dizendo: ‘Senhor, confiaste-me cinco talentos: aqui estão outros cinco que eu ganhei’. Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel. Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes. Vem tomar parte na alegria do teu senhor’. Aproximou-se também o que recebera dois talentos e disse: ‘Senhor, confiaste-me dois talentos: aqui estão outros dois que eu ganhei’. Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel. Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes. Vem tomar parte na alegria do teu senhor’. Aproximou-se também o que recebera um só talento e disse: ‘Senhor, eu sabia que és um homem severo, que colhes onde não semeaste e recolhes onde nada lançaste. Por isso, tive medo e escondi o teu talento na terra. Aqui tens o que te pertence’. O senhor respondeu-lhe: ‘Servo mau e preguiçoso, sabias que ceifo onde não semeei e recolho onde nada lancei; devias, portanto, depositar no banco o meu dinheiro e eu teria, ao voltar, recebido com juro o que era meu. Tirai-lhe então o talento e dai-o àquele que tem dez. Porque, a todo aquele que tem, dar-se-á mais e terá em abundância; mas, àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado. Quanto ao servo inútil, lançai-o às trevas exteriores. Aí haverá choro e ranger de dentes’».
Palavra do salvação.

EVANGELHO – Forma breve Mt 25, 14-15.19-21
«Porque foste fiel em coisas pequenas,
vem tomar parte na alegria do teu senhor»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «Um homem, ao partir de viagem, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, conforme a capacidade de cada qual; e depois partiu. Muito tempo depois, chegou o senhor daqueles servos e foi ajustar contas com eles. O que recebera cinco talentos aproximou-se e apresentou outros cinco, dizendo: ‘Senhor, entregaste-me cinco talentos: aqui estão outros cinco que eu ganhei’. Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel. Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes. Vem tomar parte na alegria do teu senhor’».
Palavra da salvação.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Irmãs e irmãos: O Senhor manda-nos vigiar. Oremos uns pelos outros e por todos, para que os homens vivam dignamente, e digamos (ou: e cantemos), com toda a confiança:

R. Concedei-nos, Senhor, a vossa graça.

Ou: Pela vossa misericórdia, ouvi-nos, Senhor.

Ou: Ouvi, Senhor, a nossa súplica.

1. Pela Igreja, para que seja fiel em tudo a Cristo, pelos seus ministros, para que trabalhem com esperança, e pelos leigos, para que ponham os seus talentos a render, oremos.

2. Pelos que vivem como se o Senhor nunca viesse e pelos que temem que Ele venha a toda a hora, para que permaneçam vigilantes, mas em paz, oremos.

3. Pelas mães cristãs, para que iluminem os seus lares, pelos filhos e filhas, para que alegrem seus pais, e pelos maridos, para que sejam tementes a Deus, oremos.

4. Por aqueles a quem o Senhor deu muitos dons e por aqueles a quem o Senhor só deu alguns, para que todos os ponham a render, oremos.

5. Pelos fiéis mais disponíveis desta assembleia e por aqueles que dizem sempre não a tudo, para que recordemos que os talentos são dom de Deus, oremos.

Senhor, nosso Deus, fazei amadurecer em cada homem os frutos da vossa bondade, para que, no último dia, todos possam recebê-los transfigurados. Por Cristo Senhor nosso.
ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Concedei-nos, Senhor,
que os dons oferecidos para glória do vosso nome
nos obtenham a graça de Vos servirmos fielmente
e nos alcancem a posse da felicidade eterna.
Por Nosso Senhor.

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Salmo 72, 28
A minha alegria é estar junto de Deus,
buscar no Senhor o meu refúgio.

Ou Mc 11, 23.24
Tudo o que pedirdes na oração
vos será concedido, diz o Senhor.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Depois de recebermos estes dons sagrados,
humildemente Vos pedimos, Senhor:
o sacramento que o vosso Filho
nos mandou celebrar em sua memória
aumente sempre a nossa caridade.
Por Nosso Senhor.

 

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

Uma via segura para a salvação eterna

Os servos fiéis passaram todo o período de ausência do senhor
servindo-o com seriedade e suspirando pelo seu retorno. Ao ouvir que
ele chega e os chama, vão céleres ao seu encontro. O servo preguiçoso,
pelo contrário, acusa-o de injusto. Sua atitude erige-se assim,
em paradigma do comportamento dos pecadores que procuram
justificar suas faltas, atribuindo a Deus a causa das mesmas.

 

I – Seriedade de todos os nossos atos

Na parábola dos talentos — como na das virgens pruden­tes, que a antecede, formando com ela um conjunto —, Jesus nos ensina o caminho da felicidade eterna. Am­bas têm o seu início em uma analogia: “O Reino de Deus será semelhante a…” (Mt 25, 1). De fato, parábola, na língua grega, significa: comparação.

Precedendo estas duas passagens do Evangelho, o capítulo anterior de São Mateus nos traz a descrição do fim do mundo, saída dos lábios do próprio Salvador. A conclusão também se faz através de uma parábola, a do “servo mau”, demitido e lançado no lugar onde “haverá choro e ranger de dentes” (Mt 24, 51).

Novo prisma para a parábola dos talentos

Na passagem do Evangelho deste domingo imediatamente anterior ao de Cristo Rei, último do Ano Litúrgico, os exegetas costumam salientar as contas que, no fim da vida, cada um de nós deverá prestar a propósito dos “talentos” recebidos de Deus.

Os ensinamentos de Jesus, porém, são de uma riqueza inesgotável, e podem ser contemplados por uma infinitude de prismas, sendo um deles — e muito importante — a seriedade com que todo homem deve procurar cumprir a tarefa ou exer­cer a função da qual foi incumbido. Sobretudo, se elas são enco­mendadas não por um senhor terreno, mas pelo próprio Deus.

Seriedade no ver, julgar e agir

A rapidez frenética da modernidade torna difícil a reflexão sobre os acontecimentos cotidianos. Daí o fato de o homem con­temporâneo tender à superficialidade de pensamento e não ana­lisar em profundidade as consequências, boas ou más, de seus próprios atos.

Ora, tudo nesta vida é sério, pois somos criaturas de Deus e “é n’Ele que temos a vida, o movimento e o ser” (At 17, 28). Assim, o mais trivial dos nossos atos tem relação com realidades altíssimas, e pode nos acarretar graves consequências ou colo­car-nos diante de onerosas responsabilidades, se não for devida­mente executado.

Por isso, essa seriedade no exercício de uma função exige de nós, em primeiro lugar, uma inteira objetividade. É preciso ver a realidade como ela é, sem véus nem preconceitos, e sem permitir que seja distorcida por ansiedades ou frenesis. Dessa coerência no ver e no julgar, emanará a seriedade no agir. O que se tem a fazer deve ser começado logo, executado por inteiro, sem perda de tempo e sem interrupções desnecessárias.

Somos árvores cujos frutos são pobres, pecos e, frequentemente, podres

Não nos esqueçamos, entretanto, de que, sem o auxílio da graça, a natureza humana é incapaz de praticar com estabilidade a própria lei natural, e até de fazer algo meritório para a sal­vação eterna.1 Por nossa natureza decaída, somos árvores cujos frutos são pobres, pecos e, frequentemente, podres. Só quando a seiva da graça circula com força no caule e nos galhos dessa ár­vore, alcançando até mesmo as folhagens mais distantes da raiz, produzimos frutos abundantes e bons.

II – O senhor distribui seus bens e parte

Naquele tempo, Jesus contou esta parábola a seus discípulos: 14 “Um homem ia viajar para o estrangeiro. Chamou seus empregados e lhes entregou seus bens. 15 A um deu cinco talentos, a outro deu dois e ao terceiro, um; a cada qual de acordo com a sua capacidade. Em seguida viajou”.

Os três servos da parábola nada possuíam e, ao partir de viagem, seu senhor põe-lhes nas mãos todos os bens que lhe pertencem: oito talentos no total. Tratava-se de uma fortuna considerável, pois o talento não era propriamente uma moeda, mas uma unidade de valor equivalente a um lingo­te de prata de mais ou menos 26 kg. O conjunto desse tesouro comportava, portanto, cerca de 208 kg do precioso metal.

Tudo o que temos vem de Deus

Sobre este aspecto da parábola cabe já uma aplicação para nossa vida espiritual.

Cada um de nós é um servo de Deus que, de si mesmo, nada tem. Na ordem da natureza, recebemos do Criador o ser que Ele idealizou para nós desde toda a eternidade, munido de determinados atributos e dons. Junto com a existência, Ele nos deu também todos os bens necessários, tanto materiais quanto espirituais.

De nossos pais recebemos a geração humana, e não a alma, a qual é criada pelo próprio Deus e elevada à vida sobrenatural pelo Batismo. A partir desse momento, o rico legado de Cristo para sua Igreja fica direta e imerecidamente à nossa inteira dis­posição: sua doutrina, os Sacramentos, as graças, os benefícios decorrentes dos seus méritos, etc.

Os dons são distribuídos de forma desigual

Cabe também salientar que, ao distribuir os talentos entre os servos, o senhor da parábola o faz de forma desigual: para um dá cinco; para outro, dois; para o terceiro, um. Sendo o dono, ele pode repartir sua própria fortuna do modo que achar me­lhor, e, neste caso, distribuiu a cada um “de acordo com a sua capacidade”.

Perante essa diferença, os três servos agem bem. Os dois últimos não reclamam pelo fato de haver sido dado mais ao pri­meiro; os que têm menos não ficam com inveja do que recebeu mais, e este não despreza os outros dois. Sabem com segurança que tudo é do senhor. São meros administradores, e cada qual deverá prestar contas na proporção do valor que lhe foi confia­do. Por conseguinte, não há motivo para inveja, queixa ou, me­nos ainda, revolta.

É o que devemos fazer também nós, que somos servos do Senhor Nosso Deus. Ao receber d’Ele dons, não nos cabe perguntar se outros receberam menos ou mais, mas aplicar-nos em retribuir-Lhe da maneira mais completa, segundo as nossas próprias aptidões, estando sempre prontos a prestar contas des­ses talentos, e perguntando-nos repetidas vezes: “O que faço com os benefícios que de Deus recebi?”.

Deus outorga os dons em função de sua própria glória

Deus, ao distribuir seus dons entre nós, seus servos, não se atém a critérios humanos, e o faz segundo seu beneplácito, visando sua própria glória.

Os dons naturais ou espirituais que Ele nos outorga não vêm pautados pelos nossos desejos, aptidões ou méritos. Pelo contrário, Deus nos dota de qualidades em função da glória que para nós reservou no Céu. Deste modo, nossa inteligência, von­tade e sensibilidade, nossa mentalidade e nosso caráter nos são dados com vistas ao trono que devemos ocupar na eternidade. Nossa natureza e nosso espírito são por Ele preparados para re­ceber os dons sobrenaturais com que quer nos ornar, e todas as graças e benefícios com os quais Ele nos enche ao longo da vida estão orientados nesse mesmo sentido.

Deus, ao fazer-nos filhos adotivos seus, nos chama a ser­mos manifestações d’Ele próprio, bem como a participarmos de sua glória. Por isso, diz São Paulo aos Coríntios: “A ca­da um é dada a manifestação do Espírito para proveito co­mum. A um é dada pelo Espí­rito uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciên­cia, por esse mesmo Espíri­to; a outro, a fé, pelo mesmo Espírito; a outro, a graça de curar as doenças, no mesmo Espírito; a outro, o dom de milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, por fim, a interpretação das línguas. Mas um e o mesmo Espírito distribui todos esses dons, re­partindo a cada um como Lhe apraz” (I Cor 12, 7-11).

Somos membros de um só Corpo

Logo a seguir, o Apósto­lo acrescenta: “como o corpo é um todo tendo muitos mem­bros, e todos os membros do corpo, embora muitos, for­mam um só corpo, assim tam­bém é Cristo” (I Cor 12, 12).

A Igreja, com efeito, for­ma um Corpo no qual cada membro tem uma função diferente. Deus adapta as graças às di­versas funções e exige que cada um se aplique, na sua finalidade específica, dentro desse Corpo Místico. Diz São Paulo: A uns ele constituiu apóstolos; a outros, profetas; a outros, evangelis­tas, pastores, doutores, para o aperfeiçoamento dos cristãos, pa­ra o desempenho da tarefa que visa à construção do Corpo de Cristo” (Ef 4, 11-12).

E São Pedro exorta: “Como bons dispensadores das diver­sas graças de Deus, cada um de vós ponha à disposição dos ou­tros o dom que recebeu” (I Pd 4, 10).

Cada um de nós tem, portanto, uma missão específica. E não podemos querer — por egoísmo ou por ambicionar uma função que não nos foi atribuída — prejudicar a harmonia desse conjunto criado por Deus em sua infinita sabedoria.

III – Ausência do senhor

16 “O empregado que havia recebido cinco talentos saiu logo, trabalhou com eles, e lucrou outros cinco. 17 Do mesmo modo, o que havia recebido dois lucrou outros dois. 18 Mas aquele que havia recebido um só, saiu, cavou um buraco na terra, e escondeu o dinheiro do seu patrão”.

O senhor parte e, “logo”, o primeiro servo se põe em ação, indicando-nos claramente que nunca devemos perder tempo no serviço do Senhor. A partir do recebi­mento do uso da razão, devemos entregar-nos à causa de Deus e trabalhar apenas por ela. Tão logo cada um de nós se dá conta de qual é sua missão específica e quais as responsabilidades a ela inerentes, deve começar a agir sem demora, utilizando todos os dons que a Providência lhe deu para cumpri-la nesta vida.

Amor à autoridade que dá a tarefa

É necessário — como anteriormente vimos — que, ao assumirmos uma função ou ao sermos incumbidos de qualquer tarefa, desempenhemo-nos com senso de responsabilidade, com seriedade e diligência. Mas não só.

Por cima do objetivo concreto do nosso trabalho, consi­derado em si mesmo, devemos amar a legítima autoridade que nos deu o encargo, em especial quando se trata de um superior religioso. Neste caso, a nossa responsabilidade deixa de ser tão só material para elevar-se a um nível mais alto, dentro do qual o amor ao superior deve ser o motor eficaz e dinâmico na execu­ção da tarefa. O bom andamento do serviço e a própria realiza­ção do objetivo proposto estarão em função desse amor.

Afastemos de nós o equívoco de julgar que apenas os mon­ges, os sacerdotes ou as religiosas de um instituto de vida con­sagrada se encontram nessa situação. Qualquer simples fiel, ao obedecer ao Papa, ao Bispo ou ao pároco, ou a qualquer outro legítimo superior, na família ou na sociedade, deve ser movido primordialmente pelo amor à autoridade, instituída pelo pró­prio Deus.

Retribuir a Deus por dever de amor e de justiça

Quando quem nos impõe uma obrigação não é uma auto­ridade terrena, e sim o Senhor por excelência, o próprio Deus, o amor com que a executamos toma o caráter de suprema impor­tância.

Por amor e por dever de justiça, a Ele devemos toda obe­diência. É d’Ele que provêm nosso ser, inteligência, vontade, sensibilidade e todos os dotes naturais. E, sobretudo, de Nosso Senhor Jesus Cristo nos vem a Redenção, de um preço infinito, e com ela a graça, dom que nenhum talento humano é capaz de merecer.

O senhor passou muito tempo fora

19 “Depois de muito tempo, o patrão voltou e foi acertar contas com os empregados”.

Nas parábolas do Divino Mestre, nenhum detalhe é casual. As circunstâncias, e até os mínimos matizes da narração, são dis­postos pela sua absoluta sabedoria, para o nosso bem. Assim, detenhamo-nos um instante na análise do fato de Jesus ter assi­nalado que o senhor passou muito tempo fora.

Durante essa prolongada viagem, os servos que mais rece­beram não foram tomados pela preguiça nem pelo desamor. Pelo contrário, mantiveram plena fidelidade durante a ausência de seu senhor, perseverando de forma exemplar e fazendo frutificar, tan­to quanto lhes era possível, os talentos que ele lhes entregara.

Quais as consequências deste ensinamento?

Imaginemos que cada um de nós estivesse chamado a viver durante apenas seis meses com inteiro uso da razão. Em vista des­sa brevidade, faríamos todo o possível para apresentarmo-nos ao Tribunal Divino com o máximo de frutos, provenientes dos dons recebidos. Planejaríamos com cuidado a recepção dos Sacramen­tos, tomaríamos todas as medidas cabíveis para nos afastar das ocasiões de pecado, procuraríamos crescer em zelo e piedade du­rante esse curto período de progresso rumo à eternidade.

No entanto, a maioria dos homens é chamada a viver nesta Terra um tempo relativamente longo, ou que lhes parece longo. E por isso, o fervor inicial com que o homem empreende a via do Reino do Céu tende a não ser duradouro.

Recebemos uma graça e o entusiasmo nos pervade, em­preendemos uma obra com toda a energia para coroá-la, assu­mimos uma função fazendo os mais belos propósitos… mas esse primeiro impulso, muitas vezes, não perdura. Chega o momento em que o fervor inicial começa a retirar-se. A ausência do se­nhor, como que, se torna consciente no cotidiano; e começamos a nos dar conta de quão distante se encontra aquele que partiu.

A essa altura dos acontecimentos, desaparece a força que o senhor irradia com sua mera presença. No cumprimento das obri­gações que ele nos deixou, já nem sequer nos estimula a consi­deração de um retorno dele de modo repentino e imediato. Essa sensação de demora nos coloca em grave risco de esquecê-lo.

Tal é o que acontece com quem abraça a vida religiosa. No início, sente um entusiasmo capaz de derrubar todos os obstá­culos e vencer qualquer dificuldade; esse é o fervor de noviço, assim chamado por ser característico de quem acaba de entrar nas vias da perfeição. Algum tempo depois — mais longo para uns, menos longo para outros —, afasta-se lentamente a visão primaveril que encantou o religioso no início de sua vocação, e aquele entusiasmo primeiro começa a diminuir. Surgem então as dificuldades. Imerso no labor cotidiano, pesa-lhe a monoto­nia do dia a dia. Se ele não lutar contra essa provação, acabará por esquecer-se da glória de Deus, dos interesses da Igreja, à qual entregou sua vida, e do benefício da própria alma.

Contudo, esse fenômeno não se dá só com as almas con­sagradas. O mesmo, quantas vezes, se passa também com quem acaba de receber a Primeira Comunhão ou a Crisma, ou conclui algum período de formação religiosa! Nessas ocasiões, não pou­cos podem se sentir pervadidos de um fervor semelhante ao do noviço. Para estes, a perspectiva de uma vida longa bem pode vir a ser grave obstáculo para o fervor inicial continuar aceso!

IV – A recompensa e o castigo

20 “O empregado que havia recebido cinco talentos entregou-lhe mais cinco, dizendo: ‘Senhor, tu me entregaste cinco talentos. Aqui estão mais cinco que lucrei’. 21 O patrão lhe disse: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!’ 22 Chegou também o que havia recebido dois talentos, e disse: ‘Senhor, tu me entregaste dois talentos. Aqui estão mais dois que lucrei’. 23 O patrão lhe disse: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!’”

Pela maneira com que os dois servos fiéis se aproximam, podemos discernir uma espécie de sofreguidão, de san­ta ansiedade, da parte deles, pela chegada do seu se­nhor. Nota-se que tinham passado todo o tempo de sua ausência suspirando pelo seu retorno. Ao ouvirem que ele os chama, vão céleres ao seu encontro, porque percebem ter chegado o fim das penas, trabalhos e esforços. Acorrem logo e sem nenhum receio. O que temeriam eles de um senhor que sempre amaram e pelo qual sempre trabalharam?

Esta é a situação dos homens que, durante a vida, atua­ram com seriedade e diligência, utilizando todo o seu tempo no serviço do Senhor. Uma vez que cumpriram eximiamente o seu dever e souberam avaliar, aprimorar e agradecer os dons recebi­dos de Deus e deles se utilizar, não terão dificuldade alguma em deixar esta vida e passar para a eternidade.

A morte os encontrará alegres e desejosos de prestar con­tas Àquele que tudo lhes deu. Diante da perspectiva do juízo, não sentirão temor, mas sim uma santa avidez de ir gozar por todo o sempre da presença de seu Senhor.

Nós, que agora consideramos esta parábola, não podería­mos nos deter para um breve exame de consciência?

Quanto nos esforçamos por fazer render os dons que Deus nos deu para a glória d’Ele? Aplicamo-nos, como devemos, mui­to mais no serviço d’Ele do que em satisfazer o nosso egoísmo? Em que medida nossas retribuições, nossos louvores e nosso amor a Deus correspondem a tudo aquilo que Ele fez por nós?

Necessidade de restituir os talentos recebidos

Consideremos, a seguir, o belo gesto dos servos, reconhecendo que tudo pertence ao senhor e não se apro­priando de nada: “Se­nhor, tu me entregaste cinco talentos. Aqui estão mais cinco que lucrei. […] Senhor, tu me entregaste dois ta­lentos. Aqui estão mais dois que lucrei”.

Ao longo da nos­sa vida, Deus não dei­xa de nos conceder “talentos”. No Batismo, recebemos o dom por excelência que é a graça santificante, participação criada na vida incriada de Deus. A ela, por pura liberalidade divina, se acrescentam graças atuais ordinárias, operantes e cooperantes, e também graças atuais extraordinárias, que a Providência con­cede em circunstâncias especiais.

Perante tal profusão de “talentos”, devemos reconhecer, com gratidão, que todos esses dons pertencem a Deus. E quan­do deles “tiramos lucro” ao praticarmos uma boa obra, devemos saber ver, com humildade, quanto o mérito desse ato provém de Deus. Como os servos fiéis, precisamos retribuir a Deus tan­to pelos “talentos” recebidos, como por aqueles lucrados pelos nossos atos de virtude.

A recompensa dos servos fiéis

Os servos fiéis da parábola dobraram a soma recebida das mãos de seu senhor, mostrando como o trabalho feito com dili­gência, com amor, com responsabilidade, acaba sendo coroado pelo sucesso.

“Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na adminis­tração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!”. A seriedade com que ambos se comporta­ram merece de seu senhor idêntico e belíssimo elogio, o qual evoca o que receberão do próprio Deus todos quantos procede­ram bem durante sua existência terrena.

A resposta do senhor — “eu te confiarei muito mais” — lembra também outra verdade importante: quem corresponde às primeiras graças, em geral é beneficiado por outras ainda maio­res e por uma renovada força para ser fiel a elas. Toda graça bem correspondida abre as portas para Deus outorgar muitas outras; e quem, nesta Terra, deixa de corresponder a uma graça, corre o terrível risco de fechar as portas para as vindouras. Talvez, até, para aquelas que devem conduzi-lo à bem-aventurança eterna…

É importante ressaltar, por fim, que o prêmio é infinita­mente superior ao esforço que os servos fizeram: “Vem partici­par da minha alegria!”. Para um pobre mortal que sai desta vida, o entrar no Céu, o ver Deus face a face, o possuí-Lo, amá-Lo e gozar da sua essencial felicidade é algo inimaginável e muito acima de qualquer merecimento!

O servo que esconde o talento

24 “Por fim, chegou aquele que havia recebido um talento, e disse: ‘Senhor, sei que és um homem severo, pois colhes onde não plantaste e ceifas onde não semeaste. 25 Por isso fiquei com medo e escondi o teu talento no chão. Aqui tens o que te pertence’”.

O comportamento deste “servo mau e preguiçoso” é cho­cante e digno de toda reprovação, sobretudo se comparado com o dos servos “bons e fiéis”. Em lugar de exercer sua função de forma séria e responsável, ele esconde o talento, guiado por um medo pecaminoso que nada tem a ver com o timor reverentialis ― temor reverencial ― das almas virtuosas.

Durante a ausência do senhor, foge do cumprimento de sua obrigação e, ao ser chamado a prestar contas, revolta-se con­tra ele. Para justificar sua falta, ultraja aquele a quem deveria servir, acusando-o de ser injusto: “Senhor, sei que és um homem severo, pois colhes onde não plantaste e ceifas onde não se­measte”. Sua atitude erige-se em paradigma do comportamento dos pecadores que procuram justificar suas faltas, revoltando-se contra Deus e contra os outros. Nunca reconhecem sua culpa; tudo lhes serve de escusa para a sua má conduta.

Sofismarão que é muito difícil salvar-se, porque poucas são as pessoas que alcançam o Céu; ou afirmarão: “Minhas paixões são vivas demais…”; ou: “O mundo está tão corrompi­do…”. De nada servirá aconselhá-los a fazer um maior esfor­ço para domar suas paixões, se elas forem fortes demais; nem recomendar-lhes a fuga das ocasiões que os põem em grave risco. Pois esses pecadores não procuram corrigir-se, mas sim, como já foi dito, sempre buscam razões para justificar suas más obras.

A resposta do senhor

26 “O patrão lhe respondeu: ‘Servo mau e preguiçoso! Tu sabias que eu colho onde não plantei e que ceifo onde não semeei? 27 Então devias ter depositado meu dinheiro no banco, para que, ao voltar, eu recebesse com juros o que me pertence’”.

O senhor não se preocupa em refutar as afirmações do ser­vo infiel, porque a ofensa que ele lhe faz é tão sem fundamen­to que não merece resposta. Pelo contrário, vai diretamente ao ponto essencial do assunto, devolvendo-lhe a acusação.

O castigo

28 “Em seguida, o patrão ordenou: ‘Tirai dele o talento e dai-o àquele que tem dez! 29 Porque a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado. 30 Quanto a este servo inútil, jogai-o lá fora, na escuridão. Aí haverá choro e ranger de dentes!’”

A condenação do “servo mau e pre­guiçoso”, contida nes­tes versículos, mostra­-nos quão terrível será o suplício dos pecado­res no Juízo Final.

Nesse dia, seus falsos raciocínios serão desmascarados diante de todos, e eles senti­rão a mais viva vergo­nha. Os dons que a eles tinham sido concedi­dos, ser-lhes-ão arran­cados e entregues a outros, provocando-lhes uma inveja e amargu­ra tremendas. Aquilo que durante a vida desprezaram aparecerá ante seus olhos em todo o seu valor, enriquecido por Deus e posto nas mãos de outro que aproveitou melhor as graças recebidas.

A essas lancinantes dores, une-se a humilhação de ver-se condenado e jogado nos terríveis tormentos do inferno, sobre os quais, por falta de espaço, deixamos para falar em outra oca­sião.2

V – Medita nos teus Novíssimos

Meditar sobre a parábola dos talentos leva-nos, como vimos, a refletir a respeito da seriedade com que de­vemos conduzir todas as nossas ações. Salta aos olhos como isto traz para nós benefícios extraordinários.

Nesta parábola, todavia, Nosso Senhor nos ensina também a jamais nos apropriarmos de nada. Quer se trate de um dom gratuito, quer se trate de um benefício conquistado pelo próprio esforço, tudo é de Deus; d’Ele tudo recebemos e a Ele pertence tudo quanto fazemos, porque até as nossas capacidades pessoais e nosso próprio trabalho foram criados para sua glória.

A parábola dos talentos nos convida, e muito também, a voltarmos constantemente os olhos para o nosso fim último, que é Deus, bem como para o dia em que por Ele seremos julgados. “Em todas as tuas obras lembra-te dos teus Novíssimos, e nunca jamais pecarás” (Eclo 7, 40), diz a Sagrada Escritura. Se assim procedermos, teremos abraçado uma via segura para a nossa salvação eterna! ²

 

1) Um interessante aprofundamento sobre este assunto pode ser encontrado no capí­tulo XV de RODRIGUEZ Y RODRIGUEZ, OP, Victorino. Estudios de antropo­logia teológica. Madrid: Speiro, 1991, p.329-354.

2) Uma viva descrição de Santa Teresa de Jesus acerca dos tormentos reservados pa­ra ela no inferno, caso tivesse se condenado, podemos encontrá-la em: SANTA TERESA DE JESUS. Libro de la vida. C.XXXII. In: Obras Completas. Burgos: El Monte Carmelo, 1915, t.I, p.263-266.