Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

1 de Março

DOMINGO I DA QUARESMA – ANO A

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA Salmo 90, 15-16
Quando me invocar, hei-de atendê-lo; hei-de libertá-lo
e dar-lhe glória. Favorecê-lo-ei com longa vida
e lhe mostrarei a minha salvação.
Não se diz o Glória.

ORAÇÃO COLECTA
Concedei-nos, Deus omnipotente,
que, pela observância quaresmal,
alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo
e a nossa vida seja dele um digno testemunho.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Gen 2, 7-9; 3, 1-7
A criação e o pecado dos nossos primeiros pais

Leitura do Livro do Génesis
O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, insuflou em suas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivo. Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, a oriente, e nele colocou o homem que tinha formado. Fez nascer na terra toda a espécie de árvores, de frutos agradáveis à vista e bons para comer, entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal. Ora, a serpente era o mais astucioso de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha feito. Ela disse à mulher: «É verdade que Deus vos disse: ‘Não podeis comer o fruto de nenhuma árvore do jardim’?». A mulher respondeu: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus avisou-nos: ‘Não podeis comer dele nem tocar-lhe, senão morrereis’». A serpente replicou à mulher: «De maneira nenhuma! Não morrereis. Mas Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deuses, ficando a conhecer o bem e o mal». A mulher viu então que o fruto da árvore era bom para comer e agradável à vista, e precioso para esclarecer a inteligência. Colheu fruto da árvore e comeu; depois deu-o ao marido, que comeu juntamente com ela. Abriram-se então os seus olhos e compreenderam que estavam despidos. Por isso, entrelaçaram folhas de figueira e cingiram os rins com elas.
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 50 (51), 3-4.5-6a.12-13.14.17 (R. cf. 3a)
Refrão: Pecámos, Senhor: tende compaixão de nós. Repete-se
Ou: Tende compaixão de nós, Senhor,
porque somos pecadores. Repete-se

Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,
pela vossa grande misericórdia,
apagai os meus pecados.
Lavai-me de toda a iniquidade
e purificai-me de todas as faltas. Refrão

Porque eu reconheço os meus pecados
e tenho sempre diante de mim as minhas culpas.
Pequei contra Vós, só contra Vós,
e fiz o mal diante dos vossos olhos. Refrão

Criai em mim, ó Deus, um coração puro
e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.
Não queirais repelir-me da vossa presença
e não retireis de mim o vosso espírito de santidade. Refrão

Dai-me de novo a alegria da vossa salvação
e sustentai-me com espírito generoso.
Abri, Senhor, os meus lábios
e a minha boca cantará o vosso louvor. Refrão

LEITURA II – Forma longa Rom 5, 12-19
«Onde abundou o pecado, superabundou a graça»

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos: Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram. De facto, até à Lei, existia o pecado no mundo. Mas o pecado não é levado em conta, se não houver lei. Entretanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo para aqueles que não tinham pecado por uma transgressão à semelhança de Adão, que é figura d’Aquele que havia de vir. Mas o dom gratuito não é como a falta. Se pelo pecado de um só todos ¬¬¬pereceram, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a todos os homens. E esse dom não é como o pecado de um só: o julgamento que resultou desse único pecado levou à condenação, ao passo que o dom gratuito, que veio depois de muitas faltas, leva à justificação. Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça, reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. Porque, assim como pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação, assim também, pela obra de justiça de um só, virá para todos a justificação que dá a vida. De facto, como pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, todos se tornarão justos.
Palavra do Senhor.

LEITURA II – Forma breve Rom 5, 12.17-19
«Onde abundou o pecado, superabundou a graça»

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos: Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram. Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça, reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. Porque, assim como pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação, assim também, pela obra de justiça de um só, virá para todos a justificação que dá a vida. De facto, como pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, todos se tornarão justos.
Palavra do Senhor.

ACLAMAÇÃO ANTES DO EVANGELHO Mt 4, 4b
Refrão: Glória a Vós, Jesus Cristo, Palavra do Pai. Repete-se
Nem só de pão vive o homem,
mas de toda a palavra que sai da boca de Deus. Refrão

EVANGELHO Mt 4, 1-11
Jesus jejua durante quarenta dias e é tentado

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Diabo. Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’». Então o Diabo conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’». Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». De novo o Diabo O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares». Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’». Então o Diabo deixou-O e aproximaram-se os Anjos e serviram-n’O.
Palavra da salvação.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Caríssimos irmãos e irmãs:
Oremos por todos aqueles
que se preparam para celebrar a Páscoa,
conduzidos pela Palavra e pelo Espírito,
dizendo (ou: cantando):
R. Kýrie, eléison.
Ou: Renovai, Senhor, o vosso povo.
Ou: Senhor, tende piedade de nós.
1. Pela santa Igreja, pelos seus fiéis e catecúmenos,
para que a vitória de Jesus sobre o Maligno
lhes dê a graça de vencer as tentações,
oremos.
2. Pelos homens e mulheres de todo o mundo,
para que saibam descobrir a dignidade que Deus lhes deu,
ao criá-los à sua imagem e semelhança,
oremos.
3. Por aqueles que o Demónio tenta enganar,
para que encontrem nas palavras de Jesus
a força para escolher sempre a vontade de Deus,
oremos.
4. Pelos que não têm paz ou estão doentes,
para que os discípulos de Jesus sejam para eles
testemunhas diligentes do Evangelho,
oremos.
5. Por nós próprios e pela nossa comunidade (paroquial),
para que o caminho de conversão que iniciámos
nos conduza à vida em Cristo e à sua Páscoa,
oremos.

Senhor, nosso Deus e nosso Pai,
que nos ensinastes pela palavra de Jesus
que o homem não vive só de pão,
conduzi-nos pelo Espírito ao deserto,
para escutarmos sempre mais a sua voz.
Por Cristo, nosso Senhor

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Fazei que a nossa vida, Senhor,
corresponda à oferta das nossas mãos,
com a qual damos início à celebração
do tempo santo da Quaresma.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

PREFÁCIO As tentações do Senhor
V. O Senhor esteja convosco.
R. Ele está no meio de nós.
V. Corações ao alto.
R. O nosso coração está em Deus.
V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.
R. É nosso dever, é nossa salvação.
Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente,
é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação
dar-Vos graças, sempre e em toda a parte,
por Cristo nosso Senhor.
Jejuando durante quarenta dias,
Ele santificou a observância quaresmal
e, triunfando das insídias da antiga serpente,
ensinou-nos a vencer as tentações do pecado,
para que, celebrando dignamente o mistério pascal,
passemos um dia à Páscoa eterna.
Por isso, com os Anjos e os Santos,
proclamamos a vossa glória,
cantando numa só voz:
Santo, Santo, Santo.

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Mt 4, 4
Nem só de pão vive o homem,
mas de toda a palavra que vem da boca de Deus.

Ou Salmo 90, 4
O Senhor te cobrirá com as suas penas,
debaixo das suas asas encontrarás abrigo.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Saciados com o pão do Céu,
que alimenta a fé, confirma a esperança e fortalece a caridade,
nós Vos pedimos, Senhor:
ensinai-nos a ter fome de Cristo, o verdadeiro pão da vida,
e a alimentar-nos de toda a palavra que da vossa boca nos vem.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

Sua vitória é nossa força

Ao triunfar sobre o demônio e as tentações no deserto,
Nosso Senhor nos dá a principal garantia de que também nós, sustentados pela graça, podemos transpor incólumes todas as lutas espirituais.

I – “A vida do homem sobre a Terra é uma luta”

Os fenômenos da natureza humana, mesmo os mais co­muns, não raras vezes obedecem a leis que, ao serem analisadas com atenção, podem nos proporcionar valio­sas lições. É o que acontece quando sofremos uma fratura e so­mos obrigados, por exemplo, a manter engessado durante longo período um braço ou uma perna. No momento em que o gesso é retirado comprovamos que o membro atingido, embora antes fos­se forte e vigoroso, tornou-se flácido. A musculatura ficou atro­fiada pela imobilidade, sendo necessário submetê-la a sessões de fisioterapia para readquirir seu aspecto normal. Algo parecido se verifica com o homem que trabalhou a vida inteira e, ao se apo­sentar, opta por uma existência sedentária, permanecendo senta­do na maior parte do dia numa confortável cadeira de balanço. Tal regime o expõe, com o tempo, a alguma grave doença, pois a constituição do ser humano exige movimento, esforço e combate.

Isso tem sua reversibilidade na vida espiritual, e até com maior razão. Nossa alma precisa exercitar-se constantemente na virtude a fim de aderir ao bem com toda a força, para o que as dificuldades, sobretudo a tentação, contribuem com um im­portante estímulo, como recorda Santo Agostinho: “Nossa vida neste desterro não pode existir sem tentação, já que o nosso progresso é levado a cabo pela tentação. Ninguém se conhece a si mesmo se não é tentado; nem pode ser coroado se não ven­ce; nem vence se não peleja; nem peleja se lhe faltam inimigo e tentações”.1

A Liturgia deste 1º Domingo da Quaresma nos ensina a reconhecer a necessidade e o valor da tentação.

O Paraíso Terrestre: uma maravilha que excede a natureza humana

A primeira leitura (Gn 2, 7-9; 3, 1-7) relata como Deus, de­pois de criar o homem, o introduziu no Paraíso Terrestre onde “fez brotar da terra toda sorte de árvores de aspecto atraente e de fruto saboroso ao paladar, a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal” (Gn 2, 9). Segundo São Tomás de Aquino,2 era um lugar muito superior à natureza do homem ― moldado com a terra deste mundo e só depois levado para o Éden (cf. Gn 2, 7-8) ―, mas ao qual ele se adequava em virtude do dom sobrenatural da incorruptibilidade, infundido por Deus. Podemos supor que a natureza vegetal ali era esplendorosa, com flores, frutos e folhagens dotados de um brilho especial, e animais mais perfei­tos que os atuais.

Apesar de esta­rem cercados de ma­ravilhas, algo faltava a nossos primeiros pais: não tinham o méri­to da fidelidade face às vicissitudes e reveses, o mérito da luta. A este propósito, comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: “Até aquele momento, que luta tinha travado Adão? Nenhuma. Ele não tinha más inclinações, ele não tinha [defeitos] nativos, […] ele não tinha apetência para o mal. […] No Paraíso havia tudo, exceto um herói!”.3

Em meio ao esplendor, surge a tentação

Nessa situação de felicidade ― narra o Gênesis ―, apro­xima-se o demônio para tentá-los através da serpente, “o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha feito” (3, 1a). Ladino, ele inicia um diálogo com Eva e lhe inda­ga: “É verdade que Deus vos disse: ‘Não comereis de nenhuma das árvores do jardim?’” (Gn 3, 1b). Deturpação característica do pai da mentira, pois Deus não havia dito isto a Adão, apenas proibira de comer do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, acrescentando uma advertência: “no dia em que dele co­meres, morrerás indubitavelmente” (Gn 2, 17). Uma vez estabe­lecida a conversa, o demônio já havia alcançado metade de seu intento. Só faltava levá-los à queda.

Adão e Eva sucumbiram à tentação, mas o Evangelho des­te domingo nos ensina a opor resistência ao inimigo infernal, se­guindo as pegadas de Nosso Senhor. Por ter assumido a nature­za humana, Jesus adquiriu o direito de nos conferir seus méritos e força para enfrentar o demônio, tornando-nos também triun­fantes à medida que nos unimos a Ele. E neste episódio nos dá uma lição de como combater.

II – Nosso Senhor quis ser tentado

A tentação de Jesus se deu no início de sua vida públi­ca, logo depois de ter recebido o Batismo de São João. Estendeu-se ao longo de quarenta dias no deserto de Judá, região isolada, inóspita e habitada por feras selvagens. Se­gundo a tradição, Ele permaneceu em oração e rigoroso jejum numa elevação existente nas proximidades de Jericó, hoje cha­mada Monte da Quarentena. Encontramos uma pré-figura des­se acontecimento nas vidas de Moisés e Elias, que também se retiraram pelo mesmo período durante o desempenho de sua missão profética (cf. Ex 34, 28; I Rs 19, 5-8).

Deus permite a tentação para o nosso bem

Naquele tempo, 1 o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo.

Neste primeiro versículo, chama-nos especial atenção o fato de Nosso Senhor ter sido conduzido pelo Espírito Santo. No Batismo do Jordão Ele fora glorificado pelo Pai, cuja voz se ouviu enquanto o Paráclito descia sob a forma de uma pomba, em circunstâncias que à primeira vista diríamos muito propícias para inaugurar seu período de pregação. Ao invés disso, quis Se dirigir ao deserto. Sua atitude nos mostra que quando somos chamados a realizar alguma obra importante devemos rezar an­tes, tal como a Igreja recomenda fazer, no início de todas as ati­vidades.

Disso nos dá exemplo o Filho de Deus ao escolher o isola­mento. E não somente com vistas à contemplação, mas também para “ser tentado pelo diabo”, como deixa claro São Mateus. Por que motivo isso teria sido permitido por Deus? Ora, enquanto Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Nosso Senhor era in­capaz de sofrer a menor tentação; como Homem, todavia, quis padecê-la para vencer o demônio e quebrar seu poder. Assim, o anjo decaído seria derrotado por uma criatura humana.

Satanás, por sua vez, não tinha conhecimento de que Nosso Senhor Jesus Cristo era Deus, e apenas julgava que fos­se seu Filho, sem possuir a mesma natureza do Pai. Ignorava também o mistério da união hipostática, embora reconhecesse que Jesus estava na graça de Deus. Em suma, o maligno arras­tava uma forte insegurança a respeito da identidade de Cris­to, e daí o interesse em tentá-Lo para descobrir quem era, na realidade. Seu objetivo, porém, terminará frustrado e ele se verá obrigado a partir sem saber o que desejava, pois Nosso Senhor não lhe dará possibilidade de chegar a uma conclusão, segundo comenta São Jerônimo: “Em todas as tentações o dia­bo faz isto para saber se é Filho de Deus, mas o Senhor mede a resposta de modo a deixá-lo na dúvidaˮ.4 É evidente que Jesus jamais poderia ser logrado pela astúcia do demônio, uma vez que era seu Criador.

Quando a tentação se abate sobre nós, temos a tendência de perguntar: “Por que Deus a permite?”. Certamente para o nosso bem, caso contrário Nosso Senhor não a teria experimen­tado. Lembremo-nos de que Jesus é conduzido pelo Espírito Santo, e quem permite a tentação é o Pai, o qual dissera pouco antes: “Eis meu Filho muito amado em quem ponho minha afei­ção” (Mt 3, 17). Se o Pai manifesta sua complacência pelo Filho e, em seguida, consente em sua ida para o deserto, por que não quererá que nós, que recebemos a vida divina por meio d’Ele, sigamos o mesmo caminho?

De fato, o Pai quis que tivéssemos um paradigma, Cristo Jesus, e, ao passarmos por tentações, agíssemos em confor­midade com Ele. Não podemos tomar a provação como um desastre ou um sinal de decadência na vida espiritual, pois se assim fosse deveríamos concluir que Nosso Senhor havia pas­sado por uma crise espiritual nesse episódio, o que é absurdo e até blasfemo. Muito pelo contrário, deitemos especial empe­nho em analisar o procedimento de Jesus, tendo presente que o relato das tentações é tão só uma síntese do que na realidade aconteceu. Vários Santos mostraram-se favoráveis à hipótese de que Ele tivesse sido provado inúmeras vezes e de todos os modos, no decorrer dos quarenta dias, como já tivemos opor­tunidade de comentar.5

O demônio se aproveita das fraquezas humanas

2 Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, teve fome.

O recolhimento de Nosso Senhor no deserto atinge seu auge ao cabo de quarenta dias, e é esse o momento escolhido por satanás para tentá-Lo de forma particular, o que novamen­te encerra um ensinamento, pois muitas vezes as piores prova­ções se abatem sobre nós nas melhores fases da vida espiritual. Quando começamos a dar passos firmes nas vias da virtude, o demônio costuma intensificar as tentações, visando impedir a nossa santificação. Este versículo mostra ainda como Jesus pa­decia as contingências físicas próprias à natureza humana, das quais o demônio tirou proveito para pô-Lo à prova. Depois de enfrentar longos dias sem comer nem beber, só uma sustentação sobrenatural O mantinha vivo. Ele estava exangue, consumindo suas últimas energias, e o tentador, por sua vez, encontrava-se à espreita para agir. Tal é o artifício que conosco emprega satanás: ele se aproveita das debilidades humanas. No nosso caso, de ma­neira diversa ao que se passava com Nosso Senhor, sofremos as fraquezas decorrentes do pecado, como a concupiscência, a in­clinação para o mal e as paixões desregradas. Se consentimos nas propostas do espírito das trevas, ele alcança o objetivo dese­jado ao nos tentar, fazendo-nos morrer para a vida sobrenatural.

A tentação tem seu início na sensibilidade

3 Então, o tentador aproximou-se e disse a Jesus: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães!”

O demônio, conforme vimos, não sabia ao certo se Jesus Cristo era o Messias. É provável que possuísse uma vaga noção a respeito disso, por ter-lhe sido revelado quando era um Anjo de luz no Céu, mas, ainda neste caso, nem todo o plano divino sobre a Encarnação chegou a ser de seu conhecimento. Recor­demo-nos de que São Paulo afirmou ter sido chamado a ensinar verdades ignoradas inclusive pelo mundo angélico (cf. Ef 3, 10).

Dado o impasse no qual estava, o tentador decidiu inves­tir contra o Homem-Deus, tanto para descobrir quem Ele era quanto para induzi-Lo a cair no apego à matéria. Como no Pa­raíso, deu início à conversa usando um método muito velhaco, de acordo com a necessidade da ocasião e os elementos existentes no local. Observam os exegetas que o deserto onde Nosso Se­nhor Se encontrava tinha pedras de aspecto muito aprazível, com formato arredondado e cor dourada, parecido ao dos deliciosos pães ázimos consumidos naquele tempo no Oriente.6 Portan­to, em certo sentido, semelhantes ao fruto proibido do Paraíso, que era “atraente para os olhos e desejável” (Gn 3, 6), dando a ideia, sobretudo para quem tinha poder para isso, de serem transformáveis em pão. Bastaria um ato de sua vontade e Jesus as converteria num magnífico alimento saído do forno de sua pa­lavra criadora, suficiente para Lhe saciar a fome. Ele, que ainda multiplicaria pães e peixes, transmutaria a água em vinho e ope­raria outros milagres sobre a comida, estava em condições favo­ráveis de transformar aquelas pedras. E satanás O estimula, em sua humanidade, para que use de suas capacidades sobrenaturais.

Eis a tática empregada pelo anjo das trevas na hora da ten­tação: começa por excitar a sensibilidade. Ao agir assim, atinge grande número de almas, sobretudo fomentando o interesse pelos bens materiais. Estes, e em especial o dinheiro, são simbolizados pela pedra e pelo pão, e constituem o maior empecilho para a san­tificação dos que põem sua esperança nos valores deste mundo.

O demônio mente ao fazer esta proposta a Nosso Senhor, pois promete a vida ― comer, naquela circunstância, era uma questão de subsistência ―, mas é à morte que quer conduzi-Lo, ao sugerir que use seu poder divino para satisfazer uma mera necessidade humana. Na verdade, Ele tinha direito de operar o milagre, mas o demônio não o sabia. Esta passagem nos confir­ma como satanás nunca promove a vida nem produz união, pois só se empenha em levar as almas ao pecado e, após lograr a que­da de muitas delas, visa o aniquilamento da sociedade.

Uma vez lançado o desafio, iria Nosso Senhor dialogar com o tentador?

Com o diabo não se conversa

4 Mas Jesus respondeu: “Está escrito: ‘Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus’”.

Tomando uma atitude radical, Ele cortou a conversa com o demônio. Como podemos comprovar nesta e nas tentações se­guintes, suas respostas são taxativas, dadas com a nítida intenção de encerrar o colóquio. Além disso, o argumento utilizado por Jesus baseia-se na autoridade da Escritura, contra a qual não há recurso. Ao evocar as palavras do Deuteronômio, “não só de pão vive o homem” (8, 3), Ele como que afirmava: “Não só de pão, mas também de pão”. Reconhece a neces­sidade do alimento e até do dinheiro, porém, ensina que devem ser utilizados com a primeira atenção posta em Deus. Seu divino exemplo é de desprendimento das coisas concretas.

Outra lição que daí decorre diz respeito ao modo de proceder de Jesus em face de uma necessidade pessoal. Aqui­lo que o demônio queria que realizasse em proveito próprio, ao converter as pedras em pão, Ele o faz depois, em favor de terceiros, nas Bodas de Caná, ao converter a água em vinho (cf. Jo 2, 1-11), e multiplicando pães e peixes ao longo da vida pública (cf. Mt 14, 15-21; Mc 6, 30-44; Lc 9, 10-17; Jo 6, 1-13). Sua conduta é perfeita, pois precisamos dar aos outros aquilo que o maligno sugere que obtenhamos para nós mesmos, e fa­zer-lhes o bem que gostaríamos de receber.

Movido por sua característica pertinácia, o anjo mau não desiste e faz nova proposta.

A quimera de uma religião sem cruz

5 Então o diabo levou Jesus à Cidade Santa, colocou-O sobre a parte mais alta do Templo, 6 e Lhe disse: “Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo! Porque está escrito: ‘Deus dará ordens aos seus Anjos a teu respeito, e eles Te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’”. 7 Jesus lhe respondeu: “Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus!’”

Discutem os autores se o demônio foi caminhando com o Divino Mestre até a parte mais alta do Templo ou se usou de suas faculdades angélicas para conduzi-Lo até lá.7 Grande parte deles sustenta que O levou pelos ares, para dar-Lhe a sensação de que tinha muito poder. Insensatez, pois o tentador não sabia que Jesus Cristo, enquanto Segunda Pessoa da Santíssima Trin­dade, o criara e lhe outorgara a capacidade de realizar este pro­dígio. “Levava Cristo como se Ele estivesse obrigado, sem dar-se conta de que ia voluntariamente”.8 No alto do Templo o diálogo continua, e como Nosso Senhor silenciou satanás na primeira tentação valendo-Se da Escritura, ele agora contra-ataca, com inteligência, utilizando a mesma arma. Seu argumento consiste em alegar a proteção que Deus Lhe daria se Ele Se lançasse do pináculo do edifício sagrado. Não obstante, “as falsas flechas do diabo, tiradas das Escrituras, são quebradas por Cristo com os escudos verdadeiros das próprias Escrituras”.9

Nesta tentação o demônio propunha uma caricatura da Religião verdadeira, excluindo o papel da dor, do sacrifício e do caminho autêntico para a santidade. Uma religião baseada no fa­buloso, no portento e no prodígio, porque, do principal local de culto de Israel desceria de forma fulgurante o Messias, muito di­ferente do varão crucificado que Nosso Senhor estava destinado a ser, por amor à humanidade pecadora. A resposta admite dois sentidos, para confundir o diabo e dar a conversa, mais uma vez, por concluída: “Não me tentes porque Eu sou Deus” ou “Eu não posso fazer isto, porque seria tentar a Deus”. Nós, porém, pode­mos interpretá-la como um ensinamento a respeito da resignação que deve caracterizar o nosso relacionamento com Jesus. É lícito pedirmos milagres e até manifestações grandiosas, mas cientes de que se não formos atendidos a nossa fé tem de permanecer intacta.

O príncipe das trevas sempre tira o que promete

8 Novamente, o diabo levou Jesus para um monte muito alto. Mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e sua glória, 9 e Lhe disse: “Eu Te darei tudo isso, se Te ajoelhares diante de mim, para me adorar”. 10 Jesus lhe disse: “Vai-te embora, satanás, porque está escrito: ‘Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a Ele prestarás culto’”. 11 Então o diabo O deixou. E os Anjos se aproximaram e serviram a Jesus.

Apesar de ter sido vencido duas vezes, o demônio deseja chegar ao último ponto: ser adorado por Nosso Senhor, o que suporia uma negação do culto a Deus. Para isto ele oferece o do­mínio temporal que ― sempre cobiçado ao longo da História ― levou muitos homens a seguir os ídolos, abandonando o verda­deiro Deus. No entanto, com uma resposta que não prima pela diplomacia, Jesus, em primeiro lugar, expulsa o príncipe das tre­vas e, depois, ainda sublinha que apenas ao Senhor — ou seja, a Ele mesmo — é devido o culto que o maldito pretendia desviar para si.

Grande é o contraste entre Adão e Nosso Senhor Jesus Cristo. O primeiro deu ouvidos à recomendação da serpente, transmitida por Eva, e comeu o fruto, perdendo aquilo que o de­mônio prometera: “sereis como Deus” (Gn 3, 5). Pois com o pe­cado a vida divina se extinguiu em sua alma, enquanto se tivesse correspondido ao mandado do Senhor receberia um acréscimo de felicidade, manteria o estado de graça e teria feito notável progresso na vida espiritual. Portanto, aquilo que o tentador fin­gia querer dar foi justamente o que lhe roubou. A Nosso Senhor ele ofereceu o serviço dos Anjos e todos os tesouros da Terra, coisas que era incapaz de conceder, mas que foram entregues a Jesus-Homem junto com a realeza sobre toda a humanidade e sobre a ordem da criação, por ter vencido satanás e ter abraça­do os tormentos do Calvário. Eis um princípio que deve nortear constantemente a nossa vida, até a hora da morte: nunca pode­mos dialogar com o demônio, criatura maldita que sempre tira aquilo que promete. Devemos encerrar qualquer conversa com ele logo no início, com o apoio da Palavra de Deus, à imitação de Nosso Senhor Jesus Cristo.

III – O valor das tentações

Na segunda leitura (Rm 5, 12.17-19), São Paulo sintetiza o ensinamento da Liturgia deste 1º Domingo da Qua­resma: se “o pecado entrou no mundo por um só ho­mem […], pela obediência de um só, toda a humanidade passará para uma situação de justiça” (Rm 5, 12.19). Sua afirmação dei­xa patente como toda graça, força e poder foram franqueados ao gênero humano pela fidelidade de Cristo, modelo supremo no combate às tentações.

Existem doentes com uma espécie de complexo causado por verem pessoas saudáveis, a quem muitas vezes gostariam de transmitir suas enfermidades para aliviar o instinto de sociabili­dade ferido, por se sentirem diferentes ou inferiores. Assim tam­bém age satanás. Ao cair no inferno, por ter-se revoltado contra Deus, passou a detestar os que batalham para obter a salvação, por serem seus inimigos e adoradores de quem ele odeia. Então, quer o demônio a nossa perdição e permanece à espreita, an­dando em derredor, “como o leão que ruge, buscando a quem devorar” (I Pd 5, 8), pronto para nos empurrar precipício abaixo e nos lançar na mesma infelicidade eterna na qual ele se jogou.

A tentação é um benefício

Deus lhe permite tentar-nos, com vistas ao nosso benefí­cio, para nos dar oportunidade de adquirir força, experiência e sagacidade na luta contra ele, e, derrotado este, outorgar-nos o prêmio de não ter cedido. Mas se tivermos a desgraça de sucum­bir, não nos esqueçamos do Salmo Responsorial (cf. Sl 50, 3a), que diz: “Piedade, ó Senhor, tende piedade, pois pecamos con­tra Vós”. Estas palavras do rei Davi, o perfeito arrependido, recordam como, desde que reconheçamos nosso pecado com verdadeira contrição e desejo de nunca recair na falta cometida, nossas culpas serão apagadas. Quando nos apegamos a Nosso Senhor e à misericórdia de Nossa Senhora, recebemos o consolo de sermos perdoados.

Foi o que aconteceu a Adão e Eva. À medida que foram comprovando as consequências da falta cometida, deram-se conta de que não valera a pena ter comido o fruto proibido e, sem dúvida, choraram seu crime. Quantas vezes algo semelhante se passa conosco quando, depois de ter percorrido um bom tre­cho da vida, olhamos para trás e verificamos que o pecado não compensou. Nessas horas a lembrança de nossas quedas servirá para ilustrar e fortalecer as atitudes do presente, ajudando-nos a tomar decisões bem firmes e acertadas.

As tentações nos obtêm, sobretudo, méritos para a eterni­dade. Tanto o santo quanto o pecador são tentados, e às vezes o primeiro mais que o segundo, a julgar pelo modo atroz com que satanás investiu contra Nosso Senhor. A grande diferença entre ambos é que um recusa as solicitações e o outro se rende. Logo, ser tentado não é um desastre, pelo contrário, pode ser até um bom sinal. De nossa parte é preciso não consentir e, para isso, apoiemo-nos no auxílio divino, pois seria uma insensatez conce­bermos nossas qualidades como o fator essencial na luta contra o demônio, o mundo e a carne.

A nossa força está na graça

Diante da tentação, devemos crer na força de Nosso Se­nhor Jesus Cristo e não nas nossas. No deserto, o diabo quis convencê-Lo do quanto Ele era poderoso, capaz e apto a estar no centro dos acontecimentos, e faz o mesmo conosco incitan­do-nos, pelo orgulho, a esquecer a graça e a vida interior, im­prescindíveis para resistir. Daí a necessidade absoluta de nos aproximarmos dos Sacramentos com a maior frequência possí­vel, de “orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo” (Lc 18, 1); de recorrermos à mediação de Nossa Senhora e à intercessão dos Santos; de termos, enfim, ao longo de todo o dia, a nossa pri­meira atenção posta no sobrenatural, como São Paulo: “A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e Se entregou por mim” (Gal 2, 20). Assim obteremos forças para enfrentar todos os problemas, pois quem é negligen­te em sua vida interior perde o principal instrumento de comba­te. O Apóstolo, confiante na ajuda divina, não se sentia intimi­dado por nenhuma adversidade: “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? Realmente, está escrito: ‘Por amor de Ti somos entregues à morte o dia inteiro; somos trata­dos como gado destinado ao matadouro’. Mas, em todas essas coisas, somos mais que vencedores pela virtude d’Aquele que nos amou. Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os Anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem outra qualquer criatura nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, Nosso Senhor” (Rm 8, 35-39).

Se uma criança recém-batizada tem mais poder do que todos os infernos reunidos, os que possuem a vida divina nada devem temer! Quando o inimigo nos assalta, unamo-nos ainda mais a Nosso Senhor Jesus Cristo, animados pela lição deste iní­cio de Quaresma: para vencer todas as tentações é indispensável contar com a graça divina.

 

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1) SANTO AGOSTINHO. Enarratio in psalmum LX, n.3. In: Obras. Madrid: BAC, 1965, v.XX, p.519.

2) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.102, a.4.  

3) CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Palestra. São Paulo, 21 set. 1985.

4) SÃO JERÔNIMO. Comentario a Mateo. L.I (1,1-10, 42), c.4, n.2. In: Obras Com­pletas. Comentario a Mateo y otros escritos. Madrid: BAC, 2002, v.II, p.39.

5) Cf. CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. Convertei-vos e crede no Evangelho. In: Arautos do Evangelho. São Paulo. N.122 (Fev., 2012); p.10-17; Os benefícios das tentações. In: Arautos do Evangelho. São Paulo. N.62 (Fev., 2007); p.10-17; Comen­tário ao Evangelho do I Domingo da Quaresma – Anos B e C, nos Volumes III e V desta coleção, respectivamente.

6) Cf. WILLAM, Franz Michel. A vida de Jesus no país e no povo de Israel. Petrópolis: Vozes, 1939, p.85.  

7) Cf. MALDONADO, SJ, Juan de. Comentarios a los Cuatro Evangelios. Evangelio de San Mateo. Madrid: BAC, 1950, v.I, p.213-214.

8) AUTOR INCERTO. Opus imperfectum in Matthæum. Homilia V, c.4, n.5: MG 56, 665.

9) SÃO JERÔNIMO, op. cit., p.41.