Arautos em Portugal

Arautos do Evangelho – Associação Internacional de Direito Pontifício

Liturgia

19 de Janeiro

DOMINGO II DO TEMPO COMUM – ANO A

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA Salmo 65, 4
Toda a terra Vos adore, Senhor,
e entoe hinos ao vosso nome, ó Altíssimo.

ORAÇÃO COLECTA
Deus eterno e omnipotente,
que governais o céu e a terra,
escutai misericordiosamente as súplicas do vosso povo
e concedei a paz aos nossos dias.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Is 49, 3.5-6
«Farei de ti a luz das nações, para que sejas a minha salvação»

Leitura do Livro de Isaías
Disse-me o Senhor: «Tu és o meu servo, Israel, por quem manifestarei a minha glória». E agora o Senhor falou-me, Ele que me formou desde o seio materno, para fazer de mim o seu servo, a fim de Lhe reconduzir Jacob e reunir Israel junto d’Ele. Eu tenho merecimento aos olhos do Senhor e Deus é a minha força. Ele disse-me então: «Não basta que sejas meu servo, para restaurares as tribos de Jacob e reconduzires os sobreviventes de Israel. Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra».
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 39 (40), 2 e 4ab.7-8a.8b-9.10-11ab (R. 8a e 9a)
Refrão: Eu venho, Senhor,
para fazer a vossa vontade. Repete-se

Esperei no Senhor com toda a confiança
e Ele atendeu-me.
Pôs em meus lábios um cântico novo,
um hino de louvor ao nosso Deus. Refrão

Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações,
mas abristes-me os ouvidos;
não pedistes holocaustos nem expiações,
então clamei: «Aqui estou». Refrão

«De mim está escrito no livro da Lei
que faça a vossa vontade.
Assim o quero, ó meu Deus,
a vossa lei está no meu coração». Refrão

Proclamei a justiça na grande assembleia,
não fechei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.
Não escondi a vossa justiça no fundo do coração,
proclamei a vossa fidelidade e salvação. Refrão

LEITURA II 1 Cor l, 1-3
«A graça e a paz de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo
estejam convosco»

Início da primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios
Irmãos: Paulo, por vontade de Deus escolhido para Apóstolo de Cristo Jesus e o irmão Sóstenes, à Igreja de Deus que está em Corinto, aos que foram santificados em Cristo Jesus, chamados à santidade, com todos os que invocam, em qualquer lugar, o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso: A graça e a paz de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo estejam convosco.
Palavra do Senhor.

ALELUIA Jo 1, 14a.12a
Refrão: Aleluia. Repete-se
O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós.
Àqueles que O receberam
deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. Refrão

EVANGELHO Jo 1, 29-34
«Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo, João Baptista viu Jesus, que vinha ao seu encontro, e exclamou: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. É d’Ele que eu dizia: ‘Depois de mim vem um homem, que passou à minha frente, porque era antes de mim’. Eu não O conhecia, mas foi para Ele Se manifestar a Israel que eu vim baptizar na água». João deu mais este testemunho: «Eu vi o Espírito Santo descer do Céu como uma pomba e permanecer sobre Ele. Eu não O conhecia, mas quem me enviou na baptizar na água é que me disse: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e permanecer é que baptiza no Espírito Santo’. Ora, eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus».
Palavra da salvação.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Irmãs e irmãos em Cristo:
Oremos a Deus Pai todo-poderoso,
que nos enviou o seu muito amado Filho
e nos dá a graça de participar nestes santos mistérios,
e peçamos (ou: e cantemos), com fé:
R. Ouvi-nos, Senhor.
Ou: Concedei-nos, Senhor, a vossa graça.
Ou: Ouvi, Senhor, a nossa súplica.
1. Para que o Papa N., os bispos a ele unidos e os presbíteros
dêem testemunho, por palavras e por obras,
da santidade a que Deus os chama dia após dia,
oremos.
2. Para que os fiéis e catecúmenos do mundo inteiro
acreditem em Jesus, o Cordeiro de Deus
que tira o pecado do mundo,
oremos.
3. Para que os governantes sejam homens de paz,
e os povos possam viver tranquilos
e progredir no bem-estar, na justiça e na liberdade,
oremos.
4. Para que os homens e mulheres do nosso tempo
descubram em Cristo a luz das nações
e edifiquem um mundo mais justo e mais fraterno,
oremos.
5. Para que esta assembleia e a nossa Paróquia
perseverem na fé e na piedade,
e os seus membros cresçam no respeito mútuo,
oremos.

Deus todo-poderoso e eterno,
que por vosso Filho Jesus Cristo
fizestes chegar a salvação até aos confins da terra,
olhai com bondade o povo que Vos suplica
e conduzi-o à glória do vosso reino.
Por Cristo Senhor nosso

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Concedei-nos, Senhor,
a graça de participar dignamente nestes mistérios,
pois todas as vezes que celebramos o memorial deste sacrifício
realiza-se a obra da nossa redenção.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Salmo 22, 5
Para mim preparais a mesa
e o meu cálice transborda.

Ou 1 Jo 4, 16

Nós conhecemos e acreditámos
no amor de Deus para connosco.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Infundi em nós, Senhor, o espírito da vossa caridade,
para que vivam unidos num só coração e numa só alma
aqueles que saciastes com o mesmo pão do Céu.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

O Precursor e a restituição

Ao ver Jesus vir a ele no Jordão, João era já pregador de grande prestígio, profeta como nunca houvera em Israel. Entretanto, longe de sentir inveja, o Batista reagiu com heroica humildade e ilimitada servidão, testemunhando ser aquele Homem
o Filho de Deus.

I – Um dos mais belos encontros da História

“O semelhante se alegra com seu semelhante”, diz um antigo provérbio latino, e de fato é esse um princípio intrínseco a todos os seres com vida, na medida em que sejam passíveis de felicidade. Deus nos criou e fez uns de­penderem dos outros, aperfeiçoando-nos com o mais entranha­do dos instintos, o de sociabilidade. Se para um pássaro constitui motivo de gáudio o encontrar-se com outro da mesma espécie, para nós, esse fenômeno é mais intenso. Ora, se grande é o júbi­lo de duas crianças afins ao se encontrarem pela primeira vez no colégio, qual não terá sido a reação dos dois maiores homens de todos os tempos, ao se contemplarem face a face?

Assim se realizou um dos mais belos encontros da Histó­ria, João Batista diante de Jesus; para melhor compreendê-lo, analisemos as analogias entre um e outro.

Traços de semelhança entre Jesus e João

Apesar de serem duas pessoas infinitamente distantes en­tre si pela natureza — João é mero homem, Jesus é a Segunda Pessoa da Trindade Santíssima —, numerosos traços de seme­lhança os unem.

Jesus é o Alfa e o Ômega da História. João é o começo do Evangelho e o fim da Antiga Lei.1 Isto o afir­ma o próprio Nosso Senhor: “Porque os profetas e a Lei ti­veram a palavra até João” (Mt 11, 13).

Segundo Tertuliano, João Batista é “uma espécie de limite entre o antigo e o novo, em quem termina o Judaísmo e começa o Cristianismo”.2 Dele tam­bém afirma Jesus: “Em verdade vos digo: entre os filhos das mulheres, não surgiu outro maior que João Batista” (Mt 11, 11).

Além do mais, a concepção de ambos, de Jesus e de João, é precedida pelo anúncio do mesmo embaixador, São Gabriel Arcanjo (cf. Lc 1, 11-19.26-35). As mensagens não diferem mui­to, em seus termos, uma da outra. Os nomes de Jesus e de João foram designados por Deus (cf. Lc 1, 13.31).

No próprio ato de anunciar o nascimento, o mensagei­ro celeste profetiza também o futuro tanto do Precursor (cf. Lc 1, 14-17) quanto do Messias (cf. Lc 1, 32-33).

O perfil do Precursor

Sobre Jesus, se fôssemos analisar as grandezas de suas qualidades e de suas obras, “nem o mundo inteiro poderia con­ter os livros que se deveriam escrever” (Jo 21, 25).

No Batista, tudo é sui generis, a começar pela profecia de sua vinda, proferida por Isaías e Malaquias: “Uma voz exclama: ‘Abri no deserto um caminho para o Senhor, traçai reta na este­pe uma pista para nosso Deus’” (Is 40, 3); “Vou mandar o meu mensageiro para preparar o meu caminho” (Ml 3, 1).

Mais impressionante ainda é a sua santificação no seio ma­terno, operada pela Santíssima Virgem: “Pois assim que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio” (Lc 1, 44).

A grandeza de sua missão é profetizada pelo próprio pai: “E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque pre­cederás o Senhor e Lhe prepararás o caminho, para dar ao seu povo conhecer a salvação” (Lc 1, 76-77).

A rudeza da forma de vida escolhida pelo Batista lhe con­fere uma aura de austeridade ímpar: “O menino foi crescendo e fortificava-se em espírito, e viveu nos desertos até o dia em que se apresentou diante de Israel” (Lc 1, 80); “João andava vestido de pelo de camelo […], e alimentava­-se de gafanhotos e mel silvestre” (Mc 1, 6).

Ao principiar suas pregações, foi acolhido pe­la opinião pública da épo­ca com enorme prestígio, pois, já ao seu nascimento, o “temor apoderou-se de todos os seus vizinhos; o fato divulgou-se por todas as montanhas da Judeia. Todos os que o ouviam conservavam-no no cora­ção, dizendo: ‘Que será este menino?’ Porque a mão do Senhor estava com ele” (Lc 1, 65-66). Logo de início, João atraiu multidões: “E saíam para ir ter com ele toda a Judeia, toda Jerusalém” (Mc 1, 5), “porque todos julgavam ser João deveras um profeta” (Mc 11, 32).

Os soldados, os publicanos e as multidões lhe perguntavam “Que devemos fazer?” (Lc 3, 10). O próprio Herodes, querendo matá-lo, “temia, porém, o povo que considerava João um profe­ta” (Mt 14, 5). Essa grande fama se estendeu até após sua morte, “porque todo o mundo considera João como profeta” (Mt 21, 26).

As repercussões sobre sua figura, palavras e obras ecoa­ram entre os vales e os montes da Terra Prometida, a ponto de o povo chegar a pensar que “talvez João fosse o Cristo” (Lc 3, 15).

Pois bem, fixemos em nossa lembrança essa gloriosa pro­jeção alcançada em vida por São João Batista e abramos um pa­rênteses para considerar a principal de suas virtudes: a da res­tituição, a qual consiste essencialmente em atribuir a Deus os dons d’Ele recebidos.

II – Inveja e ambição, vícios universais

A ambição é uma paixão tão universal quanto o é a vida humana. Quase se poderia dizer que ela se instala na alma antes mesmo do uso da razão, sendo discernível com facilidade no modo de a criança agarrar seu brinquedo ou na ânsia de ser protegida. Ao tomar consciência de si e das coi­sas, os impulsos primeiros de seu ser convidá-la-ão a chamar a atenção sobre sua pessoa e, se ela cede, ter-se-á iniciado o pro­cesso da ambição. O desejo de ser conhecida e estimada é a pri­meira paixão que macula a inocência batismal. Quantos de nós não nos lançamos nos abismos da ambição, da inveja e da cobiça já nos primeiros anos de nossa infância? Essas provavelmente foram as raízes dos ressentimentos que tenhamos tido a propósi­to da glória dos outros. Sim, pelo fato de desejarmos a estima de todos, por nos crermos no direito à glória e ao louvor dos nossos circunstantes, constitui para nós uma ofensa o sucesso dos ou­tros. Por isso São Tomás define a inveja como sendo a tristeza sentida porque “o bem do outro é considerado um mal pessoal na medida em que diminui nossa glória e nossa excelência”.3

Há paixões que se mantêm letárgicas até a adolescência, e assim não o é a inveja; ela se manifesta já na infância e acompa­nha o homem até a hora de sua morte. Não será difícil aos pais observar os sinais desse vício em seus pequenos. Irmãos ou ir­mãs, entre si, não poucas vezes terão problemas por se imagina­rem eclipsados pelas qualidades ou privilégios de seus mais pró­ximos. Quantas vezes não acontece de ser necessário separar-se irmãos, ou irmãs, na tentativa de corrigir essas rivalidades que podem chegar a extremos inimagináveis, tal qual se deu entre os primeiros filhos de Eva, Caim e Abel?

A ambição e a inveja são mais universais do que parecem à primeira vista; poucos se veem livres de suas garras. Elas se levan­tam e tomam corpo em relação aos que nos são mais próximos, como afirma São Tomás: “a inveja se refere à glória do outro enquan­to esta diminui a glória que se deseja. Em consequência, alguém inveja somente os que quer igualar ou ultra­passar em glória. Ora, isso não é possível com aqueles que estão mui­to distantes; ninguém, com efeito, a não ser que seja insensato, pro­cura igualar ou ultrapas­sar em glória aqueles que são muito superiores”.4

Desta forma, ao sábio será mais difícil invejar o ge­neral, e vice-versa, ou uma médica a uma costureira; mas dentro da mesma profissão, quanto mais relacionadas fo­rem as pessoas entre si, mais intensa se manifestará essa paixão.

Em consequência, poder-se-ia dizer que jamais se excitaria esse mau pendor nas almas dos contemporâneos de Jesus face às suas qualidades, pois a diferença entre Ele e qualquer pessoa deste mundo é simplesmente infinita. De fato, esse seria o nor­mal relacionamento dos outros com o Redentor, se seu nasci­mento e vida fossem refulgentes de poder e de glória. Contudo, Ele veio ao mundo numa Gruta em Belém, foi envolto em panos e depositado na manjedou­ra sobre palha, viveu em Nazaré exercendo a profissão de carpinteiro para auxiliar seu pai.

Assim, só mesmo um forte olhar de fé poderia discernir nesse Menino uma Pessoa de Deus. E essas aparências contrárias à sua divindade chegaram a ser tão extremas que Jesus conferiu o título de bem-aventurado a quem não se envergonhasse de se­gui-Lo (cf. Mt 11, 6). Se Ele tivesse manifestado todo o fulgor da infinita distância existente entre a natureza divina de sua Pessoa e a nossa humana, não haveria quase mérito na restituição dos bens que d’Ele recebemos.

É justamente em função das primeiras palavras pronun­ciadas por Maria em seu cântico de ação de graças, ouvidas com alegria por João Batista no seio materno, que toma brilho a mais alta virtude do Precursor: “A minha alma glorifica o Se­nhor; e o meu espírito exulta de alegria em Deus meu Salvador porque olhou para a humildade de sua serva” (Lc 1, 46-48). Es­sa foi a formação recebida pelo menino-profeta ao longo dos meses durante os quais Maria viveu em casa de Isabel: humil­dade e servidão. Como teria sido de um valor inestimável se os pontífices e fariseus do Sinédrio houvessem sido educados na mesma escola de João! Certamente não se teriam reunido de­pois da ressurreição de Lázaro para decretar a morte de Jesus (cf. Jo 11, 47-53).

III – São João Batista e a virtude da restituição

Aproximemo-nos de João nas margens do rio Jordão e analisemos seu prestígio de pregador. Profeta como igual nunca houve em Israel, fundador e chefe de uma escola, todo o povo o procura. Entretanto, seu renome está con­denado a uma lenta morte, sua instituição deverá dissolver-se paulatinamente, sobre a glória de sua obra far-se-á um grande eclipse, pois um valor mais alto se aproxima. Esse era o momen­to do ressentimento, da ambição ferida e talvez até da inveja. Muito pelo contrário, a reação de João foi de heroica humildade e ilimitada servidão, como encontramos narrado no Evangelho de hoje.

Naquele tempo: 29a João viu Jesus aproximar-Se dele…

Da mesma maneira que Maria foi à sua prima Santa Isa­bel, é Jesus quem Se dirige a João, e agora pela segunda vez. O Discípulo Amado não nos relata o Batismo de Jesus como o faz Mateus (cf. 3, 13-17) e, segundo São João Crisóstomo,5 Jesus volta a encontrar-Se com o Batista para desfazer o equívoco de que, na primeira vez, Ele tivesse ido procurá-lo tal qual o faziam todos, ou seja, para confessar seus pecados ou para obter a puri­ficação destes pelas águas do Jordão.

29b …e disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”.

Assim como hoje nossa fé se robustece em méritos ao contemplar uma Hóstia consagrada e crer na Presença Real de Jesus Eucarístico, também naqueles dias era indispensável, para benefício de todos, o Redentor apresentar-Se sob os véus de nossa natureza. Jesus, desde o nascimento até essa ocasião, era um Homem comum e corrente em todas as suas aparências. Tornava-se necessário ir descerrando pouco a pouco esses véus, a fim de introduzir o povo na verdadeira perspectiva pela qual fosse possível prestar-Lhe um culto de latria. Excelente meio es­colheu o Salvador: suscitou um varão que havia comovido toda Israel por sua figura constituída de mistério, profetismo e santi­dade, saído de dentro de uma vida feita de ascese e penitência, o Precursor.

Era chegado o momento de os judeus ouvirem, de lábios dignos da máxima credibilidade, a proclamação da grandeza do Messias ali presente. A preparação dos corações estava con­cluída, o caminho do Senhor já se encontrava endireitado, a voz ecoara pelo deserto, o Filho de Deus precisava ser conhecido e, para tal, era indispensável muita clareza na comunicação: “Eis o Cordeiro de Deus”.

O conhecimento de Deus é bem diferente do nosso. Vive­mos no tempo, e a cronologia é fundamental em nosso processo intelectivo. Para Deus tudo é presente e, ao criar, fez Ele depen­der uns seres de outros. No pináculo da criação, colocou Cristo como Causa, Modelo, Regente e Guia, e, tendo em vista o peca­do e o Redentor, criou o cordeiro para simbolizar este grandioso aspecto de seu Unigênito Encarnado, o de vítima expiatória, nu­ma clara referência ao cordeiro pascal (cf. Ex 12, 3-6) ou, quiçá, ao duplo sacrifício diário oferecido no Templo (cf. Ex 29, 38), ou como comenta Orígenes: “porque Ele, tomando sobre Si nossas aflições e tirando os pecados de todo o mundo, recebeu a morte como batismo”.6

O cordeiro é um animal pacífico e pacificador. Solto no pasto ou posto na baia, ele tranquiliza os corcéis fogosos, evitan­do-lhes ferimentos inúteis.

A afirmação de João é feita no presente do indicativo — “que tira” — para indicar a perpetuidade do ato redentor.

30 “D’Ele é que eu disse: ‘Depois de mim vem um Homem que passou à minha frente, porque existia antes de mim’”.

É patente tratar-se aqui de um Homem de corpo e alma. Embora tenha nascido depois do Batista, este último confessa publicamente não só que Jesus lhe é superior, mas também que já existia antes dele. E é real, pois, enquanto Verbo de Deus, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Ele é eterno. Assim, neste versículo, o Precursor proclama a humanidade unida à divindade, numa só Pessoa. É a revelação do mistério da En­carnação.

31 “Também eu não O conhecia, mas se eu vim batizar com água, foi para que Ele fosse manifestado a Israel”.

João quis evitar o equívoco da parte do povo, o qual po­deria julgar serem suas afirmações sobre Jesus feitas com base no parentesco existente entre ambos. E, na verdade, o Batista se retirara ao deserto ainda menino e não estivera com Ele an­tes. Portanto, suas declarações eram fruto de um discernimento fundamentalmente profético, como também é profética sua mis­são, pois torna claro o objetivo de seu batismo: o reconhecimen­to do Messias, da parte do povo.

32 E João deu testemunho, dizendo: “Eu vi o Espírito descer, como uma pomba do Céu, e permanecer sobre Ele”.

O mistério da Santíssima Trindade não havia sido revelado até então; no entanto, de dentro da teologia como é hoje conhe­cida, torna-se patente a presença das três Pessoas nessa procla­mação de João Batista.

A pomba é inocente por sua natureza e, ao contrário das aves de rapina, não se alimenta de carnes mortas, mas sim de sementes da terra. Gemem quando estão enamoradas. Eis um belo símbolo do Espírito Santo, a Inocência que nos instrui, ilu­mina e santifica com gemidos inefáveis dentro de nós.

33 “Também eu não O conhecia, mas Aquele que me enviou a batizar com água me disse: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer, este é quem batiza com o Espírito Santo’”.

Reafirma São João Batista não ter antes conhecido Jesus. Compreende-se sua insistência a esse respeito, pois os laços fa­miliares eram vigorosos naqueles tempos e havia o risco de in­terpretarem as palavras do Precursor por um prisma meramente humano.

Era indispensável fixar a atenção de todos na origem di­vina de suas proclamações, daí a referência Àquele que o havia mandado batizar.

34 “Eu vi e dou testemunho: ‘Este é o Filho de Deus!’”

Sim, Jesus é o Unigênito do Pai. Enquanto os outros to­dos — inclusive a Santíssima Virgem — somos filhos adotivos, Jesus é gerado e não criado, desde toda a eternidade. João já havia declarado ser o Messias o Cordeiro de Deus, que batiza­ria no Espírito Santo. Porém, esta é a primeira vez que declara tratar-se especificamente do Filho de Deus.

IV – Conclusão: castigo da ambição e da inveja

O castigo de Deus à ambição e à inveja se faz presente não só na eter­nidade, como também nesta vida. Quem se deixa arrastar por esses vícios perde a noção do verdadeiro re­pouso e passa a viver todo o tempo na preocupação, na inquietude e na ansiedade. Sempre estará atormen­tado pelo pavor de ficar à margem, de ser esquecido, igualado ou supe­rado. Sua existência será um inferno antecipado e essas paixões se cons­tituirão em seus próprios carrascos.

Pelo contrário, quanta feli­cidade, paz e doçura têm as almas que são despretensiosas, reconhe­cedoras dos bens e das qualidades alheias, restituidoras a Deus dos dons por Ele concedidos.

Entremos na escola de Ma­ria, e d’Ela aprendamos a resti­tuir a Deus nosso ser, nossa famí­lia e todos os nossos haveres. Ela nos ensinará a glorificar ao Senhor por ter contemplado o nosso nada e, como resultado, nosso espírito exultará de alegria (cf. Lc 1, 47), a exemplo de seu primeiro discípulo, São João Batista.

 

_________________________

 

1) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.38, a.1, ad 2.

2) TERTULIANO. Adversus Marcionem. L.IV, c.33: ML 2, 441.  

3) SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., II-II, q.36, a.1.

4) Idem, ad 2.  

5) Cf. SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Au­rea. In Ioannem, c.I, v.29-31.

6) ORÍGENES, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea, op. cit.