Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

25 de Junho

XII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA Salmo 27, 8-9
O Senhor é a força do seu povo,
o baluarte salvador do seu Ungido.
Salvai o vosso povo, Senhor, abençoai a vossa herança,
sede o seu pastor e guia através dos tempos.

ORAÇÃO COLECTA
Senhor, fazei-nos viver a cada instante
no temor e no amor do vosso Santo nome,
porque nunca a vossa providência abandona
aqueles que formais solidamente no vosso amor.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Jer 20, 10-13
«Salvou a vida dos pobres das mãos dos perversos»

Leitura do Livro do profeta Jeremias
Disse Jeremias: «Eu ouvia as invectivas da multidão: ‘Terror por toda a parte! Denunciai-o, vamos denunciá-lo!’. Todos os meus amigos esperavam que eu desse um passo em falso: ‘Talvez ele se deixe enganar e assim o poderemos dominar e nos vingaremos dele’. Mas o Senhor está comigo como herói poderoso e os meus perseguidores cairão vencidos. Ficarão cheios de vergonha pelo seu fracasso, ignomínia eterna que não será esquecida. Senhor do Universo, que sondais o justo e perscrutais os rins e o coração, possa eu ver o castigo que dareis a essa gente, pois a Vós confiei a minha causa. Cantai ao Senhor, louvai o Senhor, que salvou a vida do pobre das mãos dos perversos».
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 68 (69), 8-10.14.17. 33-35 (R. 14c)
Refrão: Pela vossa grande misericórdia,
atendei-me, Senhor. Repete-se

Por Vós tenho suportado afrontas,
cobrindo-se meu rosto de confusão.
Tornei-me um estranho para os meus irmãos,
um desconhecido para a minha família.
Devorou-me o zelo pela vossa casa
e recaíram sobre mim os insultos contra Vós. Refrão

A Vós, Senhor, elevo a minha súplica,
no momento propício, meu Deus.
Pela vossa grande bondade, respondei-me,
em prova da vossa salvação.
Tirai-me do lamaçal, para que não me afunde,
livrai-me dos que me odeiam e do abismo das águas. Refrão

Vós, humildes, olhai e alegrai-vos,
buscai o Senhor e o vosso coração se reanimará.
O Senhor ouve os pobres
e não despreza os cativos.
Louvem-n’O o céu e a terra,
os mares e quanto neles se move. Refrão

LEITURA II Rom 5, 12-15
«O dom gratuito não é como a falta»

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos: Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram. De facto, até à Lei, existia o pecado no mundo. Mas o pecado não é levado em conta, se não houver lei. Entretanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo para aqueles que não tinham pecado por uma transgressão à semelhança de Adão, que é figura d’Aquele que havia de vir. Mas o dom gratuito não é como a falta. Se pelo pecado de um só todos pereceram, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a todos os homens.
Palavra do Senhor.

ALELUIA Jo 15, 26b.27a
Refrão: Aleluia. Repete-se
O Espírito da verdade dará testemunho de Mim,
Q95;diz o Senhor,
e vós também dareis testemunho de Mim. Refrão

EVANGELHO Mt 10, 26-33
«Não temais os que matam o corpo»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos: «Não tenhais medo dos homens, pois nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nada há oculto que não venha a conhecer-se. O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia; e o que escutais ao ouvido proclamai-o sobre os telhados. Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei antes Aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo. Não se vendem dois passarinhos por uma moeda? E nem um deles cairá por terra sem consentimento do vosso Pai. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Portanto, não temais: valeis muito mais do que todos os passarinhos. A todo aquele que se tiver declarado por Mim diante dos homens, também Eu Me declararei por ele diante do meu Pai que está nos Céus. Mas àquele que Me negar diante dos homens, também Eu o negarei diante do meu Pai que está nos Céus».
Palavra da salvação.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Irmãs e irmãos em Cristo: Elevemos as nossas preces ao Senhor, que, pela sua grande misericórdia, pode libertar a vida dos pobres, e peçamos com fé (cantando):

R. Ouvi-nos, Senhor. Ou: Senhor, nós temos confiança em Vós. Ou: Senhor, vinde em nosso auxílio.

1. Pelo nosso Bispo N., presbíteros e diáconos, para que dirijam a Igreja de N. com sabedoria, no caminho da santidade e da salvação, oremos.

2. Pelos governos e autoridades deste mundo, para que digam a verdade aos cidadãos e não se sirvam do poder em seu proveito, oremos.

3. Pelos que lutam por mais justiça e bem-estar, para que o façam segundo o Evangelho e defendam corajosamente quem é mais fraco, oremos.

4. Por aqueles a quem Deus chama no seu íntimo, para que busquem com ardor os bens eternos e se declarem por Jesus em toda a parte, oremos.

5. Por nós próprios que escutámos a Palavra, para experimentarmos o perdão de Deus, que supera todos os nossos pecados, oremos.

Reunidos, Pai santo, em assembleia, celebramos a grande indulgência que veio até nós em vosso Filho Jesus Cristo, e Vos pedimos que, por seus méritos infinitos, nos perdoeis todos os pecados e as suas penas. Por Cristo Senhor nosso

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Por este sacrifício de reconciliação e de louvor,
purificai, Senhor, os nossos corações,
para que se tornem uma oblação agradável a vossos olhos.
Por Nosso Senhor.

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Salmo 144, 15
Os olhos de todos esperam em Vós, Senhor,
e a seu tempo lhes dais o alimento.
Ou Jo 10, 11.15
Eu sou o Bom Pastor
e dou a vida pelas minhas ovelhas, diz o Senhor.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Senhor, que nos renovastes
pela comunhão do Corpo e do Sangue de Cristo,
fazei que a participação nestes mistérios
nos alcance a plenitude da redenção.
Por Nosso Senhor..

 

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E. P.

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I – Fundo de quadro

O homem e a procura da verdade

s palavras voam e a escrita permanece”, diz um anti­go ditado. De fato, quão imensurável é o montante de frases, considerações e discursos proferidos pelos homens, volatilizados ao longo da História! Entretanto, muitas vezes a própria palavra escrita perece. Onde foram parar os im­pressos produzidos em todos os cantos da Terra, a partir de Gu­tenberg? Muitos desapareceram sem deixar traço.

A verdade, porém, é perene. A mentira, os sonhos fanta­siosos, as desconfianças infundadas e outros delírios do gênero têm curta duração; o tempo se encarrega de apagar sua lem­brança.

Todavia, apesar de a verdade gozar de sólida estabilidade, às vezes não é fácil discerni-la. Em virtude do nosso senso do ser, nós a procuramos noite e dia sem cessar, e às vezes não a encontramos porque nosso egoísmo, ou nosso amor-próprio, ou nossas paixões desordenadas se interpuseram como obstáculo. Quando a fé não ilumina a razão, e esta não orienta retamen­te a vontade, criamos critérios próprios, carregados de cores desproporcionadas que, com maior ou menor intensidade, alte­rarão a objetividade da verdade. Por outro lado, pelo desvario de nossos prazeres, apetências e imaginações, modelamos se­gundo as leis da mentira tudo aquilo que ilusoriamente o capri­cho nos apresenta como eterna felicidade.

Só por essa razão já podemos medir como foi importante Jesus haver instituído o Papado. Se não tivéssemos Papa, onde obteríamos consistentes interpretações da Revelação, da Fé e da moral?

O famoso compositor Verdi1 atribuiu à mulher a mobilidade de uma pluma ao vento, mas enganou-se restringindo a ela esse predicado. Na verdade, trata-se de uma característica do pensamento humano in genere.

Diante desse problema, como podemos ver a verdade, por nós mesmos, sem véus nem fantasias?

A morte, fim de todas essas quimeras

Vivemos nesta Terra em estado de prova e de passagem. Tão precária é nossa situação que nos enganamos com facilidade, mesmo a propósito do tempo, vivendo como se nossa permanên­cia neste mundo fosse eterna. Não é raro cruzar pela nossa mente aquele sonho da possível descoberta do elixir da longa vida, ou do elixir da própria imortalidade. Muitos prefeririam estender ao in­finito os limites de sua existência terrena, transformando-a numa espécie de limbo perpétuo, quer dizer, um tipo de vida no qual pudessem ter felicidade natural, sem nenhum voo de espírito. Es­ses participam, consciente ou inconscientemente, de um culto im­plícito que poderia muito bem ser rotulado de “limbolatria”.

A morte, com sua implacabilidade e trágica realidade, põe fim a essas quimeras, e retira de nossos olhos os óculos que fal­seiam a visão do universo criado e do relacionamento de cada um de nós com o próximo e com Deus. Ademais, a morte traz consigo o juízo divino: “nada há de encoberto que não seja revelado”.

Aqueles de nós que se entregam ao pecado, fazem-no mui­tas vezes às escondidas, longe da vista alheia, por causa do senti­mento de vergonha, esquecendo-se de que não podem se escon­der da vista de Deus, pois n’Ele fomos criados, n’Ele existimos e n’Ele nos movemos, segundo ensina São Paulo (cf. At 17, 28). Nada escapa à lembrança de Deus. Pensamentos, desejos, pala­vras, silêncios, atos e omissões de cada um de nós, segundo por segundo, são conhecidos por Deus: “até os cabelos da vossa ca­beça estão todos contados”.

É sobre isso que Jesus nos fala no Evangelho de hoje: tudo quanto houver de mais oculto será descoberto e todos conhece­rão tudo de todos.

Dois serão os momentos da verdade: o do juízo particular e o do Juízo Final. Não haverá contradição entre um e outro, nem sequer será um a revisão do outro, e sim uma confirmação. Nossas ilusões, como também nossas faltas ou virtudes, sempre têm não só uma repercussão social, mas até mesmo efeitos cor­relacionados com a ordem do universo. Desse modo, ao homem como indivíduo cabe um juízo particular e, enquanto membro de uma sociedade, um Juízo Universal.

O juízo particular

Não estaremos a sós nem sequer no juízo particular, pois Deus, a Verdade em sua essência, estará presente. Nessa oca­sião reveremos todas as nossas impressões, apreços, ânsias ou raciocínios pelo prisma da Verdade, que Se apresentará majes­tosa diante de nós. Nessa hora, de que nos adiantarão as hon­ras, as riquezas, os prazeres, os romantismos e coisas do gênero? Terrível será comparecer a esse juízo em estado de pecado, sem o devido arrependimento e sem ter recebido o Sacramento da Reconciliação! Terrível, porque não haverá mais tempo para im­plorar perdão…

Que Deus não nos permita cair em tal situação. Quem ti­vesse essa desventura, veria até mesmo os méritos da Paixão e Morte de Cristo — no entanto colocados à nossa disposição pa­ra salvar-nos — levantando-se contra si para condenar. O bom e misericordioso Jesus, todo feito de suavidade, estaria a invo­car o seu preciosíssimo Sangue, derramado todo na Cruz, como motivo de condenação, para lançar o infeliz imediatamente no inferno.

Aqueles que um dia clamaram: “Caia sobre nós o seu San­gue e sobre nossos filhos” (Mt 27, 25) assistiram, anos depois, à tremenda catástrofe da destruição de sua amada Jerusalém. Castigo análogo e infinito se precipitaria sobre nós se caminhás­semos ao encontro de Jesus sem estarmos devidamente em or­dem. Ah! Se tivéssemos sempre claro aos nossos olhos que com nossos pecados preparamos o dia da cólera divina, seríamos santos. Quanto mais pecamos, mais ira acumulamos sobre nossa cabeça e mais implacável será nosso juízo! O Evangelho de hoje nos traz uma advertência no sentido de jamais cometermos pe­cado, e, se por desgraça cairmos, de procurarmos sem tardança a reconciliação com Deus. “Hodie, si vocem eius audieritis, nolite obdurare corda vestra — Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endure­çais os vossos corações” (Hb 3, 15).

O Juízo Final

Pelo prisma da repercussão social do pecado, é indispensá­vel até mesmo para a plenitude do triunfo de Cristo a realização de um Juízo Universal.

Jesus fez-Se Homem com uma doçura insuperável; é im­possível haver maior manifestação de humildade, pobreza e mi­sericórdia do que a d’Ele. Seu desejo de derramar todo o seu Sangue para salvar a humanidade, elevá-la a um plano divino e, assim, abrir-lhe um caminho seguro, feliz e santo para a eterni­dade, realizou-se com perfeição.

Indo em sentido oposto, a maior parte da humanidade pi­sou sobre esse Sangue, preferindo as vias do pecado e dos pra­zeres ilícitos. Por isso, o valor infinito dos méritos do sacrifício do Calvário impõe a realização de um Juízo Universal, a fim de “reunir em Cristo todas as coisas” (Ef 1, 10). Se Ele foi publica­mente ofendido, é indispensável que também de forma pública sejam proclamados seu poder, honra e glória. Antes de se ini­ciar uma nova era histórica — a da eternidade, na qual todos viverão ressurrectos, em corpo e alma, alguns na glória, outros condenados ao inferno —, será necessário ficar claro para todos o quanto o livre-arbítrio não significa a liberdade de praticar o mal, de pensar e abraçar o erro e de cultuar o feio. Todos devem ver também, com toda a evidência, que o prêmio dos bons vem do fato de submeterem sua vontade a Cristo, motivo pelo qual são chamados a reinar com Ele nos Céus.

O Juízo Final tem, ademais, um importante papel no to­cante à vida social, pois facilmente nos equivocamos, julgando que a morte encerra de maneira cabal a presença e a ação dohomem sobre a Terra. Tanto uma como a ou­tra continuam de um modo indireto.

Desta forma, não é raro acontecer que a boa ou má fama de um falecido, contrária à verdade, permaneça na lembrança de eras históricas inteiras. Às vezes, filhos maus de pais bons tornam equí­voca a interpretação dos atos de seus pro­genitores, e vice-versa. Por mais que haja um violento corte entre a vida no tempo e a pas­sagem para a eternida­de, não poucas vezes os efeitos das obras boas ou más realiza­das aqui, continuam a repercutir por longos anos.

“Por justo juízo de Deus, fui condenado!”

Este é um assunto tão rico que mesmo uma vasta bibliote­ca não conseguiria abarcar todas as obras necessárias para abor­dá-lo de maneira exaustiva. Contudo, para efeitos do presente artigo, vale a pena ilustrá-lo considerando um fato preservado pela tradição da Ordem dos Cartuxos.

Conta sua história que seu fundador, São Bruno, resol­veu abandonar o mundo e tornar-se monge ao testemunhar espantoso acontecimento passado com um então célebre per­sonagem da Paris do século XI, Raymond Diocrés, doutor em teologia, professor e considerado pessoa muito virtuosa. Fa­leceu ele no ano de 1082. Uma multidão, com destaque para seus alunos, acorrera para velar seu corpo, colocado, conforme o costume da época, num majestoso leito e coberto com um suave véu.

Sob o olhar atento dos presentes, deu-se início ao Ofício de Defuntos. Ora, a certa altura, na leitura de uma das lições é proclamada a pergunta: “Responde-me: quão grandes e nume­rosas são tuas iniquidades?”.

Qual não foi o espanto de todos, ao ouvirem uma voz se­pulcral, mas clara, saída de baixo do véu mortuário dizendo:

— Por justo juízo de Deus, fui ACUSADO!

Interrompem o Ofício e levantam o véu, e ali estava o mor­to gelado e enrijecido, sem o menor sinal de vida.

Recomeçam o Ofício e, novamente, ao se chegar à pergun­ta acima mencionada, “responde-me”, espanto muito maior: o corpo, antes rígido, desta vez se levanta à vista de todos e, com voz mais sonora e forte, afirma:

— Por justo juízo de Deus, fui JULGADO!

E, logo a seguir, cai sobre o leito.

Numa atmosfera de terror generalizado, os médicos ana­lisaram o cadáver, atestando com cuidado a inexistência do me­nor sopro de vida, inclusive por estarem rígidas as articulações. Não houve clima psicológico para retornarem às orações ofi­ciais, que foram transferidas para o dia seguinte.

A cidade de Paris ferveu de comentários e discussões so­bre o caso: uns defendiam a tese de que aquele homem havia si­do condenado, e era então indigno das bênçãos da Igreja; outros afirmavam que todos nós seremos ACUSADOS, e depois JUL­GADOS. O próprio Bispo oficiante foi partidário desta opinião e, por isso, reiniciou, no dia seguinte, a mesma cerimônia, desta vez ainda mais concorrida, com um público pervadido de extre­ma apreensão e curiosidade.

Na mesma passagem da quarta leitura de Matinas, o Bispo proclamou: “Responde-me…”. Em meio ao grande suspense, o falecido Raymond Diocrés se levantou e, numa voz aterradora, exclamou:

— Por justo juízo de Deus fui CONDENADO!

E tornou a cair imóvel.

Não havia dúvida, estava desfeito o enorme equívoco so­bre sua imerecida reputação e falsa glória. Por ordem das auto­ridades eclesiásticas, o corpo foi despojado de suas insígnias e lançado em vala comum.

O episódio marcou profundamente aqueles anos e foi esta a razão pela qual Bruno e seus primeiros quatro companheiros, testemunhas oculares do fato, resolveram abandonar o mundo e abraçar a vida religiosa, resultando daí a fundação da Ordem dos Cartuxos.

“Dies iræ, dies illa…”

Por esse ilustrativo acontecimento podemos fazer ideia de quão numerosos serão os equívocos sobre a realidade das cons­ciências e dos juízos de Deus. E só por essa narração já se enten­deria melhor a necessidade de um Juízo Universal.

Em sua sóbria mas eloquente majestade, a Santa Igreja canta os aspectos terríveis daquele dia, na Sequência da Missa de Requiem: o Dies Iræ. Mozart dizia estar disposto a trocar a honra que todas as suas obras lhe granjearam, pela autoria desse único moteto gregoriano.

“Dia da ira, aquele dia, será tudo cinza fria […]. Que temor será causado, quando o Juiz tiver chegado, para tudo examinar! […] Vai um livro ser trazido, no qual tudo está contido, onde o mundo está julgado. Quando Cristo Se sentar, o escondido vai brilhar, nada vai ficar impune”.2

Naquele dia, saber-se-á a razão das perseguições, das here­sias, dos martírios, das calúnias, das invejas, de tudo. Será o dia do triunfo da justiça divi­na, cada um receberá à vista de todos aquilo que merece. Porém, não será um dia mar­cado por vinte e qua­tro horas, e sim eterno. Pelos séculos dos sécu­los, sem fim, as minú­cias do comportamen­to de cada um dos se­res humanos ficará na lembrança dos Santos e dos condenados.

Assim, não de­vemos descuidar de nossa salvação eterna, tal qual nos recomen­dam Doutores e espi­ritualistas, como Mon­sabré, de quem encon­tramos esta cogente advertência: “Comparecereis muito em breve diante do trono de vosso grande Juiz. Ouvireis sair de sua boca uma bênção ou uma maldição? Eu o ignoro. Tudo quanto posso dizer é que necessitais tomar vossas garantias seguindo este conselho do Apóstolo: ‘Com temor e tremor trabalhai por vossa salvação’ (Fl 2, 12)”.3

II – Comentário sobre o Evangelho

Este é o fundo de quadro do Evangelho de hoje e, por isso, começa ele com o firme conselho:

Naquele tempo, disse Jesus a seus Apóstolos: 26 “Não tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado, e nada há de escondido que não seja conhecido”.

Jesus envia seus discípulos em missão e profetiza as per­seguições que por causa d’Ele sofrerão, conforme relatam os versículos anteriores. Por isso recomenda-lhes confiarem em seus conselhos, como, por exemplo, o de serem perseverantes e destemidos na pregação do Evangelho, pois serão amparados e protegidos pelo Pai que está nos Céus, sobretudo no tocante à salvação eterna. Esta será a constante das outras passagens.

27 “O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados!”

Para melhor entendermos este versículo, devemos nos re­portar aos costumes da época.

Aos sábados, dia reservado ao Senhor, todos se reuniam na sinagoga para ouvir a Palavra de Deus. Ao contrário do que se imaginaria, o leitor não apenas lia em voz baixa, como tam­bém não se dirigia aos assistentes, mas falava a um intermediá­rio perto dele, o qual, por sua vez, proclamava em alta voz o que ouvia.

Outro costume tinha lugar às sextas-feiras à tarde. O mi­nistro da sinagoga subia ao mais alto teto de uma das casas da cidade e tocava fortemente uma trombeta, advertindo todos os trabalhadores de que era hora de retornarem aos seus lares, pois aproximava-se o repouso sabatino religioso.

O Divino Mestre usou essas figuras da vida comum e cor­rente naqueles tempos para ilustrar qual devia ser a disposição de alma dos discípulos, ao exercerem o ministério de arautos do Evangelho. E, havendo-as mencionado, torna Jesus a incentivá­-los à confiança.

28 “Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno!”

Os judeus ortodoxos, contrariamente aos saduceus, acre­ditavam na imortalidade da alma e, por tal motivo, comenta São João Crisóstomo: “Vede como também aqui o Senhor não lhes promete livrá-los da morte. Ele permite que morram, contudo lhes faz maior benefício que se não houvesse permitido. Porque muito mais do que livrá-los da morte é persuadi-los a que des­prezem a morte. Assim, não os lança temerariamente aos peri­gos, mas os faz superiores a todo perigo. E notai como o Senhor, com uma breve palavra, grava em seus corações o dogma da imortalidade da alma e como, vincada esta doutrina salvadora, passa a animá-los com outros raciocínios”.4

Em seguida, Jesus lhes apresenta duas significativas metá­foras, relacionadas com a Providência Divina.

29 “Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai”.

A moeda que a tradução litúrgica se refere era o asse, a menor moeda usada pelos romanos. Cunhada em bronze, valia a décima sexta parte de um denário. Portanto, além de não ser judaica, tinha valor real insignificante. Dois passarinhos valiam tão pouco que eram vendidos por esse preço irrisório e, todavia, necessitavam do consentimento do Pai para serem mortos.

30 “Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. 31 Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais”.

O objetivo dessas duas comparações feitas por Jesus é res­saltar o grande carinho e cuidado da Providência Divina para com suas criaturas. Se passarinhos e cabelos são tratados com esse cuidado por Deus, quanto mais se preocupará Ele em proteger seus discípulos que estão sendo enviados para pregar sobre o Reino!

Não há razão para temerem as injustiças e perseguições que lhes sobrevierem, conforme exclama Jeremias, na primeira leitura: “o Senhor está ao meu lado, como forte guerreiro; por isso, os que me perseguem cairão vencidos. Por não terem tido êxito, eles se cobrirão de vergonha. Eterna infâmia, que nunca se apaga!” (20, 11).

A essa altura, a Liturgia de hoje se encerra trazendo à bai­la os dois versículos seguintes, a fim de frisar a importância e o valor absoluto do Tribunal do Pai em relação ao dos homens.

32 “Portanto, todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também Eu Me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos Céus. 33 Aquele, porém, que Me negar diante dos homens, também Eu o negarei diante do meu Pai que está nos Céus”.

São bem conclusivas estas duas promessas de Nosso Se­nhor, em face da glória futura ou do castigo. Realmente, vale a pena sofrer como São Paulo: “Muitas vezes vi a morte de per­to. Cinco vezes recebi dos judeus os quarenta açoites menos um. Três vezes fui flagelado com varas. Uma vez apedrejado. Três vezes naufraguei, uma noite e um dia passei no abismo” (II Cor 11, 23-25). Muitos outros riscos e dramas são narrados por ele nesta Epístola. Mais adiante, ele relata que “foi arreba­tado ao Paraíso e lá ouviu palavras inefáveis, que não é permiti­do a um homem repetir” (II Cor 12, 4).

III – Conclusão

Nesse panorama futuro e eterno devem estar fixados os nossos olhos, e não nas delícias fátuas e passageiras desta vida, ainda quando legítimas. Nem falemos do pecado, porque ele terá como consequência imediata a frustra­ção, e o fogo do inferno após a morte.

As dores, angústias e dramas pelos quais passamos duran­te nossa existência terrena nada são em comparação com o prê­mio dos justos, conforme garante São Paulo: “Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada” (Rm 8, 18).

Resta-nos lembrar o indispensável papel de Maria na nossa salvação. Pois assim como Jesus veio a nós por Maria, é também por meio d’Ela que obteremos as graças necessárias para sermos outros Cristos e alcançarmos a vida eterna. ²

1) Cf. VERDI, Giuseppe. Rigoletto. Act III, cena I. New York: Fred Rullman, 1952, p.26.  

2) 34ª SEMANA DO TEMPO COMUM. Hino do Ofício das Leituras. In: COMIS­SÃO EPISCOPAL DE TEXTOS LITÚRGICOS. Liturgia das Horas. Petrópolis: Ave Maria; Paulinas; Paulus; Vozes, 1999, v.IV, p.511.

3) MONSABRÉ, OP, Jacques-Marie-Louis. Le Dernier Jugement. In: Conférences de Notre-Dame de Paris. Retraites Pascales 1879-1880. 8.ed. Paris: P. Lethielleux, 1909, v.IV, p.224.

4) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía XXXIV, n.2. In: Obras. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo (1-45). 2.ed. Madrid: BAC, 2007, v.I, p.686.