Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

26 de Setembro

DOMINGO XXVI DO TEMPO COMUM – ANO B

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA Dan 3, 31.29.30.43.42
Vós sois justo, Senhor, em tudo o que fizestes.
Pecámos contra Vós, não observámos
os vossos mandamentos.
Mas para glória do vosso nome,
mostrai-nos a vossa infinita misericórdia.

ORAÇÃO COLECTA
Senhor, que dais a maior prova do vosso poder
quando perdoais e Vos compadeceis,
derramai sobre nós a vossa graça,
para que, correndo prontamente para os bens prometidos,
nos tornemos um dia participantes da felicidade celeste.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Num 11, 25-29
«Estás com ciúmes por causa de mim?
Quem dera que todo o povo fosse profeta!»

Leitura do Livro dos Números
Naqueles dias, o Senhor desceu na nuvem e falou com Moisés. Tirou uma parte do Espírito que estava nele e fê-lo poisar sobre setenta anciãos do povo. Logo que o Espírito poisou sobre eles, começaram a profetizar; mas não continuaram a fazê-lo. Tinham ficado no acampamento dois homens: um deles chamava-se Eldad e o outro Medad. O Espírito poisou também sobre eles, pois contavam-se entre os inscritos, embora não tivessem comparecido na tenda; e começaram a profetizar no acampamento. Um jovem correu a dizê-lo a Moisés: «Eldad e Medad estão a profetizar no acampamento». Então Josué, filho de Nun, que estava ao serviço de Moisés desde a juventude, tomou a palavra e disse: «Moisés, meu senhor, proíbe-os». Moisés, porém, respondeu-lhe: «Estás com ciúmes por causa de mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles!».
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 18 (19), 8.10.12-13.14 (R. 9a)
Refrão: Os preceitos do Senhor alegram o coração. Repete-se

A lei do Senhor é perfeita,
ela reconforta a alma.
As ordens do Senhor são firmes,
dão a sabedoria aos simples. Refrão

O temor do Senhor é puro
e permanece eternamente;
os juízos do Senhor são verdadeiros,
todos eles são rectos. Refrão

Embora o vosso servo se deixe guiar por eles
e os observe com cuidado,
quem pode, entretanto, reconhecer os seus erros?
Purificai-me dos que me são ocultos. Refrão

Preservai também do orgulho o vosso servo,
para que não tenha poder algum sobre mim:
então serei irrepreensível
e imune de culpa grave. Refrão

LEITURA II Tg 5, 1-6
«As vossas riquezas estão apodrecidas»

Leitura da Epístola de São Tiago
Agora, vós, ó ricos, chorai e lamentai-vos, por causa das desgraças que vão cair sobre vós. As vossas riquezas estão apodrecidas e as vossas vestes estão comidas pela traça. O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se, e a sua ferrugem vai dar testemunho contra vós e devorar a vossa carne como fogo. Acumulastes tesouros no fim dos tempos. Privastes do salário os trabalhadores que ceifaram as vossas terras. O seu salário clama; e os brados dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do Universo. Levastes na terra uma vida regalada e libertina, cevastes os vossos corações para o dia da matança. Condenastes e matastes o justo e ele não vos resiste.
Palavra do Senhor.

ALELUIA cf. Jo 17, 17b.a
Refrão: Aleluia. Repete-se
A vossa palavra, Senhor, é a verdade;
santificai-nos na verdade. Refrão

EVANGELHO Mc 9, 38-43.45.47-48
«Quem não é contra nós é por nós.
Se a tua mão é para ti ocasião de escândalo, corta-a»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. Marcos
Naquele tempo, João disse a Jesus: «Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco». Jesus respondeu: «Não o proibais; porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós. Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa. Se alguém escandalizar algum destes pequeninos que crêem em Mim, melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós movidas por um jumento e o lançassem ao mar. Se a tua mão é para ti ocasião de escândalo, corta-a; porque é melhor entrar mutilado na vida do que ter as duas mãos e ir para a Geena, para esse fogo que não se apaga. E se o teu pé é para ti ocasião de escândalo, corta-o; porque é melhor entrar coxo na vida do que ter os dois pés e ser lançado na Geena. E se um dos teus olhos é para ti ocasião de escândalo, deita-o fora; porque é melhor entrar no reino de Deus só com um dos olhos do que ter os dois olhos e ser lançado na Geena, onde o verme não morre e o fogo nunca se apaga».
Palavra da salvação.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Irmãs e irmãos em Cristo: Atentos aos apelos de Deus Pai e movidos pela acção do Espírito Santo, oremos pela Igreja, pelos homens e pelo mundo, pedindo (ou: cantando), com toda a confiança:

R. Ouvi-nos, Senhor.

Ou: Pela vossa misericórdia, salvai-nos, Senhor.

Ou: Senhor, nosso refúgio, ouvi-nos.

1. Pela Diocese de N., suas paróquias e fiéis, pelos seus pastores e comunidades religiosas e por aqueles que não professam a mesma fé, oremos.

2. Pelos homens que são conduzidos pelo Espírito, pelos que fecham o coração aos seus apelos e pelos que têm inveja dos dons alheios, oremos.

3. Por aqueles que no dinheiro têm o seu deus, pelos trabalhadores privados de salário e pelos que morrem por não terem que comer, oremos.

4. Pelos que se julgam depositários da verdade, pelos que se deixam escravizar pelas paixões e pelas crianças escandalizadas pelos adultos, oremos.

5. Pelos professores e alunos de todas as escolas, pelos que vão entrar no último ano de estudos e pelos que já terminaram, mas estão desempregados, oremos.

6. Pelos que, entre nós, são imagem de Jesus, pelos que rejeitam a intolerância e a vaidade e pelos que procuram ser fiéis ao Evangelho, oremos.

Senhor, nosso Deus, dai a cada homem um coração que se deixe conduzir pelo Espírito, e que acolha, com alegria, a Boa Nova anunciada pelo vosso Filho. Ele que vive e reina por todos os séculos dos séculos

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Deus de misericórdia infinita, aceitai esta nossa oblação
e fazei que por ela se abra para nós
a fonte de todas as bênçãos.
Por Nosso Senhor.

ANTÍFONA DA COMUNHÃO cf. Salmo 118, 9-5
Senhor, lembrai-Vos da palavra que destes ao vosso servo.
A consolação da minha amargura
é a esperança na vossa promessa.

Ou 1 Jo 3, 16
Nisto conhecemos o amor de Deus: Ele deu a vida por nós;
também nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Fazei, Senhor, que este sacramento celeste
renove a nossa alma e o nosso corpo,
para que, unidos a Cristo neste memorial da sua morte,
possamos tomar parte na sua herança gloriosa.
Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

Ai de quem escandalizar!

O Divino Mestre nos mostra como não se pode fazer a mínima
concessão ao mal, pois para conquistar o Céu é preciso ser íntegro
na prática do bem.

I – O homem, imagem do Supremo Rei e Celeste Pintor

O magnífico Museu do Prado, em Madrid, re­cebe todos os dias milhares de visitantes que per­correm suas extensas galerias, desejosos de admirar o incom­parável acervo de obras-primas dos maiores artistas da História.

Há muitos anos, um ho­mem que lá entrara despercebi­do em meio à multidão foi re­tirado pouco depois, algemado, por policiais. Seja por desequi­líbrio mental, seja por maldade, em certo momento de descuido dos funcionários do museu, ele jogou um líquido negro sobre o famoso retrato equestre do im­perador Carlos V, pintado por Tiziano. O crime chocou a opinião pública. Por um gesto estúpi­do, ficara seriamente danificado o célebre quadro.

Ora, se grave é estragar uma obra artística deste quilate, quem leva outros a pecar faz muito pior: estraga não uma valio­sa pintura, mas uma alma, espiritual e imortal, da qual é expulsa a luz da graça. E a imagem assim conspurcada não representa um monarca desta Terra, senão o Supremo Rei e Celeste Pintor, autor de todos os predicados destruídos pelo pecado.

Sobre as sérias consequências de cada ato humano nos ad­vertirá o Divino Redentor neste Evangelho do 26º Domingo do Tempo Comum.

II – A preocupação pelos bens sobrenaturais

O trecho do Evangelho considerado nesta Liturgia é an­tecedido por uma admoestação de Nosso Senhor aos Apóstolos, sobre o orgulho. Sabendo o Mestre, por seu conhecimento divino, que a caminho para Cafarnaum estiveram discutindo sobre qual deles era o maior, ensinou-lhes, pelo con­trário, a cada um se considerar inferior aos outros: “Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos” (Mc 9, 35). Para isto, é indispensável ter sempre presente o qua­dro das misérias pessoais e evitar as comparações com os demais.

Logo a seguir, São Marcos narra o episódio recolhido na Liturgia deste domingo, no qual o Apóstolo João demonstra não ter compreendido muito bem este ensinamento de Jesus, pois manifestará, como veremos, ciúmes dos dons sobrenaturais per­cebidos em outros.

Para retificar esta visualização equivocada, Nosso Senhor dará três lições: a primeira, sobre o despropósito dos menciona­dos ciúmes; a segunda, a respeito da gravidade de escandalizar os pequenos; e, por último, sobre o escândalo em relação à pró­pria consciência.

Ciúmes sobrenaturais…

Naquele tempo, 38 João disse a Jesus: “Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue”.

São João e São Tiago eram chamados “Filhos do Trovão” (Mc 3, 17), “devido à firmeza e grandeza de sua fé”,1 segundo indica São Jerônimo, bem como pelo seu tempera­mento colérico. Lembremos que, em certo momento, eles quiseram fazer descer fogo do céu sobre uma cidade da Sa­maria (cf. Lc 9, 52-54)… Mais tarde, ambos mudaram tanto, pela ação do Espírito Santo, que o próprio São João, em sua Primeira Epístola, se di­rige a seus discípulos com o apelativo de “filhinhos”. Eis um exemplo do incalculável poder de transformação da graça.

Neste episódio aqui con­templado, porém, ele ainda considerava o círculo íntimo do Mestre detentor do mo­nopólio da virtude, do minis­tério e da capacidade de fazer o bem, com exclusão de todo o resto. É uma ideia de grupo fechado muito comum na mentalidade farisaica. Daí os ciúmes ao ver alguém que “não nos segue” operar fenômenos sobrena­turais em nome de Jesus.

Os Apóstolos eram muito tendentes a analisar todas as coisas, mesmo as sobrenaturais, fora de uma perspectiva eterna. Quando assim se procede, logo se manifesta a miséria humana através de ciúmes, invejas e dificuldade em aceitar os ensina­mentos do superior.

O poder da mediação

39 Jesus disse: “Não o proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de Mim. 40 Quem não é contra nós é a nosso favor”.

Contrariamente à inadequada visualização dos Apóstolos, ensina Nosso Senhor estar aberta a todo aquele que o queira a possibilidade de fazer o bem, sem ser isto privilégio de ninguém: “Quem não é contra nós é a nosso favor”.

Semelhante atitude, aliás, tomara Moisés quan­do o avisaram de que dois homens no acampamento estavam profetizando e Jo­sué pediu para lhes dar or­dem de se calarem, como registra a primeira leitura (Nm 11, 25-29) deste do­mingo: “Tens ciúmes por mim? Quem dera que to­do o povo do Senhor fosse profeta, e que o Senhor lhe concedesse o seu espírito!” (Nm 11, 29), foi a inspirada resposta do profeta, ante­cedendo-se ao ensinamen­to do Divino Mestre.

De qualquer maneira, era indispensável o recurso ao nome de Jesus para o tal homem fazer exorcismos. A fim de deixar este prin­cípio de intercessão bem claro, Nosso Senhor vai explicar que quem deseja agir de forma eficaz e ser bem suce­dido, precisa da mediação daquele mais próximo de Deus, por meio do qual recebeu sua missão. Deste modo, as obras reali­zadas em função de tal mediador, cujo nome se invoca mani­festando reconhecimento, são abençoadas pela Providência com frutos abundantes.

No caso apresentado por João, nota-se que aquele ho­mem, embora não tivesse a vocação de ser Apóstolo, fora cha­mado a propagar o nome de Jesus. Comenta, a este propósito, Maldonado: “Cristo quer que sua doutrina seja confirmada por milagres, não só dos Apóstolos, mas também de quaisquer ou­tros discípulos”.2

E, assim como São Paulo se alegrará pelo fato de alguns, mesmo por inveja e rivalidade com ele, começarem a falar de Nosso Senhor (cf. Fl 1, 17-18), neste caso concreto, o Salvador sabia perfeitamente que obrava de boa-fé o homem denunciado por São João. “Bastava-lhe seguir a doutrina evangélica, mesmo sem fazer parte de seu grupo; por isso não devia ser considerado um adversário”.3 E Santo Agostinho afirma: “Cristo permitiu­-lhe continuar, pois ele com isso divulgava o seu nome, o que era útil para muitos”.4 No fundo, fora o próprio Jesus quem, com sua graça, o havia estimulado a agir assim.

Ora, Nosso Senhor afirma implicitamente, em sentido contrário, que quando alguém faz uso de um poder recebido do alto sem estar unido à fonte deste poder, suas obras serão infru­tíferas. Pior ainda, elas acarretarão toda espécie de desastres e, ao invés de expulsar os demônios, os atrairão.

Querer fazer milagres sem usar o nome de Jesus equivale a falar mal d’Ele. Era um modo de ensinar aos seus discípulos que a apropriação dos dons sobrenaturais leva à retração das graças di­vinas e à negação do Autor destes dons, e de mostrar-lhes o quan­to a Providência é ciosa das mediações por Ela estabelecidas.

Nosso Senhor recompensa quem auxilia seus discípulos

41 “Em verdade Eu vos digo: quem vos der a beber um copo de água, porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa”.

São Mateus situa esta promessa em outra ocasião: ao en­viar os Apóstolos a pregar pela primeira vez, Jesus promete re­compensar quem os acolher bem (cf. Mt 10, 42).

Não obstante, estas palavras do Divino Redentor podem ser entendidas também no seguinte sentido: ao vermos alguém agindo sob a ação de uma graça ou praticando um ato virtuoso, se nos encantamos e procuramos estimulá-lo, esta atitude não ficará sem prêmio. Em sentido inverso, provocamos o desagra­do de Deus quando deixamos de assim proceder.

III – O escândalo dos inocentes e da própria consciência

Na perícope selecionada para o Evangelho deste domin­go, as seguintes palavras de Nosso Senhor parecem mudar de forma abrupta o tema. No entanto, se reler­mos os versículos anteriores, constataremos que Ele apenas re­toma o assunto antes discutido, ou seja, a necessidade de se ter a humildade e a simplicidade da criança. E a intervenção de São João, sim, fora extemporânea, desviando deste tema.

Consideremos, pois, que Jesus acabara de dizer: “Em verdade vos declaro: se não vos transformar­des e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18, 3). Acrescentando: “Todo o que recebe um destes meninos em meu nome, a Mim é que recebe; e todo o que recebe a Mim, não Me recebe, mas Aquele que Me enviou” (Mc 9, 37).

42 “E, se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço”.

Tendo tratado da recom­pensa à boa acolhida dada a um pequenino, analisa agora o opos­to: o castigo para quem desedifi­car ou prejudicar um inocente.

Ao falar em pequeninos, Nosso Senhor não está Se refe­rindo apenas às crianças, mas a todos quantos não têm forças suficientes para se manter por si mesmos na prática da virtude, precisando para isso do apoio de outros, em especial no tocante ao seu instinto de sociabilidade.

É merecedor deste auxílio, sobretudo, quem conserva a sua inocência batismal. Este tem a alma constantemente aberta ao sobrenatural, pois, como explica São João Crisóstomo, “o meni­no está limpo de inveja, de van­glória e da ambição de ocupar os primeiros postos. Ele possui a maior das virtudes: a simplicida­de, a sinceridade, a humildade”.5

Muito Se compraz Deus com esta retidão de alma pró­pria ao inocente. Por isso, quem induz ao pecado “um destes pequeninos” causa-Lhe um tal repúdio, que se torna réu des­ta terrível condenação: era preferível ser lançado ao mar! Jesus utiliza esta severa imagem por ser inteiramente familiar aos seus ouvintes, conforme comenta São Jerônimo: “Fala segundo o costume da região, porque esta foi entre os antigos judeus a pe­na para os maiores crimes: lançar na água o criminoso, com uma pedra atada ao pescoço”.6

Nos lábios de um outro, esta afirmação poderia pare­cer exagerada, mas quem a faz é o Filho de Deus! E São João Crisóstomo assinala um detalhe: para quem escandalizar uma criança, disse Cristo, “melhor seria” ser atirado ao mar com uma pedra amarrada ao pescoço, ou seja, “dá a entender com isto que o espera um castigo mais grave do que este”.7

Pela indignação de Nosso Senhor diante do escândalo, bem se pode medir o estreito vínculo d’Ele com os inocentes!

Gravidade do pecado de escândalo

O escândalo, segundo São Tomás,8 consiste em pronunciar palavras ou realizar ações próprias a expor alguém à ruína espi­ritual, na medida em que elas o arrastam ao pecado. Significa dar más sugestões, conselhos ou exemplos que chocam aquele a quem deveríamos, pelo contrário, edificar, fazendo com que suas forças espirituais depereçam.

Trata-se de um pecado gravíssimo e cheio de malícia, que prejudica tanto quem o recebe quanto quem o comete. Ao pri­meiro, porque a falta cometida em decorrência do escândalo furta-lhe a vida da graça de Deus na alma. Ao segundo, por fa­zer o mesmo papel do demônio — perder almas —, acrescido do gosto em arruinar a inocência alheia. Neste sentido pode-se afirmar que é um pecado satânico.

Com a agravante, ainda, de ser muito difícil reparar um escândalo: pois, uma vez cometido, não basta a Confissão, é necessária a reparação. É fácil tomar um copo d’água e jogá­-lo ao chão; mas será o mesmo recolher o líquido depois? E a partir de um escândalo moral os pecados podem se multiplicar, avolumar-se como uma bola de neve, perpetuando-se em su­cessivas faltas decorrentes umas das outras. Como reparar to­das elas? Portanto, ai dos escandalosos!…

O mundo hoje está pervadido, encharcado e transbordan­te de escândalos por todos os cantos. São escândalos nas modas, nas conversas, nos modos de ser; são escândalos na televisão, na internet, nos cinemas; são escândalos nos jornais, nas revistas, no relacionamento social. Onde não há escândalo e a inocência não vai sendo tragada pela voragem da impureza e da desones­tidade? Qual será, pois, a reação de Nosso Senhor a esta avalan­che de pecados de dimensões inauditas?

Prejuízo da própria consciência

43 “Se tua mão te leva a pecar, corta-a! É melhor entrar na vida sem uma das mãos, do que, tendo as duas, ir para o inferno, para o fogo que nunca se apaga. 45 Se teu pé te leva a pecar, corta-o! É melhor entrar na vida sem um dos pés, do que, tendo os dois, ser jogado no inferno. 47a Se teu olho te leva a pecar, arranca-o!”

A grandes males, radicais medidas!

Se Cristo condenou o escândalo dado ao próximo, nestes versículos fustigará o prejuízo da própria consciência quando não evitamos o pecado. Se grave é atentar contra a obra de Deus na alma de outrem, não será menos condenável fazer o mesmo com a própria alma, pois a caridade começa consigo.

As recomendações de Nosso Senhor — cortar a mão, cor­tar o pé, arrancar o olho — devem ser entendidas literalmente? Responde São João Crisóstomo, Doutor da Igreja: “Em tudo isto não se refere o Senhor, nem de longe, aos membros do cor­po”.9

É preciso amar acima de tudo a Deus e ter, por conseguin­te, verdadeiro ódio ao pecado. Isso supõe romper, com radicali­dade, com tudo quanto a ele conduz. No Horto das Oliveiras, Je­sus aconselhou: “Vigiai e orai para que não entreis em tentação” (Mt 26, 41). Não basta apenas rezar; é necessário vigiar, ou seja, afastar-se das circunstâncias nas quais se costuma pecar.

Como podemos obter forças para vencer o vício?

Se a pessoa cedeu várias vezes em alguma tentação e de­bilitou-se nesse ponto, a única solução é se afastar para sempre de tal ocasião de modo categórico. Para vencer, por exemplo, o vício da embriaguez, torna-se indispensável abster-se de todo resquício de álcool, pois, por qualquer deslize, se pode recair.

De igual forma, devemos cortar irremissivelmente tudo quanto constitui para nós ocasião próxima de pecado, como faríamos se um membro doente comprometesse gravemente a saúde de todo o organismo. Poderá ser uma má amizade, pois “nada há de mais pernicioso que uma má companhia. Aquilo que não se consegue pela violência, se obtém muitas vezes por meio da amizade, tanto para o bem quanto para o mal”.10 Mas poderá ser também um mau livro, um vídeo inconveniente ou, tantas vezes, o acesso à internet que leva a pecar.

Ora, ao mesmo tempo que aconselha a fuga das ocasiões próximas, tendo presente a fraqueza humana, Nosso Senhor ad­verte, apontando a consequência do pecado: a condenação eter­na no inferno, “onde o verme deles não morre e o fogo não se apaga”. Esta radicalidade na virtude pressupõe termos os olhos postos na eternidade e sempre presente a máxima da Escritura: “Em todas as tuas obras lembra-te dos teus Novíssimos, e nunca jamais pecarás” (Eclo 7, 40).

O local onde o “fogo não se apaga”

47b “É melhor entrar no Reino de Deus com um olho só, do que, tendo os dois, ser jogado no inferno, 48 ‘onde o verme deles não morre, e o fogo não se apaga’”.

Hoje, muitos ousam negar a existência do inferno. Seria tão cômodo para a consciência se tal fosse verdade… Todavia, os Evangelhos transcrevem quin­ze referências de Nosso Senhor ao inferno. Ele existe, sem dúvida, e a respeito de seus tormentos o Divi­no Redentor nos fornece aqui uma noção fundamental: a existên­cia de um verme roedor que não morre.

Como acontece com o fogo, numerosas são as interpretações dos autores sobre o significado deste “verme”, abrangendo tanto o sentido literal quanto o simbó­lico. Mas estes diversos comentá­rios não se excluem, pois a terrível realidade do inferno, por certo, supera toda imaginação!

Interessa salientar aqui, con­tudo, a identificação do “verme” com o remorso da consciência que jamais abandona o condenado. Pois um dos piores tormentos para ele é saber que violou os Manda­mentos de Deus e o castigo é ir­remediável; que perdeu o prêmio eterno por tão pouco: uma ilusão fugaz, um prazer momentâneo… Em contraposição, o justo gozará da perfeita felicidade, da superior alegria proporcionada pela paz de consciência.

A fim de não cairmos nesta região de tormentos, lembre­mo-nos do versículo do Salmo Responsorial que suplica: “pre­servai o vosso servo do orgulho: que não domine sobre mim!” (Sl 18, 14). No inferno — não nos iludamos —, são mais nume­rosos os condenados por causa do orgulho do que por outros pecados. Não há praticamente pecado algum que não tenha raiz neste defeito. O orgulho é a fonte de todo pecado!

IV – A obrigação do bom exemplo

A conclusão do Evangelho de hoje nos leva a compreen­der que assim como não podemos causar escândalo — sobretudo aos pequenos —, em sentido contrário, temos a obrigação de edificar o próximo. E como reparação pe­los inúmeros escândalos que observamos, devemos viver dando bom exemplo a todos, praticando o esforço de fazer tudo aquilo que possa nos tornar modelos de santidade para os que conosco convivem. Porque são os exemplos que arrastam e motivam a trilhar o mesmo caminho. Não é por outra razão que a Igreja nos apresenta a vida dos santos como modelo para seguirmos.

A cada momento, todo homem está influenciando o seu próximo ou recebendo a influência dele. Está sendo para ele ora pastor, ora ovelha; ora mestre, ora discípulo; continuamente dando e recebendo algo. É o princípio da Comunhão dos Santos, por onde cada ato nosso repercute no Corpo Místico da Igreja. Neste sentido, nada em nossa vida é neutro: tudo pesa para bem ou para mal!

O que me impede de praticar a virtude?

Diante de uma Liturgia que nos exorta a rejeitar tudo quan­to pode nos afastar de Deus e nos estimula a enlevar o próximo, não é descabido propor um pequeno exame de consciência.

O que me impede de praticar com integridade a virtude? Que apegos materiais me impelem a tomar em consideração muito mais as coisas humanas do que as divinas? O que me leva a fechar-me sobre mim e, portanto, a não passar na prova desta vida, cujo desfecho será o prêmio ou o castigo eterno? Há algo que me arrasta ao pecado com frequência ou revela em mim de­feitos de alma, como caprichos, comparações, invejas, impureza ou o apego ao dinheiro? O que devo cortar para salvar-me?

E depois de nos analisarmos, preci­samos pedir a graça de ter a coragem de agir com presteza, porque sem o auxílio de Deus não é possível praticar os Mandamentos de forma estável, menos ainda com perfeição.

Em Nossa Senhora encontraremos a força para mudarmos

Na Liturgia hoje comentada, não é men­cionada Nossa Senhora. Entretanto, é a Ela que devemos dirigir o nos­so olhar, porque, como afirma São Bernardo no Memorare, Ela jamais abandona quem recorre à sua maternal proteção.

Deste modo, cien­tes de nossa miséria, voltemo-nos para Maria Santíssima, pedindo: “Ó Mãe, tende mise­ricórdia de nós! Ob­tende-nos a graça de ter no coração a ale­gria de praticar a Lei de Deus na sua inte­gridade”.

E como Deus deseja a nossa plena santificação, estejamos certos de sermos atendidos com superabundância!

 

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1) SÃO JERÔNIMO. Comentario a Mateo. L.I (1,1-10,42), c.10, n.23. In: Obras Completas. Comentario a Mateo y otros escritos. Madrid: BAC, 2002, v.II, p.107.

2) MALDONADO, SJ, Juan de. Comentarios a los Cuatro Evangelios. Evangelios de San Marcos y San Lucas. Madrid: BAC, 1951, v.II, p.156-157.

3) Idem, p.155.

4) SANTO AGOSTINHO. Epistola CLXXXVII. C.XII, n.36. In: Obras. 2.ed. Ma­drid: BAC, 1953, v.XI, p.733.

5) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía LVIII, n.2. In: Obras. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo (46-90). 2.ed. Madrid: BAC, 2007, v.II, p.222-223.

6) SÃO JERÔNIMO. Comentario a Mateo. L.III (16,13-22,40), c.18, n.43. In: Obras Completas. Comentario a Mateo y otros escritos, op. cit., p.243; 245.

7) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, op. cit., n.3, p.225.

8) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.43, a.1.

9) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía LIX, n.4. In: Obras. Homilías sobre el Evan­gelio de San Mateo (46-90), op. cit., p.244.

10) Idem, ibidem.